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Leia
um Trecho do livro
O homem que acabou de entrar na loja para alugar uma cassete vídeo tem no seu bilhete de
identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso,
nada menos que Tertuliano Máximo Afonso. Ao Máximo e ao Afonso, de aplicação mais
corrente, ainda consegue admiti-los, dependendo, porém, da disposição de espírito em
que se encontre, mas o Tertuliano pesa-lhe como uma lousa desde o primeiro dia em que
percebeu que o malfadado nome dava para ser pronunciado com uma ironia que podia ser
ofensiva. É professor de História numa escola de ensino secundário, e o vídeo
tinha-lhe sido sugerido por um colega de trabalho que no entanto não se esquecera de
prevenir, Não é nenhuma obra-prima do cinema, mas poderá entretê-lo durante hora e
meia. Na verdade, Tertuliano Máximo Afonso anda muito necessitado de estímulos que o
distraiam, vive só e aborrece-se, ou, para falar com a exactidão clínica que a
actualidade requer, rendeu-se à temporal fraqueza de ânimo ordinariamente conhecida por
depressão. Para se ter uma ideia clara do seu caso, basta dizer que esteve casado e não
se lembra do que o levou ao matrimónio, divorciou-se e agora não quer nem lembrar-se dos
motivos por que se separou. Em troca não ficaram da mal sucedida união filhos que
andassem agora a exigir-lhe grátis o mundo numa bandeja de prata, mas à doce História,
a séria e educativa cadeira de História para cujo ensino o chamaram e que poderia ser
seu embalador refúgio, vê-a ele desde há muito tempo como uma fadiga sem sentido e um
começo sem fim. Para temperamentos nostálgicos, em geral quebradiços, pouco flexíveis,
viver sozinho é um duríssimo castigo, mas uma tal situação, reconheça-se, ainda que
penosa, só muito de longe em longe desemboca em drama convulsivo, daqueles de arripiar as
carnes e o cabelo. O que por aí mais se vê, a ponto de já não causar surpresa, é
pessoas a sofrerem com paciência o miudinho escrutínio da solidão, como foram no
passado recente exemplos públicos, ainda que não especialmente notórios, e até, em
dois casos, de afortunado desenlace, aquele pintor de retratos de quem nunca chegámos a
conhecer mais que a inicial do nome, aquele médico de clínica geral que voltou do
exílio para morrer nos braços da pátria amada, aquele revisor de imprensa que expulsou
uma verdade para plantar no seu lugar uma mentira, aquele funcionário subalterno do
registo civil que fazia desaparecer certidões de óbito, todos eles, por casualidade ou
coincidência, formando parte do sexo masculino, mas nenhum que tivesse a desgraça de
chamar-se Tertuliano, e isso terá decerto representado para eles uma impagável vantagem
no que toca às relações com os próximos. O empregado da loja, que já retirara da
estante a cassete pedida, inscreveu no registo de saída o título do filme e a data em
que estamos, e logo indicou ao alugador a linha onde teria de assinar. Traçada após um
instante de hesitação, a assinatura deixou ver apenas as duas últimas palavras, Máximo
Afonso, sem o Tertuliano, mas, como quem havia decidido esclarecer por adiantamento um
facto que poderia vir a ser motivo de controvérsia, o cliente, ao mesmo tempo que as
escrevia, murmurou, Assim é mais rápido. Não lhe serviu de muito ter-se sangrado em
saúde, porquanto o empregado, ao mesmo tempo que ia transpondo para uma ficha os dados do
bilhete de identidade, pronunciou em voz alta o infeliz e cediço nome, ainda por cima em
um tom que até mesmo uma criatura inocente reconheceria como intencional. Ninguém,
cremos, por mais limpa de obstáculos que a sua vida tenha sido, se atreverá a dizer que
nunca lhe aconteceu um vexame destes. Embora mais cedo ou mais tarde nos surja pela
frente, surge sempre, um desses espíritos fortes a quem as fraquezas humanas, sobretudo
as mais superiormente delicadas, provocam gargalhadas de troça, a verdade é que certos
sons inarticulados que às vezes, sem o querermos, nos saem da boca, não são outra coisa
que gemidos irreprimíveis de uma dor antiga, como uma cicatriz que de repente se tivesse
