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Revista Partes ano II dezembro de 2002 n.28

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Reflexão


O Preço

por Bruno Machado


E de inegável valor a evolução sofrida pela comunicação humana, desde os tempos mais remotos com as pinturas rupestres, passando pela associação entre imagem e significado presente na arte sacra da idade média, até a época atual onde a comunicação entre os seres humanos utiliza-se das mais avançadas tecnologias. A relação inicial envolvendo um signo e um objeto é a semente que germinou a comunicação, e que agora expande suas ramificações por todo o mundo. É preciso ressaltar a importância do grande avanço social, humano e tecnológico que envolveu o ato de se comunicar desde os grunhidos e gestos utilizados pelo homem primitivo até a informação on-line - obtida, traduzida e transmitida em poucos segundos para qualquer lugar do planeta- que impera na comunicação humana contemporânea. Informação rápida, quase instantânea, via satélite, internet ou cabo.

Os meios de comunicação de massa

O processo de urbanização acarretado pela revolução industrial, assim como o surgimento dos grandes centros, deu origem a uma nova sociedade. Instigando nos teóricos, sociólogos e matemáticos um interesse em estudar os mecanismos desta mesma. Os meios de comunicação de massa possuem um importante papel neste estudo, além de representarem uma nova maneira de se comunicar encontrada pelo homem. Estes meios, representados pelo rádio, jornais, revistas e -anos mais tarde- pela TV, configuram uma junção e um aperfeiçoamento das demais formas de compartilhamento de idéias utilizadas pelo ser humano desde a produção de sons que contivessem um significado em comum, passando pela representação gráfica destes mesmos signos até a forma visual de comunicação. Sendo assim, a aparição dos MCM compreende um dos maiores avanços já realizados na área, desde o surgimento dos primeiros alfabetos. A sociedade, porém, paga um preço por estes mesmos aperfeiçoamentos da comunicação humana.

"Ora, hoje, os Meios de comunicação de massa assumiram um papel preponderante, dando explicações e interpretações da realidade. Neles se formulam e se debatem as principais questões da sociedade moderna desenvolvida."

(Gomes, Pedro Gilberto." Tópicos de teoria da Comunicação".S.Leopoldo:Unisinos,1995

Segundo Pedro Gilberto Gomes os meios de comunicação, no contexto atual, possuem um aspecto peculiar que é o de formular entre os telespectadores, ouvintes, leitores e internautas, questões referentes ao seu cotidiano e às mudanças sociais e político-estruturais que ocorrem em seu universo.O domínio de um maior número de informações, veiculadas via rádio, jornais, TV e internet tornam-se um fator culminante para o domínio e a compreensão do mundo.

Esta mesma interpretação da realidade citada pelo autor, porém, nos leva a um grande problema da comunicação de massa atual: Até que ponto a mídia tem o direito de repassar a "interpretação" de um fato de acordo com suas conveniências? Seria interessante pararmos para pensar em como estes avanços sociais e humano-tecnológicos compreendido pela comunicação resultaram em poderes quase absolutistas aos MCM, colocando em xeque as liberdades intelectuais da sociedade. Na grande maioria dos casos a interpretação da realidade citada por Pedro Gilberto Gomes dá origem a uma característica podre e carcomida dos MCM: a manipulação da notícia e a distorção da informação.

O caso Globo

No Brasil, a grande campeã em casos polêmicos envolvendo esta característica deplorável é a Rede Globo, a maior empresa de comunicação em massa do país, detentora de jornais, revistas, emissoras de TV e portais de internet. Nas eleições presidenciais de 1989 a Rede Globo se viu envolvida num caso explícito de manipulação ao deixar claro o seu apoio ao candidato Fernando Collor de Mello, cuja imagem era constantemente divulgada pela emissora; além de convenientemente moldada por esta mesma no intuito de mostrar ao grande público seus " aspectos positivos" em relação ao candidato de oposição Luís Inácio "Lula" da Silva- cuja imagem, em contrapartida, era vinculada à greves, protestos e paralisações. Enquanto Collor ganhava títulos como " Caçador de marajás", Lula obtinha o rótulo de "baderneiro", um estigma que existe até hoje.

