| Cotidiano |
As
Eleições e a Crise
por Adilson
Luiz Gonçalves
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Recentes episódios colocaram o Brasil como segundo país de maior
risco para
os investidores atrás, apenas, da vizinha e destroçada
Argentina.
A fuga de capitais, a queda da bolsa e a disparada na cotação do
dólar têm
tido como desculpa a "ameaça Lula". Curiosamente, desde
o início da divulgação das pesquisas de opinião pública sobre as eleições
presidenciais,
a simpatia pela candidatura petista tem aumentado na mesma proporção
do
alarme e alarde provocados nos meios financeiros. Também é
interessante
notar a crescente adesão de empresários nacionais à campanha de
Lula.
Embora não seja cientista político ou sociólogo, arrisco
algumas
considerações sobre esse quadro.
O Brasil tinha e, creio, ainda tem, a Argentina como seu principal
parceiro
econômico. Como parceiros proeminentes do Mercosul, buscaram a
consolidação
do sistema enfrentando as pressões e protecionismos dos mercados
do
Hemisfério Norte, mais desenvolvidos, poderosos e ávidos de
resolver seus
problemas internos pela conquista de novos mercados abertos e
resignados.
Resistindo ao Nafta, flertando com a Comunidade Européia, e
gozando de uma
relativa estabilidade econômica, mantida com mão de ferro pela
equipe
econômica do Governo Federal, o Brasil assistiu à derrocada da
Argentina,
eleita pelos algozes do Mercosul, como alvo mais frágil,
acreditando que
conseguiria sair incólume e, talvez, fortalecido. Não foi por
acaso que
vários países desenvolvidos massagearam o ego de nosso
presidente com
títulos de doutor "honoris causa" (qual?) e apoiaram
nossa candidatura ao
Conselho de Segurança da ONU.
É certo que a Argentina colheu os frutos de administrações
irresponsáveis,de lideranças tresloucadas e de um ufanismo cego, mas as nações
sul
americanas deveriam ter se unido na defesa da integridade e do
futuro do
Continente.
A geografia política da América do Sul apresenta um quadro de
deterioração
com viés evolutivo que muitos teimam em não ver.
A presença física dos EUA na Colômbia, a instabilidade do Peru
e da
Venezuela, a privatização antropofágica até de empresas
lucrativas, por
exigência de organismos internacionais, completam um quadro
preocupante em
que podemos concluir que o processo de democratização da América
Latina não
agradou seus "financiadores".
Recuando no tempo, podemos lembrar que o fim dos regimes de exceção
americanos coincidiu com a "inteligente", embora tardia,
conclusão dos EUA
de que era mais fácil evitar a disseminação do comunismo nas Américas
apoiando governos democráticos do que financiando ditaduras
corruptas e
cruéis.
Essa mudança de postura de "Tio Sam", aliás, foi o
principal ingrediente da
derrocada da antiga e carcomida União Soviética, deixando as esquerdas do
mundo órfãs, sem referencial e sem recursos. O idealismo político
cedeu
lugar à disputa pelo poder usando as mesmas armas da classe
dominante.
Mas apoiar regimes democráticos não quer dizer aceitar sua
independência
política!
O Brasil, como a Argentina, adaptaram-se rapidamente às exigências
externas da globalização sendo, literalmente, invadidos por empresas
estrangeiras que
passaram a dominar seus setores básicos e principais mecanismos
de
desenvolvimento e autonomia.
Historicamente endividados, e com governantes vassalos de
interesses de
outras nações desde suas "independências" - o único
que tentou ser diferente
foi o Paraguai, que colhe, até hoje, os frutos do aniquilamento
que sofreu -
o Brasil e a Argentina sonharam em projetar-se como nações
influentes, num
mundo que já tinha donos.
Quem assiste ao "Big Brother Brasil" ignora que estamos
na mesma situação,
ou seja, vivemos numa "liberdade vigiada" com regras
alteradas sempre que
tentamos extrapolar os limites estabelecidos para o que esperam de
nós.