feito lembrar. Enquanto guarda a cassete na sua fatigada pasta de professor, Tertuliano
Máximo Afonso, com brio digno de apreço, esforça-se por não deixar transparecer o
desgosto que lhe tinha causado a gratuita denúncia do empregado da loja, mas não pôde
impedir-se de dizer consigo mesmo, embora recriminando-se pela baixa injustiça do
pensamento, que a culpa era do colega, da mania que certas pessoas têm de dar conselhos
sem que lhos tivessem pedido. Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante
quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente. Tertuliano
Máximo Afonso não sabe, não imagina, não pode adivinhar que o empregado já se
arrependeu do mal-educado despropósito, um outro ouvido, mais fino que o seu, capaz de
esmiuçar as subtis gradações de voz com que ele se declarara sempre ao dispor em
resposta às contrafeitas boas-tardes de despedida que lhe haviam sido atiradas, teria
permitido perceber que passara a instalar-se ali,
por trás daquele balcão, uma grande vontade de paz. Afinal,
é benévolo princípio mercantil, alicerçado na antiguidade e
provado pelo uso dos séculos, que a razão sempre a tem o cliente, mesmo no caso
improvável, mas possível, de se chamar Tertuliano.
Já no autocarro que o irá deixar perto do prédio em que vive há meia dúzia de anos,
isto é, desde que se divorciou, Máximo Afonso, servimo-nos aqui da versão abreviada do
nome porque à nossa vista a autorizou aquele que é seu único senhor e dono, mas
principalmente porque a palavra Tertuliano, estando tão próxima, apenas duas linhas
atrás, viria desservir gravemente a fluência da narrativa, Máximo Afonso, dizíamos,
achou-se a perguntar a si mesmo, de súbito intrigado, de súbito perplexo, que estranhos
motivos, que particulares razões teriam sido as que levaram o colega de Matemática,
tinha faltado dizer que é de Matemática o colega, a aconselhar-lhe com tanta
insistência o filme que viera alugar, quando a verdade é que, até este dia, nunca a
chamada sétima arte havia sido assunto de conversa entre ambos. Ainda se perceberia a
recomendação se se tratasse de uma boa fita, das indiscutíveis, em tal caso o agrado, a
satisfação, o entusiasmo pelo descobrimento de uma obra de alta qualidade estética
poderiam ter obrigado o colega, durante o almoço na cantina ou no intervalo de duas
aulas, a puxar-lhe pressurosamente pela manga e dizer, Não me lembro de que alguma vez
tenhamos falado de cinema, mas agora digo-lhe, meu caro, tem de ver, é indispensável que
veja Quem Porfia Mata Caça, que é precisamente o título do filme que Tertuliano Máximo
Afonso leva dentro da pasta, também a informação estava a faltar. Então o professor de
História perguntaria, E em que cinema o exibem, ao que o de Matemática replicaria,
rectificando, Não exibem, exibiram, o filme já tem uns quatro ou cinco anos, não
percebo como foi que se me escapou na estreia, e logo, sem pausa, inquieto pela possível
inutilidade do conselho que com tanto fervor estava oferecendo, Mas talvez você já o
tivesse visto, Não vi, vou pouco ao cinema, contento-me com o que passa na televisão, e
mesmo assim, Pois então deveria vê-lo, encontra-o em qualquer loja da especialidade,
alugue-o se não lhe apetecer comprar. O diálogo poderia ter decorrido mais ou menos
desta maneira se o filme merecesse os louvores, mas as coisas, na realidade, passaram-se
com menos ditirambos, Não é para me meter na sua vida, dissera o de Matemática enquanto
descascava uma laranja, mas de há uns tempos a esta parte encontro-o a modo que abatido,
e Tertuliano Máximo Afonso confirmou, É verdade, tenho andado um pouco em baixo,
Problemas de saúde, Não creio, tanto quanto posso saber não estou doente, o que sucede
é que tudo me cansa e aborrece, esta maldita rotina, esta repetição, este marcar passo,
Distraia-se, homem, distrair-se foi sempre o melhor remédio, Dê-me licença que lhe diga
que distrair-se é o remédio de quem não precisa dele, Boa resposta, não há dúvida,
no entanto alguma coisa terá de fazer para sair do marasmo em que se encontra, Da
