O
ensino no Brasil apresenta vários paradoxos, que são mais sensíveis na área pública.
Fato é que quase a totalidade das universidades públicas tem conceito "A",
enquanto a maioria das escolas governamentais, entre o nível fundamental e médio, mal
alfabetiza e pouco contribui para o desenvolvimento do raciocínio lógico e de
princípios básicos de cidadania (os resultados recentes do ENEM o comprovam).
Talvez esse seja o preço da tentativa de democratizar o ensino, estendendo as
oportunidades de educação a todos os cidadãos, mas não basta garantir o acesso às
escolas públicas; é necessário melhorar a qualidade da formação de nossos jovens,
preparando-os para um mercado cada vez mais competitivo, enfim, dando-lhes perspectiva de
vida e ambições de desenvolvimento pessoal e profissional que sejam alternativa sólida
ao "canto de sereia" da marginalidade e da alienação, tanto mais atrativos
quanto mais deteriorada a situação social, associada ao materialismo.A escola pública, que até meados da década de 1960 era
sinônimo de excelência educacional, é, hoje, salvo raras exceções, uma linha de
montagem sem controle de qualidade. Iniciativas recentes, como: as avaliações
periódicas do ensino fundamental e o ENEM; buscam a aferição de resultados, mas os
programas de capacitação docente e os recursos técnicos para atualização de métodos
de ensino, ainda são tímidos e mal utilizados.
Essa queda de qualidade das escolas públicas, mesmo das mais tradicionais, provocou a
migração de alunos da classe média para escolas particulares, que passaram a ser um
negócio altamente lucrativo, favorecido pelo dinamismo administrativo, pela possibilidade
de contratar recursos humanos e materiais sem ingerências políticas, e pela autonomia e
rigor no estabelecimento de padrões de desempenho discente, numa época em que as
despesas podiam ser altas sem, necessariamente, comprometer o orçamento familiar.
As sucessivas crises econômicas posteriores, entretanto, promoveram - e, ainda, promovem,
hoje - a reversão desse quadro, com as famílias de classe média, por problemas
financeiros, transferindo seus filhos das escolas particulares para escolas públicas
onde, além dos antigos problemas de qualidade, encontram outros, mais graves, como:
tráfico de drogas e violência.
A contrapartida de algumas escolas particulares, inclusive universidades, foi a redução
de mensalidades, com relaxamento de padrões, transformando-se em verdadeiras fábricas de
diplomas que colocavam, todos os anos, milhares de profissionais no mercado, sem a mínima
qualificação.
Enfim, houve um nivelamento generalizado "por baixo", ressalvadas - mas não
imunes - algumas instituições particulares e as universidades públicas. Esse processo,
naturalmente, levou a uma elitização do ensino de qualidade, pois nem sempre o "mal
necessário" dos cursinhos vestibulares é suficiente para compensar as deficiências
da formação acadêmica pregressa, além do fato de, sendo pagos, também terem acesso
restrito. O fator econômico, aliás, é uma das principais variáveis dessa equação
complexa, pois muitos jovens que, por necessidade familiar, ingressam cedo no mercado de
trabalho - que exige, cada vez mais, dedicação, em troca de remunerações, cada vez
menos, compensadoras - têm dificuldades para prosseguir seus estudos, normalmente no
período noturno, sofrendo, uma vez mais, discriminação.
As bolsas de estudo são uma alternativa para a acessibilidade às escolas de qualidade,
mas, em muitos casos, os critérios de concessão são subjetivos, senão constrangedores,
como é o caso da exigência de "atestados de pobreza". Além disso, a
quantidade oferecida é, sempre, inferior à demanda.
Outra opção é crédito educativo governamental (FIES), pois as exigências de
financiadores particulares são proibitivas. Entretanto, essa alternativa, apesar de
viabilizar a consecução dos estudos universitários de estudantes - que já tiveram que
superar as deficiências do ensino público para acessarem ao ensino universitário -
obriga ao ressarcimento, posterior, dos valores financiados, embora em condições
administráveis.
