SumárioConceito
de leitura
As funções essenciais da leitura
Os processos da capacidade leitora
Fatores que influenciam a dislexia
A dislexia como fracasso inesperado
Bibliografia e webliografia básicas
Resumo: Este texto tem por fim indicar os fatores que influenciam, na educação
escolar, aparição da dislexia como dificuldade inesperada do aprendizado da leitura
Palavras-chaves: dislexia leitura Psicolingüística - fonologia
CONCEITO DE LEITURA
São quatro as habilidades da linguagem verbal: a leitura, a escrita, a fala e a
escuta. Destas, a leitura é a habilidade lingüística mais difícil e complexa. A
leitura é dos um processo de aquisição da lectoescrita e, como tal, compreende duas
operações fundamentais: a decodificação e a compreensão.
A decodificação é a capacidade que temos como escritores ou leitores ou aprendentes
de uma língua para identificarmos um signo gráfico por um nome ou por um som. Esta
capacidade ou competência lingüística consiste no reconhecimento das letras ou signos
gráficos e na tradução dos signos gráficos para a linguagem oral ou para outro sistema
de signo.
A aprendizagem da decodificação se consegue através do conhecimento do alfabeto e da
leitura oral ou transcrição de um texto. Conhecer o alfabeto não significa apenas o
reconhecimento das letras, e sim, entendermos a evolução da escrita como: a) a
pictográfica (desenho figurativo), a ideográfica (representação de idéias sem
indicação dos sons das palavras) e a fonográfica (representação dos sons das
palavras). Toda palavra tem uma origem, uma motivação e, a rigor, não é absolutamente
arbitrária como quis Ferdinand de Saussure, em seu Curso de Lingüística geral.
O agá, por exemplo, nas línguas neolatinas, como o português, o espanhol, o
italiano e o francês, pode indicar um fonema mudo, mas traduz, por sua vez, uma origem
semítica heth. O grego, por exemplo, usou a letra h para representar a vogal longa eta.
Por isso, toda palavra, em português, iniciada pela letra h (hoje, homem, história etc),
é de origem grega.
A compreensão é a captação do sentido ou conteúdo das mensagens escritas. Sua
aprendizagem se dá através do domínio progressivo de textos escritos cada vez mais
complexos (ALLIENDE: 1987, p.27)
AS FUNÇÕES ESSENCIAIS DA LEITURA
São três os verbos que definem as funções essenciais da leitura: a)transformar,
b) compreender e c) julgar.
Transformar, em leitura, se dá quando o leitor converte a linguagem escrita em
linguagem oral.
Compreender se efetiva quando o leitor consegue captar ou dá sentido ao conteúdo da
mensagem.
Julgar é capacidade que o leitor tem de analisar o valor da mensagem no contexto
social.
OS PROCESSOS DA CAPACIDADE LEITORA
O enfoque da Psicolingüística, ramo interdisciplinar da Psicologia Cognitiva e da
Lingüística Aplicada, considera a leitura como uma habilidade complexa, na qual
intervém uma série de processos cognitivo-lingüísticos de distintos níveis,
cujo início é um estímulo visual e cujo final deve ser a decodificação do
mesmo e sua compreensão. Refiro-me aos processos básicos e superiores da habilidade
leitora.
Os processos básicos da leitura são também chamados de "processos de nível
inferior". Sua finalidade é o reconhecimento e a compreensão das palavras. Dentro
destes se encontram a decodificação e a compreensão de palavras.
Os processos superiores ou de nível superior têm por finalidade a compreensão de
textos.
Os dois processos, isto é, os básicos e os superiores, devem ser considerados no
ensino do português e na aprendizagem da lectoescrita uma vez que funcionam de modo
interativo ou interdependente.
Os processos básicos, isto é, que se voltam à decodificação e à compreensão de
palavras, são particularmente importantes nas primeiras etapas da aprendizagem da leitura
(ou leitura inicial na educação infantil) e devem ser automatizados ou bem assimilados
no primeiro ciclo do ensino fundamental (até a quarta série), já que um déficit em
algum deles atua como um nó de gravata que impede o desenvolvimento dos processos
superiores de compreensão leitora.
Processos preceptivos - O leitor atinge a decodificação através dos
processos perceptivos e dos processos léxicos. Os processos perceptivos referem-se à
percepção visual.
A percepção visual permite a extração de informações sobre cosias, lugares e
eventos do mundo visível. Portanto, a percepção é um processo para aquisição de
informações e conhecimentos, guardando estreita relação com a memória de longo prazo
(MLP) e a cognição.
