A educação está de luto. O massacre escolar no Instituto Johann
Gutemberg, em Erfurt, ao leste da Alemanha, no dia 26 de abril último, trouxe um saldo
macabro para a história da violência escolar no mundo: dezoito mortos. Como fica a
educação escolar após o incidente em Erfurt?
O presente artigo objetiva responder algumas das questões que
inquietam educadores de todos os países: qual a explicação da explosão de violência
no meio escolar? Que está passando em nossa sociedade, especialmente nas escolas de
educação básica, para que ocorra um desastre dessa proporção? O que levou Robert
Steinhaeuser , de 19 anos, a abrir fogo contra seus companheiros e professores?
Levantamos, aqui, a hipótese de que o mau professor tem sido um dos
patrocinadores da barbárie em Erfrut, Freising, Brandenburgo, Meissen, Colorado,
Jonesboro, Kentucky, Mississipe, Yemen, Reino Unido e América Latina.
A sociedade prefere, porém, encarar a problemática da violência
escolar, envolvendo armas e jovens, como uma questão meramente jurídica ou de controle
social: o porte ou não de armas. A intolerância escola, todavia, é a mais poderosa arma
mortífera que uma sociedade pode produzir.
A educação escolar, em qualquer parte do mundo, após o crime em
Erfurt, não pode continuar a mesma: indiferente às vítimas e à fúria assassina de um
Robert Steinhaeuser. As universidades e as escolas, nessa sociedade capitalista, têm
produzido e reproduzido, em larga escala, muitos Robert Steinhaeuser. Eles se manifestam
nos maus professores ou em suas vítimas, os maus alunos, na verdade, ambos, também
vítimas de uma pedagogia da intolerância que os lançam numa voluntária e
iníqua disposição para a perversidade.
Alunos ferozes são o produto mais apurado da intolerância e da
felonia, dois males das escolas pós-modernas no seio da sociedade globalizada.
Nós, educadores, não podemos esperar mais pelo pior em se tratando de
horror escolar. O crime em Erfrut é reincidência da fúria escolar. O massacre, no
Colégio Gutemberg, é endemia multinacional. Erfrut deve ser sinônimo de
intolerância escolar.
Em crimes dessa proporção, os governantes, se pudessem, voltariam no
tempo. São eles, também, que encontram, de imediato, explicação simplista para a
violência escolar: mais rigor no porte de armas. Os políticos legislam sobre
educação, mas muitos deles não sabem o real significado da escola em suas vidas.
Nós, educadores, ao contrário dos políticos, devemos encarar, de
frente e com o olhar mais demorado, a violência escolar, pois sabemos que suas causas
não vêm apenas do afrouxamento das leis ou ausência do controle social por parte dos
aparelhos do Estado. Não se trata de a criança ou jovem ou adulto ser controlado quanto
ao porte ou não de armas, mas, de a criança, desde à educação infantil, aprender a
respeitar à vida como o bem mais precioso da humanidade.
Por trás de todo crime escolar, há um mau professor que o justifica
na boca do aluno delinqüente. Não são poucos os maus professores que, à guisa de
Robert Steinhaeuser, vestem-se de cores escuras para não dissimular seu comportamento
radicalmente sóbrio e seu olhar sombrio sobre a tarefa de instruir. Desde cedo, alunos,
candidatos ao fracasso escolar, descobrem nos professores amargos o primeiro sinal de uma
pedagogia da intolerância. Quase sempre, quando os maus professores embargam a voz, não
é sinal de emoção, mas de repressão que logo se lançará, como flecha, num alvo
certo: os perdedores, os que fracassam nas avaliações escolares.
O mau professor, em geral, é inflexível, e suas palavras são as mais
duras que os alunos escutarão no decorrer de suas vidas. Suas aulas não são
ministradas, mas executadas, com pontualidade e exatidão alemã que lembram
mais máquinas, tiranas ou servas do tempo, não levando em conta que todo magistério tem
por fim a formação de seres vivos e humanos e que o tempo de aula é tempo de se olhar
feliz e contemplativamente sobre o tempo de viver.
O mau professor, quando severo, pode ser elegante, mas sua presença
não traz prazer, e sim, medo. O professor severo é bem definido e acentua sua ideologia
de ser. Por isso, os professores intolerantes, em sala, são as maiores vítimas da cola e
dos desvios morais e éticos dos alunos. Nos massacres, sempre são os primeiros a serem
mortos, vítimas daqueles que eles mesmo batizaram de "perdedores" ou "
fracassados".
O mais grave é que muitos professores e diretores de escolas,
públicas e privadas, ainda não tomaram consciência de que a sociedade escolheu a escola
para ministrar o ensino com base nos princípio de uma pedagogia do amor, do pluralismo de
idéias, de concepções pedagógicas e de respeito à liberdade.
Com o horrível crime em Erfurt, nós, educadores, aprenderemos a
lição do apreço à tolerância?