O
Povo Guarani é um dos maiores povos indígenas do Brasil, situado na América Latina.
Atualmente somam cerca de trinta mil pessoas, distribuídos nos Estados do Mato-Grosso-do
Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S. Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do
Sul, comportados nas Regiões Oeste, Leste e Sul do Brasil. Os países vizinhos ao Brasil,
como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia possuem também, essa tão espiritualizada
etnia indígena. Nos séculos XVII e XVIII somavam para mais de dois milhões de
indígenas, só no Brasil.
Os indígenas Guarani de todos esses países possuem cultura
milenar, baseada em sua ancestralidade histórica, política e organizativa:
"ñanderekó, nanderekó, arandu" é sua visão de mundo, sua cosmologia, seu
jeito de ser. Dotados de extrema espiritualidade, usufruem dela como sua autêntica
religião que séculos e séculos, o sistema político por um lado, e jesuítico por
outro, tentou deflagrar, apesar das boas intenções. Povo "combativo e
guerreiro", nas suas convicções culturais, detém conhecimentos ancestrais da mais
elevada categoria, baseados na língua indígena, também chamada Guarani, preservada até
os dias de hoje, após sofrer milhares de pressões, políticas, econômicas e
ético-culturais.
O Guarani tem como essência de vida, isto é, sua marca étnica, a grande prática do
"caminhar" que significa em língua guarani "guata". O caminhar
significa também evoluir e fortalecer-se espiritualmente. Essa prática do caminhar, faz
parte do movimento migratório dos guarani desde o tempo da colonização. Esse caminhar
constante é justificado pelo yvý opa, a busca da terra sem males, que aqui definimos
como uma terra que os permita viver com dignidade, sem interferências paternalistas,
enfim, um paraíso mítico de sua ascendência. Esse caminhar cobre uma grande extensão,
que vai do norte da Argentina (no caso do sub-grupo Mbyá) e da Serra de Mbaracaju (no
caso do sub-grupo Xiriá ou Nhandeva) até o litoral do Estado do Espírito Santo,
passando por todos os Estados citados no início do texto.
Sepé Tiaraju, uma das maiores lideranças do século XVIII, foi assassinado por um
português pela frente e um espanhol pelas costas, simultaneamente, na batalha de 7 de
fevereiro de 1756, em Bagé, no Rio grande do Sul, Brasil, depois de CAMINHAR com seus
guerreiros, dias, meses e anos a pé, fazendo negociações entre os países que cobriam
as Bacias dos Rios Paraguai, Paraná e Uruguai, objetivando os Direitos Indígenas daquele
povo que estava sendo massacrado, pela escravidão, pela imposição de uma política
européia que já vivia desde o século XVI, a decadência moral, política e econômica,
principalmente Portugal e Espanha que impuseram o Tratado de Tordesilhas (1494) e o
Tratado de Madri (1750),Tratados esses que dividia e entregava o Brasil entre eles e que
só trouxe, durante um século e meio, o desrespeito à cultura Guarani.
Tanto no passado, quanto no presente vemos ainda as mesmas denúncias que afetam a
cosmologia dos povos indígenas tais como: "Quando o branco chegou na nossa terra,
índio pensava que branco era do lado de Deus, índio pensava que Deus tinha vindo
visitar".
De fato, branco tem tudo e índio não tem nada: branco tem arame farpado, nós não
temos; branco tem livro, nós não temos; branco tem machado de ferro, nós não temos;
branco tem carro, nós não temos; branco tem avião, nós não temos (...). Mas branco
veio e roubou as nossas terras e índio não podia mais caçar. Falou que as terras boas
eram dele, falou que os peixes dos rios e dos lagos eram deles. Depois trouxe as doenças.
Depois se aproveitou de nossas mulheres. E o índio se revoltou. Então o branco matou os
nossos avós, matou-os, massacrou-os muito e o índio fugia tão rápido como a coisa mais
rápida. Então o índio entendeu que o Deus do branco era ruim ". UM CHEFE DA
NAÇÃO MACUXI, Jornal do Brasil, 10/07/1980".
