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4. A informação globalizada
“Agora
se pode, de alguma forma, falar numa vontade de unificação
absoluta alicerçada na tirania do dinheiro e da informação
produzindo em toda parte situações nas quais tudo, isto é,
coisas, homens, idéias, comportamentos, relações, lugares, é
atingido.”
Milton
Santos – Por uma outra globalização.
A
informação ganha uma função destacada na sociedade
globalizada, para SANTOS (p.50) a circulação de informação está
sendo gerida de forma manipulada e há uma violência da informação.
A mídia é parte dos grandes conglomerados de negócios, ela é a
criadora dos mitos e dos símbolos, que são a base da globalização.
Efeito CNN. A globalização revela as diferenças escondidas e a
mídia reforça com todo o seu poder esta impressão.
Tudo
funciona de acordo com as regras do mercado. Os grandes
conglomerados não satisfeitos em controlar os demais ramos da
economia, dominam também a comunicação, a circulação da
informação. Reforçando a ideologia da globalização e de seus
produtos.
Uma
parte da propaganda trabalha com a idéia da eliminação da
esperança de mudança, induzindo ao consumismo. Um sexto do PIB
americano é dedicado ao marketing para a manipulação e o
controle de sua população.
5. A política no mercado
“Há
uma relação carnal entre o mundo da produção da notícia e o
mundo da produção das coisas e das normas. A publicidade tem,
hoje, uma penetração muito grande em todas as atividades, como
na profissão médica, ou na educação. Hoje, propaga-se tudo, e
a política é, em grande parte, subordinada às suas regras.”
(SANTOS. P 40)
A
globalização através de sua doutrina econômica, o
neoliberalismo profetiza: “o mercado é bom e interferências do
Estado são ruins”.(MARTIN. P17). É um capitalismo que impõe a
sua visão, a mesma receita a qualquer país, não se importando
com suas diferenças. Neste aspecto lembramos as palavras de
Florestan Fernandes:
“A
globalização, para o Brasil, tem um sentido ultranegativo.
Extensa parte de nossas classes dominantes experimentarão as
agruras das velhas burguesias compradoras. O ‘neoliberalismo’
difunde mitos inferiores aos do ‘um mundo só’ e da ‘aliança
para o progresso’. Pregam-se, por isso, fórmulas insensatas
como o ‘Consenso de Washington’.” (Florestan Fernandes in
“Globalização e o neoliberalismo” Folha de S. Paulo,
26/11/1994)
Para SANTOS a globalização, pela exigência que cria de
obediência cega às finalidades das empresas –que pensam em si
somente e cegos para todo o seu redor-, que passam a agir numa área
do país, recria a figura do servo da gleba na medida em que, por
exemplo, as agriculturas modernas de um Estado como São Paulo são,
na sua dinâmica e no seu funcionamento, mandadas por essa coisa
que ninguém sabe o que é, essa mula-sem-cabeça a que chamam de
mercado global, porque ninguém nunca viu isso, nunca ninguém lhe
deu bom-dia. Santos denuncia o egoísmo das empresas, exacerbado
no mundo globalitário, “no qual a competitividade se torna não
apenas a norma, mas uma exigência de sobrevivência”, e a nova
“ética de resultados” que ameaça as antigas formas de
compaixão. Milton
Santos compartilha com a visão que não existe o mercado global,
que isto é uma balela, portanto, um mito.
6. O mito do território único
“A
globalização não é um processo isento de contradições. Seus
impactos e perspectivas são diferenciados, e as alternativas
abertas a cada país dependem, exatamente, das opções feitas
pelas suas forças sociais e políticas internas e coordenadas por
seus estados nacionais.”
Para
SANTOS, “a humanidade desterritorializada é apenas um mito” e
que este não é um imperativo da globalização. Diferente das
antigas brigas por territórios, os novos “desbravadores” usam
ternos, não usam fardas — exceto em situações de conflitos
tipo Afeganistão ou Líbano — e pregam do evangelho do
livre-mercado.
O
que de fato a globalização vem realizando é a violação das
culturas locais e de
suas diversidades, difundindo um saber único, na escola, na
leitura, no entreterimento e nos mais variados costumes (alimentação,
moda etc). É neste aspecto que a globalização tem sido mais
perversa e violadora. “o território é hoje um território
nacional da economia internacional” (SANTOS p.74)
Pelo fato de o território ser o objeto de trabalho do geógrafo
Milton Santos é que permitiu ao cientista ver o território como
um campo de forças. “Hoje, sob influência do dinheiro global,
o conteúdo do território escapa a toda regulação interna,
objeto que ele é de uma permanente instabilidade, da qual os
diversos agentes apenas constituem testemunhas passivas”
(p.101). Para Milton Santos os espaços globais só existem como
espaços da globalização.
