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Revista Partes ano II junho de 2002 n.23

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 As Eleições e a Crise 
 por
Adilson Luiz Gonçalves

  Recentes episódios colocaram o Brasil como segundo país de maior risco para os investidores atrás, apenas, da vizinha e destroçada Argentina.
A fuga de capitais, a queda da bolsa e a disparada na cotação do dólar têm tido como desculpa a "ameaça Lula". Curiosamente, desde o início da divulgação das pesquisas de opinião pública sobre as eleições presidenciais, a simpatia pela candidatura petista tem aumentado na mesma proporção do alarme e alarde provocados nos meios financeiros. Também é interessante
notar a crescente adesão de empresários nacionais à campanha de Lula.

Embora não seja cientista político ou sociólogo, arrisco algumas considerações sobre esse quadro.
O Brasil tinha e, creio, ainda tem, a Argentina como seu principal parceiro econômico. Como parceiros proeminentes do Mercosul, buscaram a consolidação do sistema enfrentando as pressões e protecionismos dos mercados do Hemisfério Norte, mais desenvolvidos, poderosos e ávidos de resolver seus problemas internos pela conquista de novos mercados abertos e resignados.
Resistindo ao Nafta, flertando com a Comunidade Européia, e gozando de uma relativa estabilidade econômica, mantida com mão de ferro pela equipe econômica do Governo Federal, o Brasil assistiu à derrocada da Argentina, eleita pelos algozes do Mercosul, como alvo mais frágil, acreditando que conseguiria sair incólume e, talvez, fortalecido. Não foi por acaso que vários países desenvolvidos massagearam o ego de nosso presidente com títulos de doutor "honoris causa" (qual?) e apoiaram nossa candidatura ao Conselho de Segurança da ONU.
É certo que a Argentina colheu os frutos de administrações irresponsáveis,de lideranças tresloucadas e de um ufanismo cego, mas as nações sul americanas deveriam ter se unido na defesa da integridade e do futuro do
Continente.

A geografia política da América do Sul apresenta um quadro de deterioração com viés evolutivo que muitos teimam em não ver.
A presença física dos EUA na Colômbia, a instabilidade do Peru e da Venezuela, a privatização antropofágica até de empresas lucrativas, por exigência de organismos  internacionais, completam um quadro preocupante em que podemos concluir que o processo de democratização da América Latina não agradou seus "financiadores".
Recuando no tempo, podemos lembrar que o fim dos regimes de exceção americanos coincidiu com a "inteligente", embora tardia, conclusão dos EUA
de que era mais fácil evitar a disseminação do comunismo nas Américas apoiando governos democráticos do que financiando ditaduras corruptas e cruéis.
Essa mudança de postura de "Tio Sam", aliás, foi o principal ingrediente da derrocada da antiga e carcomida União Soviética, deixando as esquerdas do mundo órfãs, sem referencial e sem recursos. O idealismo político cedeu lugar à disputa pelo poder usando as mesmas armas da classe dominante.
Mas apoiar regimes democráticos não quer dizer aceitar sua independência política!
O Brasil, como a Argentina, adaptaram-se rapidamente às exigências externas da globalização sendo, literalmente, invadidos por empresas estrangeiras que passaram a dominar seus setores básicos e principais mecanismos de
desenvolvimento e autonomia.

Historicamente endividados, e com governantes vassalos de interesses de outras nações desde suas "independências" - o único que tentou ser diferente foi o Paraguai, que colhe, até hoje, os frutos do aniquilamento que sofreu - o Brasil e a Argentina sonharam em projetar-se como nações influentes, num mundo que já tinha donos.
Quem assiste ao "Big Brother Brasil" ignora que estamos na mesma situação, ou seja, vivemos numa "liberdade vigiada" com regras alteradas sempre que tentamos extrapolar os limites estabelecidos para o que esperam de nós.
Geoges Orwel foi, sem dúvida, mais feliz em sua metáfora: "1.984"; errou apenas no ano.
Isso pode parecer um pouco de paranóia - o que em tempos de terrorismo é uma conseqüência -, mas o contexto mundial colocou as nações emergentes numa condição de tal fragilidade político-econômica que fazem com que
consideremos a República Popular da China um exemplo a ser estudado com maior detalhe. Apesar de temperada com todos os defeitos e virtudes dos regimes totalitários de esquerda, a China tem conseguido a proeza de ser
respeitada política, militar e economicamente pelas principais potências mundiais, demonstrando um impressionante bom-senso nas negociações de que participa, incluindo os processos de re-incorporação de territórios (Hong Kong, Macau, etc.). Antes temida, apenas, pelo seu poderoso, numeroso e disciplinado exército (e por um tênis de mesa quase imbatível), tornou-se uma potência econômica respeitada.
O impressionante é que, apesar de um passado riquíssimo, a China era, até meados, do século XX, um país loteado pelas potências de então, totalmente dominado e desorganizado. Precisou da Segunda Guerra Mundial, associada à
liderança carismática de Mao Tse Tung, e de uma política de ferrenho isolacionismo por várias décadas, para atingir seu atual estágio: única
nação temida pelos EUA e potência econômica definitiva sem ter, necessariamente - ou, ao menos, não aparentemente -, ambições hegemônicas ou colonialistas.
Ao contrário do que ocorre na China, e em Cuba - sua prima mais sofrida e resistente a aberturas, até porque encravada no meio dos lobos -, o
socialismo - sempre tolerado pelos EUA na Europa, mas nunca no Hemisfério Sul - perdeu seu espaço por algum tempo, com seus adeptos sendo forçados a reavaliar posições, conceitos e, até, a se "desintoxicar" das doutrinas radicais (luta armada e revolução permanente) que muitos tinham enraizadas até à alma. Alguns "idealistas" chamaram isso de abandono das origens
heróicas do comunismo. Chamemos isto, melhor, de amadurecimento e conscientização de que transformações radicais levam a resistências de igual intensidade, em que o povo não passa de um joguete nas mãos de lideranças políticas mais preocupadas com seus próprios umbigos e vaidades que com reais interesses sociais.

