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Direto de Johanesburgo, África do Sul, 1/09/2002
É possível combater a pobreza através das forças de mercado? No fundo esta é a grande
questão que divide os países no Fórum Mundial do Desenvolvimento Sustentável que se
realiza aqui em Johanesburgo, a forma simpática como é conhecida Johanesburgo, esta
moderna cidade de clima muito parecido com o do Centro-Oeste brasileiro (a 2 mil metros
acima do nível do mar, as noites são frias neste final de inverno e a baixa umidade
relativa do ar faz lembrar Brasília). Os contrastes, ainda baseados nas diferenças entre
brancos e negros que não se misturam, estão por toda parte. Johanesburgo é a cidade dos
condomínios protegidos por guardas privados e cercados por muros e cercas eletrificadas,
belíssimos edifícios e luxuosos shoppings, com uma das maiores concentrações de
automóveis top de linha do mundo rodando por amplas estradas e avenidas sem ondulações
ou buracos. Sem acesso a estas facilidades permanece a maioria da população que é
negra, mas que conquistou a democracia há menos de uma década e agora luta pelo seu
espaço.
O mercado, que se baseia no lucro, precisa dar uma resposta a 1,2 bilhão de pessoas que
vivem com menos de 1 dólar por dia, 90% delas na África e na Ásia, contingente que
aumentou em número desde a conferência do Rio de Janeiro há 10 anos atrás. É cada vez
mais evidente que se a resposta não for satisfatória, na próxima década a chamada
globalização chegará a um beco sem saída. As possibilidades de acordo são discutidas
pelo chamado Grupo de Viena, no qual participam tanto os países desenvolvidos
(basicamente Estados Unidos, Canadá, União Européia, Japão, Austrália e Nova
Zelândia) quanto os; em desenvolvimento; que se concentram no, Grupo dos 77, que na
verdade já está com mais de 130 países entre os quais o Brasil. O texto básico de 71
páginas com 153 parágrafos está sendo discutido linha a linha. Há um consenso de que
para reduzir a pobreza e a degradação ambiental dentro de um quadro de desenvolvimento
sustentável o sistema das Nações Unidas deverá!
dar prioridade a ações concretas nos campos da energia, água, saúde, educação,
produção agrícola e biodiversidade. Fala-se em erradicação da pobreza e da miséria
do mundo, mas as concordâncias desaparecem quando se trata de comprometer os países
ricos com o dinheiro necessário para isto.
O Banco Mundial estima que será preciso duplicar os recursos hoje destinados a
assistência para o desenvolvimento (de 57 bilhões de dólares para cerca de 120 bilhões
ao ano) e o economista Jeffrey Sachs, que é assessor direto do Secretário-Geral da ONU,
depois de criticar os países ricos por não terem cumprido suas promessas anteriores
propôs a doação de 25 bilhões de dólares anuais, quantia suficiente para salvar 8
milhões de vida ao ano de acordo com a Organização Mundial da Saúde. É exatamente a
criação do Fundo mundial de solidariedade para erradicar a pobreza e promover o
desenvolvimento social e humano; e a forma de custeá-lo que gera os desacordos. Na
linguagem técnica do Fórum, o problema está nos meios de implementação, ou seja, em
como as decisões serão levadas à prática. O Brasil, com um trabalho competente do
Itamarati, coordena este capítulo fundamental no Grupo dos 77, lutando para aprovar uma
destinação de até 0,9% do PIB das nações ricas para as demais.
A divisão entre os vários mundos em parte está reproduzida na forma de organização do
Fórum que acontece em três espaços de Johanesburgo: o Centro de Convenções de Sandton
onde só são admitidos delegados oficiais de cada país; o centro de Ubuntu com a
exposição das experiências e materiais de desenvolvimento sustentável e por último os
pavilhões de Nasrec, a quilômetros de distância de Sandton, onde foram confinadas as
ONGs. É preciso autorização especial para cada local, mas a visita a todos eles vale a
pena. Em Nasrac o ambiente é mais descontraído e livre. Lá estão quase todos os grupos
de pressão social, desde os espiritualistas da Falun Gong que desafiam as autoridades
chinesas, até grupos de vegetarianos, pacifistas de várias índoles, palestinos
protestando contra Israel, um grupo dos Amigos da Terra; que tem um texto de decisões
alternativo para substituir integralmente o documento oficial que os delegados analisam.
Outra ONG clama que o mundo não é para ser vendido e edita diariamente um jornalzinho de
resistência ao Fórum. O Greenpeace é incansável e seus ativistas invadiram a maior
empresa química local e uma das maiores do mundo (pertencente à Dow Chemicals), portando
máscaras contra gases. A polícia metropolitana age com rigor e exerce rígido controle
em torno de Sandton e em toda a cidade. Nenhum incidente maior ocorreu nesta cidade
(conhecida por sua elevada criminalidade) desde o início do Fórum, segundo declarações
da porta-voz do comando policial local, embora o centro tradicional da cidade; de onde os
brancos saíram desde o fim do apartheid - continue sendo uma área proibida para
visitantes distraídos.
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