depressão, Depressão ou marasmo, dá igual, a ordem dos factores é arbitrária, Mas
não a intensidade, Que faz fora das aulas, Leio, ouço música, de vez em quando passo
por um museu, E ao cinema, vai, Cinema frequento pouco, contento-me com o que vai passando
na televisão, Podia comprar uns vídeos, organizar uma colecção, uma videoteca, como se
diz agora, Sim, realmente podia, o pior é que já falta espaço para os livros, Então
alugue, alugar é a solução melhor, Tenho uns quantos vídeos, uns documentários
científicos, ciências da natureza, arqueologia, antropologia, artes em geral, também me
interessa a astronomia, assuntos deste tipo, Tudo isso está bem, mas precisa de se
distrair com histórias que não ocupem demasiado espaço na cabeça, por exemplo, uma vez
que a astronomia lhe interessa, imagino que igualmente lhe poderia interessar a ficção
científica, as aventuras no espaço, as guerras das estrelas, os efeitos especiais, Tal
como vejo e entendo, os tais efeitos especiais são o pior inimigo da imaginação, essa
manha misteriosa, enigmática, que tanto trabalho deu aos seres humanos inventar, Meu
caro, você exagera, Não exagero, quem exagera são os que querem convencer-me de que em
menos de um segundo, com um estalido de dedos, se põe uma nave espacial a cem mil
milhões de quilómetros de distância, Reconheça que para criar esses efeitos que você
desdenha tanto, também se necessita imaginação, Sim, mas é a deles, não é a minha,
Sempre terá a faculdade de usar a sua começando do ponto aonde a deles tinha chegado,
Ora, ora, duzentos mil milhões de quilómetros em lugar de cem, Não esqueça que o que
chamamos hoje realidade foi imaginação ontem, olhe o Júlio Verne, Sim, mas a realidade
de agora é que para ir a Marte, por exemplo, e Marte em termos astronómicos até se pode
dizer que está ali ao virar da esquina, são necessários nada menos que nove meses,
depois haverá que ficar lá à espera mais seis meses até que o planeta esteja de novo
no ponto óptimo para se poder regressar, e finalmente fazer outra viagem de nove meses
para chegar à Terra, total, dois anos de suprema chatice, um filme sobre uma ida a Marte
em que a verdade dos factos fosse respeitada, seria a mais enfadonha estopada que alguma
vez se viu, Já percebi por que é que você se aborrece, Por quê, Porque não há nada
que o contente, Contentar-me-ia com pouco, se o tivesse, Algo terá por aí, uma carreira,
um trabalho, à primeira vista não lhe encontro motivos para lamentos, É a carreira e o
trabalho que me têm a mim, não eu a eles, Desse mal, na suposição de que realmente o
seja, todos nos queixamos, também eu quereria que me conhecessem como um génio da
Matemática em lugar do medíocre e resignado professor de um estabelecimento de ensino
secundário que não terei outro remédio que continuar
a ser, Não gosto de mim mesmo, provavelmente é esse o
problema, Se você me viesse com uma equação a duas incógnitas ainda lhe poderia
oferecer os meus préstimos de especia-
lista, mas, tratando-se de uma incompatibilidade desse calibre, a minha ciência só
serviria para complicar-lhe a vida, por isso digo-lhe que se entretenha a ver uns filmes
como quem toma tranquilizantes, não que passe a dedicar-se às matemáticas, que puxam
muito pela cabeça, Tem alguma ideia, Ideia de quê, De um filme interessante, que valha a
pena, É o que não falta, entra na loja, dá uma volta e escolhe, Mas sugira-me um, ao
menos. O professor de Matemática pensou, pensou, e disse enfim, Quem Porfia Mata Caça,
Isso que é, Um filme, foi o que me pediu, Parece mais um ditado popular, É um ditado
popular, Todo ele, ou só o título, Espere para ver, De que género, O di-tado, Não, o
filme, Comédia, Tem a certeza de que não é um dramalhão dos antigos, de faca e
alguidar, ou desses modernos, com tiros e explosões, É uma comédia levezinha,
divertida, Vou tomar nota, como foi que disse que se chamava, Quem Porfia Mata Caça,
Muito bem, já o tenho, Não é nenhuma obra
prima do cinema, mas poderá entretê-lo durante hora e meia.
