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Revista Partes ano II outubro de 2002 n.26

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Cinema Paradiso
por Adilson Luiz Gonçalves
São muitas as características que os pais podem transferir para os filhos.
Algumas - como as genéticas - são heranças involuntárias, mas outras são fruto do convívio e da formação moral, lapidando traços de personalidade que nos acompanharão por toda a vida. Destas, não há nenhuma que sobrepuje o compartilhamento de paixões.
Herdei de meus pais duas grandes paixões: de minha mãe, pela música; de meu pai, pelo cinema.
Como todas as paixões que se prezem, minha vontade era respirá-las e esmiuçá-las em cada momento, mas a vida não nos concede, com raras exceções, a benção de viver do que nos dá prazer. Isto, no entanto, torna cada momento possível mágico e inesquecível.

A sétima arte tem um significado especial em minha vida. Tive bronquite até os seis anos de idade, com crises freqüentes, que me impediam de brincar na
rua, como a maioria das crianças de meu bairro. A alternativa era a televisão: uma enorme "Philco", de vinte e três polegadas, a primeira que meu pai e minha mãe compraram: ele com o sacrifício de dois empregos e poucas horas de sono, ela com sua mão mágica de costureira.
Eu tinha, então, três anos, e me lembro dos filmes de Chaplin, aos domingos, das séries famosas e, até, do que teria sido o primeiro filme dublado exibido na TV: "As Aventuras do Padre Brown", com o saudoso Alec Guinness.
A paixão iniciada com a televisão preto e branco ganhou cores e dimensões colossais graças a um dos empregos de meu pai: projecionista de cinema.
Trabalhando todas as noites e fins de semana - a família de cinco filhos e a meta da cada própria exigiam -, foi ele quem me revelou esse mundo
maravilhoso. Pela sua mão conheci algumas das dezenas salas que existiam em Santos, nos anos 1960 e 70, desde as mais suntuosas até as de bairro.
Freqüentei os "Pullmans" vazios das seções vespertinas, que me faziam sentir grande na inocência da infância, e comi todas as jujubas, pastilhas coloridas e balas de framboesa que tinha direito. Mas era na sala de projeção que o sonho, em vez de desfeito, ganhava a força do fascínio.
Meu pai era mestre em sua arte. Para ele não bastava projetar um filme. Ele captava seu espírito, brincava com o volume para aumentar o impacto de um susto, e orgulhava-se de não perder o tempo da transição dos projetores.

Eu tinha o mesmo prazer do menino do filme ao ver meu pai abrir os rolos, colar a película gasta da cópia usada, ou rebobinar a novinha "em folha" do
lançamento (adivinhem quem "pilotava" manivela?). A intensa luz do arco do carvão de então, iluminava os labirintos que a película percorria até que,
polarizada nas lentes, transformava os vinte e quatro fotogramas por segundo em ilusão de movimento. Colocar os discos da música ambiente e acionar o tradicional sinal de início da projeção era o máximo! Eu também fiz parte dos sonhos de muitas pessoas sem saber!
Com o tempo, o vídeo, a TV a cabo, o "home theatre", a especulação imobiliária, o trânsito e a insegurança da cidade, fecharam quase todas as
salas que eu freqüentava na minha infância e adolescência. As que sobraram lutam para sobreviver onde já foi a "Cinelândia" santista.
Hoje, meu pai não projeta mais filmes, mas eu ainda os vejo em seus olhos, nas memórias que compartilhamos: dos domingos que convivemos; do lanche, fresquinho e cuidadosamente preparado por minha mãe, que eu era incumbido de lhe levar (doce obrigação); das broncas por espiar filmes que ele
considerava impróprios para mim, antes de voltar para casa; e nas disputas que ainda temos para ver quem lembra do nome do filme... do nome do ator...
do nome do diretor... do estúdio...
As salas dos "shoppings" têm todo o conforto, mas não têm a mágica das de outrora. Também não tenho mais a liberdade de entrar na sala de projeção e nem é meu pai que está lá. Tenho que, simplesmente, me sentar na poltrona -
como o adulto em que o menino do filme se transformou, ao final deste - e aguardar que as luzes se apaguem, como sempre, mas sem o inesquecível som dos carrilhões e a emoção das cortinas se abrindo.Mas a nostalgia se vai quando a tela se ilumina e surgem as imagens em movimento!

Nesse breve lapso de tempo, as agruras da vida moderna - com suas cobranças, seus medos e suas injustiças - se esvaem em benfazeja alienação, que sacia qual néctar, redobrando o ânimo para enfrentá-las, depois.
Transporto-me, em irresistível arrebatamento, para o universo dos cenários, das tramas e dos personagens. Nesse momento retomo em plenitude a consciência dessa paixão sem medidas que meu pai me transmitiu e, voltando ao meu tempo de infância e inocência, realizo, intensamente, que podemos ser eternamente jovens e bons enquanto cultivarmos e transmitirmos nossos sonhos e paixões!
 


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Adilson Luiz Gonçalves


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