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Revista Partes ano II outubro de 2002 n.26

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Resultados de Johanesburgo

por Vitor Gomes Pinto

Ao retornar de Johanesburgo, lendo as notícias e interpretações sobre a Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável, surpreendi-me com a variedade de interpretações que incluíam desde análises serenas e bem fundamentadas até o elogio desbragado e a crítica mais acérrima e radical. Cuidado! Não embarque na primeira canoa que vir passando. Leia com alguma calma os textos de fato aprovados e procure entender o que aconteceu nesse megaevento, sem dúvida o mais importante já realizado fora da área econômica. Afinal, lá estiveram 193 países (105 com sua maior autoridade: o presidente, o vice, o 1º ministro ou o rei) e 86 organizações internacionais, com 7200 delegados oficiais e um total de cerca de 40 mil participantes, todos concentrados durante dez dias para discutir a erradicação da pobreza, o desenvolvimento social, a proteção do meio ambiente, fato por si só extraordinário num mundo preocupado com atentados e com o bombardeio do Iraque.

A Declaração Política firmada pelos países promete estreitar as profundas fraturas que dividem a sociedade humana em ricos e pobres, destacando que se nada fizermos arriscamo-nos a criar um apartheid mundial com a perda de confiança dos pobres nos sistemas democráticos. No documento principal, sete temas são examinados com detalhe: erradicação da pobreza, mudança dos padrões de consumo e produção, recursos naturais, globalização, saúde, situação de pequenas ilhas (várias ameaçadas de desaparecimento) e desenvolvimento da África. Segue-se um capítulo sobre meios de implementação, ou seja, sobre como levar à prática o que foi decidido, e um último sobre o quadro institucional necessário para a ação de ora em diante.

Algumas grandes metas foram definidas ou reafirmadas: reduzir à metade até 2015 a proporção de pessoas com renda inferior a um dólar por dia, de pessoas com fome e sem acesso a água potável; estabelecer um fundo mundial para erradicar a pobreza e promover o desenvolvimento social e humano nos países em desenvolvimento; melhorar significativamente o padrão de vida de 100 milhões de favelados; eliminar as piores formas de trabalho infantil; ratificar o protocolo de Kyoto relativo a mudanças climáticas, colocando-o em vigência ainda este ano; alcançar uma redução significante do desflorestamento e das perdas de diversidade biológica; garantir o acesso eqüitativo a serviços de saúde e a medicamentos essenciais e seguros a preços acessíveis a todos; reduzir até 2015 em 2/3 os índices de mortalidade infantil e em ¾ a mortalidade materna; diminuir em 25% o número de pessoas de 15 a 24 anos com o vírus HIV (nos países mais afetados até 2005 e em todos até 2010); destinar 0,7% do Produto Interno Bruto dos Países Desenvolvidos para assistência oficial ao mundo em desenvolvimento; reduzir as dívidas externas insustentáveis inclusive pelo cancelamento quando indicado; assegurar que alimentos e medicamentos não sejam usados como ferramenta de pressão política.

É certo que avanços mais concretos principalmente em relação à efetiva transferência de recursos das nações mais ricas para as mais pobres não foram alcançados, mas a intensa pressão exercida pelo Grupo dos 77 (que na verdade reúne pelo menos 134 países em desenvolvimento) obrigou o Grupo dos 7, dos países mais ricos, a reconhecer sua culpa pela criação de um mundo com tanta miséria e tão pronunciadas diferenças. O princípio das "responsabilidades comuns mas diferenciadas", arduamente defendido com sucesso pelo Itamarati, significa exatamente isto: os que mais degradam o ambiente devem contribuir mais para sua recuperação. Há omissões importantes no texto final que reflete a intensa resistência do G7 em assumir compromissos concretos, aproveitando-se do sistema vigente nas reuniões da ONU pelo qual as decisões devem ser tomadas por consenso. Cabe perguntar: teria sido possível conseguir mais ou melhores resultados em Johanesburgo, num momento em que o mundo economicamente desenvolvido é dominado pelos republicanos nos Estados Unidos e pela direita, por vezes xenófoba, em países europeus como França, Alemanha, Áustria, Espanha, Inglaterra? As culpas estão sendo assumidas por quem de direito e este é um salto avante que não pode ser desprezado.

 



Vitor Gomes Pinto
Escritor, Analista internacional, Coordenador de Saúde do Sesi/CNI
Autor do livro "Guerra nos Andes". E-mail: vitor.gp@persocom.com.br


Prefeitura de São Paulo inaugura primeiro parque em 10 anos

Foi inaugurado em setembro pela prefeita Marta Suplicy o Parque Chácara das Flores, em Guaianazes (zona Leste). O local que era uma antiga fazenda, e foi transformado no primeiro parque público entregue à população de São Paulo nos últimos 10 anos. O parque beneficiará cerca de 500 mil pessoas que poderão usufruir, além da natureza local, de quadras, playground, salão com mesas e bancos para a prática de jogos, mirante, pátio para descanso e um Centro de Educação Ambiental. Poucos jornais e rádios noticiaram o fato.


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