Tertuliano Máximo Afonso está em casa, tem na cara uma expressão de dúvida, nada
grave, porém, não é a primeira vez que lhe sucede estar assim, a assistir ao balouçar
da vontade entre gastar tempo a preparar algo para comer, o que em geral não significa
mais esforço que abrir uma lata e levar ao lume o conteúdo, ou a alternativa de sair
para ir jantar a um restaurante perto, onde já o conhecem pela pouca consideração que
demonstra pela ementa, não por atitude soberba de cliente insatisfeito, mas por
indiferença, por alheamento, por preguiça de ter de escolher um prato entre os que lhe
propõem na curta lista por de mais repetida. Reforça-lhe a conveniência de não sair de
casa o facto de ter trazido trabalho da escola, os últimos exercícios dos seus alunos,
que deverá ler com atenção e corrigir sempre que atentem perigosamente contra as
verdades ensinadas ou se permitam excessivas liberdades de interpretação. A História
que Tertuliano Máximo Afonso tem a missão de ensinar é como um bonsai a que de vez em
quando se aparam as raízes para que não cresça, uma miniatura infantil da gigantesca
árvore dos lugares e do tempo, e de quanto neles vai sucedendo, olhamos, vemos a
desigualdade de tamanho e por aí nos deixamos ficar, passamos por alto outras diferenças
não menos notáveis, por exemplo, nenhuma ave, nenhum pássaro, nem sequer o diminuto
beija-flor, conseguiria fazer ninho nos ramos de um bonsai, e se é verdade que à pequena
sombra deste, supondo-o provido de suficiente frondosidade, pode ir acoitar-se uma
lagartixa, o mais certo é que ao réptil lhe fique a ponta do rabo de fora. A História
que Tertuliano Máximo Afonso ensina, ele mesmo o reconhece e não se importará de
confessar se lho perguntarem, tem uma enorme quantidade de rabos de fora, alguns ainda
remexendo, outros já reduzidos a uma pele encarquilhada com uma carreirinha de vértebras
soltas dentro. Lembrando-se da conversa com o colega, pensou, A Matemática veio doutro
planeta cerebral, na Matemática os rabos de lagartixa não seriam mais que abstracções.
Tirou os papéis de dentro da pasta e colocou-os em cima da mesa de trabalho, tirou
também a cassete de Quem Porfia Mata Caça, ali estavam as duas ocupações a que poderia
dedicar o serão de hoje, corrigir os exercícios, ver o filme, suspeitava no entanto que
o tempo não iria dar para tudo, uma vez que não tinha por costume nem gostava de
trabalhar pela noite dentro. A urgência do exame das provas dos alunos não era de
sangria desatada, a urgência de ver o filme, essa não era nenhuma. O melhor será
continuar com o livro que estava a ler, pensou. Depois de ter passado pela casa de banho
foi ao quarto para mudar de roupa, trocou de sapatos e calças, enfiou um pulôver por
cima da camisa, deixando ficar a gravata porque não gostava de ver-se esgargalado, e
entrou na cozinha. Tirou de um armário três latas de diferentes comidas, e como não
soube por qual decidir-se, lançou mão, para tirar à sorte, de uma incompreensível e
quase esquecida cantilena de infância que muitas vezes, naqueles tempos, o tinha deixado
fora de jogo, e rezava assim, um dó li tá, era de mendá, um sulete colorete, um dó li
tá. Saiu um guisado de carne, que não era o que mais lhe apetecia, mas achou que não
devia contrariar o destino. Comeu na cozinha, empurrando com um copo de vinho tinto, e,
quando terminou, quase sem pensar, repetiu a cantilena com três migalhas de pão, a da
esquerda, que era o livro, a do meio, que era os exercícios, a da direita, que era o
filme. Ganhou Quem Porfia Mata Caça, está visto que o que tem de ser, tem de ser, e tem
muita força, nunca jogues as pêras com o destino, que ele come as maduras e dá-te as
verdes.