A percepção é uma das primeiras atividades que tomam parte do processo leitor e a
forma mais específica da percepção visual. Aprendemos a ler com o poder do olhar.
Ao nos engajarmos na leitura, fixamos, inicialmente, nossa olhada nos símbolos
impressos, isto é, nas palavras e nos seus grafemas, e se não analisamos em profundidade
o que realmente ocorre pode parecer-nos que os olhos percebem as palavras de uma linha ou
de um texto de forma contínua. Ler, a rigor, não é apenas ler as palavras nas linhas,
na sua dimensão linear sintagmática, mas ler as entrelinhas, o subjacente, o
paradigmático, o ausente, o dito não explícito no texto.
Essa operação visual se dá assim: os olhos se movimentam da esquerda para direita
mediante uns saltos rápidos denominados "movimentos oculares sacádicos". No
percurso da leitura, vamos alternando fixações e movimentos sacádicos e somente
podemos ler e compreender o que lemos nos períodos em que nos fixamos, em cerca de um
quarto de segundo (com a faixa média sendo de cerca de 150-500ms com uma média de
200-250 ms) nos olhos no texto. (ELLIS: 1995, p.17).
A duração e amplitude das fixações e a direção dos movimentos sacádicos não
variam arbitrariamente, e sim, dependem de: a) as características do texto, b) a
maturidade dos processos cognitivos do leitor, c) a visão, d) a fadiga ocular, e) a
iluminação, f) a distância olho-texto, g) a postura do corpo e h) o tipo de letra e
papel.
Processos léxicos Depois da análise perceptiva, o passo seguinte é
chegarmos ao significado das palavras que, no ensino da língua materna, é, realmente, o
que interessa aos professores, à escola e à família e aos próprios alunos. Se nosso
objetivo é também a leitura em voz alta, então, devemos trabalhar a soletração, a
entonação ou a pronúncia escorreita das palavras.
Dois são os caminhos que existem para chegarmos ao reconhecimento das palavras
e extrairmos o significado das mesmas. Falaremos pois de duas rotas que nos ajudam no
reconhecimento das palavras: a) a fonológica ou indireta ou também chamada via
indireta (VI) e b) a rota visual ou léxica ou via direta (VD).
A rota fonológica - A rota fonológica é a que a nos permite a leitura de textos,
segmentando-os, por força da metalinguagem, em seus componentes (parágrafos, períodos,
orações, frases, sintagmas, palavras, morfemas), como também em sílabas ou em sons da
fala (fonemas).
Baseia-se a rota fonológica na segmentação fonológica das palavras escritas, por
meio da qual o leitor tem a alcança a chamada consciência fonológica. A rota
fonológica é o guia prático para o alfabetizador que trabalha, em sala de aula, com o
chamado método fônico de leitura.
A rota fonológica consiste em descriminar os sons correspondentes a cada uma das
letras ou grafemas que compõem a palavra. Esta rota permite, na realidade, o reconhecer
das letras das palavras e sua transformação em sons. Através desta via, portanto,
podemos, como leitores hábeis, ler palavras pouco freqüentes (por exemplo, pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico,
a maior palavra na língua portuguesa), desconhecidas e inclusive as
pseudopalavras (MARTINS: 2002).
A rota fonológica é a via, pois, para se atingir a consciência fonológica,
através da qual se pode ler todas as palavras em língua portuguesa, já que nosso idioma
neolatino é alfabético e transparente, isto é, não tem palavras, a rigor, irregulares,
impossíveis de serem lidas (exceto os estrangeirismos)
Podemos, enfim, resumir os objetivos da via fonológica no processo de aquisição da
leitura:
Identificar as letras através da análise visual
Recuperar os sons mediante a consciência fonológica
Pronunciar os sons da fala fazendo uso do léxico auditivo
Chegar ao significado de cada palavra no léxico interno (vocabulário)
A via fonológica é mais lenta que a via direta já que o processo requerido é muito
mais extenso até chegarmos a reconhecer a palavra, no entanto, não é menos importante
e, inclusive, podemos afirmar que os estágios iniciais da aprendizagem da leitura
dependem da consciência fonológica.
A rota visual ou direta ou léxica - É uma rota global e muito rápida já que nos
permite o reconhecimento global da palavra e sua pronunciação imediata sem necessidade
de analisar os signos ( significante e significado) que a compõem.
Os passos que temos na leitura de palavras através da via direta são:
Analisar globalmente a palavra escrita: análise visual
Ativar as notações léxicas
Chegar ao significado no léxico interno (vocabulário)
recuperar a pronunciação no caso de leitura em voz alta
O modelo de leitura através da rota direta permite explicar a facilidade que temos
para reconhecer as palavras cuja imagem visual temos visto com muita freqüência. Isto
é, através desta rota podemos ler palavras que nos são familiares a nível de escrita.
