1
Nuvens escuras
Formam-se sobre a serra
" Talvez seja a chuva
Batendo à porta
De minha esperança!"
A chuva chega
Beijando a terra
Que
De tanta saudade
Abriu-se em fendas...
A terra
Arreganhada
Esperava a chuva
Prá ser fecundada
E dar forma à vida...
A vida se mostra
Tímida de primeiro,
Depois desavergonhada
Descarada,
Se espalha
E pinta de verde
O solo seco do sertão.
O sertão festeja
A graça que recebe
E acalenta o caboclo
Que, enfim, adormece
Para cobrir seus pesadelos
Com sonhos
De nuvens escuras
Formando-se sobre a serra...
2
Nuvens escuras
Escondem a Lua
Que orienta o caminho
De quem vai trabalhar
"- Acho que vai chover,
Mulher...
Vamos ter que voltar!"
Voltar ao barraco
E esperar pelo barranco
Que precisa moldar
Porque com chuva
Não dá
A chuva lava
O barro
Que desmancha
O sonho
De a vida alimentar
Desmancha-se a vida
Esperando até que o barro
Se torne tijolo
Telha
Cumeeira.
Torneia a telha
Que recobre a Segurança
De mudar sua cor
De família do barro
A argila solidifica
As mãos
Que enxugam a água
Que escorre da testa
Antes que o dia apite
E traga a massa
Que nutre seus sonhos
De construir uma vida
Que não aguarde
Nas noites de Lua
Escondida
Sobre as nuvens escuras
3
Nuvens escuras
Começam a se enrolar
Nas antenas
"- Mãe...vai chover
Como é que vai ser?"
Ela chega
Lentamente
Recobre o chão e
Descansa...
Volta, e
Rega as árvores
Banha os passarinhos
Desiste, e
Espanta o calor...
O calor não vai esta noite
Castigar o sono
Que a casa pequena
Não consegue velar
O sono intercala
As esperanças
Renova os desejos
Recria a fantasia...
A criança
Nos braços do sonho
Se conduz
Até bem perto das nuvens escuras
Com força ela as enfrenta
Assoprando...
Assopra tanto e
Com tanta força
Que até desmaia...
Seu corpo segue
Na cama de nuvens escuras
Enquanto no sonho
Luta
Prá que seja apenas
Mais um de seus pesadelos...
4
Nuvens escuras
Criaram pro Sol
Uma cortina
"- Se Sol não tem
O sal não cresce,
Nem seca ninguém"
Não bebe o Sol
A água
Onde se esconde o sal...
Se se esconde
O que faz
Prá água esticar?
Até onde a estica?
Até se fazer dissolver?
Dissolve-se a luz
Do seu olhar
De tanto que brilha
No branco do sal,
O Sol.
Resseca-lhe o rosto
De Sol
Enquanto inundam-se os pés
De sal
O sal da carne-seca
- A carne de Sol -
Destempera a vida
Que se faz de esperar
Que o Sol não se encubra,
Se inunde
Com as águas
Que escondem
O sabor do sal.
As nuvens escuras
Procuram evitar
Que seu corpo dissolva
Que seu corpo não tombe
Como as montanhas de sal...
5
Nuvens escuras
Mesclam-se ao azul-horizonte
Do mar
" - Já dá até prá adivinhar
O tamanho que vai ficar o mar"
Não vai dar prá sair
Não vai dar prá pescar
Nuvem escura
É perigo
É braveza do mar...
As ondas se formam
Se viram e carregam
Os peixes do fundo
À tona do mar
Onde se possa vê-los.
Ao sabê-los,
Cria fantasias, aventuras...
O peixe-alimento
Sustenta a esperança
Que suporta o dia
Todos os dias.
Cada dia é o contrato
Entre homem, barco e vida
Cada contrato confirma
A travessia da noite sombria
Na travessia não é possível
Sonhar
Porque o peixe não dorme
Se esconde, foge
E é preciso encontrar
A rede lançada
Embala a vigília
Que canta silenciosa
Para o mar conceder
Feliz
A coleta...
As nuvens escuras,
Tingiram o horizonte
Confundiram os peixes
Que nadaram prá lá...
Não vai dar prá pescar...
6
Nuvens escuras
Misturam-se ao cinza
Da cidade
E se desmancham
Em líquido estranho
"- Seria chuva?
Mijo?
Arrumação?
Seria o quê?
Pinga?"
Cada gota
Faz da nuvem
Um vergalhão
Ferindo a vida
Que se esguelha
Ao léu!
A vida esquecida
Nada sabe
Do ciclo da água
Da seca
Da olaria
Inundação...
Salina ou
Pescaria...
Essa vida ignorada
Desaprendeu
A vida
A razão...
O medo
O sonho
O sonho criou forma
E levou para o cinza das nuvens
A esperança
Que devolveu como pesadelo vivo
Para escorrer pelos viadutos
Como nuvens escuras
A se desmanchar...
MAIO/1999