Luiz Inácio Lula da Silva se tornou o primeiro presidente de
esquerda do Brasil quando ganhou a eleição do último domingo com uma ampla margem de
vantagem. Como o Brasil foi governado por uma ditadura militar há apenas duas décadas, e
Lula foi um opositor do regime e chegou a ser preso, sua eleição é um tributo à
triunfante consolidação da democracia na maior nação da América do Sul.
As preocupações econômicas, no entanto, ameaçam ofuscar o histórico feito. O
presidente eleito, que assumirá em janeiro, está trabalhando com afinco para assegurar
aos investidores e aos mercados financeiros que ele não é um agitador marxista
descuidado.
Apesar do tom relativamente moderado que Lula adotou em sua quarta disputa para a
Presidência, os investidores temiam que o ex-líder sindicalista poderia não reconhecer
a dívida externa brasileira ou reverter a liberalização econômica do presidente
Fernando Henrique Cardoso.
Neste ano, o real, moeda brasileira, perdeu 30% de seu valor, grande parte por causa da
preocupação com um governo Lula. Com a dívida pública do país vinculada ao dólar, é
imperativo que se reverta essa tendência. Do contrário, o Brasil poderá enfrentar um
doloroso default seguindo os passos da Argentina, mas com consequências mais devastadoras
para a economia mundial.
Lula, que andará numa corda bamba para satisfazer a demanda reprimida por gastos
sociais em um momento de austeridade, suavizou seus pontos de vista e prometeu executar
suas obrigações com o país.
Investidores estrangeiros e instituições financeiras devem proporcionar um
"respiro" ao novo governo e ser compreensivos com a política de equilíbrio
entre o econômico e o social. É interesse de todos que o Brasil não apenas cresça, mas
cresça com uma sociedade mais justa.
Quanto à administração Bush, o triunfo de Lula representa uma oportunidade singular
num momento em que os latino-americanos têm se sentido negligenciados por Washington. O
presidente Bush deve se empenhar com diálogos cordiais e respeitosos sobre o acordo
comercial do hemisfério, e ser mais compreensivo com a situação econômica do país.
Tal postura poderia ajudar a frustrar aqueles que desejam que o ressurgimento da esquerda
na América do Sul seja acompanhado do ressurgimento do anti-americanismo.
(Editorial do jornal americano The New Tork Times de 30/10/2002)
Editorial do The New York Times de 30/10/2002