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Revista Partes ano II setembro de 2002 n.25

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Homo Politicus
por Adilson Luiz Gonçalves
Uma questão bastante interessante e instigante, formulada com freqüência, é: de que vivem os candidatos? Após estudos profundos chegou-se a uma tese, um tanto heterodoxa, mas baseada (ligeiramente) no modelo clássico estabelecido por Lineu. Inicialmente, precisamos caracterizar a espécie e seus estágios evolutivos. Temos, então, o "homo politicus" que, em seu estágio embrionário
denomina-se "homo candidatus". O "homo politicus" , como todas as espécies ivas, apresenta variedades com características diferenciadas. Dentre elas
podemos citar: o "homo politicus honestus", o "homo politicus idealistae" e o "homo politicus genericus".

Como as duas primeiras são de ocorrência raríssima (vários especialistas as consideram em fase de extinção sem possibilidade de clonagem) e, portanto, pouco representativas da espécie, analisaremos somente a última, que é dominante, a qual passaremos a chamar, doravante: "homo politicus" simplesmente. Ressalte-se que a importância do
estudo dessa espécie advém do fato que dentre os seres vivos trata-se do gênero mais "vivo".
Pesquisas com o método "Carbono 14" indicam que sua origem se confunde com a do "homo sapiens". Naturalistas defendem que é, na verdade, uma degeneração desta. Darwin, inclusive, chegou a estuda-lo como possível "elo perdido", mas chegou a conclusão que essa espécie não tem capacidade de unir nada, só dividir. Já os esotéricos acreditam que descende dos primeiros anjos caídos antes do Gênesis.

O "homo politicus" é uma espécie híbrida, portando características de várias outras, a saber: mamífero (adora mamar nas tetas da nação), peçonhento
(destilando o veneno da intriga e da boataria) e predador por excelência, estando no topo da cadeia (melhor seria trancafiado numa, com a chave jogada
fora) parlamentar, digo, alimentar. Por suas diferentes formas de manifestação e evolução, foi cogitado como possível personagem da série "Pokémon". Foi descartado, entretanto, pois
ninguém conseguiu identificar quem seriam seus mestres treinadores e seus reais propósitos.
Vivem em bandos, denominados "partidos políticos", onde ocorre intensa luta pela liderança. Os derrotados mudam de bando de acordo com seus interesses de poder. De vida promíscua, têm atividade sexual ativa. Apesar de praticarem atos sexuais consensuais entre si com relativa freqüência (graves acusações de corrupção que acabam por isso mesmo), têm preferência em faze-lo, de forma violenta, arbitrária e unilateral, com seus hospedeiros: o povo.

Sua face é constituída de material vegetal lenhoso de extrema dureza ("cara-de-pau"); a coluna vertebral apresenta acentuada curvatura entre a
primeira e a décima vértebra, provocando o deslocamento frontal da cabeça com restrição do foco visual ao umbigo. Estudos anatômicos comprovaram a ausência de coração e a simbiose entre o cérebro e o intestino, esta última
responsável por um aparelho excretor contingente, com prodigiosa alternância de disposição externa por via retal ou oral.
Apresentam organismos extremamente adaptáveis ao meio, tendo o parasitismo e o mimetismo como principais características. São, no entanto, extremamente virulentos, epidêmicos e de difícil erradicação. Recentemente, o Laboratório
"Democracia Brasileira" desenvolveu um protótipo de vacina denominado "voto". No Brasil, em fase de testes, ainda não apresentou resultados convincentes. Foi recomendada sua utilização associada a outros medicamentos, como o "CPI" e a "Justiça", sob forma de coquetel, mas ambos
apresentaram problemas de contaminação de princípio-ativo. O máximo que se conseguiu foi a ocultação do vírus, em estado latente, por um curto lapso de tempo. Cessada a validade do tratamento ele ressurgiu, no mesmo ou em outro local, com virulência e capacidade letal redobradas.
O problema é que o "homo politicus" está sempre em mutação involutiva (degenerativa) e multiplicação em escalas geométricas, prejudicando seu
controle e colocando as demais espécies em risco.

Dentre os sintomas que provocam nestas destacamos: fome, desemprego, ignorância, analfabetismo, degradação moral, violência, empobrecimento, devastação e corrupção. Mas também sofrem de algumas anomalias tais como:
amnésia seletiva (só lembram do que interessa), analgesia moral tópica (ficam insensíveis ao sofrimento dos outros), macro-cleptomania com o erário público, síndrome de retenção caudal ("rabo preso") e distúrbios neurológicos e psiquiátricos graves caracterizados pela crença de que estão
sempre certos e pela absoluta falta de nacionalismo.
O estado embrionário: o "homo candidatus" pode se transformar no "idealistae", no "honestus", ou cair no lugar comum do "genericus". Só saberemos após a vacinação. Mas já podemos, a olho nu, identificar
propensões genéticas: os padrinhos e antepassados políticos, o sorriso sardônico, o ar de inspiração divina, o discurso requentado e padronizado do
"eu sou diferente" (independentemente de bando, perdão, partido), a contradição entre o discurso e a prática, a teatralidade e a crença  inabalável que os hospedeiros são idiotas passivos capazes de acreditar que eles gastam fortunas (muito maiores do que os valores que receberão durante
seus mandatos) para se elegerem, ou não, por altruísmo e firme vontade de propiciar bem-estar ao próximo.

Do que vivem os candidatos? Poucos de seus ideais, mas muitos de financiamentos obscuros, reembolsáveis com vantagens e dinheiro público (se
os elegermos), vilipendiando nossa esperança em dias melhores, sugando nosso sangue e carcomendo o país.
Sendo obrigatório ou não, sendo eficiente ou não: vacine-se!
 


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Adilson Luiz Gonçalves
Engenheiro Civil, Professor Universitário e Perito-Avaliador

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