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Revista Partes ano II julho/agosto de 2002 n.24

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 Midão e Nadão 
 por
Alfredo Ramos
Meus caros amigos, não é todo o mundo que tem a sorte que eu tenho, ou melhor, de ter a felicidade de morar numa típica rua de periferia da zona sul de São Paulo.  Às vezes, penso até que onde eu moro,  só mora doido e claro, chego até a duvidar que eu não seja um deles. Mas como todo doido não se reconhece doido, prefiro acreditar que a convivência sim, com esses malucos daqui, poderia levar-me apenas a uma santa loucura e nada mais. Os dois meninos quando menores eram safados, espertos e amigos de todos. E precisavam ser, pois viviam em grandes dificuldades. Na rua como hábito, saiam à pedir uns trocados ou qualquer coisa. O maior, sabido, por isso levava sempre vantagem e ganhava assim uns trocados a mais, e que deixava o menor quase sempre "p " da vida. Assim, iam se virando de plantão em plantão nas portas dos bares ou nas esquinas. Estavam sempre ligados ao movimento dos transeuntes. E era só alguém botar a cara fora do portão e lá estavam os dois pedindo. - Porra meu, vocês não param de encher o saco e pedir?

- É, mais só aceitamos... " se mi dão"...

- " Se mi dão" nada. Só se eu quiser, certo? E ora pois, o que tenho haver com isso? 

- Tio, mas nada " mi dão" mesmo...

E o seu irmão, elevando os ombros até ao pescoço e os braços como o Cristo crucificado, completava:- E pra mim, tio, que "na dão" mesmo ?

E na encenação dramática destes jovens pedintes, era acrescentado com suas pequenas mãos, o clássico " top-top":

- Ta vendo tio - mais top-top - nós, ó, só levamos...

Tinha dias que eu levantava pisando em ovos e com os dois na porta, mostrava-lhes logo que o dia não seria bom, nem para eles e nem para mim. Mostrava-lhes convenientemente um longo "cotoco" como saudação..

- Porra tio, vá se f.... então...

E assim eles cresceram e progrediram como o nosso País, exceto na droga, que somos hoje uma invejável nação de primeiro mundo... 

Os dois "vivaldos", e sempre ligados as oportunidades novas, decidiram trabalhar como gente grande. Então, o  Midão, veio a comprar uma Brasília enferrujada amarela. O Nadão arranjou um bagageiro improvisado e instalou no carro. Com uns paus velhos fez uma escada de madeira. Pegou então uma sacola de supermercado, enfiou dentro um alicate, um martelo e uma chave de fenda e preparado para a luta, os dois ensaiaram num espelho quebrado, uma "pinta" qualquer de profissional e com todo essa cara de pau saíram para a luta. 

Logo encontraram uma boa oportunidade nessa vastidão de São Paulo de empregos e promessas mil. Numa esquina qualquer encontraram uma instaladora de TV por assinatura. Eles então receberam a incumbência de efetuarem uma instalação, já que "práticos", não encontrariam dificuldades de executar o serviço.

Fantasiados de técnicos, bateram à porta do assinante. Depois de ficarem ali 10 horas na casa e após terem quebrado todas as telhas da casa, furado um cano de água, arrebentado os azulejos, riscado os moveis e sujado todas as paredes, não conseguiram enfim instalar a tal de "paranóica" como eles a tinham chamado, a mini-antena parabólica de TV.

- Seus pilantras, saiam todos daqui, seus "maleditos". Gritava o cliente, expulsando-os de sua casa.

Corridos dali, chegaram afoitos ao patrão para pedir a conta.  O infeliz, puto da vida, lhes apresentou o pagamento: 

- Vocês deveriam receber pelo serviço, se tivessem concluído, o seguinte: 35 pela instalação, menos 10 pôr não terem conectado o receptor a linha telefônica e esperado o resultado do teste, sobrariam 25. Menos 10 pelo adiantamento da gasolina, sobrariam 15. Menos 10 de descontos para custeio de eventuais defeitos persistentes nos aparelhos fornecidos pela concessionária e eventuais serviços adicionais não executados e que são obrigatórios e devem ser feitos sempre que solicitados mesmo que nunca venham a ser concluídos ou garantidos pela mesma, sobrariam então 5 reais. Menos 6 de adiantamento para o vale refeição, vocês ficam me devendo 1 real e fora a conta de 600 reais pelos danos causados ao cliente que vocês devem pagar quando o Juiz de Pequenas Causas o intimarem ....

Os dois técnicos, espantados, saíram muito contrariados da esquina do sucesso: 

- Eu não falei - Nadão - que esse negocio de TV por assinatura era só papo-furado...

É mesmo, Midão. O negócio é a gente continuar na vila pedindo o " si mi dão" mesmo.

E se nada dão, na dão mesmo. 

E o seu irmão, completava elevando os ombros até ao pescoço e os braços como o do Cristo crucificado, completava:

- Ta vendo - mais top-top - nós, ó, só levamos...

E assim continuam até hoje, como sempre foram, brasileiros, felizes para sempre 

 



Alfredo Ramos é jornalista.



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