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Revista Partes ano II outubro de 2002 n.26

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Reflexão

O povo guarani
por Eliane Potiguara

O Povo Guarani é um dos maiores povos indígenas do Brasil, situado na América Latina. Atualmente somam cerca de trinta mil pessoas, distribuídos nos Estados do Mato-Grosso-do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S. Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, comportados nas Regiões Oeste, Leste e Sul do Brasil. Os países vizinhos ao Brasil, como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia possuem também, essa tão espiritualizada etnia indígena. Nos séculos XVII e XVIII somavam para mais de dois milhões de indígenas, só no Brasil.

Os indígenas Guarani de todos esses países possuem cultura milenar, baseada em sua ancestralidade histórica, política e organizativa: "ñanderekó, nanderekó, arandu" é sua visão de mundo, sua cosmologia, seu jeito de ser. Dotados de extrema espiritualidade, usufruem dela como sua autêntica religião que séculos e séculos, o sistema político por um lado, e jesuítico por outro, tentou deflagrar, apesar das boas intenções. Povo "combativo e guerreiro", nas suas convicções culturais, detém conhecimentos ancestrais da mais elevada categoria, baseados na língua indígena, também chamada Guarani, preservada até os dias de hoje, após sofrer milhares de pressões, políticas, econômicas e ético-culturais.

O Guarani tem como essência de vida, isto é, sua marca étnica, a grande prática do "caminhar" que significa em língua guarani "guata". O caminhar significa também evoluir e fortalecer-se espiritualmente. Essa prática do caminhar, faz parte do movimento migratório dos guarani desde o tempo da colonização. Esse caminhar constante é justificado pelo yvý opa, a busca da terra sem males, que aqui definimos como uma terra que os permita viver com dignidade, sem interferências paternalistas, enfim, um paraíso mítico de sua ascendência. Esse caminhar cobre uma grande extensão, que vai do norte da Argentina (no caso do sub-grupo Mbyá) e da Serra de Mbaracaju (no caso do sub-grupo Xiriá ou Nhandeva) até o litoral do Estado do Espírito Santo, passando por todos os Estados citados no início do texto.

Sepé Tiaraju, uma das maiores lideranças do século XVIII, foi assassinado por um português pela frente e um espanhol pelas costas, simultaneamente, na batalha de 7 de fevereiro de 1756, em Bagé, no Rio grande do Sul, Brasil, depois de CAMINHAR com seus guerreiros, dias, meses e anos a pé, fazendo negociações entre os países que cobriam as Bacias dos Rios Paraguai, Paraná e Uruguai, objetivando os Direitos Indígenas daquele povo que estava sendo massacrado, pela escravidão, pela imposição de uma política européia que já vivia desde o século XVI, a decadência moral, política e econômica, principalmente Portugal e Espanha que impuseram o Tratado de Tordesilhas (1494) e o Tratado de Madri (1750),Tratados esses que dividia e entregava o Brasil entre eles e que só trouxe, durante um século e meio, o desrespeito à cultura Guarani.

Tanto no passado, quanto no presente vemos ainda as mesmas denúncias que afetam a cosmologia dos povos indígenas tais como: "Quando o branco chegou na nossa terra, índio pensava que branco era do lado de Deus, índio pensava que Deus tinha vindo visitar".

De fato, branco tem tudo e índio não tem nada: branco tem arame farpado, nós não temos; branco tem livro, nós não temos; branco tem machado de ferro, nós não temos; branco tem carro, nós não temos; branco tem avião, nós não temos (...). Mas branco veio e roubou as nossas terras e índio não podia mais caçar. Falou que as terras boas eram dele, falou que os peixes dos rios e dos lagos eram deles. Depois trouxe as doenças. Depois se aproveitou de nossas mulheres. E o índio se revoltou. Então o branco matou os nossos avós, matou-os, massacrou-os muito e o índio fugia tão rápido como a coisa mais rápida. Então o índio entendeu que o Deus do branco era ruim ". UM CHEFE DA NAÇÃO MACUXI, Jornal do Brasil, 10/07/1980".

