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Revista Partes ano II junho de 2002 n.23

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 O dedo do Lula
 por
Juremir Machado da Silva

  Não sou petista. Mas considero Lula habilitado para ser presidente da República. Essa afirmação tem surpreendido algumas pessoas. As críticas feitas a Lula quase nunca ultrapassam a fronteira da simplificação. Existem três tipos de argumento: o elitista, o terrorista e o francamente reacionário. Nem sempre os três andam juntos, mas quando isso acontece o ressentimento não tem limites. Quem tem medo de Lula? Quem tem interesse em desqualificá-lo?

Entendo as contestações de quem teme perder muito (embora isso seja, antes de tudo, uma alucinação), mas nunca consigo captar o sentido do pavor das classes médias sem grandes posses que, por uma espécie de "servidão voluntária", saltam em defesa dos interesses dos eternos donos do poder. O argumento elitista sustenta que Lula é ignorante, um operário, um sem-diploma-universitário. Portanto, sem condições de governar a Nação. Trata-se de um sofisma, de uma falácia, de um blefe.

Nos últimos 20 anos, embora não tenha feito graduação na USP nem pós-graduação em Harvard, Lula estudou profundamente na escola da vida, da militância política, das viagens internacionais, dos debates intermináveis e do convívio com os melhores cérebros brasileiros, sem contar os de fora. Lula já merece um diploma de notório saber. Não são muitos os professores universitários que conhecem o Brasil como ele. É, no mínimo, doutor "honoris causa". Collor estava preparado para governar o Brasil?

Em 1980, Lula era um calouro. Hoje, um PhD em problemas brasileiros. Além disso, integra um partido estruturado e governará com o apoio de especialistas e intelectuais do melhor calibre. O argumento elitista apenas atualiza um preconceito, muito apreciado pela mídia, de que só os bacharéis estão aptos a governar. Depois de 500 anos de bacharelismo, continuamos atolados. Chega de retórica empoeirada. Existem muitas formas de aprender. E de governar.

Já pensei o contrário, mas agora entendo que Lula é o melhor candidato do PT e do país. Por quê? Possui capital simbólico, eleitoral e projeto para ser presidente da República. Simbólico: a condição de líder popular com vasta folha de serviços prestados. Eleitoral: a capacidade cada vez mais ampla de fazer votos. Projeto: representar um programa (mesmo ambíguo) e não somente uma ambição pessoal.

O argumento terrorista continua a ser praticado Consiste em, com ajuda de organismos econômicos internacionais, disseminar a idéia de que, com Lula, o país se tornaria ingovernável. Revela a falta de maturidade da direita brasileira para a democracia. Tenta criar uma atmosfera de medo para alcançar uma espécie de voto inútil, na imobilidade. Democracia é alternância. Os países desenvolvidos praticam-na sem maiores dramas. O Brasil precisa entrar no clube dos que não mudam as regras do jogo com base em princípios falaciosos. A esquerda também tem direito de comandar o país. O resto é golpe branco.

O argumento francamente reacionário tem a virtude de não ser hipócrita. Explícito, assume que não deseja mudanças e define seu campo: a direita. É incrível como o conservadorismo brasileiro não gosta de assumir a sua condição de direita. A última sacada da direita para não se assumir como tal é anunciar que não existem mais esquerda e direita, embora isso seja apenas uma forma de atacar a esquerda. Conclui-se que só há esquerda. A direita consegue ser sinistra. Para a esquerda, às vezes, falta destreza.

O problema todo está nos dedos de Lula. Não são dedos de pianista. Nem de bacharel. Para onde apontam os dedos de Lula? Alguns acham que dedos de operário só podem apontar para o mal. Como poderia um sujeito de dedos maltratados dedilhar as cordas do país com harmonia? O problema do Brasil tem sido excesso de dedos, nunca a falta. Falta um dedo de honestidade para que o Brasil rompa com seus preconceitos e se restrinja ao plano dos argumentos racionais.

O Brasil corre um grande risco, cada vez maior, cada vez menos denunciado no exterior, inacreditavelmente negligenciado pelas autoridades mundiais, um risco tenebroso e alheio ao dedo de Lula: o risco de continuar a ser governado da mesma maneira e com os mesmos resultados. Resta esperar que Lula ponha o dedo nisso.

Juremir Machado da Silva
Publicado no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, em 16/6/2002

 


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