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Revista Partes ano II dezembro de 2002 n.28

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Cotidiano
A tarefa histórica de Lula
por Marta Suplicy
Na semana passada participei, como convidada, da Cúpula de Negócios da América Latina organizada pelo Fórum Econômico Mundial, que discutiu na cidade do Rio de Janeiro as perspectivas para a América Latina nos próximos anos. Como não podia deixar de ser, o grande questionamento dos debates foram as expectativas sobre o governo do recém-eleito presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

Durante o Fórum foi feita uma pesquisa que mostrou ser consenso o fato de que o modelo econômico adotado até agora não pode mais ser mantido. Todos concordaram que é preciso reduzir a desigualdade social. Mas a grande questão é: como fazê-lo? Os participantes do Fórum não souberam responder a isso. E é natural que não soubessem, porque suas receitas fracassaram e não criaram alternativas ou experiências novas. O neoliberalismo não deu certo. Entretanto, quando existe a admissão de um problema, já se está a caminho de resolvê-lo.

Há um poema que diz: "Caminhante, o caminho se faz ao andar". Não existe receita para o caminho. É preciso ter coragem para ousar e responsabilidade para não jogar fora o bebê com a água. Lula não vai criar turbulências desnecessárias. Não vai tirar o dinheiro do sistema financeiro. Não vai descumprir e romper contratos. Creio que os momentos de crise geram oportunidades e estas oportunidades estão relacionadas não apenas à conjuntura global, mas também ao perfil e à personalidade do presidente eleito.

Creio que a situação difícil da Alca, a situação complexa nos EUA e o perfil que o presidente americano vai dar ou não para si mesmo com uma declaração de guerra vão afetar as relações norte-americanas com o Brasil. E isto terá, para o presidente eleito, um aspecto positivo e inovador. A sorte do Brasil é ter eleito Lula, nesta hora.

Acho que poderemos ter formas de negociação muito inovadoras com o governo Bush. Ao mesmo tempo, da parte do nosso presidente há uma manifestação constante de respeito e compromisso. É assim que se chega a uma boa vontade e a uma possibilidade de acordo. Hoje há quem compare Lula a Tony Blair, da Inglaterra, da terceira via. Lula não é Blair. A terceira via acabou lá, por que tem de começar aqui?

Temos que olhar as pessoas e os povos como eles são. Então, vamos olhar Lula e tentar entender, sem olhos europeus, sem olhos americanos. Vamos tentar entender esta personagem, este País e quais são as necessidades do povo brasileiro.

Portanto, o mundo terá de compreender o que falamos aqui, e não interpretar e esperar somente o que se conhece. Vamos pensar no novo. Se há uma chance, uma possibilidade deste País dar certo, ela é feita de novos pensamentos. E os outros que nos olhem com novos olhos, analisem com mentes abertas este momento e saibam facilitar uma resposta nossa e a própria mais criativa, que é o neoliberalismo. Durante os últimos oito anos a política de inclusão social brasileira foi uma imagem construída para o exterior. Agora, com Lula, vamos trocar a discussão sobre superávit pela implantação de um programa efetivo que acabe com a fome no País.

Quanto à dívida do Brasil, há o compromisso de Lula em honrar nossos débitos. O presidente vai negociar, como negociou toda a sua vida, com os bancos, com os governos, e vai buscar alternativas para os problemas brasileiros. Ele tem credibilidade com MST, que FHC não tinha. É intenção de Lula fazer a reforma agrária verdadeira e rápida. Não seremos um modelo a ser seguido pela América Latina, mas uma esperança. Cada país deve ser seu próprio modelo.

Favorecer a integração comercial sempre foi uma preocupação muito grande de Lula e sua equipe. Creio que o que for possível fazer pelo Mercosul será feito. Tanto é que a primeira viagem de Lula será à Argentina. Não pode haver manifestação mais clara sobre como pensamos esta questão no Partido dos Trabalhadores.

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