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Rio
+ 10, Terra - 10
por Adilson Luiz Gonçalves |
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Findo o maior evento sobre o meio ambiente do mundo, a conclusão mais
significativa que deixa é a de que não passou de uma aferição de cronometro
na contagem regressiva para caos ambiental.
O jornalista Milton Parron, com a sabedoria de seus vários anos de jornalismo e sua
sagacidade habitual, sintetizou com precisão como deve ser nossa preocupação com a
preservação ambiental: "A Terra é nossa casa! Se não cuidarmos bem dela ainda
não dá para mudar para o vizinho!"
Contrariando essa lógica, o discurso do representante dos EUA, Colin Powell, citando
frase do Presidente George W. Bush segundo a qual: "o comércio é o motor do
desenvolvimento", reduz a preocupação ambiental em níveis de mercado e
lucratividade. No caso, o problema não deve ser tratado como um negócio, mas como um
paciente rico que precisa fazer um tratamento caríssimo
para continuar vivo. Teoricamente, ele priorizará seu processo de cura, relegando seu
lucro, temporariamente, a um segundo plano. Afinal, de nada lhe valerá a riqueza se
perder a oportunidade de aproveitá-la ou ostentá-la!
Seguindo essa lógica, as decisões do evento justificam o coro dos delegados e
ativistas ambientalistas, que afirmam que foram traídos pelos governantes. Questões
como: emissão de poluentes, energia renovável, água potável, disposição final de
resíduos urbanos e industriais, e o extrativismo
predatório, apresentaram evolução tímida, senão imperceptível. E o maior paradoxo
ainda persiste: as nações, mesmo as mais pobres, ainda investem
mais em meios de destruição, altamente poluentes e duradouros (armamento químicos e
nucleares) do que na solução de problemas ambientais e sociais.
Os próprios EUA gastaram muito mais na Guerra do Golfo que o US$ 1 bilhão que prometem
investir em programas de desenvolvimento de tecnologias para
redução da emissão de poluentes. No mais, pode até fazer isso em seu território, mas,
dificilmente, nas fábricas que as multinacionais mantêm nos
países em desenvolvimento. Prova disso é que a exportação de resíduos ainda continua
sendo uma solução adotada por muitas nações desenvolvidas, sempre cercada de segredos
e com a conivência de governos ditatoriais e corruptos.
Mas será que é tão difícil implantar políticas de preservação ambiental?
Se a Rio+10 se limitou a sugerir metas, alguns países desenvolvidos já haviam
adotado, antes mesmo dela, objetivos formais com cronograma.
A Alemanha, por exemplo, já trabalha para que 15% de sua matriz energética seja
constituída de fontes renováveis ainda nesta década. Não é por acaso
que os "verdes" (Partido Verde) têm, nesse país, sua maior representação
parlamentar.
Enquanto isso, os EUA planejam uma nova guerra com o Iraque pensando mais em assegurar
suprimentos petrolíferos (como já o fez na do Golfo, aliás) do que na real ameaça que
seu antigo aliado, Sadam Hussein, representaria para o mundo.
As ONGs também têm exercido um importante papel na fiscalização e denúncia de
agressões ambientais. Paira sobre algumas, entretanto, a desconfiança de
serem financiadas por grandes corporações econômicas e políticas, com o intuito de
utilizá-las como instrumento de cerceamento de iniciativas de
desenvolvimento de nações emergentes.
Lavoisier sintetizou o princípio de que "nada se cria, tudo se transforma".
A reciclagem de resíduos urbanos e o aproveitamento de subprodutos industriais já
provaram sua viabilidade econômica em vários setores. Além das vantagens
comerciais, também têm se apresentado como importantes meios
de inserção social e mitigação dos aspectos mais nefastos da pobreza: a fome e o
desemprego. Programas de aproveitamento de sobras de produtos
alimentícios e de coleta seletiva de lixo urbano demonstram que a parceria entre governo,
iniciativa privada e comunidades carentes organizadas, pode
resolver problemas de matéria-prima e redução de custos de produção, com um valor
agregado de inestimável importância: o resgate da dignidade humana! No caso da coleta
seletiva a designação: "trabalhadores ecológicos" dada aos
"carrinheiros", é mais que politicamente correta.