De dois milhões que eram os guarani, hoje somam 30 mil pessoas. Realmente foram exterminados, mas ficaram filhos e filhas de líderes assassinados na atualidade como Marçal Tupã-y, o pequeno DEUS (líder indígena Guarani assassinado em 25 de novembro de 1983, por defender o seu povo), que pensava como o Chefe Maxuxi e que, como outros, criaram consciência para as próximas gerações: " Já não podemos nós, os guarani, calar-nos agora, diante dos estrangeiros"(Marçal Tupã-Y /1982);"Eu não fico quieto não, eu reclamo... Eu falo... Eu denuncio...; " A bomba atômica é uma ameaça constante. Quem a programou? Quem deseja realmente a paz mundial? Porque os covardes ameaçam com seus aparatos bélicos": E nós éramos...E nós somos ainda uma nação espoliada, explorada;esfolada"( Marçal Tupã-Y/discurso em reunião do movimento indígena brasileiro nas Ruínas de S.Miguel, no Estado do Rio Grande do Sul, aldeamento indígena criado pelos jesuítas para apoiar o povo de Sepé Tiaraju, destruído no período da colonização. De uns anos para cá a consciência indígena guarani tem-se sobre-elevado e sua auto-estima começa a despontar como a ponta de um iceberg, assim como para mais de 400 mil indígenas que ressurgiram _ COMO QUE UM SONHO_ dos cantões das cidades, justamente como índios desaldeados, da maneira como revelou o CENSO do IBGE (Instituto Brasileiro Geográfico e Estatístico), em pesquisa feita em 2000. Surgirão muito mais, neste século, os índios descendentes, com caras e histórias de índios e índias e ignorados pela ciência burguesa, pois esse contingente indígena nunca mais terá vergonha e medo de assumir sua identidade indígena por sofrer a discriminação social, racial e a intolerância cultural e religiosa sobre sua cosmovisão de vida.

Menos de 50% das terras Guarani estão demarcadas e asseguradas juridicamente e muitas delas estão ameaçadas pela sobreposição de Unidades de Conservação Ambiental em seu território, projetos governamentais planejados sem passar pela consulta aos guarani.

Os Guarani desde o passado, quando o Projeto Jesuítico chamado de "REPÚBLICA DOS GUARANI", foi implantado como um projeto assistencial, de defesa e de desenvolvimento aos moldes da Igreja católica contra os colonizadores chamados de "Entradas e Bandeiras" , _ até hoje, plantam a erva-mate, que constitui-se numa planta que produz um chá bem quente denominado chimarrão ou um chá bem frio, denominado tererê, e que ficou como marca cultural de todo o povo não indígena do Sul do Brasil, nos dias atuais.

Utilizam a agricultura de subsistência (mel do mato, palmito, banana, mandioca, milho e feijão) e a conservam de forma tradicional, assim como sua língua, religião, educação e organização social. Utilizam com muita ênfase a prática da medicina tradicional e a valorização dos cânticos e dos pajés. Produzem e vendem artesanatos, cerâmicas, tecelagens, arcos e flechas para a caça e pesca.

Os guarani do passado junto com o padre alemão Sepp, no século XVII, no citado Projeto República Guarani, descobriram o ferro e passaram a produzir sinos para Igrejas e aldeamentos, com mão-de-obra indígena, assim como centenas de atividades faziam parte do cotidiano daqueles guarani, como aprendizagem de línguas estrangeiras, matemática, astrologia, artes, etc. Depois do massacre imposto pelo Marquês de Pombal, grande parte da população guarani foi exterminada e conduzida à escravidão. Quando iam pra lavoura, cabisbaixos realizavam suas tarefas com muita dor, muitos se suicidavam. E a melancolia surgia como uma centelha de esperança para um novo momento. A luta dois guarani foi muito sacrificada ardorosa, mas hoje esse povo canta a alegria de sua identidade e dignidade reconstruídas. As crianças e adolescentes guarani já têm um patrimônio cultural registrado mecanicamente, através de CDs, para a posteridade.

As orações dos guarani consideradas demoníacas para os jesuítas, eram na realidade o que são hoje, a verdadeira expressão das crenças e espiritualidades indígenas. As orações são dirigidas ao sol, ao criador, aos espíritos, aos ancestrais. A alma é universal e Deus é supremo, um grande ancestral. Nas danças, embebidos pela erva-mate ou uma bebida tradicional oriunda do Kurupá que causa uma excitação, divertem-se e entram em contato com os espíritos. O pajé, costumeiramente, toma bebida para prever o futuro ou curar. Os espíritos dos mortos permanecem por algum tempo em suas moradas. Esses espíritos têm grande poder sobre os vivos. Esse povo desconhece castigos, punições ou coações às crianças ou ao seu semelhante.

