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Revista Partes ano II setembro de 2002 n.25

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Poesia

Sextuplos
por Eduardo P. Berardi Jr.

 

1
Nuvens escuras

Formam-se sobre a serra

" – Talvez seja a chuva

Batendo à porta

De minha esperança!"

A chuva chega

Beijando a terra

Que

De tanta saudade

Abriu-se em fendas...

A terra

Arreganhada

Esperava a chuva

Prá ser fecundada

E dar forma à vida...

A vida se mostra

Tímida de primeiro,

Depois desavergonhada

Descarada,

Se espalha

E pinta de verde

O solo seco do sertão.

O sertão festeja

A graça que recebe

E acalenta o caboclo

Que, enfim, adormece

Para cobrir seus pesadelos

Com sonhos

De nuvens escuras

Formando-se sobre a serra...

 

2

Nuvens escuras

Escondem a Lua

Que orienta o caminho

De quem vai trabalhar

"- Acho que vai chover,

Mulher...

Vamos ter que voltar!"

Voltar ao barraco

E esperar pelo barranco

Que precisa moldar

Porque com chuva

Não dá

A chuva lava

O barro

Que desmancha

O sonho

De a vida alimentar

Desmancha-se a vida

Esperando até que o barro

Se torne tijolo

Telha

Cumeeira.

Torneia a telha

Que recobre a Segurança

De mudar sua cor

De família do barro

A argila solidifica

As mãos

Que enxugam a água

Que escorre da testa

Antes que o dia apite

E traga a massa

Que nutre seus sonhos

De construir uma vida

Que não aguarde

Nas noites de Lua

Escondida

Sobre as nuvens escuras

 

3

Nuvens escuras

Começam a se enrolar

Nas antenas

"- Mãe...vai chover

Como é que vai ser?"

Ela chega

Lentamente

Recobre o chão e

Descansa...

Volta, e

Rega as árvores

Banha os passarinhos

Desiste, e

Espanta o calor...

O calor não vai esta noite

Castigar o sono

Que a casa pequena

Não consegue velar

O sono intercala

As esperanças

Renova os desejos

Recria a fantasia...

A criança

Nos braços do sonho

Se conduz

Até bem perto das nuvens escuras

Com força ela as enfrenta

Assoprando...

Assopra tanto e

Com tanta força

Que até desmaia...

Seu corpo segue

Na cama de nuvens escuras

Enquanto no sonho

Luta

Prá que seja apenas

Mais um de seus pesadelos...

 

4

Nuvens escuras

Criaram pro Sol

Uma cortina

"- Se Sol não tem

O sal não cresce,

Nem seca ninguém"

Não bebe o Sol

A água

Onde se esconde o sal...

Se se esconde

O que faz

Prá água esticar?

Até onde a estica?

Até se fazer dissolver?

Dissolve-se a luz

Do seu olhar

De tanto que brilha

No branco do sal,

O Sol.

Resseca-lhe o rosto

De Sol

Enquanto inundam-se os pés

De sal

O sal da carne-seca

- A carne de Sol -

Destempera a vida

Que se faz de esperar

Que o Sol não se encubra,

Se inunde

Com as águas

Que escondem

O sabor do sal.

As nuvens escuras

Procuram evitar

Que seu corpo dissolva

Que seu corpo não tombe

Como as montanhas de sal...

 

5

Nuvens escuras

Mesclam-se ao azul-horizonte

Do mar

" - Já dá até prá adivinhar

O tamanho que vai ficar o mar"

Não vai dar prá sair

Não vai dar prá pescar

Nuvem escura

É perigo

É braveza do mar...

As ondas se formam

Se viram e carregam

Os peixes do fundo

À tona do mar

Onde se possa vê-los.

Ao sabê-los,

Cria fantasias, aventuras...

O peixe-alimento

Sustenta a esperança

Que suporta o dia

Todos os dias.

Cada dia é o contrato

Entre homem, barco e vida

Cada contrato confirma

A travessia da noite sombria

Na travessia não é possível

Sonhar

Porque o peixe não dorme

Se esconde, foge

E é preciso encontrar

A rede lançada

Embala a vigília

Que canta silenciosa

Para o mar conceder

Feliz

A coleta...

As nuvens escuras,

Tingiram o horizonte

Confundiram os peixes

Que nadaram prá lá...

Não vai dar prá pescar...

 

6

Nuvens escuras

Misturam-se ao cinza

Da cidade

E se desmancham

Em líquido estranho

"- Seria chuva?

Mijo?

Arrumação?

Seria o quê?

Pinga?"

Cada gota

Faz da nuvem

Um vergalhão

Ferindo a vida

Que se esguelha

Ao léu!

A vida esquecida

Nada sabe

Do ciclo da água

Da seca

Da olaria

Inundação...

Salina ou

Pescaria...

Essa vida ignorada

Desaprendeu

A vida

A razão...

O medo

O sonho

O sonho criou forma

E levou para o cinza das nuvens

A esperança

Que devolveu como pesadelo vivo

Para escorrer pelos viadutos

Como nuvens escuras

A se desmanchar...

MAIO/1999

 






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