Mas iniciativas como essas ainda são percentualmente insignificantes. Prova disso é que
os locais de disposição final de resíduos urbanos estão cada vez mais distantes,
elevando custos (impostos) e ampliando a degradação ambiental.
No caso dos resíduos e subprodutos industriais, o controle e redução dos níveis de
poluição dependem da reformulação e, na medida do possível,
integração de pólos produtivos. Estas providências, por sua vez, estão subordinadas
à convergência consciente de diretrizes governamentais e
interesses corporativos, aliados à efetiva participação de organismos de pesquisa
científica.
Tão importante quanto o ar é a água potável! Apenas, preocupante, 1% da água no mundo
está em condições de ser aproveitada para consumo humano. Nos grandes centros os
mananciais estão sendo buscados a distâncias cada vez
maiores, e os níveis dos lençóis subterrâneos estão diminuindo. O tratamento
quaternário - que devolve águas servidas à condição de potáveis - ainda é de
difícil implementação técnica e financeira. A captação de águas pluviais (chuva)
para aproveitamento em usos diversos (lavagem e descargas) surge como medida
imprescindível nas áreas urbanas e industriais. Mas a maior perversidade está na
dificuldade de acesso de alguns povos a esse bem elementar.
Já no âmbito da geração de energia mediante fontes renováveis (luz solar, vento,
biomassa, etc.), os avanços são mais significativos. A experiência
brasileira com a utilização do álcool combustível é um exemplo que deve ser retomado,
exorcizado dos "vícios" anteriores.
Mas ainda há que se investir muito na otimização de meios de captação,
distribuição, armazenamento, e na redução de custos da energia gerada tanto
pelos meios convencionais quanto pelos, hoje, alternativos. Até meios antes inusitados,
como as descargas elétricas atmosféricas - a não ser no
abstracionismo de gênios como Benjamin Franklin -, passaram a ser analisados.
No caso da energia nuclear - tecnicamente um dos meios mais eficientes de geração de
energia -, a neutralização da radioatividade dos resíduos
continuará a ser um sério desafio por muitos anos, pelo que sua utilização passou a
ser estrategicamente desaconselhável, ainda mais com os riscos agregados pela extinção
da URSS e pela crescente tensão político-econômica mundial.
É certo que as iniciativas podem ser adotadas individualmente, como a Rio+10 recomenda,
mas os objetivos de redução do aquecimento global e da poluição ambiental, da
preservação e recuperação de espécies animais e vegetais (e da própria espécie
humana, por conseqüência), e da eliminação das exclusões sociais só serão atingidos
com iniciativas generalizadas.
Só evitaremos que o mote "desenvolvimento sustentado" vire mito, se todas as
nações assumirem compromissos efetivos com o cumprimento das metas. Senão continuaremos
a ter protocolos e cartas de intenções inócuos, e cada vez
menos tempo para tomar providências que já não são mais preventivas, mas corretivas. E
como nas nossas casas, adiar a solução de problemas é
diretamente proporcional ao seu agravamento, até o limite do desabamento... do
irrecuperável... do definitivo.
A cobrança da população é fundamental, sim! Pois, ao contrário dos poderosos - que
sempre terão seus "bunkers" para se esconder e proteger - todo o impacto do que
já se fez, e do que não se fizer, caíra sobre nossas cabeças.
Esperemos que as próximas reuniões mundiais sobre o tema não sejam mais recheadas de
alertas e reiterações, mas de celebração de resultados
positivos efetivos.
Que nossas gerações possam conhecer esse tempo de retorno do equilíbrio da Natureza. E
que ele seja fruto da evolução intelectual dos seres humanos, e
não de sua extinção ou mutação genética! |
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