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Revista Partes ano II junho de 2002 n.23

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Nossa Língua
 Visa O/AO Bem Comum - Estado Com Maiúscula 
 por
Maria Tereza de Queiroz Piacentini

  Solicitou-me uma aluna de Direito da UFSC que discorresse sobre a regência do verbo visar, uma vez que ela tinha escrito "tal medida visa o bem comum" e seu professor, num excesso de zelo, corrigiu a frase para "visa ao bem comum".

Com efeito, professores mais conservadores ensinam que "visar", como verbo transitivo direto, tem o sentido apenas de "dirigir a pontaria" ou "pôr o visto em": Visou o alvo / a refém; visaram o cheque / o passaporte. Já com o sentido de "ter em vista, pretender, objetivar" deve-se usar o mesmo verbo com a preposição a, ou seja, visar torna-se transitivo indireto: O novo regulamento do condomínio visa à comodidade de todos e ao bem-estar coletivo.

Mas existe o dinamismo do idioma a ser considerado. "A regência, como tudo na língua, a pronúncia, a acentuação, a significação, etc., não é imutável. Cada época tem sua regência, de acordo com o sentimento do povo, o qual varia, conforme as condições novas da vida. Não podemos seguir hoje exatamente a mesma regência que seguiam os clássicos; em muitos casos teremos mudado" (Antenor Nascentes, 1960, apud Celso P. Luft, Dicionário Prático de Regência Verbal, 1987).

É o caso do verbo visar, que vem perdendo a preposição, sobretudo antes de um infinitivo, como neste exemplo:

· Sua missão visava encontrar resposta para o imponderável.

Mesmo diante de substantivo, a forma direta tem tido a preferência:

· As artes visam a expressão do belo e o despontar da sensibilidade.

Essa regência de visar já está abonada por bons dicionários e bons autores, como Domingos Paschoal Cegalla: "Entretanto, nessa última acepção [de ter em vista, objetivar] não é sintaxe condenável dar ao verbo visar objeto direto" (Minigramática da Língua Portuguesa, 1996), e Celso Cunha/ Lindley Cintra: "Esta última construção [com objeto direto], condenada por alguns gramáticos, é a dominante na linguagem coloquial e tende a dominar também na língua literária, principalmente quando o complemento vem expresso por uma oração reduzida de infinitivo: O ataque visava cortar a retaguarda da linha de frente" (Nova Gramática do Português Contemporâneo, 1985).

Devo esclarecer que o último exemplo é de Euclides da Cunha. Quem não costuma usar a preposição, portanto, está bem acompanhado!


Estado com maiúscula

Sobre o emprego da inicial maiúscula na palavra Estado persistem dúvidas, porquanto o Formulário Ortográfico de 1943 é omisso no tocante a território da Federação. Orienta ele no item 49, 5°, que se emprega a letra inicial maiúscula "nos nomes que designam altos conceitos religiosos, políticos ou nacionalistas: Igreja (Católica, Apostólica, Romana),Nação, Estado, Pátria, Raça, etc.", observando que "esses nomes se escrevem com inicial minúscula quando são empregados em sentido geral ou indeterminado".

Ocorre que estado, com minúscula, também é substantivo que significa uma situação, condição, e há casos em que só a inicial maiúscula pode precisar o sentido da frase:

• Vive num estado deplorável. [também poderia ser "Vive num Estado deplorável"]
• A ação de reparação de dano promovida por Almeida contra Seguros será julgada no estado em que se encontra. [na condição ou no Estado tal?]
• Um traçado encefalográfico reto é hoje, em muitos estados, a definição legal de morte. [em muitas situações ou em muitos Estados americanos?]

Normalmente não existirá ambigüidade, mas para que o redator não se dê ao trabalho de ver caso por caso, os jornais e revistas de um modo geral têm adotado o seguinte: usar maiúsculas não só quando se trata de "poder juridicamente organizado" mas também sempre que se referir à unidade de uma Federação: Mora no Estado do Paraná. / O governador visitou o Estado todo. / Muitos migrantes foram mandados de volta ao seu Estado.

 



Maria Tereza de Queiroz Piacentini é autora dos livros "Só Vírgula" e "Só Palavras Compostas", é diretora do Instituto Euclides da Cunha.


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