De dois milhões que eram os guarani, hoje somam 30 mil pessoas. Realmente foram
exterminados, mas ficaram filhos e filhas de líderes assassinados na atualidade como
Marçal Tupã-y, o pequeno DEUS (líder indígena Guarani assassinado em 25 de novembro
de 1983, por defender o seu povo), que pensava como o Chefe Maxuxi e que, como outros,
criaram consciência para as próximas gerações: " Já não podemos nós, os
guarani, calar-nos agora, diante dos estrangeiros"(Marçal Tupã-Y /1982);"Eu
não fico quieto não, eu reclamo... Eu falo... Eu denuncio...; " A bomba atômica é
uma ameaça constante. Quem a programou? Quem deseja realmente a paz mundial? Porque os
covardes ameaçam com seus aparatos bélicos": E nós éramos...E nós somos ainda
uma nação espoliada, explorada;esfolada"( Marçal Tupã-Y/discurso em reunião do
movimento indígena brasileiro nas Ruínas de S.Miguel, no Estado do Rio Grande do Sul,
aldeamento indígena criado pelos jesuítas para apoiar o povo de Sepé Tiaraju,
destruído no período da colonização. De uns anos para cá a consciência indígena
guarani tem-se sobre-elevado e sua auto-estima começa a despontar como a ponta de um
iceberg, assim como para mais de 400 mil indígenas que ressurgiram _ COMO QUE UM SONHO_
dos cantões das cidades, justamente como índios desaldeados, da maneira como revelou o
CENSO do IBGE (Instituto Brasileiro Geográfico e Estatístico), em pesquisa feita em
2000. Surgirão muito mais, neste século, os índios descendentes, com caras e histórias
de índios e índias e ignorados pela ciência burguesa, pois esse contingente indígena
nunca mais terá vergonha e medo de assumir sua identidade indígena por sofrer a
discriminação social, racial e a intolerância cultural e religiosa sobre sua cosmovisão de vida.
Menos de 50% das terras Guarani estão demarcadas e asseguradas juridicamente e muitas
delas estão ameaçadas pela sobreposição de Unidades de Conservação Ambiental em seu
território, projetos governamentais planejados sem passar pela consulta aos guarani.
Os Guarani desde o passado, quando o Projeto Jesuítico chamado de "REPÚBLICA
DOS GUARANI", foi implantado como um projeto assistencial, de defesa e de
desenvolvimento aos moldes da Igreja católica contra os colonizadores chamados de
"Entradas e Bandeiras" , _ até hoje, plantam a erva-mate, que constitui-se
numa planta que produz um chá bem quente denominado chimarrão ou um chá bem frio,
denominado tererê, e que ficou como marca cultural de todo o povo não indígena do Sul
do Brasil, nos dias atuais.
Utilizam a agricultura de subsistência (mel do mato, palmito, banana, mandioca, milho
e feijão) e a conservam de forma tradicional, assim como sua língua, religião,
educação e organização social. Utilizam com muita ênfase a prática da medicina
tradicional e a valorização dos cânticos e dos pajés. Produzem e vendem artesanatos,
cerâmicas, tecelagens, arcos e flechas para a caça e pesca.
Os guarani do passado junto com o padre alemão Sepp, no século XVII, no citado
Projeto República Guarani, descobriram o ferro e passaram a produzir sinos para Igrejas e
aldeamentos, com mão-de-obra indígena, assim como centenas de atividades faziam parte do
cotidiano daqueles guarani, como aprendizagem de línguas estrangeiras, matemática,
astrologia, artes, etc. Depois do massacre imposto pelo Marquês de Pombal, grande parte
da população guarani foi exterminada e conduzida à escravidão. Quando iam pra lavoura,
cabisbaixos realizavam suas tarefas com muita dor, muitos se suicidavam. E a melancolia
surgia como uma centelha de esperança para um novo momento. A luta dois guarani foi muito
sacrificada ardorosa, mas hoje esse povo canta a alegria de sua identidade e dignidade
reconstruídas. As crianças e adolescentes guarani já têm um patrimônio cultural
registrado mecanicamente, através de CDs, para a posteridade.