Geoges Orwel foi, sem dúvida, mais feliz em sua metáfora:
"1.984"; errou
apenas no ano.
Isso pode parecer um pouco de paranóia - o que em tempos de
terrorismo é uma
conseqüência -, mas o contexto mundial colocou as nações
emergentes numa
condição de tal fragilidade político-econômica que fazem com
que
consideremos a República Popular da China um exemplo a ser
estudado com
maior detalhe. Apesar de temperada com todos os defeitos e
virtudes dos
regimes totalitários de esquerda, a China tem conseguido a proeza
de ser
respeitada política, militar e economicamente pelas principais
potências
mundiais, demonstrando um impressionante bom-senso nas negociações
de que
participa, incluindo os processos de re-incorporação de territórios
(Hong
Kong, Macau, etc.). Antes temida, apenas, pelo seu poderoso,
numeroso e
disciplinado exército (e por um tênis de mesa quase imbatível),
tornou-se
uma potência econômica respeitada.
O impressionante é que, apesar de um passado riquíssimo, a China
era, até meados, do século XX, um país loteado pelas potências de então,
totalmente
dominado e desorganizado. Precisou da Segunda Guerra Mundial,
associada à
liderança carismática de Mao Tse Tung, e de uma política de
ferrenho isolacionismo por várias décadas, para atingir seu atual estágio:
única
nação temida pelos EUA e potência econômica definitiva sem
ter,
necessariamente - ou, ao menos, não aparentemente -, ambições
hegemônicas ou
colonialistas.
Ao contrário do que ocorre na China, e em Cuba - sua prima mais
sofrida e
resistente a aberturas, até porque encravada no meio dos lobos -,
o
socialismo - sempre tolerado pelos EUA na Europa, mas nunca no
Hemisfério
Sul - perdeu seu espaço por algum tempo, com seus adeptos sendo
forçados a
reavaliar posições, conceitos e, até, a se
"desintoxicar" das doutrinas
radicais (luta armada e revolução permanente) que muitos tinham
enraizadas
até à alma. Alguns "idealistas" chamaram isso de
abandono das origens
heróicas do comunismo. Chamemos isto, melhor, de amadurecimento e
conscientização de que transformações radicais levam a resistências
de igual
intensidade, em que o povo não passa de um joguete nas mãos de
lideranças
políticas mais preocupadas com seus próprios umbigos e vaidades
que com
reais interesses sociais.
O Brasil e a Argentina, que não se isolaram e nem tiveram períodos
de
introspecção radical vivem, hoje, seu Calvário compartilhado
que, na minha
pouco douta opinião, é uma represália e um enquadramento
impostos pelas as
potências econômicas mundiais a nossa tentativa de independência
político-econômica.
A continuar o processo atual de investidas sistemáticas contra nações
emergentes, a América do Sul tornar-se-á, definitivamente,
"quintal" do
Hemisfério Norte!
Nesse sentido, a justificativa de que a fuga de capitais
estrangeiros do
Brasil se baseia no temor de "esquerdização" da
economia - no caso de uma
vitória de Lula nas próximas eleições presidenciais - seria
risível, se já
não estivesse apresentando conseqüências tão perversas.
Não havia esse risco na Argentina! Então, qual foi o motivo de
igual
degringolada lá?
Desde a formação do PT este partido já ocupou vários cargos
executivos,
inclusive governos de estados, sem que houvesse nenhuma crise
institucional - aliás, como é comum na Europa e no, socialista,
Estado de
Israel. Uma das maiores críticas que se faz ao PT,
paradoxalmente, é ele ser
tão parecido com os outros quando está no poder.
Conseqüência dessa mudança de discurso, já não é de hoje que
vários
empresários vêm se aproximando do Partido dos Trabalhadores e
que a
expressão "companheiro" deixou de fazer parte do
vocabulário diário dos
militantes e políticos dessa agremiação. Como os bolcheviques
dos primórdios
do socialismo soviético, os radicais também foram perdendo seus
espaços. O
amadurecimento, normal e salutar, de partidos políticos de base
ideológica
fez com que o PT, como vários outros, entender que para ser
governo, tem que
conviver democraticamente com todas as correntes, e que a figura
do
"Partidão" é um artigo de museu.