“A globalização revaloriza os lugares e os lugares
– de acordo com o que podem oferecer às empresas –
pontencializa a globalização na forma em que está aí,
privilegiando a competitividade. Entre o território tal como ele
é e a globalização tal como ela é cria-se uma relação de
causalidade em benefício dos setores mais poderosos, dando ao
espaço geográfico um papel inédito na dinâmica social” 3
Não
existe, portanto, o espaço global, senão apenas como espaço de
globalização. O que existe é a fragmentação do território.
7. Consumismo no mundo globalizado
“Do
ponto de vista social, a globalização tem sido cada vez menos
inclusiva, homogeneizadora ou convergente. Pelo contrário, do
ponto de vista social, a globalização tem sido parceira inseparável
de um aumento gigantesco da polarização entre países e classes
do ponto de vista da distribuição da riqueza, da renda e do
emprego.” (Os moedeiros falsos.
P.
235. José Luis Fiori, 2 ed.
Ed.
Vozes)
MARTIN
& SCHUMANN pregam algumas estratégias para parar a marcha
para a sociedade 20 por 80, enfatizado na diminuição do poder
político que acabou embutido no mercado financeiro e a criação
de uma taxa (taxa Tobin) que abriria fontes de receita necessárias
para que os países que não conseguem acompanhar o ritmo da
globalização.
Milton
Santos crê que o consumismo e a competitividade “levam ao
emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da
personalidade e da visão do mundo, convidando, também, a
esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a
figura do cidadão” (SANTOS p.49). O geógrafo crê na contradição
entre a produção do consumidor (indivíduo fraco) e do cidadão
(indivíduo forte), uma contradição difícil de ser superada. Os
símbolos se consomem rapidamente, mas a vida permanece e em
seguida novos símbolos são erguidos e consumidos, pergunto: como
vencer este eterno ciclo?
Milton
Santos vê um despotismo do consumo onde há mais espaço para o
consumidor do que para o cidadão.
A cidadania no Brasil é geralmente mutilada, em entrevista
4 Milton
Santos afirma “todas as pessoas querem consumir, incluindo os
pobres, o que é um lado também da esquizofrenia”
8.
Uma outra globalização é possível?
Enquanto
as elites se confinam e segregam (MARTIN & SCHUMANN. P 41),
nas Alphavilles do mundo, as massas de excluídos aumentam numa
velocidade incontrolável. As alternativas propostas pelos autores
alemães para evitar a bomba relógio montada pelo neoliberalismo
é a volta da democracia e a restauração do papel da economia, a
valorização do trabalho humano.
MARTIN (p.43) discute as idéias
do professor da Harvard, Samuel Huntington, um festejado e
controvertido intelectual americano, que no artigo “O Choque das
Civilizações” sustenta a tese que no futuro os conflitos entre
as civilizações serão determinadas por razões religiosa e
culturais e não mais por razões sociais ou motivos políticos.
Huntington sustenta que os Estados Unidos adota uma estratégia de
três pontos: democracia e os direitos humanos nos moldes e estilo
americano; controle da imigração e fluxo livre da mão-de-obra e
o uso de armas nucleares apenas para os Estados Unidos. Mas será
possível que pessoas com as mesmas identidades culturais tendem a
se unirem contra as identidades culturais diferentes em busca da
preservação de seus valores e combatendo a cultura padronizada?