O fato é que, afora condições bastante específicas e excepcionais, existem,
basicamente, dois caminhos para formação acadêmica no Brasil: ensino básico público -
universidade particular e ensino básico particular - universidade pública (ou
particular, de conceito A, dependendo da quantidade de vagas disponibilizada), sendo que,
via de regra, o primeiro ocorre, a partir do ensino médio, no período noturno, com carga
horária menor; enquanto o segundo é, majoritariamente, diurno, com carga horária
superior, agregada de atividades extracurriculares.
As condições de ensino oferecidas pelo governo são, portanto, desiguais, embora,
contextualmente, compreensíveis. O reconhecimento dessas deficiências pode ser
constatado pelas iniciativas estatais na ampliação da acessibilidade ao ensino
fundamental, como o programa "Bolsa-Escola" e atuações pela erradicação do
trabalho infantil. As organizações não-governamentais e instituições ligadas ao
empresariado, também têm contribuído, propiciando cursos, cultura e lazer subsidiados,
indispensáveis à formação completa e equilibrada de futuros cidadãos.
Também merecem destaque as recentes iniciativas do Governo do Estado de São Paulo, de
incentivar a formação continuada dos professores do ensino público, fundamental e
médio, utilizando os excelentes - e extremamente seletivos e rigorosos - programas de
mestrado e doutorado das universidades públicas.
Obviamente, esse investimento pode ser frustrado em seu objetivo principal, pois esses
docentes - pelas defasagens físicas e salariais oferecidas pela rede pública de ensino
fundamental e médio - tenderiam, em tese, a ser absorvidos pelas próprias universidades
públicas, ou a migrar para instituições particulares, em condições financeiras e
didáticas mais atrativas.
Persistindo o quadro atual, o aluno do ensino público continuará com chances reduzidas
de ingresso no ensino universitário de conceito "A", tendo que trabalhar para
custear seus estudos, provavelmente, noturnos ou submeter-se aos financiamentos
reembolsáveis, enquanto o de melhor condição financeiro - com capacidade comprovada,
mas favorecida pelo ensino de melhor qualidade, por vezes em tempo integral - goza da
qualidade gratuita da universidade pública.
O problema, portanto, reside no retorno desse investimento público, que é pago pelos
contribuintes, e deve reverter em favor da sociedade como um todo.
Algumas correntes defendem a adoção indiscriminada do ensino público gratuito, outras
acreditam que todos devem pagar, mesmo que na proporção de sua renda familiar ou
pessoal.
Tal discussão atinge, inclusive, países do, chamado, Primeiro Mundo. Tanto que,
tradicional universidade pública inglesa promove debate sobre o assunto, argumentando que
dependeria, além das verbas providas pelo Estado, de recursos provenientes do corpo
discente, para preservar a excelência de seu corpo docente e manter seus programas de
pesquisa.
Alguns defendem o aporte de investimentos da iniciativa privada, complementando as verbas
oficiais - o que já ocorre no financiamento de pesquisas de interesse específico, em
nível de pós-graduação. Na verdade, todos - pessoas jurídicas e físicas - já fazem
esse tipo de investimento, na qualidade de contribuintes. Os empreendedores, aliás, têm
adotado um a postura diferenciada, direcionando verbas para programas de formação e
capacitação próprios, que gozam de benefícios fiscais similares. As escolas do SENAI e
SENAC são exemplos mais antigos e bem sucedidos dessa prática, agora agregados do que se
convencionou chamar Universidade Corporativa, cujo destaque são as Faculdades SENAC.
Ocorre que, tradicionalmente, os empresários brasileiros tendem a investir mais em
transferência de tecnologia que em pesquisa científica, o que nos mantém, sempre,
alguns passos atrás dos países desenvolvidos. Prova disso está na ínfima
participação brasileira no registro de patentes - inferior a um porcento -, ressalvados,
com louvor, alguns núcleos de excelência e a participação em programas de pesquisa
internacionais.
Onerar o contribuinte - pelo aumento da tributação - ou o corpo discente de
universidades públicas - pela instituição de mensalidades, etc. -, também são
possibilidades cogitadas, mas extremamente impopulares, ainda mais conhecendo as
históricas deficiências na distribuição e gestão de recursos governamentais. O que se
observa, então, é uma persistente desconfiança entre as partes envolvidas, o que
prejudica parcerias e desenvolvimento de potencialidades humanas e materiais, que, no
futuro, podem fazer diferença.