Esta manipulação se tornou ainda mais clara após o debate final entre os candidatos à presidência cuja exibição foi editada pela Globo, no intuito de prejudicar o candidato de oposição e favorecer aquele que possuía a "simpatia" da emissora. Fernando Collor de Mello venceu as eleições. Porém, anos mais tarde, sofreu um processo de impeachment , promovido pela mesma Rede Globo que o colocara no poder. As falcatruas do governo Collor, assim como o movimento cara-pintada, foram constantemente divulgados pelos jornais e revistas das Organizações Globo em um episódio que mostrou toda a fragilidade da democracia em nosso país em relação ao poder concentrado nas mãos dos meios de comunicação em massa; que continuam se aperfeiçoando, dia após dia.

Logo no início deste ano, a Rede Globo se encontra novamente envolvida em um caso peculiar de manipulação da notícia de acordo com seus interesses. A revista Carta Capital publicou recentemente uma matéria de capa intitulada de "O esquema Salva-Globo" onde a ajuda financeira do BNDES (e, conseqüentemente, do governo federal) à Globo Cabo em troca de apoio ao candidato oficial à sucessão de FHC é dissecada e analisada por jornalistas e profissionais do ramo da comunicação. A veiculação de diversas matérias e reportagens a respeito de uma devassa nas empresas Lunus cujo proprietário é Jorge Murad, marido e sócio da Governadora e ex-candidata Roseana Sarney, em jornais e revistas pertencentes às organizações Globo é uma prova concreta desta manipulação; uma vez que num passado próximo o apoio da Rede Globo à Roseana era quase total. Porém, com a ajuda financeira do BNDES a coisa parece ter mudado de figura. Esta é a mais gritante característica atual dos Meios de comunicação em massa; centenas de jornalistas postos em campo, centrais de notícias sempre alertas, tecnologia de ponta e profissionais qualificados a serviço de interesses escusos.

Resta-nos então, refletirmos sobre o alto preço que pagamos por este "progresso". Uma informação pode ser obtida e repassada em poucos minutos, segundos até, porém, será que as fontes que divulgam esta mesma informação estão interessadas simplesmente no ato de "comunicar", de compartilhar tais idéias ou apenas em interesses próprios? Até que ponto os modernos e avançados meios de comunicação em massa possuem compromisso com a imparcialidade da notícia? Como a revolução da era da internet pode ampliar o leque da comunicação entre as mais diversas sociedades se grande parte da população não domina a linguagem de um computador, ou não possui acesso a um?

A permanência destas questões, cuja procura por respostas nos leva a mais e mais dúvidas, é o preço que a sociedade paga por viver neste universo onde a comunicação humana não pára de se expandir a cada dia; concentrando, conseqüentemente, mais poderes nas mãos dos MCM, cujo compromisso com a informação se torna inexistente a partir do momento em que não há um interesse comercial e/ou pessoal na veiculação desta mesma. Talvez, apenas o surgimento de uma nova sociedade, a exemplo do que ocorreu no passado com o fenômeno da industrialização, possa mudar este panorama e nos trazer alguma perspectiva de mudança.

Bibliografia

Gomes, Pedro Gilberto. "Tópicos de Teoria da Comunicação". São Leopoldo: Unisinos,1995

Bordenave, Juan E.Diaz" O que é comunicação". São Paulo:Brasiliense,1988

Fernandes, Bob. " O jogo do Milhão", Carta Capital. São Paulo:Confiança,2002

Martins, Geraldo Vicente. " O BNDES do povo e a (man)Dona Globo", A voz de Ibiúna. Ibiúna: 2002


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Bruno Machado é estudante de jornalismo.
contosdomanicomio@hotmail.com

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