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Não
sou petista. Mas considero Lula habilitado para ser presidente da
República. Essa afirmação tem surpreendido algumas pessoas. As
críticas feitas a Lula quase nunca ultrapassam a fronteira da
simplificação. Existem três tipos de argumento: o elitista, o
terrorista e o francamente reacionário. Nem sempre os três andam
juntos, mas quando isso acontece o ressentimento não tem limites.
Quem tem medo de Lula? Quem tem interesse em desqualificá-lo?
Entendo
as contestações de quem teme perder muito (embora isso seja,
antes de tudo, uma alucinação), mas nunca consigo captar o
sentido do pavor das classes médias sem grandes posses que, por
uma espécie de "servidão voluntária", saltam em
defesa dos interesses dos eternos donos do poder. O argumento
elitista sustenta que Lula é ignorante, um operário, um
sem-diploma-universitário. Portanto, sem condições de governar
a Nação. Trata-se de um sofisma, de uma falácia, de um blefe.
Nos
últimos 20 anos, embora não tenha feito graduação na USP nem pós-graduação
em Harvard, Lula estudou profundamente na escola da vida, da militância
política, das viagens internacionais, dos debates intermináveis
e do convívio com os melhores cérebros brasileiros, sem contar
os de fora. Lula já merece um diploma de notório saber. Não são
muitos os professores universitários que conhecem o Brasil como
ele. É, no mínimo, doutor "honoris causa". Collor
estava preparado para governar o Brasil?
Em
1980, Lula era um calouro. Hoje, um PhD em problemas brasileiros.
Além disso, integra um partido estruturado e governará com o
apoio de especialistas e intelectuais do melhor calibre. O
argumento elitista apenas atualiza um preconceito, muito apreciado
pela mídia, de que só os bacharéis estão aptos a governar.
Depois de 500 anos de bacharelismo, continuamos atolados. Chega de
retórica empoeirada. Existem muitas formas de aprender. E de
governar.
Já
pensei o contrário, mas agora entendo que Lula é o melhor
candidato do PT e do país. Por quê? Possui capital simbólico,
eleitoral e projeto para ser presidente da República. Simbólico:
a condição de líder popular com vasta folha de serviços
prestados. Eleitoral: a capacidade cada vez mais ampla de fazer
votos. Projeto: representar um programa (mesmo ambíguo) e não
somente uma ambição pessoal.
O
argumento terrorista continua a ser praticado Consiste em, com
ajuda de organismos econômicos internacionais, disseminar a idéia
de que, com Lula, o país se tornaria ingovernável. Revela a
falta de maturidade da direita brasileira para a democracia. Tenta
criar uma atmosfera de medo para alcançar uma espécie de voto inútil,
na imobilidade. Democracia é alternância. Os países
desenvolvidos praticam-na sem maiores dramas. O Brasil precisa
entrar no clube dos que não mudam as regras do jogo com base em
princípios falaciosos. A esquerda também tem direito de comandar
o país. O resto é golpe branco.
O
argumento francamente reacionário tem a virtude de não ser hipócrita.
Explícito, assume que não deseja mudanças e define seu campo: a
direita. É incrível como o conservadorismo brasileiro não gosta
de assumir a sua condição de direita. A última sacada da
direita para não se assumir como tal é anunciar que não existem
mais esquerda e direita, embora isso seja apenas uma forma de
atacar a esquerda. Conclui-se que só há esquerda. A direita
consegue ser sinistra. Para a esquerda, às vezes, falta destreza.
O
problema todo está nos dedos de Lula. Não são dedos de
pianista. Nem de bacharel. Para onde apontam os dedos de Lula?
Alguns acham que dedos de operário só podem apontar para o mal.
Como poderia um sujeito de dedos maltratados dedilhar as cordas do
país com harmonia? O problema do Brasil tem sido excesso de
dedos, nunca a falta. Falta um dedo de honestidade para que o
Brasil rompa com seus preconceitos e se restrinja ao plano dos
argumentos racionais.
O
Brasil corre um grande risco, cada vez maior, cada vez menos
denunciado no exterior, inacreditavelmente negligenciado pelas
autoridades mundiais, um risco tenebroso e alheio ao dedo de Lula:
o risco de continuar a ser governado da mesma maneira e com os
mesmos resultados. Resta esperar que Lula ponha o dedo nisso.
Juremir
Machado da Silva
Publicado
no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, em 16/6/2002
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