O Brasil e a Argentina, que não se isolaram e nem tiveram períodos de introspecção radical vivem, hoje, seu Calvário compartilhado que, na minha
pouco douta opinião, é uma represália e um enquadramento impostos pelas as potências econômicas mundiais a nossa tentativa de independência político-econômica.
A continuar o processo atual de investidas sistemáticas contra nações emergentes, a América do Sul tornar-se-á, definitivamente, "quintal" do Hemisfério Norte!
Nesse sentido, a justificativa de que a fuga de capitais estrangeiros do Brasil se baseia no temor de "esquerdização" da economia - no caso de uma vitória de Lula nas próximas eleições presidenciais - seria risível, se já não estivesse apresentando conseqüências tão perversas.
Não havia esse risco na Argentina! Então, qual foi o motivo de igual degringolada lá?
Desde a formação do PT este partido já ocupou vários cargos executivos, inclusive governos de estados, sem que houvesse nenhuma crise
institucional - aliás, como é comum na Europa e no, socialista, Estado de Israel. Uma das maiores críticas que se faz ao PT, paradoxalmente, é ele ser tão parecido com os outros quando está no poder.
Conseqüência dessa mudança de discurso, já não é de hoje que vários empresários vêm se aproximando do Partido dos Trabalhadores e que a expressão "companheiro" deixou de fazer parte do vocabulário diário dos militantes e políticos dessa agremiação. Como os bolcheviques dos primórdios do socialismo soviético, os radicais também foram perdendo seus espaços. O amadurecimento, normal e salutar, de partidos políticos de base ideológica fez com que o PT, como vários outros, entender que para ser governo, tem que conviver democraticamente com todas as correntes, e que a figura do "Partidão" é um artigo de museu.

Apesar de Lula estar longe de ser o candidato ideal - existem outros nomes de melhor condição e mais bem testados administrativamente dentro do próprio PT - é um absurdo que especuladores internacionais usem da possibilidade de
sua eleição como instrumento de pressão político-econômica ou terrorismo eleitoral.
Já vai longe o tempo em que alguns tendenciosos e mal-intencionados propalavam que "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil".
Acreditar que é melhor votar em fulano ou sicrano porque assim os investidores vão voltar a investir no país não é uma demonstração de bom-senso, nos moldes do "voto útil"; na verdade, é um ato de abjuração do livre-arbítrio e da soberania nacional semelhante à submissão dos "currais
eleitorais" ao "coronelismo" nordestino de outrora.
A concretização de uma mentalidade tão tacanha só satisfaria aos "capitães do mato", pois governos eleitos com essa concepção não passariam de meros feitores de interesses externos, extrativistas como eram os dos antigos colonizadores.

Não questiono as intenções de votos dos que participaram das pesquisas - eu mesmo ainda tenho dúvidas sobre em quem votar -, mas fico, sinceramente, esperançoso quando vejo que as pesquisas não estão sendo afetadas pelo
comportamento maquiavélico dos investidores e banqueiros internacionais.
Também não acredito que a vitória de um ou outro partido, qualquer que seja sua corrente ideológica, vá representar grandes alterações no quadro de estabilidade econômica nacional. O problema do Brasil não político-ideológico... é moral! E é essa falta de moral e ética que tornou o Brasil tão frágil e susceptível ao longo dos séculos.
Esse terrorismo pré-eleitoral - tenha ou não a conivência ou interesse do Governo atual - é comparável ao terrorismo que os EUA tanto combatem. A diferença é que o segundo advém da insanidade, causa paranóia e baixas imediatas; e o primeiro gera apatia e mata muitos, mas aos poucos.
A atitude do eleitorado, cujas tendências vêm sendo aferidas nas pesquisas eleitorais, demonstra que o povo quer mudanças, não necessariamente de partidos no Governo, mas da postura ao governar; e que propagandas alarmistas de ocasião não surtem mais o mesmo efeito.

A insistência dos governos das potências e investidores internacionais (que as financiam) em buscar a desestabilização de economias, visando lucro, não é muito diferente do intervencionismo que fomentou as ditaduras de direita ainda tão recentes e de triste memória. Pode, portanto, apresentar desenlaces semelhantes, com a escalada de violência, instabilidade social,
solo fértil para radicalismos políticos, e outro resultado, mais recente e difícil de controlar: o terrorismo em seu próprio território!
Sentar numa confortável poltrona, de um escritório aristocrático, num grande centro financeiro do Hemisfério Norte, e acreditar que está jogando uma frugal partida de xadrez solitária contra uma Humanidade submissa, sacrificando, como sempre, peões em nome dos interesses da elite, são atitudes que estão transformando as eleições brasileiras, como as de outros países, num verdadeiro processo de obtenção de soberania nacional, em que o humanismo enfrenta o materialismo.
Creio que as eleições vão transcorrer normalmente, que as pressões externas
tendem a desaparecer por uma simples questão de bom-senso, e que o Brasil - qualquer que seja a coligação política eleita - sairá fortalecido desse processo e, quem sabe, assumindo uma postura mais objetiva e aglutinadora na busca do indispensável equilíbrio Norte-Sul.

    Adilson Luiz Gonçalves

 



Adilson Luiz Gonçalvez é Engenheiro Civil e Professor  e Perito-Avaliador



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