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Revista Partes ano II novembro de 2002 n.27

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A Johannesburg que eu vi
por Vitor Gomes Pinto


Johannesburg, em pleno coração da África do Sul, ainda dividida entre brancos e negros procura sair do apartheid com uma democracia que só tem oito anos de vida. São 3,8 milhões de habitantes, dos quais 76% negros e 13% brancos que ainda não se cruzam (os mestiços formam uma minoria ao lado de indianos e outros asiáticos). As rádios transmitem numa babel de idiomas (são 11 oficialmente aceitos), desde o inglês e o afrikaner que é basicamente holandês, até o xhosa, zulu, sepedi, ndebele ... As minas de ouro que deram origem à cidade em 1887, continuam sendo uma de suas principais fontes de riqueza, ao lado da exploração do diamante e da crescente industrialização. Os resíduos de minério formam montanhas amareladas que mudaram a paisagem dessa planície a 2 mil metros acima do nível do mar onde o frio do inverno pode chegar aos zero graus. Foram 15 dias vividos com intensidade, na Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável integrando a delegação brasileira, tentando compreender as profundas contradições e as diferenças entre o bairro operário em que se transformou o antigo gueto do Soweto, as favelas de Alexandra, e as BMW, Mercedes, Audis e Volvos top de linha que circulam entre os sofisticados edifícios do bairro de Sandton.

As empresas privadas de segurança estão por toda parte, defendendo o patrimônio da população branca que vive em condomínios e trabalha em edifícios de escritório em geral protegidos por altos muros e cercas eletrificadas. É preciso identificar-se para ultrapassar os postos de controle e as cancelas que bloqueiam certas ruas e mesmo os shoppings mais luxuosos. A mão-de-obra é quase toda negra, mas há uma florescente e rica elite de cor que, diz-se, não costuma ser bem aceita pelos colegas de raça que em sua larga maioria permanecem na pobreza.

A água, um dos bens mais preciosos, vem de Pretória, a capital, situada a cerca de 80 km., mas nos barracos de lata (muitos, qual cointêineres, sem janelas) situados à beira da estrada e em várias ruas do Soweto o governo usa carros-pipa para abastecer os moradores. Uma pena que o sistema de transporte público não funcione. Diante da ausência de ônibus e táxis, os ricos têm um carro para cada membro da família e os pobres se movimentam em lotações particulares que cobram caro e vão parando toda vez que na calçada alguém faz um sinal informando para onde quer ir. Como não há parada de ônibus, motorista e usuário comunicam-se por um curioso código onde a mão fechada significa "centro", indicador ao alto é igual a "zona norte" e assim por diante. Levado por amigos fui a um "shopping de negros" (como é possível que exista algo assim?), considerado confiável e que, na verdade, é o shopping mais normal do mundo. Até agora agradeço a oportunidade pois lá encontrei com toda tranqüildade os CDs que procurava, do magnífico jazz sul-africano.

Quando o apartheid terminou em 1994 o luxuoso centro da cidade onde se concentravam os brancos foi tomado pelos negros que até então nele só entravam para trabalhar. Hoje o centro continua bonito, mas mudou de cor e virou zona proibida pelo menos a partir do anoitecer. Um grupo de romenos desavisados no 1º dia do evento resolveu dar uma volta por lá atrás de pechinchas mas a caminhada terminou 10 minutos depois para alegria dos trombadinhas de plantão que os limparam sem piedade. Foi um dos raros incidentes ocorridos durante a Cúpula Mundial: o exército e a polícia nas ruas garantiram, a exemplo do que aconteceu na Rio-92, a tranqüilidade geral nesta cidade de amplas avenidas (excelente asfalto e velocidade permitida de 100 ou 120 km) que formam um anel periférico em torno do centro e dos núcleos de moradia ou trabalho. Um sossego: não há pardais eletrônicos! O problema é a direção à direita pois o sistema é inglês, dando a impressão de que o carro ou você está sempre na contra-mão.
A vida não é cara e as mercadorias a venda costumam ser de boa qualidade. A culinária é um capítulo à parte. Em geral come-se bem, há restaurantes sensacionais onde é comum servir pratos a base de carne de antílope, crocodilo e avestruz. Na rede do "Carnivores" ou no tradicional Le Train é possível conhecer algo mais exótico, como suculentas costelas de elefante ou hipopótamo. Um bom filet de impala ou de avestruz é imperdível, principalmente se acompanhado pelos magníficos vinhos sul-africanos que nada devem em qualidade aos das melhores vinícolas do mundo. A uva pinotage é a rainha nacional, produzindo tintos de respeito, mas os cabernet-sauvignons e chardonnays não podem ser desprezados.

As estatísticas de criminalidade, de desemprego e de contaminação pelo vírus da Aids (20% da população adulta) são elevadas, mostrando uma população excluída numa cidade de primeiro mundo. Nas vizinhanças estão os países africanos pressionando pela miséria intensa e o Zimbabwe de Robert Mugabe com sua política racial às avessas, fazendo da África do Sul, apesar dos problemas, um oásis econômico no sofrido continente africano.

 



Vitor Gomes Pinto
Escritor, Autor de "Guerra nos Andes", coordenador de saúde do Sesi/CNI
e-mail: vitor.gp@persocom.com.br


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