Organização Social, Política e Econômica dos guarani do passado

Segundo o Dr. Bevilaqua no Congresso de História Nacional (1915), os guarani antes da colonização estrangeira possuíam organização política definida. Se havia defeitos, vícios, deve-se ao fato de o domínio guarani ser extenso demais e também deve-se relevar as diferenças climáticas, os meios distintos, as diferentes necessidades de cada grupo.

Aos Guarani não se cabia o termo "clãs" e sim nações, pátrias, como é o conceito atual do Movimento Indígena Internacional, termo esse designado ""Povos Indígenas", conquistado nas lutas em várias instâncias para que tal termo fosse efetivamente substituído na Declaração Universal dos Direitos Indígenas, Declaração essa que foi trabalhada durante vinte anos, pelos PRÓPRIOS POVOS INDÍGENAS, ao lado dos governos, no Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas, na Sub-Comissão contra a Discriminação e Proteção de Minorias, na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU), de 1981 até 2001, culminando na vitória da constituição de um Fórum Permanente para Povos Indígenas, ocupados por indígenas dentro do Sistema da ONU.

O passado Guarani significava total liberdade de ação e pensamentos. Eram independentes e autônomos. A liberdade individual de cada um era por demais respeitada e se não estavam satisfeitos com a sua organização tinham a total liberdade de emigrar. Reinava o interesse comum e a igualdade absoluta dos direitos. Desconheciam a disciplina convencional. Existia o diálogo e respeito mútuo e possuíam forma de falar direta, sem rodeios. Não havia poder central, devido a independência individual. Caciques, líderes, anciãos não eram posições que denotavam poder. Esses elementos formavam sim, um CONSELHO , onde discutiam as questões sociais e políticas e deliberavam juntos em uníssono a resolução de um determinado assunto. Davam títulos ás leis de organização: "TEKOMONÃNGAVA", literalmente significa " o que faz a vida ".

Lamentavelmente os livros do passado e do presente não registram as formas de vida do povo Guarani. Temos muitos conceitos determinados pelos antropólogos, estudiosos da questão, dos padres, mas conceitos dos próprios guarani tem sido difícil encontrar, designados pelos próprios guarani, com exceção de Bertoni, um dos primeiros antropólogos indígenas e guarani que escreveu sobre a mulher indígena, verdadeiramente colocando-a num patamar muito digno, onde o matriarcado predominava. Esse estudioso, autêntico sociólogo guarani, pesquisou durante vinte anos a cultura de seu povo e criticou veementemente a maioria dos estudos feitos pelos cientistas que se dedicaram ao estudo desse povo. O índio guarani e sociólogo Bertoni acreditou que os antropólogos distanciavam-se demais da realidade guarani, por não poder, na prática, internalizar a identidade indígena. Só um índio Guarani ou uma outra pessoa indígena detém esse conhecimento tradicional até ancestral por ter uma visão cosmológica real oriunda de sua própria história, tradições e cultura.

ELIANE POTIGUARA

Fragmentos de seu livro "metade Cara, Metade Máscara

 


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GRUMIN/Rede de Comunicação Indígena sobre Gênero e Direitos
www.grumin.hpg.com.br
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Email: elianepotiguara@terra.com.br

Índios terão centro de educação especial em São Paulo

A Prefeita Marta Suplicy apresentou no dia 8 de outubro, junto com a Secretária da Educação, Eny Maia, a maquete dos novos Centros de Educação e Cultura Indígena, os Cecis. O Projeto foi desenvolvido pela Prefeitura em parceria com representantes das tribos guaranis localizadas dentro do município de São Paulo: Krukutu, Tenonde Porã e Jaraguá Ÿtu. O projeto nasceu da constatação de que é necessário um ensino diferenciado aos povos indígenas, garantindo-lhes o direito à sua identidade cultural.

Os Cecis vão oferecer espaço escolar adequado, alfabetizando as crianças guaranis entre 4 e 6 anos na sua língua materna --português também será ensinado, mas como língua estrangeira. As aulas serão ministradas por representantes das aldeias e por professores da rede municipal capacitados por indigenistas. Terão também aulas de informática, uma varanda para a leitura e espaço para a exposição de artesanatos. "A Prefeitura de São Paulo, pela primeira vez, está fazendo a sua parte", declarou o cacique Manuel Lima. O objetivo dos Cecis, segundo a Prefeita, é preservar a cultura indígena. Marta disse ainda que incluir é "ouvir os outros, e não forçá-los a se adaptar ao que consideramos certo ou melhor. E este é o governo da inclusão".


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