|
Na
expectativa de suprir a grande demanda de educandos que terminam o
ensino médio sem perspectivas de ingressarem numa Universidade,
foi criado em Interlagos, na Zona Sul de São Paulo, o Projeto
Raiz. Um projeto que têm como objetivo: auxiliar, incentivar e
dar todo o apoio para que os jovens possam ingressarem nas
Universidades, sejam elas públicas ou particulares. Além disso,
o projeto tem como meta a inserção do jovem no meio social,
mostrando o seu valor e pondo em prática a sua cidadania.
Em
entrevista à Angela Maria Veloso, Altemar Baleeiro, coordenador
do conselho executivo do Projeto Raiz, falou sobre o projeto e as
expectativas para o futuro.
Angela – Como e quando surgiu o Projeto Raiz?
Altemar –
O projeto Raiz nasceu precisamente no dia 22 de Novembro de
1998 e foi concebido a partir de uma reflexão de um grupo de
pessoas que unidos a PJMP- Pastoral da Juventude do Meio Popular e
aos Jovens da Diocese de Santo Amaro, buscaram conhecer a experiência
de um grupo da Cidade
Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, chamado Cursinho para Jovens
Carentes e Afro Descendentes, que funciona como um cursinho pré-vestibular
comunitário. Seguindo esta linha, o Projeto Raiz surgiu como uma
forma de organizar e orientar os jovens a formarem grupos de
estudos para que pudessem se inserir na sociedade, através do
ingresso nas Universidades, com o propósito de colocar sua
cidadania em prática.
Angela – Além de incentivar os jovens na conquista pelo direito ao
ingresso nas Universidades, o Projeto Raiz promove a cidadania...
Altemar –
Exatamente. O jovem é uma pessoa integral que necessita de
esporte, lazer, cultura, precisa se expressar. Procuramos seduzir
os jovens na questão do Vestibular, mas, além disso oferecemos
outras formas de participação e integração social. O projeto não
deixa de ser um ponto de encontro, um lugar onde se faz amizades,
mas também espaço de lutas por objetivos e ideais. Lutamos por
mais vagas nas Universidades Públicas, pela implantação de uma
universidade na região de Grajaú/Parelheiros, apoiamos lutas
como a do MSU – Movimento dos Sem Universidades, que defendem
a viabilização de se implantar uma Universidade no
Carandiru.
Angela - Qual a extensão geográfica desse projeto?
Altemar –
Inicialmente, atendíamos os bairros mais próximos, como Jd.
Primavera, Interlagos, Cidade Dutra, Orion, Jd. Régis, percebemos
que o Projeto Raiz começou a tomar dimensão e pessoas de vários
lugares começaram a nos procurar. Atualmente, atendemos toda a
região da Capela do Socorro, desde de Veleiros até
Parelheiros e Marsilac.
Angela – O projeto é amparado por alguma ONG, tem algum convênio com a
prefeitura?
Altemar-
Somos um grupo ligado ao Centro Social Jd. Primavera, este dá o
apoio institucional para que possamos desenvolver atividades que
organizamos, nos cedendo espaço para reuniões e eventos. O único
apoio que recebemos, por parte da prefeitura, é a concessão das
salas de aulas na Escola Municipal Miguel Vieira Ferreira –
Cidade Dutra. Na verdade o projeto é auto-sustentável e
praticamente autônomo. Em relação ao material, como as
apostilas utilizadas, os alunos compram pelo valor real, não há
nenhum tipo de lucro da nossa parte. No entanto, precisamos de
giz, apagador, xerox, auxílio alimentação e transporte para os
educadores, então pedimos a contribuição de R$ 5,00 à R$ 10,00
por aluno, aqueles que podem contribuem.
Angela – Quantos jovens o Projeto Raiz atende e qual o número de
colaboradores?
Altemar –
Oficialmente temos uma média de 160 educandos inscritos e
uma lista de espera de 200 pretendentes. Colaboram com o projeto
33 educadores, que dão aula de forma voluntária, auxiliados pela
equipe de apoio formada por alunos bolsistas e outros voluntários,
que fazem o atendimento ao público e ao educando do Projeto Raiz.
Angela – O Centro Social e o Projeto Raiz participam de alguns movimentos
sociais, fale um pouco sobre essa parceria.
