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Solicitou-me uma aluna de Direito da UFSC que discorresse sobre a
regência do verbo visar, uma vez que ela tinha escrito "tal
medida visa o bem comum" e seu professor, num excesso de
zelo, corrigiu a frase para "visa ao bem comum".
Com efeito, professores mais conservadores ensinam que
"visar", como verbo transitivo direto, tem o sentido
apenas de "dirigir a pontaria" ou "pôr o visto
em": Visou o alvo / a refém; visaram o cheque / o
passaporte. Já com o sentido de "ter em vista,
pretender, objetivar" deve-se usar o mesmo verbo com a
preposição a, ou seja, visar torna-se transitivo
indireto: O novo regulamento do condomínio visa à
comodidade de todos e ao bem-estar coletivo.
Mas existe o dinamismo do idioma a ser considerado. "A regência,
como tudo na língua, a pronúncia, a acentuação, a significação,
etc., não é imutável. Cada época tem sua regência, de acordo
com o sentimento do povo, o qual varia, conforme as condições
novas da vida. Não podemos seguir hoje exatamente a mesma regência
que seguiam os clássicos; em muitos casos teremos mudado"
(Antenor Nascentes, 1960, apud Celso P. Luft, Dicionário Prático
de Regência Verbal, 1987).
É o caso do verbo visar, que vem perdendo a preposição,
sobretudo antes de um infinitivo, como neste exemplo:
· Sua missão visava encontrar resposta para o imponderável.
Mesmo diante de substantivo, a forma direta tem tido a preferência:
· As artes visam a expressão do belo e o despontar da
sensibilidade.
Essa regência de visar já está abonada por bons dicionários e
bons autores, como Domingos Paschoal Cegalla: "Entretanto,
nessa última acepção [de ter em vista, objetivar] não
é sintaxe condenável dar ao verbo visar objeto direto"
(Minigramática da Língua Portuguesa, 1996), e Celso Cunha/
Lindley Cintra: "Esta última construção [com objeto
direto], condenada por alguns gramáticos, é a dominante na
linguagem coloquial e tende a dominar também na língua literária,
principalmente quando o complemento vem expresso por uma oração
reduzida de infinitivo: O ataque visava cortar a retaguarda
da linha de frente" (Nova Gramática do Português
Contemporâneo, 1985).
Devo esclarecer que o último exemplo é de Euclides da Cunha.
Quem não costuma usar a preposição, portanto, está bem
acompanhado!
Estado com maiúscula
Sobre o emprego da inicial maiúscula na palavra Estado persistem
dúvidas, porquanto o Formulário Ortográfico de 1943 é omisso
no tocante a território da Federação. Orienta ele no item 49, 5°,
que se emprega a letra inicial maiúscula "nos nomes que
designam altos conceitos religiosos, políticos ou nacionalistas: Igreja
(Católica, Apostólica, Romana),Nação, Estado, Pátria, Raça,
etc.", observando que "esses nomes se escrevem com
inicial minúscula quando são empregados em sentido geral ou
indeterminado".
Ocorre que estado, com minúscula, também é substantivo que
significa uma situação, condição, e há casos em que só a
inicial maiúscula pode precisar o sentido da frase:
• Vive num estado deplorável. [também poderia ser "Vive
num Estado deplorável"]
• A ação de reparação de dano promovida por Almeida contra
Seguros será julgada no estado em que se encontra. [na condição
ou no Estado tal?]
• Um traçado encefalográfico reto é hoje, em muitos estados,
a definição legal de morte. [em muitas situações ou em muitos
Estados americanos?]
Normalmente não existirá ambigüidade, mas para que o redator não
se dê ao trabalho de ver caso por caso, os jornais e revistas de
um modo geral têm adotado o seguinte: usar maiúsculas não só
quando se trata de "poder juridicamente organizado" mas
também sempre que se referir à unidade de uma Federação: Mora
no Estado do Paraná. / O governador visitou o Estado todo. /
Muitos migrantes foram mandados de volta ao seu Estado.
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