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Revista Partes ano II novembro de 2002 n.27

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Viva a esperança
por Marta Suplicy
Fomos às urnas neste 27 de outubro e fizemos história. O povo votou na esperança. Consolidamos a imagem de um povo que tem na democracia seu modelo de gestão. Sem preconceitos, elegemos para Presidente um operário cujas qualidades, reconhecidamente, são as de um estadista. Valeram discursos e práticas. Amanhecemos, no dia seguinte, com a sensação de que o Brasil votou com alegria e muita fé na mudança. Votou por mais justiça social, combate à fome, apoio à produção, em detrimento da especulação. Tudo isso sem sustos. Tudo isso na Paz.

São essas as minhas impressões sobre tudo o que aconteceu até aqui. Mas esse é o primeiro capítulo de uma grande história, que começamos a contar a partir do nascimento de sua personagem mais ilustre, há 57 anos, no Nordeste do nosso País. É sem, dúvida, um capítulo que assinala ponto de virada na história que este homem está, brilhantemente, nos ajudando a escrever. O que teremos pela frente? Luiz Inácio Lula da Silva, nosso Presidente eleito, já nos adiantou: 24 horas de trabalho e completa dedicação ao propósito de que no Brasil todos tenham direito a três refeições, por dia --isso, num entendimento maior, inclui mais esforços na ampliação do acesso a direitos que defendemos inalienáveis: saúde, educação, cultura, oportunidades de trabalho, enfim direitos de cidadania. Parece pouco para quem tem isso assegurado. Mas esse é um desafio enorme e, por si só, razão para todo esforço empenhado até agora.

Governo hoje a quarta maior cidade do mundo, São Paulo. Este é o centro de uma região metropolitana em que recente pesquisa Seade-Dieese (divulgada em outubro/2000) apresentou o quadro de um em cada cinco trabalhadores da região desempregado. De acordo com esse levantamento, o desemprego, em julho, atingia 18,1% da População Economicamente Ativa (PEA), estimando-se em cerca de 1,7 milhão de pessoas.

Quando assumimos, em 2001, já identificávamos, pelo Censo 2000, 589 mil famílias vivendo com 1,47 salários mínimos mensais, ou seja, abaixo de uma linha de pobreza extrema. Desde então, com a implementação de um conjunto de nove programas sociais, já conseguimos incluir quase 300 mil dessas famílias em ações que asseguram complementação de renda, com a contrapartida de termos crianças na escola, adolescentes e adultos se capacitando para o trabalho, além de oferta de créditos e incentivo a formação de pequenos novos negócios.

Apostamos no ser humano, na sua capacidade de aprender e produzir. Os efeitos que notamos com esse trabalho já são animadores: mais crianças nas salas de aula, menos violência nas ruas e retorno de parte dos investimentos para os cofres públicos. Dados de um levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Trabalho e Solidariedade, de julho deste ano, apontaram que nos 13 primeiros distritos onde conseguimos implantar os programas sociais, tivemos redução em 44% dos índices de evasão escolar; as mortes violentas também caíram na ordem de 10% e tivemos aumento de 11,2% na arrecadação do ISS, contra queda de 9,7% em outras localidades da cidade onde não tivemos aplicação dos programas (não se considerou nesse percentual de arrecadação informações do Centro expandido).

A cidade de São Paulo, hoje, é exemplo de que onde existe uma política estruturada para romper com o ciclo estrutural da miséria, certamente, há bons resultados. Estamos trilhando o caminho certo. E, agora, mais confiantes de que esse esforço ganhará novo impulso. Combater a fome no país, além de dar uma resposta mais imediata a quem está com a panela vazia, sem dúvida alguma, será trabalhar por um modelo de produção agrícola com mais resultados, melhor escoamento e distribuição de alimentos, capacidade de gestão, e, principalmente, pela geração de empregos em todos os setores. O Brasil precisa voltar a crescer. Isso vai nos ajudar a matar a fome de milhares de pessoas. Foi por isso que elegemos Lula.

