Na
semana passada participei, como convidada, da Cúpula de Negócios da América Latina
organizada pelo Fórum Econômico Mundial, que discutiu na cidade do Rio de Janeiro as
perspectivas para a América Latina nos próximos anos. Como não podia deixar de ser, o
grande questionamento dos debates foram as expectativas sobre o governo do recém-eleito
presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.Durante o Fórum foi
feita uma pesquisa que mostrou ser consenso o fato de que o modelo econômico adotado até
agora não pode mais ser mantido. Todos concordaram que é preciso reduzir a desigualdade
social. Mas a grande questão é: como fazê-lo? Os participantes do Fórum não souberam
responder a isso. E é natural que não soubessem, porque suas receitas fracassaram e não
criaram alternativas ou experiências novas. O neoliberalismo não deu certo. Entretanto,
quando existe a admissão de um problema, já se está a caminho de resolvê-lo.
Há um poema que diz: "Caminhante, o caminho se faz ao andar". Não existe
receita para o caminho. É preciso ter coragem para ousar e responsabilidade para não
jogar fora o bebê com a água. Lula não vai criar turbulências desnecessárias. Não
vai tirar o dinheiro do sistema financeiro. Não vai descumprir e romper contratos. Creio
que os momentos de crise geram oportunidades e estas oportunidades estão relacionadas
não apenas à conjuntura global, mas também ao perfil e à personalidade do presidente
eleito.
Creio que a situação difícil da Alca, a situação complexa nos EUA e o perfil que o
presidente americano vai dar ou não para si mesmo com uma declaração de guerra vão
afetar as relações norte-americanas com o Brasil. E isto terá, para o presidente
eleito, um aspecto positivo e inovador. A sorte do Brasil é ter eleito Lula, nesta hora.
Acho que poderemos ter formas de negociação muito inovadoras com o governo Bush. Ao
mesmo tempo, da parte do nosso presidente há uma manifestação constante de respeito e
compromisso. É assim que se chega a uma boa vontade e a uma possibilidade de acordo. Hoje
há quem compare Lula a Tony Blair, da Inglaterra, da terceira via. Lula não é Blair. A
terceira via acabou lá, por que tem de começar aqui?
Temos que olhar as pessoas e os povos como eles são. Então, vamos olhar Lula e tentar
entender, sem olhos europeus, sem olhos americanos. Vamos tentar entender esta personagem,
este País e quais são as necessidades do povo brasileiro.
Portanto, o mundo terá de compreender o que falamos aqui, e não interpretar e esperar
somente o que se conhece. Vamos pensar no novo. Se há uma chance, uma possibilidade deste
País dar certo, ela é feita de novos pensamentos. E os outros que nos olhem com novos
olhos, analisem com mentes abertas este momento e saibam facilitar uma resposta nossa e a
própria mais criativa, que é o neoliberalismo. Durante os últimos oito anos a política
de inclusão social brasileira foi uma imagem construída para o exterior. Agora, com
Lula, vamos trocar a discussão sobre superávit pela implantação de um programa efetivo
que acabe com a fome no País.
Quanto à dívida do Brasil, há o compromisso de Lula em honrar nossos débitos. O
presidente vai negociar, como negociou toda a sua vida, com os bancos, com os governos, e
vai buscar alternativas para os problemas brasileiros. Ele tem credibilidade com MST, que
FHC não tinha. É intenção de Lula fazer a reforma agrária verdadeira e rápida. Não
seremos um modelo a ser seguido pela América Latina, mas uma esperança. Cada país deve
ser seu próprio modelo.
Favorecer a integração comercial sempre foi uma preocupação muito grande de Lula e
sua equipe. Creio que o que for possível fazer pelo Mercosul será feito. Tanto é que a
primeira viagem de Lula será à Argentina. Não pode haver manifestação mais clara
sobre como pensamos esta questão no Partido dos Trabalhadores.