Meus
caros amigos, não é todo o mundo que tem a sorte que eu tenho, ou melhor, de ter a
felicidade de morar numa típica rua de periferia da zona sul de São
Paulo. Às vezes, penso até que onde eu moro, só mora doido e claro,
chego até a duvidar que eu não seja um deles. Mas como todo doido não se reconhece
doido, prefiro acreditar que a convivência sim, com esses malucos daqui, poderia levar-me
apenas a uma santa loucura e nada mais. Os dois meninos quando menores eram safados,
espertos e amigos de todos. E precisavam ser, pois viviam em grandes dificuldades. Na
rua como hábito, saiam à pedir uns trocados ou qualquer coisa. O maior, sabido, por
isso levava sempre vantagem e ganhava assim uns trocados a mais, e que deixava o menor
quase sempre "p " da vida. Assim, iam se virando de plantão em plantão nas
portas dos bares ou nas esquinas. Estavam sempre ligados ao movimento dos transeuntes. E
era só alguém botar a cara fora do portão e lá estavam os dois pedindo. - Porra
meu, vocês não param de encher o saco e pedir?- É, mais só aceitamos... " se
mi dão"...
- " Se mi dão" nada. Só se eu quiser, certo? E ora pois, o que tenho haver
com isso?
- Tio, mas nada " mi dão" mesmo...
E o seu irmão, elevando os ombros até ao pescoço e os braços como o Cristo
crucificado, completava:- E pra mim, tio, que "na dão" mesmo ?
E na encenação dramática destes jovens pedintes, era acrescentado com suas pequenas
mãos, o clássico " top-top":
- Ta vendo tio - mais top-top - nós, ó, só levamos...
Tinha dias que eu levantava pisando em ovos e com os dois na porta, mostrava-lhes logo
que o dia não seria bom, nem para eles e nem para mim. Mostrava-lhes convenientemente um
longo "cotoco" como saudação..
- Porra tio, vá se f.... então...
E assim eles cresceram e progrediram como o nosso País, exceto na droga, que somos
hoje uma invejável nação de primeiro mundo...
Os dois "vivaldos", e sempre ligados as oportunidades novas, decidiram
trabalhar como gente grande. Então, o Midão, veio a comprar uma Brasília
enferrujada amarela. O Nadão arranjou um bagageiro improvisado e instalou no carro. Com
uns paus velhos fez uma escada de madeira. Pegou então uma sacola de supermercado, enfiou
dentro um alicate, um martelo e uma chave de fenda e preparado para a luta, os dois
ensaiaram num espelho quebrado, uma "pinta" qualquer de profissional e com todo
essa cara de pau saíram para a luta.
Logo encontraram uma boa oportunidade nessa vastidão de São Paulo de empregos e
promessas mil. Numa esquina qualquer encontraram uma instaladora de TV por assinatura.
Eles então receberam a incumbência de efetuarem uma instalação, já que
"práticos", não encontrariam dificuldades de executar o serviço.
Fantasiados de técnicos, bateram à porta do assinante. Depois de ficarem ali 10 horas
na casa e após terem quebrado todas as telhas da casa, furado um cano de água,
arrebentado os azulejos, riscado os moveis e sujado todas as paredes, não conseguiram
enfim instalar a tal de "paranóica" como eles a tinham chamado, a mini-antena
parabólica de TV.
- Seus pilantras, saiam todos daqui, seus "maleditos". Gritava o cliente,
expulsando-os de sua casa.
Corridos dali, chegaram afoitos ao patrão para pedir a conta. O infeliz, puto da
vida, lhes apresentou o pagamento:
- Vocês deveriam receber pelo serviço, se tivessem concluído, o seguinte: 35 pela
instalação, menos 10 pôr não terem conectado o receptor a linha telefônica e esperado
o resultado do teste, sobrariam 25. Menos 10 pelo adiantamento da gasolina, sobrariam 15.
Menos 10 de descontos para custeio de eventuais defeitos persistentes nos aparelhos
fornecidos pela concessionária e eventuais serviços adicionais não executados e que
são obrigatórios e devem ser feitos sempre que solicitados mesmo que nunca venham a ser
concluídos ou garantidos pela mesma, sobrariam então 5 reais. Menos 6 de adiantamento
para o vale refeição, vocês ficam me devendo 1 real e fora a conta de 600 reais pelos
danos causados ao cliente que vocês devem pagar quando o Juiz de Pequenas Causas o
intimarem ....
Os dois técnicos, espantados, saíram muito contrariados da esquina do sucesso:
- Eu não falei - Nadão - que esse negocio de TV por assinatura era só papo-furado...
É mesmo, Midão. O negócio é a gente continuar na vila pedindo o " si mi
dão" mesmo.
E se nada dão, na dão mesmo.
E o seu irmão, completava elevando os ombros até ao pescoço e os braços como o do
Cristo crucificado, completava:
- Ta vendo - mais top-top - nós, ó, só levamos...
E assim continuam até hoje, como sempre foram, brasileiros, felizes para sempre