Estou satisfeita por ter contribuído com a eleição do nosso Presidente. Nossa administração foi vitrine com a apresentação de uma série de bons projetos: além dos programas sociais, atenção à educação, saúde e até grandes obras, realizadas em tão pouco tempo! Tivemos entre os colaboradores para a elaboração do programa nacional de governo nomes que integram esta administração municipal. Só posso ter respeito e orgulho por tê-los a meu lado.

Não poderia, nesse espaço, deixar de registrar também minha admiração por José Genoíno, que fez uma campanha ao Governo do Estado limpa, honesta. Com 20 anos de parlamento, ele poderia ter escolhido o fácil caminho da reeleição, mas não o fez. Com a capacidade peculiar aos vencedores, disputou o governo e abrilhantou o debate de idéias e ajudou muito a melhorar ainda mais a performance do PT na capital. Genoíno tinha 4% das intenções de voto, no início do processo eleitoral. Não havia, segundo as especulações da época, a menor possibilidade de estar no segundo turno. No entanto, Genoíno superou Paulo Maluf, que iniciou sua campanha liderando nas intenções de voto, foi para o segundo turno e obteve votação que consolida a tendência de crescimento do PT na cidade.

Numa análise deste processo eleitoral que acaba de se encerrar, em comparação ao passado, percebemos que nossa representação só tem crescido. Temos nos fortalecido a cada eleição e, particularmente, comemoro os bons resultados deste governo municipal como impulsionadores deste momento na análise da tendência. Vamos aos dados: Lula obteve na Capital 15% dos votos em 1989, 27% em 1994, 28% em 1998 e, agora, sendo eleito presidente da República, totalizou 51.06% dos votos válidos. Com relação ao governo do Estado, o PT também cresceu de forma significativa. Ampliou sua votação de 11% em 1989, para 15%, em 94; para 22%, em 98, e agora atingiu um patamar de 35,81% dos votos dos paulistas. Esse resultado tem um significado muito importante para o partido na capital, ainda mais se somarmos o resultado de Aloísio Mercadante. Consagrado nas urnas, Mercadante obteve 3,1 milhões de votos, ou seja, um milhão a mais do que obteve Geraldo Alckmin no primeiro turno (2,1 milhões).

Com o passar desse processo, seguiremos em frente! Afinal, hoje, é mais um dia de muito trabalho! E, como disse nosso Presidente eleito, não poderemos esperar milagres. Nada vai acontecer da noite para o dia. O que mudou é que trocamos mesmo o medo pela esperança e pela certeza de que teremos um Governo Federal trabalhando incansavelmente por mais justiça social. Da minha parte, como prefeita de São Paulo, continuarei empenhada em trazer para nossa cidade recursos financeiros, atenção a programas importantes, como combate às enchentes e habitação e, tenho certeza, de que estarei encontrando ouvidos atentos. São Paulo não quer e eu não pedirei privilégios. Apenas relembro que, desde que assumi, vimos pleiteando recursos para o combate às enchentes. Investimos dos cofres municipais R$ 118 milhões e, por enquanto, não veio um centavo do governo federal. Na Habitação, o atual Governo Federal também não destinou um centavo sequer do Orçamento da União para São Paulo.

Quero lembrar que o município de São Paulo paga hoje, percentualmente, o dobro de impostos do que pagava em 1991, mas recebe de volta apenas metade do que recebia há dez anos. Hoje, de cada R$ 10 produzidos em São Paulo, R$ 5,22 viram impostos. Só que de cada R$ 10 arrecadados, apenas R$ 0,95 voltam para a Prefeitura, ou seja, uma taxa de retorno de apenas 9,5%. Essa taxa de retorno era de 19,9%, em 1991. Se este patamar de retorno fosse recuperado, São Paulo teria um reforço de caixa de R$ 6,4 bilhões anuais.

 


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Marta Suplicy
Prefeita da cidade de São Paulo


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