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Revista Partes ano II dezembro de 2002 n.28

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Sócio Ambiental

Somos parte da natureza ou donos do pedaço?
por Giuliana Capello

Quando o amigo Gilberto, editor desta revista, convidou-me para escrever no espaço sobre meio ambiente, uma das primeiras perguntas que me fiz foi: por que "Partes"? E aí, em casa, pensando no assunto, decidi escrever sobre minha "sensação pessoal" de que o homem, de modo geral, perdeu a noção de sentir-se parte da natureza. A história é velha, mas vale a pena entrar nesse túnel do tempo.

Muito antigamente, os homens viviam em comunidades nômades. Permaneciam num determinado local enquanto havia caça, alimentos da terra, água e fontes para manter o abrigo, o calor, a vestimenta e os utensílios das casas e do trabalho.

Quando a natureza dava indícios de que estava ficando saturada, era hora de partir para novas terras. Em outras palavras, respeitavam-se os ciclos da natureza. O homem fazia parte dela.

O tempo passou e ele começou a descobrir formas de manipular os elementos naturais em seu próprio benefício. Não era mais necessário deixar o local antes do inverno ou depois da colheita porque ele conhecia técnicas agrícolas e já criava animais em espaços confinados.

socioambiental28.jpg (37937 bytes)O homem mudou a relação que estabelecia com a vida que se mostrava ao seu redor. E na medida em que cada novo invento brotava nele a ilusão de que era possível dominar a natureza, o sentido de integração e simbiose com o meio ambiente deu lugar a uma falsa soberania e – para os mais pessimistas – a um distanciamento sem volta.

Houve, então, uma quebra fundamental nos ciclos naturais. O homem deixou de fazer parte do ambiente para ser o todo-poderoso de suas riquezas. Os elementos viraram recursos para produção em grande escala e, a partir daí, abriu-se o caderno de registro dos grandes impactos ambientais.

Hoje, a maioria da população humana mora nas grandes cidades, onde o solo é de asfalto, o ar cheira a gasolina, a água tem gosto de cloro e a espécie predominante (depois do homem, é claro) é a edificius di concretus.

Brincadeira? Infelizmente, não. Você já reparou, por exemplo, que pouquíssimas são as crianças que passam alguns minutos num parque ou num jardim? Uma, porque essas áreas são mais do que escassas. Outra, porque os pais não querem que os filhos sujem a roupa comprada no shopping center.

É como se a terra fosse sinônimo de sujeira e de atraso, um sinal de que o local ainda não é "desenvolvido" (ô, palavrinha cabulosa).

Mas o que fazer, então? Será que há uma solução? Minha opinião é de que dá para mudar, sim, mas de dentro para fora. Já disse Gandhi: "Devemos SER a mudança que queremos VER no mundo". Quero dizer, é preciso começar a transformação adotando novos padrões de comportamento e de atitude diante da vida.

Não é à toa que tem muita gente buscando opções mais saudáveis de se alimentar e cuidar do corpo e da mente. Também não sem razão cresce a cada ano o número de pessoas envolvidas em projetos socioambientais, por meio de ongs e trabalhos voluntários.

E o que dizer do sucesso do ecoturismo, dos esportes em ambientes naturais, das terapias alternativas e das discussões sobre como melhorar a qualidade de vida nas metrópoles?

Isso tudo é apenas um tímido primeiro passo, ainda há muito a fazer e, certeza mesmo, só de que o caminho é bem longo. O importante é tentar começar a pensar de um jeito diferente, acreditar que existe um equilíbrio natural em todas as coisas e que, como parte de todo o sistema, é dessa harmonia que depende o nosso próprio equilíbrio. Num dos meus livros de cabeceira, há uma passagem que representa isso muito bem: "Ame a Terra como a si mesmo, pois são a mesma coisa".

O sentimento de prazer e gratidão vem quando nos abrimos para as pequenas coisas: o sol entrando em seu quarto, a orquídea da janela que floresceu depois de três anos, a alface que você colheu da horta improvisada no quintal, o bem-estar vivido à beira de um rio ou durante aquele chazinho de camomila que você tomou antes de dormir.

Pode acreditar: quando esses detalhes começam a ganhar espaço no nosso dia-a-dia sentimos mais perto a essência de nós mesmos, resgatamos nossos vínculos ancestrais e, com isso, experimentamos uma sensação deliciosa de que fazemos parte de algo maior e de que a vida, amigo(a), é simples, sabe?

Somente depois de se sentir peça integrante do belíssimo mosaico da vida é que será possível construir uma ética ambiental e, especialmente, sentir com o coração os ritmos da Terra.

Humildemente, quero ser parte de um grupo crescente de pessoas que desejam mudanças. Minha intenção aqui é trocar informações, conhecimento, opiniões. E para isso, conto com a sua parte e sua ação.

Luz e paz para todos,
Até a próxima!


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Giuliana Capello
     jornalista e guarda-parque
giulianacapello@ig.com.br

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