Esse tema ainda será objeto de muita discussão, mas existe uma questão conceitual que
já poderia ser mais bem desenvolvida: Se um aluno que, por fatores diversos, utiliza o
sistema FIES, tem que ressarcir aos cofres públicos os valores financiados, após o
término do curso - além de estar sujeito a perda onerosa do "benefício", em
caso de desempenho acadêmico deficiente -; por quê um aluno egresso de universidades
públicas não está subordinado a nenhum mecanismo de retribuição direta de um
investimento que foi, até, superior?
Esse tratamento diferenciado - que poderia ser considerado como ônus duplo, para aqueles
que já foram penalizados por um ensino público básico, que é acessível, mas
deficiente e defasado - geram propostas heterodoxas, tão questionáveis quando a
conjuntura que provoca estas discrepâncias. O estabelecimento de quotas para vagas nas
universidades públicas, por motivação racial, deficiência física ou qualquer outra
justificativa, é incoerente e, mesmo, depreciador do beneficiado, pois exclui o que
deveria ser o principal elemento de qualificação: a capacidade intelectual! Se a
formação proporcionada pelo ensino público básico é, hoje e já há algum tempo,
deficiente e desestimulante para todo o alunado e corpo docente, não será a outorga de
vagas por esse tipo de critério que solucionará, no fim do processo educacional, as
anomalias acumuladas ao longo de, no mínimo, onze anos de vida acadêmica. Há risco,
inclusive, dos problemas serem estendidos às universidades pública!
O ideal seria que conseguisse-mos conciliar o aumento da oferta de vagas - que hoje
assegura, segundo dados do governo federal, mais de 95% de crianças na escola - com o
retorno do ensino público ao padrão de qualidade existente até os anos 1950. Dessa
forma, poderíamos equilibrar as possibilidades de acesso às universidades públicas,
não pelo critérios de cotas, mas pelo real desenvolvimento dos potenciais de nossos
jovens, independentemente de classe social.
Fazendo uma analogia com sistemas produtivos industriais, a qualidade do produto depende
da qualidade de cada etapa do processo. Os princípios modernos de "Qualidade
Total", condenam o descarte do produto final, reduzindo-o a taxas mínimas, por
entender que isto representa um prejuízo inaceitável e injustificável. Isto obriga à
atualização constante de tecnologias e treinamento de pessoal. Agregado dos aspectos
humanos, essa também deveria ser a prática no sistema de ensino público. Contrariando
esse conceito, o Governo preferiu iniciar seu plano pelo final da "linha de
montagem": o ensino universitário. Hoje estabelecido, o "Provão" foi,
inicialmente, objeto de polêmicas e protestos dentro das próprias universidades
públicas. Seguindo essa linha, estabeleceu, mais tarde, o ENEM e, só agora, as
avaliações do ensino fundamental, constatando, estatisticamente, as graves deficiências
de base, que já estavam bastante claras nos meios acadêmicos universitários, onde os
docentes, ou se acomodavam, reduzindo e simplificando seus programas, ou tinham que
incorporar os espíritos de Pigmalião e Moisés para obter resultados medianos, sempre em
prejuízo dos alunos de melhor potencial.
Apesar do mal começo, os modelos de avaliação estão implantados e produzindo
resultados gerenciais. Resta saber como utilizar as informações obtidas para melhorar o
processo desde a origem. Obviamente, isto também inclui outras iniciativas
indispensáveis e prévias ao início do processo de aprendizado formal, dentre elas:
saneamento básico, emprego, lazer e alimentação adequados.
Como, então, usar desses dados e constatações para reverter esse quadro anômalo: sem
cair nas "facilidades" de propostas tão discriminadoras quanto a
discriminação que querem, segundo seus autores, compensar; sem aumentar tributos; sem
tornar a universidade pública paga; e recuperando o investimento feito pelo estado?
Alguns alegarão que o retorno do investimento na universidade pública já é obtido pelo
simples ingresso dos graduados no mercado de trabalho, gerando renda e, portanto, tributos
que realimentam o tesouro nacional. Mas tal raciocínio também não é aplicável aos
egressos de instituições particulares, com ou sem financiamento público?
Alguns países do mundo, administram a questão de forma indireta e bastante variada.