As orações dos guarani consideradas demoníacas para os jesuítas, eram na realidade
o que são hoje, a verdadeira expressão das crenças e espiritualidades indígenas. As
orações são dirigidas ao sol, ao criador, aos espíritos, aos ancestrais. A alma é
universal e Deus é supremo, um grande ancestral. Nas danças, embebidos pela erva-mate ou
uma bebida tradicional oriunda do Kurupá que causa uma excitação, divertem-se e entram
em contato com os espíritos. O pajé, costumeiramente, toma bebida para prever o futuro
ou curar. Os espíritos dos mortos permanecem por algum tempo em suas moradas. Esses
espíritos têm grande poder sobre os vivos. Esse povo desconhece castigos, punições ou
coações às crianças ou ao seu semelhante.
Organização Social, Política e Econômica dos guarani do passado
Segundo o Dr. Bevilaqua no Congresso de História Nacional (1915), os guarani antes
da colonização estrangeira possuíam organização política definida. Se havia
defeitos, vícios, deve-se ao fato de o domínio guarani ser extenso demais e também
deve-se relevar as diferenças climáticas, os meios distintos, as diferentes necessidades
de cada grupo.
Aos Guarani não se cabia o termo "clãs" e sim nações, pátrias, como é o
conceito atual do Movimento Indígena Internacional, termo esse designado
""Povos Indígenas", conquistado nas lutas em várias instâncias para que
tal termo fosse efetivamente substituído na Declaração Universal dos Direitos
Indígenas, Declaração essa que foi trabalhada durante vinte anos, pelos PRÓPRIOS POVOS
INDÍGENAS, ao lado dos governos, no Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas, na
Sub-Comissão contra a Discriminação e Proteção de Minorias, na Comissão de Direitos
Humanos das Nações Unidas (ONU), de 1981 até 2001, culminando na vitória da
constituição de um Fórum Permanente para Povos Indígenas, ocupados por indígenas
dentro do Sistema da ONU.
O passado Guarani significava total liberdade de ação e pensamentos. Eram
independentes e autônomos. A liberdade individual de cada um era por demais respeitada e
se não estavam satisfeitos com a sua organização tinham a total liberdade de emigrar.
Reinava o interesse comum e a igualdade absoluta dos direitos. Desconheciam a disciplina
convencional. Existia o diálogo e respeito mútuo e possuíam forma de falar direta, sem
rodeios. Não havia poder central, devido a independência individual. Caciques, líderes,
anciãos não eram posições que denotavam poder. Esses elementos formavam sim, um
CONSELHO , onde discutiam as questões sociais e políticas e deliberavam juntos em
uníssono a resolução de um determinado assunto. Davam títulos ás leis de
organização: "TEKOMONÃNGAVA", literalmente significa " o que faz a vida
".
Lamentavelmente os livros do passado e do presente não registram as formas de vida do
povo Guarani. Temos muitos conceitos determinados pelos antropólogos, estudiosos da
questão, dos padres, mas conceitos dos próprios guarani tem sido difícil encontrar,
designados pelos próprios guarani, com exceção de Bertoni, um dos primeiros
antropólogos indígenas e guarani que escreveu sobre a mulher indígena, verdadeiramente
colocando-a num patamar muito digno, onde o matriarcado predominava. Esse estudioso,
autêntico sociólogo guarani, pesquisou durante vinte anos a cultura de seu povo e
criticou veementemente a maioria dos estudos feitos pelos cientistas que se dedicaram ao
estudo desse povo. O índio guarani e sociólogo Bertoni acreditou que os antropólogos
distanciavam-se demais da realidade guarani, por não poder, na prática, internalizar a
identidade indígena. Só um índio Guarani ou uma outra pessoa indígena detém esse
conhecimento tradicional até ancestral por ter uma visão cosmológica real oriunda de
sua própria história, tradições e cultura.
ELIANE POTIGUARA
Fragmentos de seu livro "metade Cara, Metade Máscara