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Celso Furtado disse certa vez que "é difícil
exagerar em relação ao Nordeste". Isso porque a região
continua sendo o núcleo duro das desigualdades brasileiras. Nesta
semana vou visitar novamente quatro Estados nordestinos, começando
pelo Ceará, passando pela Paraíba e por Pernambuco e terminando
em Sergipe. Resgatar o Nordeste, desenvolvendo de modo integrado a
região, é pagar uma dívida secular que o nosso país tem com 45
milhões de habitantes, cerca de 30% da população brasileira.
Após oito anos das políticas neoliberais do governo
FHC, as desigualdades regionais hoje são maiores do que no
passado e atingem todas as macro-regiões do país. Mas a questão
nordestina, pelo enorme déficit social, e a da Amazônia, pelo
potencial estratégico no presente e no futuro, continuam se
destacando no conjunto.
Fica claro, mais uma vez, que o mercado por si só não
é antídoto suficiente nem adequado para corrigir as mazelas
que ele próprio cria. Combater a tendência à concentração do
mercado, superando sua herança de desequilíbrios, exige
planos de governo e instrumentos apropriados. Foi para corrigir
essa lógica que se criou a Sudene, Superintendência do
Desenvolvimento do Nordeste, em 1960. Melancolicamente, a instituição
foi abandonada à agonia nos últimos tempos, até a sua
extinção no ano passado pelo governo FHC.
É verdade que o sucateamento da Sudene vem da época do
regime militar. Primeiro, seu caráter reformista foi
esvaziado, fazendo com que deixasse de interferir para mudar a
estrutura fundiária regional. Depois, seus recursos foram
reduzidos, esvaziando sua capacidade de coordenar planos
diretores globais. Finalmente, seus incentivos passaram a ser
manipulados por interesses menores, muitas vezes marcados pela
corrupção. Em vez de corrigir tais equívocos, o governo FHC
preferiu deixar a Sudene afogar-se neles, extinguindo-a. Esse mal
precisa ser reparado.
É preciso deixar bem claro que o menosprezo pelo
planejamento não resultou em melhores condições de vida para a
população nordestina. A região concentra 50% do analfabetismo
nacional, metade da fome brasileira e quase a metade do
contingente que ganha até um salário mínimo em nosso país.
Alguns projetos industriais foram instalados em Estados
nordestinos, mas a reforma agrária continua sendo apenas uma
promessa. Isso numa região em que vive metade (46%) da população
rural do país (cerca de 15,5 milhões de pessoas) e onde 1,8 milhão
de famílias enfrentam graves problemas de acesso à terra — 53%
delas com área média de apenas três hectares, segundo o Ipea,
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
Como não poderia deixar de ocorrer em função dessa dinâmica,
a urbanização explodiu. Mas sem que houvesse a contrapartida de
investimentos em educação, saúde e saneamento básico. Há
orlas modernas, mas faltam habitações dignas. Há telefone, mas
não há emprego e, não raro, falta comida. No interior, a população
pobre continua vulnerável às secas desvastadoras, que
assolam periodicamente o semi-árido (metade do espaço regional,
750 mil km2, quase duas vezes e meia a superfície da
Itália).
Ilhas de dinamismo e prosperidade implantadas
pontualmente ignoram o potencial e o desafio dessa vastidão seca,
onde vive 36% da população regional (16 milhões de pessoas) e
90% das propriedades têm menos de 100 hectares. Um módulo inviável
numa ecologia onde chove 400 mm/ano. Há várias experiências no
próprio Nordeste que comprovam a viabilidade de se conviver com a
seca em condições dignas. Faltam, contudo, políticas públicas
voltadas para isso.
Não é por acaso que o Nordeste continua a ser a grande
usina de migração rural do país. Entre 1995 e 2000, 1,5 milhão
de nordestinos abandonaram seus Estados em direção ao Sudeste
— a grande maioria saindo de municípios rurais, onde terra, água,
saúde e educação continuam a ser conquistas tão distantes como
sempre o foram para seus antepassados. É preciso lembrar que 70%
dos favelados e encortiçados de São Paulo são formados por
esses sofridos contingentes de brasileiros, entre os quais, há
cerca de 50 anos estávamos eu e minha família.
O agravamento das desigualdades regionais é uma evidência
desse falso caminho que o atual governo e setores das elites
conservadoras ainda insistem em defender. O Brasil precisa
retomar o compromisso com um projeto de Nação, voltado inclusive
para superar as desigualdades regionais por meio de políticas públicas
específicas.
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