Apesar de Lula estar longe de ser o candidato ideal - existem
outros nomes
de melhor condição e mais bem testados administrativamente
dentro do próprio
PT - é um absurdo que especuladores internacionais usem da
possibilidade de
sua eleição como instrumento de pressão político-econômica ou
terrorismo
eleitoral.
Já vai longe o tempo em que alguns tendenciosos e
mal-intencionados
propalavam que "o que é bom para os Estados Unidos é bom
para o Brasil".
Acreditar que é melhor votar em fulano ou sicrano porque assim os
investidores vão voltar a investir no país não é uma demonstração
de
bom-senso, nos moldes do "voto útil"; na verdade, é um
ato de abjuração do
livre-arbítrio e da soberania nacional semelhante à submissão
dos "currais
eleitorais" ao "coronelismo" nordestino de outrora.
A concretização de uma mentalidade tão tacanha só satisfaria
aos "capitães
do mato", pois governos eleitos com essa concepção não
passariam de meros
feitores de interesses externos, extrativistas como eram os dos
antigos
colonizadores.
Não questiono as intenções de votos dos que participaram das
pesquisas - eu
mesmo ainda tenho dúvidas sobre em quem votar -, mas fico,
sinceramente,
esperançoso quando vejo que as pesquisas não estão sendo
afetadas pelo
comportamento maquiavélico dos investidores e banqueiros
internacionais.
Também não acredito que a vitória de um ou outro partido,
qualquer que seja
sua corrente ideológica, vá representar grandes alterações no
quadro de
estabilidade econômica nacional. O problema do Brasil não político-ideológico... é moral! E é essa falta de moral e ética
que tornou o
Brasil tão frágil e susceptível ao longo dos séculos.
Esse terrorismo pré-eleitoral - tenha ou não a conivência ou
interesse do
Governo atual - é comparável ao terrorismo que os EUA tanto
combatem. A
diferença é que o segundo advém da insanidade, causa paranóia
e baixas
imediatas; e o primeiro gera apatia e mata muitos, mas aos poucos.
A atitude do eleitorado, cujas tendências vêm sendo aferidas nas
pesquisas
eleitorais, demonstra que o povo quer mudanças, não
necessariamente de
partidos no Governo, mas da postura ao governar; e que propagandas
alarmistas de ocasião não surtem mais o mesmo efeito.
A insistência dos governos das potências e investidores
internacionais (que
as financiam) em buscar a desestabilização de economias, visando
lucro, não
é muito diferente do intervencionismo que fomentou as ditaduras
de direita
ainda tão recentes e de triste memória. Pode, portanto,
apresentar
desenlaces semelhantes, com a escalada de violência,
instabilidade social,
solo fértil para radicalismos políticos, e outro resultado, mais
recente e
difícil de controlar: o terrorismo em seu próprio território!
Sentar numa confortável poltrona, de um escritório aristocrático,
num grande
centro financeiro do Hemisfério Norte, e acreditar que está
jogando uma
frugal partida de xadrez solitária contra uma Humanidade
submissa,
sacrificando, como sempre, peões em nome dos interesses da elite,
são
atitudes que estão transformando as eleições brasileiras, como
as de outros
países, num verdadeiro processo de obtenção de soberania
nacional, em que o
humanismo enfrenta o materialismo.
Creio que as eleições vão transcorrer normalmente, que as pressões
externas
tendem a desaparecer por uma simples questão de bom-senso, e que
o Brasil -
qualquer que seja a coligação política eleita - sairá
fortalecido desse
processo e, quem sabe, assumindo uma postura mais objetiva e
aglutinadora na
busca do indispensável equilíbrio Norte-Sul.
Adilson Luiz Gonçalves
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