.

Revista Partes ano II julho/agosto de 2002 n.24

  Principal
 Agenda
 Comportamento
 Cotidiano
 Cultura
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Esportes
 Humor
 Links
 Nossa Língua
 Outras edições
 Poesia, Crônicas etc
 Política
 Reflexão
 Serviços
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Fórum
 Fale Conosco
   Especiais
 Gilberto Freyre
 Eleições 2000
  Meio Ambiente
 Igrejas
 Assédio Moral
 

   Entrevista

 Altemar Baleeiro
Raízes da Educação
Os cursinhos comunitários são uma alternativa para os jovens de baixa renda que desejam ingressarem nas Universidades Públicas.

 

Na expectativa de suprir a grande demanda de educandos que terminam o ensino médio sem perspectivas de ingressarem numa Universidade, foi criado em Interlagos, na Zona Sul de São Paulo, o Projeto Raiz. Um projeto que têm como objetivo: auxiliar, incentivar e dar todo o apoio para que os jovens possam ingressarem nas Universidades, sejam elas públicas ou particulares. Além disso, o projeto tem como meta a inserção do jovem no meio social, mostrando o seu valor e pondo em prática a sua cidadania.

Em entrevista à Angela Maria Veloso, Altemar Baleeiro, coordenador do conselho executivo do Projeto Raiz, falou sobre o projeto e as expectativas para o futuro.

 Sala de aula do projeto raiz

 

Angela – Como e quando surgiu o Projeto Raiz?
Altemar
– O  projeto Raiz nasceu precisamente no dia 22 de Novembro de 1998 e foi concebido a partir de uma reflexão de um grupo de pessoas que unidos a PJMP- Pastoral da Juventude do Meio Popular e aos Jovens da Diocese de Santo Amaro, buscaram conhecer a experiência  de um grupo da  Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, chamado Cursinho para Jovens Carentes e Afro Descendentes, que funciona como um cursinho pré-vestibular comunitário. Seguindo esta linha, o Projeto Raiz surgiu como uma forma de organizar e orientar os jovens a formarem grupos de estudos para que pudessem se inserir na sociedade, através do ingresso nas Universidades, com o propósito de colocar sua cidadania em prática. 

Angela – Além de incentivar os jovens na conquista pelo direito ao ingresso nas Universidades, o Projeto Raiz promove a cidadania...

Altemar – Exatamente. O jovem é uma pessoa integral que necessita de esporte, lazer, cultura, precisa se expressar. Procuramos seduzir os jovens na questão do Vestibular, mas, além disso oferecemos outras formas de participação e integração social. O projeto não deixa de ser um ponto de encontro, um lugar onde se faz amizades, mas também espaço de lutas por objetivos e ideais. Lutamos por mais vagas nas Universidades Públicas, pela implantação de uma universidade na região de Grajaú/Parelheiros, apoiamos lutas como a do MSU – Movimento dos Sem Universidades, que defendem  a viabilização de se implantar uma Universidade no Carandiru. 

Angela - Qual a extensão geográfica desse projeto?
Altemar
– Inicialmente, atendíamos os bairros mais próximos, como Jd. Primavera, Interlagos, Cidade Dutra, Orion, Jd. Régis, percebemos que o Projeto Raiz começou a tomar dimensão e pessoas de vários lugares começaram a nos procurar. Atualmente, atendemos toda a região da Capela do Socorro, desde de Veleiros até  Parelheiros e Marsilac.

Ex alunas do projeto raiz

Angela – O projeto é amparado por alguma ONG, tem algum convênio com a prefeitura? 
Altemar
- Somos um grupo ligado ao Centro Social Jd. Primavera, este dá o apoio institucional para que possamos desenvolver atividades que organizamos, nos cedendo espaço para reuniões e eventos. O único apoio que recebemos, por parte da prefeitura, é a concessão das salas de aulas na Escola Municipal Miguel Vieira Ferreira – Cidade Dutra. Na verdade o projeto é auto-sustentável e praticamente autônomo. Em relação ao material, como as apostilas utilizadas, os alunos compram pelo valor real, não há nenhum tipo de lucro da nossa parte. No entanto, precisamos de giz, apagador, xerox, auxílio alimentação e transporte para os educadores, então pedimos a contribuição de R$ 5,00 à R$ 10,00 por aluno, aqueles que podem contribuem.

Angela – Quantos jovens o Projeto Raiz atende e qual o número de colaboradores?
Altemar
  Oficialmente temos uma média de 160 educandos inscritos e uma lista de espera de 200 pretendentes. Colaboram com o projeto 33 educadores, que dão aula de forma voluntária, auxiliados pela equipe de apoio formada por alunos bolsistas e outros voluntários, que fazem o atendimento ao público e ao educando do Projeto Raiz.