Na França, por exemplo, o serviço militar pode ser feito após a graduação, quando o
os conhecimentos acadêmicos adquiridos são aproveitados pelas forças armadas, seja em
áreas inerentes as suas atribuições constitucionais precípuas, seja em atividades
humanitárias, dentro ou fora de suas fronteiras. Outras iniciativas também estão
disponíveis para trabalho profissional voluntário, reconhecido pelo governo e de
inestimável valor social, como é o caso do celebrado "Médicos sem Fronteiras"
e seus análogos, em outras profissões. É óbvio que o contexto francês difere do
brasileiro, e que essas atuações acabam ocorrendo, majoritariamente em países do
Terceiro Mundo, muitos ex-colônias (até como forma de espiar pecados passados), mas a
realidade social de muitas regiões do Brasil não é diferente da desses países, e não
é preciso sair dos estados mais desenvolvidos para encontrar exemplos.
Na época da delatora militar, o Projeto Rondon teve o mérito de propiciar o contato de
universitários com essas áreas carentes. Entretanto, não havia compromisso nem
continuidade, de modo que a semente plantada pouco frutificou, pela brevidade da
vivência, pela imaturidade técnica e pelo esquecimento do distanciamento posterior.
As sucessivas crises econômicas e a necessidade de controle das contas públicas, por
exigência do FMI (o que seria um procedimento natural, não fossem as graves
conseqüências sociais que implica), prejudicam, atualmente, a participação das forças
armadas nesse processo, posto que o corte de recursos afetou, não apenas o processo de
atualização tecnológica, como obrigou à dispensa de parte significativa do contingente
agregado pelo processo de alistamento militar.
A soma dessas experiências, e seu aprimoramento, entretanto, poderia gerar uma série de
soluções de baixo custo, implementação local ou regional, e amplo alcance social.
O estabelecimento de programas específicos, com participação temporária e não
conflitante com atividades profissionais, poderia ser uma alternativa interessante para
esse processo de "ressarcimento" de investimento público na formação
universitária, seja para os recém-formados das universidades públicas, seja como
alternativa ao reembolso das verbas financiadas pelo FIES, para os egressos de escolas
particulares. Como valor agregado, a participação nesses programas também
proporcionaria inserção no mercado de trabalho, na qualidade de primeiro emprego, o que,
em tempos de crise, é fator positivo.
Dentre os programas que poderiam ser implementados, podem ser citados: assistência
médica e social, cursos extracurriculares em comunidades e escolas, apoio ao ensino
profissionalizante e de requalificação profissional, atividades culturais, aprimoramento
de atividades rurais, apoio pedagógico à instituições de ensino públicas, etc.
Praticamente, todas as especialidades podem participar dos programas, que teriam
planejamento e gerenciamento estatal, e assegurariam a continuidade e ampliação dos
benefícios. Dessa forma, os novos profissionais contribuiriam efetivamente, para a
melhoria da qualidade do ensino e das demais condições sociais, num processo de
interação e solidariedade que teria como produtos adicionais: o respeito e a cidadania,
com amplos benefícios para a retomada da auto-estima do povo brasileiro.
Não se trata de utopia ou pieguice, mas da adaptação
evoluída de projetos já existentes, mas de forma pulverizada, autônoma e deficiente.
Exige, portanto, estruturação e suporte consistentes, com ampla participação de
instituições públicas e particulares, pois existem inúmeras variáveis a considerar:
financeiras, técnicas e jurídicas.
Integrados aos programas de capacitação de docentes do ensino público, fundamental e
médio, às obras de infra-estrutura, e a expectativa de retomada de desenvolvimento
econômico, talvez possamos vislumbrar um tempo em que as potencialidades de nossos jovens
sejam identificadas e fomentadas desde a infância, e que a figura do
"head-hunter" de "cabeças feitas", seja substituído por pessoas
capazes de identificar qualidades de alunos - mesmo em escolas de periferia ou rurais -
que, a partir desse conhecimento, sejam estimulados e conduzidos a melhor formação
acadêmica existente, por capacidade e merecimento, independentemente de raça, classe
social ou condição financeira.
Será um tempo em que a sociedade será, seguramente, mais justa e solidária! |