Apesar de não serem tão otimistas —talvez a história alemã
seja a responsável por este comportamento mais cético — os
jornalistas criticam quem não realiza nenhum esforço para mudar
os rumos da globalização e condenam aqueles que crê no
Apocalipse inevitável e no fim do mundo: “Parece cômodo
esperar o fim do mundo. No entanto, isso não resolverá todos os
conflitos. A humanidade ainda precisa sobreviver por muito tempo e
o fará. A questão é apenas como — e qual a porcentagem de famílias
que viverá bem ou ficará à míngua, inclusive nos atuais países
industrializados.” (MARTIN p.53)
Dirigindo-se
principalmente aos cidadãos dos países europeus, os jornalistas
alemães colocam a seguinte dualidade: “eles precisam decidir
qual das correntes da nova Europa irá configurar o futuro: a
democrática, que remonta a Revolução Francesa de 1789, ou a
totalitária, que venceu na Berlim de 1933, com a ascensão do
hitlerismo. Desde que Não deixem a iniciativa aos utopistas do
mercado, desbravadores do caminho para a Nova Direita, os europeus
saberão sair-se melhor!” (MARTIN p.330)
Milton Santos, apesar da crítica
feroz de uma época marcada pela globalização globalitária era
otimista e acreditava num novo tempo: “a globalização atual não
é irreversível” (p.174), e no bojo do próprio fenômeno da
globalização busca uma mudança, bastando para isso que “se
completem as duas grandes mutações ora em gestação: a mutação
tecnológica e a mutação filosófica da espécie humana”
(p.174). Por considerar o Brasil uma cultura rebelde, Milton
Santos acreditava na
superação baseada na solidariedade, no inconformismo e no não
fundamentalismo do consumo. É a criação de um “outro território”
que o autor propõe ainda com base na dialética extraída das
leituras de Marx e Hegel. Enfim,
Milton Santos propõe uma mudança pautada na reação dos miseráveis,
que seriam os únicos atores sociais e cujo alvo principal seria a
classe média, a maior defensora da globalização, pois “as
classes médias foram condicionadas a apenas querer privilégios e
não direitos” (SANTOS p.50). A maioria dos intelectuais são
servos do poder, servos das grandes corporações e dos governos
globalizantes. As camadas intelectuais têm a sua responsabilidade
por este estado por atribuírem à classe média um papel de
modernização e de progresso “que pela sua própria constituição,
ela não poderia ter” (SANTOS p50). Uma outra globalização
feita por baixo, mas não pacífica, com novas instituições,
numa nova realidade. Um novo mundo possível.
O pensador baiano vai contra o
pensamento pretensioso e calcado na visão de história universal
de Francis Fukuyama (The End of History and the Last Man)
de que chegamos ao “fim da história” afirmando “ao contrário
do que tanto se disse, a história não acabou: ela apenas começa”
(SANTOS p.170). A idéia do fim da história não é algo novo no
mundo, pois esta idéia sempre esteve presente no âmbito da
modernidade sob diferentes aspectos e formas. O “fim da história”
com a vitória do neoliberalismo, mostra-se como o fim das
utopias.
Os autores alemães encerram
sua obra com um conjunto de “saídas” para os europeus, além
de pontos para a restauração do pleno emprego. São mais pragmáticos
e mais dentro da realidade. Enquanto Milton Santos vai insistir no
campo das idéias e no resgate da cidadania —há cidadania sem
nacionalidade? — e da insurreição dos excluídos.
Talvez para conseguir este
efeito revolucionário desejado, as massas excluídas precisariam
respirar um pouco mais de utopia e crer num novo re-encantamento
do mundo, algo tão difícil num tempo em que essas mesmas massas
estão desencantadas pelos seus políticos e suas ideologias.
Poderiam estas massas excluídas realizar uma transformação
revolucionária a partir do seu próprio cotidiano? A verdadeira
emancipação deve vir acompanhada de um novo palco e novos
atores. Deveremos esperar – e até quando - por este cenário?
Bibliografia
Básica
MARTIN,
Hans-Peter & SCHUMANN, Harald. – A Armadilha da Globalização. São Paulo, Editora Globo, 1997
SANTOS,
Milton – Por uma outra Globalização. Rio de janeiro. Ed.
Record, 2000
NOTAS
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Jameson,
Fredric, Globalização e estratégia política, tradução de
Maria Alice Máximo, ContraCorrente – o melhor do New Left
Review em 2000, Record. Neste artigo Fredric Jameson enfoca as
diversas acepções de globalização e as estratégias de
resistência e a panacéia da globalização. Analisa cinco níveis
distintos de globalização.
-
O
Crítico do Globalitarismo, por Maria da Paz Trefaut, República,
dezembro, 1997. SP
-
Território
e Sociedade, entrevista com Milton Santos. ED. Fundação
Perseu Abramo. Neste livro Milton Santos trata de temas mais
variados, tais como a geografia, a ideologização da vida
social, sua trajetória pessoal e aborda as conseqüências da
globalização para a humanidade.
Santos, Milton. O Futuro já chegou, Carta
Capital, 14 de outubro de 1998, entrevista concedida a Bob
Fernandes.
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