Angela – O Centro Social e o Projeto Raiz participam de alguns movimentos sociais, fale um pouco sobre essa parceria.
Altemar
– O Centro Social começou seu trabalho em 1975 e hoje desenvolve várias atividades. Nasceu da necessidade dos moradores terem um espaço para discutirem os problemas do bairro, nessas discussões perceberam que um grande problema era a falta de creche. A partir da construção desta creche, que hoje atende 220 crianças, de 0 à 6 anos, foram surgindo outras idéias e outros grupos: alfabetização para adultos, grupo da 3ª idade, grupo de apoio à família e o CJ-Centro de Juventude, um espaço novo, localizado próximo ao Sesc Interlagos. 

Angela – Qual a ligação do Projeto Raiz com a Educafro?
Altemar
– Era importante para o Projeto Raiz conhecer outros grupos que tivessem a mesma bandeira e a mesma luta, então conhecemos a Educafro que desempenha o papel de articular outros grupos de cursinho popular e animar os jovens na luta por isenções. O projeto não têm muito contato com a Educafro porque não faz parte do seu conselho gestor, um conselho criado para organizar e determinar ações da Educafro e seus núcleos. Nós orientamos os educandos que tenham interesse por bolsas a procurar a Educafro

Angela – Como você vê a questão da falta de vagas nas Universidades Públicas e a questão de cotas para  negros?
Altemar
-È uma situação dramática. Hoje, no Estado de São Paulo, 430 mil pessoas se formam todo ano no ensino médio, temos apenas 17 mil vagas nas Universidades Públicas, é uma desproporção absurda! O acesso às Universidades é restrito à pessoas que tiveram mais oportunidades, portanto privilegiadas. Sobre as cotas, vejo que a luta  tem que ser 100% para pessoas que venham de escolas públicas, assim você estará atingindo negros, afro-descendentes, índios e todos aqueles que por algum motivo sofrem exclusão. 

Angela – Qual tem sido o retorno social deste projeto?
Altemar
– O retorno se dá quando percebe-se a importância do papel do educando na sociedade, quando ele se torna realmente protagonista, toma suas próprias iniciativas, buscando transformar suas indignações em coisas boas para a comunidade. O Educando do Projeto Raiz tem iniciativa para organizar grêmios, movimentos estudantis, participar de ONG’S,  movimentos sociais, fazer a luta do jovem oprimido visando a construção de uma sociedade melhor. 

Angela – O que o Projeto Raiz está programando para o futuro?
Altemar
– Algumas pessoas vem discutindo comigo várias possibilidades, como por exemplo a formação de um grupo que possa atender pessoas aqui da região, no sentido de buscar a sua cidadania plena, seja na área da cultura, lazer, educação, formação profissional, etc. Gostaríamos também de um espaço próprio, talvez formar uma cooperativa que tenha como objetivo preparar pessoas para o seu próprio sustento, geração de renda. Todas essas idéias estão sendo estudadas mas, ainda não há nada de concreto.

Altemar Baleeiro na sala de aula

Angela – De que maneira a população pode contribuir para a continuidade deste projeto?
Altemar
– É importante a participação das pessoas. Dentre os nossos principais objetivos, está o de trabalhar com a família e com a comunidade. Procuramos a adesão dessas pessoas para que elas ganhem consistência e importância na vida social. 

Angela – Quais os critérios exigidos para quem deseja ser um educando do Projeto Raiz?
Altemar
– Os interessados devem procurar a Escola Miguel Vieira Ferreira, fazer a sua inscrição, a partir daí estaremos observando critérios como:  onde concluiu o ensino médio (escola particular ou pública), tempo em que se encontra afastado do sistema de educação e renda familiar, feito isto as pessoas são convidadas a fazer parte do Projeto Raiz. Não existe na verdade um processo de seleção porque consideramos uma forma de exclusão.

Informações:

Centro Social Jardim Primavera
Rua Gonçalo de Paiva Gomes, 424 – Jd. Primavera – tel.: 5661-6762

CJ – Centro de Juventude
Rua Arildo Valadão, 138 – Jd. Guanhembu II – tel.: 5661-0370 

Inscrições para o Projeto Raiz:

Escola Municipal Miguel Vieira Ferreira
Praça Escolar, s/nº- Cidade Dutra - Interlagos
Horário: das 7h30 às 18h.
(somente aos sábados)

 



 

Angela Maria Veloso é estudante de jornalismo

 

 



© copyright revista partes 2002