Altemar
– O Centro Social começou seu trabalho em 1975 e hoje
desenvolve várias atividades. Nasceu da necessidade dos moradores
terem um espaço para discutirem os problemas do bairro, nessas
discussões perceberam que um grande problema era a falta de
creche. A partir da construção desta creche, que hoje atende 220
crianças, de 0 à 6 anos, foram surgindo outras idéias e outros
grupos: alfabetização para adultos, grupo da 3ª idade, grupo de
apoio à família e o CJ-Centro de Juventude, um espaço novo,
localizado próximo ao Sesc Interlagos.
Angela – Qual a ligação do Projeto Raiz com a Educafro?
Altemar
– Era importante para o Projeto Raiz conhecer outros grupos que
tivessem a mesma bandeira e a mesma luta, então conhecemos a
Educafro que desempenha o papel de articular outros grupos de
cursinho popular e animar os jovens na luta por isenções. O
projeto não têm muito contato com a Educafro porque não faz
parte do seu conselho gestor, um conselho criado para organizar e
determinar ações da Educafro e seus núcleos. Nós orientamos os
educandos que tenham interesse por bolsas a procurar a Educafro
Angela – Como você vê a questão da falta de vagas nas Universidades Públicas
e a questão de cotas para negros?
Altemar -È
uma situação dramática. Hoje, no Estado de São Paulo, 430 mil
pessoas se formam todo ano no ensino médio, temos apenas 17 mil
vagas nas Universidades Públicas, é uma desproporção absurda!
O acesso às Universidades é restrito à pessoas que tiveram mais
oportunidades, portanto privilegiadas. Sobre as cotas, vejo que a
luta tem que ser 100%
para pessoas que venham de escolas públicas, assim você estará
atingindo negros, afro-descendentes, índios e todos aqueles que
por algum motivo sofrem exclusão.
Angela – Qual tem sido o retorno social deste projeto?
Altemar
– O retorno se dá quando percebe-se a importância do papel do
educando na sociedade, quando ele se torna realmente protagonista,
toma suas próprias iniciativas, buscando transformar suas indignações
em coisas boas para a comunidade. O Educando do Projeto Raiz tem
iniciativa para organizar grêmios, movimentos estudantis,
participar de ONG’S, movimentos
sociais, fazer a luta do jovem oprimido visando a construção de
uma sociedade melhor.
Angela – O que o Projeto Raiz está programando para o futuro?
Altemar
– Algumas pessoas vem discutindo comigo várias possibilidades,
como por exemplo a formação de um grupo que possa atender
pessoas aqui da região, no sentido de buscar a sua cidadania
plena, seja na área da cultura, lazer, educação, formação
profissional, etc. Gostaríamos também de um espaço próprio,
talvez formar uma cooperativa que tenha como objetivo preparar
pessoas para o seu próprio sustento, geração de renda. Todas
essas idéias estão sendo estudadas mas, ainda não há nada de
concreto.
Angela – De que maneira a população pode contribuir para a continuidade
deste projeto?
Altemar
– É importante a participação das pessoas. Dentre os nossos
principais objetivos, está o de trabalhar com a família e com a
comunidade. Procuramos a adesão dessas pessoas para que elas
ganhem consistência e importância na vida social.
Angela – Quais os critérios exigidos para quem deseja ser um educando do
Projeto Raiz?
Altemar
– Os interessados devem procurar a Escola Miguel Vieira
Ferreira, fazer a sua inscrição, a partir daí estaremos
observando critérios como: onde
concluiu o ensino médio (escola particular ou pública), tempo em
que se encontra afastado do sistema de educação e renda
familiar, feito isto as pessoas são convidadas a fazer parte do
Projeto Raiz. Não existe na verdade um processo de seleção
porque consideramos uma forma de exclusão.
Informações:
Centro
Social Jardim Primavera
Rua Gonçalo de Paiva Gomes, 424 – Jd. Primavera – tel.:
5661-6762
CJ
– Centro de Juventude
Rua Arildo Valadão, 138 – Jd. Guanhembu II – tel.: 5661-0370
Inscrições
para o Projeto Raiz:
Escola
Municipal Miguel Vieira Ferreira
Praça Escolar, s/nº- Cidade Dutra - Interlagos
Horário: das 7h30 às 18h.
(somente aos sábados)
|