A rota direta é base para a prática do método global de leitura (também chamado
construtivista)
Em qualquer caso, ambas as vias não são excludentes entre si As rotas fonológica e
global são necessárias e coexistem na leitura hábil. À medida que a habilidade leitora
se desenvolve, intensificamos as estratégias da via direta ou léxica ou ambas ao mesmo
tempo.
FATORES QUE INFLUENCIAM A DISLEXIA
Os padrões de movimentos oculares são fundamentais para a leitura eficiente.
São as fixações nos movimentos oculares que garantem que o leitor possa extrair
informações visuais do texto. No entanto, algumas palavras são fixadas por um tempo
maior que outras.
Por que isso ocorre? Existiriam assim fatores que influenciam ou determinam ou afetam a
facilidade ou dificuldade do reconhecimento de palavras, a saber: a) familiaridade, b)
freqüência, c0 idade da aquisição, d) repetição, e) significado e contexto, f)
Regularidade de correspondência entre ortografia-som ou grafema-fonema e g) Interações.
(ELLIS: 1995, p.19-28)
A DISLEXIA COMO FRACASSO INESPERADO
A dislexia, segundo Jean Dubois et alii (1993, p.197), é um defeito de aprendizagem da
leitura caracterizado por dificuldades na correspondência entre símbolos gráficos, às
vezes mal reconhecidos, e fonemas, muitas vezes, mal identificados.
A dislexia, segundo o lingüista, interessa de modo preponderante tanto à
discriminação fonética quanto ao reconhecimento dos signos gráficos ou à
transformação dos signos escritos em signos verbais.
A dislexia, para a Lingüística, assim, não é uma doença, mas um fracasso
inesperado (defeito) na aprendizagem da leitura, sendo, pois, uma síndrome de
origem lingüística.
As causas ou a etiologia da síndrome disléxica são de diversas ordens e dependem do
enfoque ou análise do investigador. Aqui, tendemos a nos apoiar em aportes da análise
lingüística e cognitiva ou simplesmente da Psicolingüística.
Muitas das causas da dislexia resultam de estudos comparativos entre disléxicos e bons
leitores. Podemos indicar as seguintes: a) Hipótese de déficit perceptivo, b)
Hipótese de déficit fonológico e c) Hipótese de déficit na memória.
Atualmente os investigadores na área de Psicolingüística aplicada à educação
escolar, apresentam a hipótese de déficit fonológico como a que justificaria, por
exemplo, o aparecimento de disléxicos com confusão espacial e articulatória.
Desse modo, são considerados sintomas da dislexia relativos à leitura e escrita os
seguintes erros:
erros por confusões na proximidade especial: a) confusão de letras simétricas,
b) confusão por rotação e c) inversão de sílabas
Confusões por proximidade articulatória e seqüelas de distúrbios de fala: a)
confusões por proximidade articulatória, b) omissões de grefemas e c) omissões de
sílabas.
As características lingüísticas, envolvendo as habilidades de leitura e escrita,
mais marcantes das crianças disléxicas, são:
A acumulação e persistência de seus erros de soletração ao ler e de ortografia ao
escrever
Confusão entre letras, sílabas ou palavras com diferenças sutis de grafia: a-o; c-o;
e-c; f-t; h-n; i-j; m-n; v-u etc
Confusão entre letras, sílabas ou palavras com grafia similar, mas com diferente
orientação no espaço: b-d; b-p; d-b; d-p; d-q; n-u; w-m; a-e
Confusão entre letras que possuem um ponto de articulação comum, e, cujos sons são
acusticamente próximos: d-t; j-x;c-g;m-b-p; v-f
Inversões parciais ou totais de silabas ou palavras: me-em; sol-los; som-mos; sal-las;
pal-pla
Segundo Mabel Condemarín (1987, p.23), outras perturbações da aprendizagem podem
acompanhar os disléxicos,:
Alterações na memória
Alterações na memória de séries e seqüências
Orientação direita-esquerda
Linguagem escrita
Dificuldades em matemática
Confusão com relação às tarefas escolares
Pobreza de vocabulário
Escassez de conhecimentos prévios (memória de longo prazo)
Agora, uma pergunta pode advir: Quais as causas ou fatores de ordem
pedagógico-lingüística que favorecem a aparição das dislexias?
