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Revista Partes ano II novembro de 2002 n.27

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A inelasticidade da oferta da Cachaça Havana
por Roberto Carlos Morais Santiago

A teoria econômica define como produto de oferta inelástica, aquele cuja quantidade ofertada no mercado permanece constante, independentemente da variação do preço e da demanda.

A cachaça Havana (atual Anísio Santiago), produzida desde 1943, por Anísio Santiago, na Fazenda Havana, em Salinas/MG, é o típico produto que se encaixa neste conceito econômico de oferta e procura.

A famosa bebida é tida como sinônimo de cachaça artesanal de qualidade, e considerada referência no mercado brasileiro para esse produto ao longo das últimas décadas. Em suma, é a mais elitizada das cachaças artesanais brasileiras.

A marca "Havana" encontra-se sob disputa judicial desde meados de 2001, estando suspensa a comercialização do produto com o nome "Havana". Enquanto aguarda manifestação definitiva do Poder Judiciário, a cachaça é comercializada como o nome do produtor da cachaça "Anísio Santiago".

Trata-se de uma cachaça de elevado padrão de qualidade, pouco disponível no mercado dada a sua pequena produção (não ultrapassa 10 mil litros/safra) e preço bastante elevado, se comparada ao preço de outras marcas produzidas no Município de Salinas e região norte-mineira.

Ao longo das últimas décadas, face ao aumento da demanda pelo produto e a oferta limitada, a cachaça Havana/Anísio Santiago tornou-se a mais cara do gênero no mercado nacional.

Questiona-se muito o fato do produto ser tão caro, e ainda assim, havendo demanda, do por que Anísio Santiago não aumentar a oferta, atendendo à lógica da lei da oferta e procura.

Em contradição a essa lógica do mercado, o produtor não aceita subordinar-se ao princípio de que para toda demanda existe uma oferta correspondente.

À sua maneira, Anísio Santiago, para manter o alto padrão de qualidade da cachaça, não aceita aumentar a produção, apesar de ter estrutura para tal. Na visão do produtor, levando-se em conta unicamente o fator preço, a sua produção de 10 mil litros/safra equivale à produção de 150 mil litros, de qualquer outro grande produtor de cachaça no Município de Salinas e região. A diferença é que a demanda pela sua cachaça é constante, apesar de ser reprimida pela inelasticidade da oferta do produto.

Apesar do comportamento controverso, Anísio Santiago representa o pequeno empresário agro-industrial do interior norte-mineiro, cuja importância no desenvolvimento regional local é primordial, tendo em vista que consegue agregar valor ao seu produto, através da qualidade, aumentar a sua renda e manter um nível de empregabilidade estável aos funcionários que trabalham em sua propriedade.

É o típico empresário rural que deu certo , que soube enfrentar a ausência de qualquer tipo de incentivo governamental, bem como as intempéries da conjuntura econômica brasileira nos últimos 50 anos, transformando uma cachaça de alto valor agregado em um produto mitológico em todos os cantos do Brasil e do exterior.

O mercado sabe valorizar este tipo de produto e, independentemente do preço, vai sempre demandar por qualidade em detrimento da quantidade. Se uma garrafa da cachaça Havana/Anísio Santiago custa, em média 120 reais, e ainda assim, há demanda, apesar de reprimida, é um sinal claro de que a decisão em privilegiar a qualidade em detrimento da quantidade foi correta. Os apreciadores de cachaça de qualidade agradecem.

Os governos, federal, estadual e municipal, através de estratégias de incentivos, deveriam expandir as atividades produtivas agro-industrial familiar, com o objetivo de aumentar a renda e agregar valor aos produtos dos pequenos e médios produtores rurais, a exemplo de Anísio Santiago.

Tais incentivos, a médio e longo prazo, oportunizariam a ocupação para um expressivo contingente de mão-de-obra, evitaria o êxodo rural e promoveria o desenvolvimento sócio-econômico, possibilitando a expansão das economias locais.

Atualmente, Salinas é conhecida nacionalmente pela qualidade da cachaça artesanal ali produzida, tendo Anísio Santiago, um destacado papel na divulgação do nome do município em todos os cantos do Brasil.

 



Roberto Carlos Morais Santiago
Economista, mineiro de Salinas, é neto de Anísio Santiago.
E-mail: rcmsantiago@globo.com


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