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Revista Partes ano II novembro de 2002 n.27

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Geração responsável
por Adilson Luiz Gonçalves
Ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore são consideradas metas de realização do ser humano, mas nenhuma delas terá valor se não gerarem bons frutos.

Para que isso ocorra, em qualquer um dos casos, é necessário muito cuidado, consciência e dedicação, antes, durante e depois, pois cada árvore plantada e preservada contribui para a vida, cada livro publicado forma ou influencia opiniões, e toda a criança que nasce é uma esperança renovada.

Todas essas metas são, portanto, de imensa responsabilidade e importância, justificando uma profunda reflexão, prévia, sobre o que nos motiva, quais nossas expectativas e o quanto estamos dispostos e disponíveis para acompanhar e cuidar de todas as etapas de seu desenvolvimento.

No caso de filhos, a decisão assume a grandiosa e literal proporção de um verdadeiro projeto de vida, não apenas da nossa, mas de uma nova, transformadora e interativa.

A falta dessa premissa elementar, aliada a aspectos sociais diversos, tem fornecido matéria-prima em profusão para: psicólogos, psiquiatras, terapeutas e advogados.

A vida é o maior bem que possuímos, mas insistimos em privilegiar vaidades e projetos pessoais que, cada vez mais, obscurecem nossa natureza humana e divina, nos transformando em títeres do mercado ou máquinas movidas pelo combustível da ambição, sem limites ou escrúpulos. Assim é, que alguns não se importam em passar horas e horas dedicadas ao sucesso de suas carreiras, mas se esquivam, obstinadamente, do maior dos desafios pessoais: formar um ser humano!

Não será por essa incapacidade que assistimos à escalada da violência, da ganância e da marginalidade?

O fato é que a geração responsável, consciente e amorosa, vem sendo preterida em nome de objetivos nada enobrecedores, como: prova de masculinidade; satisfação de desejos sexuais, consciente ou inconscientemente, violenta ou consensualmente; garantia de um "bom" casamento ou pensão mediante exame de DNA; subsistência na miséria, pela moeda do desespero da mendicância familiar ou do comércio infantil, etc.

O resultado dessas posturas, que aviltam a racionalidade humana, é a expansão demográfica descontrolada e a perda de valores morais que, aliada à falta de perspectivas de ascensão social, concentra populações em áreas urbanas, em condições degradantes e sob tensão crescente.

Ao estado cabe a importantíssima tarefa de melhorar as condições de emprego, educação, saúde e lazer, além da obrigação de cuidar dos desvalidos, projetos indispensáveis à formação de uma sociedade estável e feliz.

Ocorre que a falta de políticas sociais eficazes torna comum o surgimento, cíclico, de propostas radicais que preconizam o controle de natalidade de forma mecânica e atuarial, ignorando o alto impacto psicológico e físico, por vezes violento e perene, que atinge os destinatários: a população mais humilde e crédula. No início do século XX, se praticava, nos EUA, a esterilização de marginais, prostitutas e deficientes mentais, com respaldo "científico", não pelo que eram - ou pelo que os levou a sê-lo -, mas pelo incômodo que propiciavam às elites da época. Alguns países promoveram a esterilização compulsória e truculenta de homens e mulheres de minorias étnicas consideradas "inferiores" (o caso do nazismo é emblemático e limítrofe). A China incentiva, financeiramente, a contracepção, punindo, mediante impostos, os casais que tiverem mais de um filho. Na Índia, nos anos 1980 e 1990, médicos e técnicos fizeram fortuna percorrendo o interior do país com unidades móveis de ultra-sonografia. Levando saúde às gestantes, com o indispensável exame pré-natal? Não, mas identificando fetos femininos que seriam abortados na seqüência, não por problemas congênitos, mas porque, pela cultura local de então, as meninas eram consideradas um "fardo" para as famílias!

Qualquer que seja a religião, o ser humano tem ascendência divina! Por quê, então, alguns seres humanos insistem em confirmar isso, por palavras, mas nega-lo em seus atos?

A deturpação, ou ausência, de valores, desde o embrião social: a família; vem agravando o problema, pois, ao contrário do que muitos celebram, a condição financeira não deveria ser a variável mais significativa na equação da excelência humana.

Os crimes cometidos por adolescentes de famílias abastadas - cada vez mais corriqueiros, violentos e inconseqüentes - demonstram que freqüentar as melhores escolas, usar roupas de grife, ter carros esportivos e mesadas polpudas, não garantem seres humanos melhores, nem substituem o afeto de pais, socialmente influentes, mas afetivamente ausentes.

A extrema liberdade que financiam e a irresponsabilidade que, imediatamente, tentam encobrir - com a habilidade de advogados e a ambigüidade da legislação -, não são indícios de instinto protetor ou amor incondicional, mas sintomas de um profundo egoísmo, pois não decorrem do propósito de educar e formar, mas do temor de ver seu "prestígio" arranhado pela incapacidade de assumir sua maior responsabilidade: a formação moral dos filhos! Tanto que, contornada a crise, devolvem-nos aos tutores que os educam na rigidez superficial dos protocolos sociais, ao mesmo tempo em que seu círculo de convívio comprova que o dinheiro tudo pode, tudo compra e tudo perdoa, numa nova e desprezível forma de indulgência. Esses "valores" gerarão, quase com certeza, pessoas que se unirão a outras, não por amor e intenção de construir uma vida em comum, mas para usá-las como instrumentos descartáveis de ostentação, prazer ou projeção social. Não produzirão relações estáveis e afetivas, mas separações abruptas, escandalosas e milionárias.

Esta "filosofia de vida" seria irrelevante, não fossem as seqüelas que provocam nas preciosas vidas que, eventualmente, são geradas por esses relacionamentos sem compromisso.

A preocupação com a formação dos filhos é, sim, fundamental, mas, no extremo oposto, também não devemos transforma-los em veículos de concretização de nossos sonhos frustrados, ou herdeiros de nossos preconceitos e neuroses. Não devemos, tampouco, transferir nossas expectativas no aguardo de "filhos perfeitos", escolhidos nas prateleiras assépticas da engenharia genética de um futuro próximo.

Essas visões deturpadas das responsabilidades paternas, o despreparo e os traumas herdados, adquiridos e multiplicados, também são responsáveis por outras distorções, como: desvios doentios de afetividade, com foco: em animais (por não darem os "desgostos e despesas que os filhos dão"), gostos exagerados ou, no limite, aversão a crianças.

Na verdade, os que exercem, efetiva e apaixonadamente, a função de pais, convivem diariamente com o estresse e a angústia pela contínua tentativa de conciliar o sucesso profissional pessoal, com a participação equilibrada no processo de formação dos filhos, de maneira a propiciar condições emocionais, morais e financeiras que assegurem a felicidade e a realização dos sonhos de seus descendentes, remando contra a maré da alienação da mídia e escavando trincheiras contra a escala do crime.

Essa geração responsável não infringe princípios morais ou religiosos. Também não subentende procedimentos artificiais ou interferência do estado no, sagrado, livre-arbítrio. Ela é, sobretudo, um exercício de amor e comprometimento, que deve ser praticado, de forma pessoal e intransferível, por toda a nossa existência, para que nossos filhos, como bons livros e árvores bem cuidadas, disseminem valores proveitosos e sejam pródigos em sementes, renovando a esperança na Humanidade!

 

Adilson Luiz Gonçalves

Engenheiro e Professor Universitário

 

 

Santos - SP

 


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Adilson Luiz Gonçalves
Engenheiro e Professor Universitário
Santos - SP
algbr@ieg.com.br


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