De modo geral, indicaremos causas de ordem pedagógica, a começar por:
Atuação de docente não qualificado para o ensino de língua materna (por exemplo, um
professor ou professora sem formação superior na área de magistério escolar ou sem
formação pedagógica, em nível médio, que desconheça a fonologia aplicada à
alfabetização ou conhecimentos lingüísticos e metalingüísticos aplicados aos
processos de leitura e escrita)
Crianças com tendência à inversão
Crianças com deficiência de memória de curto prazo
Crianças com dificuldades na discriminação de fonemas (vogais e consoantes)
Vocabulário pobre
Alterações na relação figura-fundo
Conflitos emocionais
O meio social
As crianças com dislalia
Crianças com lesão cerebral
No caso da criança em idade escolar, a Psicolingüística define a dislexia como um fracasso
inesperado na aprendizagem da leitura (dislexia), da escrita (disgrafia) e da
ortografia(disortografia) na idade prevista em que essas habilidades já devem ser
automatizadas. É o que se denomina de dislexia de desenvolvimento.
No caso de adulto, tais dificuldades quando ocorrem depois de um acidente vascular
cerebral (AVC) ou traumatismo cerebral, dizemos que se trata de dislexia adquirida.
A dislexia, como dificuldade de aprendizagem, verificada na educação escolar, é um
distúrbio de leitura e de escrita que ocorre na educação infantil e no ensino
fundamental. Em geral, a criança tem dificuldade em aprender a ler e escrever e,
especialmente, em escrever corretamente sem erros de ortografia, mesmo tendo o Quociente
de Inteligência (Q.I) acima da média.
Além do Q.I acima da média, o psicólogo Jesus Nicasio García, assinala que devem
ser excluídas do diagnóstico do transtorno da leitura as crianças com
deficiência mental, com escolarização escassa ou inadequada e com déficits auditivos
ou visuais.(1998, p.144).
Tomando por base a proposta de Mabel Condemarín (l989, p. 55), a dificuldade de
aprendizagem relacionadas com a linguagem (leitura, escrita e ortografia), pode ser
inicial e informalmente (um diagnóstico mais preciso deve ser feito e confirmado por
neurolingüista) diagnosticadao pelo professor de língua materna, com formação na área
de Letras e com habilitação em Pedagogia, que pode vir a realizar uma medição da
velocidade da leitura da criança, utilizando, para tanto, a seguinte ficha de
observação, com as seguintes questões a serem prontamente respondidas:
A criança movimenta os lábios ou murmura ao ler?
A criança movimenta a cabeça ao longo da linha?
Sua leitura silenciosa é mais rápida que a oral ou mantém o mesmo ritmo de
velocidade?
A criança segue a linha com o dedo?
A criança faz excessivas fixações do olho ao longo da linha impressa?
A criança demonstra excessiva tensão ao ler?
A criança efetua excessivos retrocessos da vista ao ler?
Para o exame dos dois últimos pontos, é recomendável que o professor coloque um
espelho do lado posto da página que a criança lê. O professor coloca-se atrás e nessa
posição pode olhar no espelho os movimentos dos olhos da criança.
O cloze, que consiste em pedir à criança para completar certas palavras
omitidas no texto, pode ser importante, também, aliado para o professor de língua
materna determinar o nível de compreensibilidade do material de leitura (ALLIENDE: 1987,
p.144)
Bibliografia e webliografia básicas:
ALLIENDE, Felipe, CONDEMARÍN, Mabel. (1987). Leitura: teoria, avaliação e
desenvolvimento. Tradução de José Cláudio de Almeida Abreu. Porto Alegre: Artes
Médicas.
CONDEMARÍN, Mabel, BLOMQUIST, Marlys. (1989). Dislexia; manual de leitura
corretiva. 3ª ed. Tradução de Ana Maria Netto Machado. Porto Alegre: Artes
Médicas.
DUBOIS, Jean et alii. (1993). Dicionário de lingüística. SP: Cultrix.
ELLIS, Andrew W. (1995). Leitura, escrita e dislexia: uma análise cognitiva. 2
ed. Tradução de Dayse Batista. Porto Alegre: Artes Médicas.
GARCÍA, Jesus Nicasio. (1998). Manual de dificuldades de aprendizagem: linguagem,
leitura, escrita e matemática. Tradução de Jussara Haubert Rodrigues. Porto Alegre:
Artes Médicas.
HOUT, Anne Van, SESTIENNE, Francoise. (2001). Dislexias: descrição, avaliação,
explicação e tratamento. 2ª ed. Tradução de Cláudia Schilling. Porto Alegre:
Artes Médicas.
MARTINS, Vicente. (2002). Lingüística Aplicada às dificuldades de aprendizagem
relacionadas com a linguagem: dislexia, disgrafia e disortografia. Disponível na
Internet: