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Johannesburg,
em pleno coração da África do Sul, ainda dividida entre brancos e negros procura sair
do apartheid com uma democracia que só tem oito anos de vida. São 3,8 milhões de
habitantes, dos quais 76% negros e 13% brancos que ainda não se cruzam (os mestiços
formam uma minoria ao lado de indianos e outros asiáticos). As rádios transmitem numa
babel de idiomas (são 11 oficialmente aceitos), desde o inglês e o afrikaner que é
basicamente holandês, até o xhosa, zulu, sepedi, ndebele ... As minas de ouro que deram
origem à cidade em 1887, continuam sendo uma de suas principais fontes de riqueza, ao
lado da exploração do diamante e da crescente industrialização. Os resíduos de
minério formam montanhas amareladas que mudaram a paisagem dessa planície a 2 mil metros
acima do nível do mar onde o frio do inverno pode chegar aos zero graus. Foram 15 dias
vividos com intensidade, na Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável integrando a
delegação brasileira, tentando compreender as profundas contradições e as diferenças
entre o bairro operário em que se transformou o antigo gueto do Soweto, as favelas de
Alexandra, e as BMW, Mercedes, Audis e Volvos top de linha que circulam entre os
sofisticados edifícios do bairro de Sandton.
As empresas privadas de segurança estão por toda parte, defendendo o patrimônio da
população branca que vive em condomínios e trabalha em edifícios de escritório em
geral protegidos por altos muros e cercas eletrificadas. É preciso identificar-se para
ultrapassar os postos de controle e as cancelas que bloqueiam certas ruas e mesmo os
shoppings mais luxuosos. A mão-de-obra é quase toda negra, mas há uma florescente e
rica elite de cor que, diz-se, não costuma ser bem aceita pelos colegas de raça que em
sua larga maioria permanecem na pobreza.
A água, um dos bens mais preciosos, vem de Pretória, a capital, situada a cerca de 80
km., mas nos barracos de lata (muitos, qual cointêineres, sem janelas) situados à beira
da estrada e em várias ruas do Soweto o governo usa carros-pipa para abastecer os
moradores. Uma pena que o sistema de transporte público não funcione. Diante da
ausência de ônibus e táxis, os ricos têm um carro para cada membro da família e os
pobres se movimentam em lotações particulares que cobram caro e vão parando toda vez
que na calçada alguém faz um sinal informando para onde quer ir. Como não há parada de
ônibus, motorista e usuário comunicam-se por um curioso código onde a mão fechada
significa "centro", indicador ao alto é igual a "zona norte" e assim
por diante. Levado por amigos fui a um "shopping de negros" (como é possível
que exista algo assim?), considerado confiável e que, na verdade, é o shopping mais
normal do mundo. Até agora agradeço a oportunidade pois lá encontrei com toda
tranqüildade os CDs que procurava, do magnífico jazz sul-africano.
Quando o apartheid terminou em 1994 o luxuoso centro da cidade onde se concentravam os
brancos foi tomado pelos negros que até então nele só entravam para trabalhar. Hoje o
centro continua bonito, mas mudou de cor e virou zona proibida pelo menos a partir do
anoitecer. Um grupo de romenos desavisados no 1º dia do evento resolveu dar uma volta por
lá atrás de pechinchas mas a caminhada terminou 10 minutos depois para alegria dos
trombadinhas de plantão que os limparam sem piedade. Foi um dos raros incidentes
ocorridos durante a Cúpula Mundial: o exército e a polícia nas ruas garantiram, a
exemplo do que aconteceu na Rio-92, a tranqüilidade geral nesta cidade de amplas avenidas
(excelente asfalto e velocidade permitida de 100 ou 120 km) que formam um anel periférico
em torno do centro e dos núcleos de moradia ou trabalho. Um sossego: não há pardais
eletrônicos! O problema é a direção à direita pois o sistema é inglês, dando a
impressão de que o carro ou você está sempre na contra-mão.
A vida não é cara e as mercadorias a venda costumam ser de boa qualidade. A culinária
é um capítulo à parte. Em geral come-se bem, há restaurantes sensacionais onde é
comum servir pratos a base de carne de antílope, crocodilo e avestruz. Na rede do
"Carnivores" ou no tradicional Le Train é possível conhecer algo mais
exótico, como suculentas costelas de elefante ou hipopótamo. Um bom filet de impala ou
de avestruz é imperdível, principalmente se acompanhado pelos magníficos vinhos
sul-africanos que nada devem em qualidade aos das melhores vinícolas do mundo. A uva
pinotage é a rainha nacional, produzindo tintos de respeito, mas os cabernet-sauvignons e
chardonnays não podem ser desprezados.
As estatísticas de criminalidade, de desemprego e de contaminação pelo vírus da Aids
(20% da população adulta) são elevadas, mostrando uma população excluída numa cidade
de primeiro mundo. Nas vizinhanças estão os países africanos pressionando pela miséria
intensa e o Zimbabwe de Robert Mugabe com sua política racial às avessas, fazendo da
África do Sul, apesar dos problemas, um oásis econômico no sofrido continente africano.
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