É o que geralmente se diz, e, porque se diz geralmente, aceitamos a sentença sem mais
discussão, quando o nosso dever de gente livre seria questionar energicamente um destino
despótico que determinou, sabe-se lá com que maliciosas intenções, que a pêra verde
é o filme, e não os exercícios ou o livro. Como professor, e de História ainda por
cima, este Tertuliano Máximo Afonso, haja vista a cena a que acabámos de assistir na
cozinha, confiando o seu futuro imediato e porventura o que virá depois dele a três
migalhas de pão e a um papaguear infantil e sem sentido, é um mau exemplo para os
adolescentes que o destino, o mesmo ou outro, pôs nas suas mãos. Não caberá
infelizmente neste relato uma antecipação dos prováveis efeitos perniciosos da
influência de um tal professor na formação das jovens almas dos educandos, por isso as
deixamos aqui, sem outra esperança que a de que venham a encontrar, um dia, no caminho da
vida, uma influência de sinal contrário que as livre, quem sabe se in extremis, da
perdição irracionalista que neste momento as ameaça.
Tertuliano Máximo Afonso lavou cuidadosamente a louça do jantar, desde sempre constitui
para ele uma inviolável obrigação deixar tudo limpo e reposto nos seus sítios depois
de ter comido, o que vem ensinar-nos, regressando por uma última vez às jovens almas
acima citadas, para as quais semelhante procedimento seria, talvez, se não com alta
probabilidade, risível, e a obrigação letra-morta, que até de alguém tão pouco
recomendável em temas, assuntos e questões relacionadas com o livre-arbítrio é
possível aprender alguma coisa. Tertuliano Máximo Afonso recebeu dos regrados costumes
da família em que foi gerado esta e outras boas lições, em particular de sua mãe, por
fortuna ainda viva e de saúde, a quem certamente irá visitar um destes dias, lá na
pequena cidade da província onde o futuro professor abriu os olhos para o mundo, berço
dos Máximos maternos e dos Afonsos paternos, e em que lhe calhou ser o primeiro
Tertuliano acontecido, nado há quase quarenta anos. Ao pai, não terá outra solução
que ir visitá-lo ao cemitério, assim é a puta da vida, sempre se nos acaba. A má
palavra passou-lhe pela cabeça sem que a tivesse convocado, foi por ter pensado no pai
enquanto saía da cozinha e sentir a saudade dele, Tertuliano Máximo Afonso é pouco de
dizer asneiras, a tal ponto que se em alguma rara ocasião lhe sucede largá-las, ele
próprio se surpreende com a estranheza, com a falta de convencimento dos seus órgãos
fonadores, cordas vocais, câmara palatina, língua, dentes e lábios, como se estivessem
articulando, contrariados, pela primeira vez, uma palavra de um idioma até aí
desconhecido. Na pequena divisão da casa que lhe serve de escritório e de sala de estar
há um sofá de dois lugares, uma mesinha baixa, de centro, uma cadeira de assento
estofado que parece hospitaleira, o aparelho de televisão em frente dela, no ponto de
fuga, e, posta de canto, a jeito de receber a luz da janela, a secretária onde os
exercícios de História e a cassete estão à espera de ver quem ganha. Duas das paredes
estão forradas de livros, a maioria deles com as rugas do uso e a murchidão da idade. No
chão um tapete com motivos geométricos, de cores surdas, ou talvez desbotadas, ajuda a
sustentar um ambiente de conforto que não passa de simples mediania, sem fingimentos nem
pretensões a parecer mais do que é, o sítio de viver de um professor do ensino
secundário que ganha pouco, como parece ser obstinação caprichosa das classes docentes
em geral, ou condenação histórica que ainda não acabaram de purgar. A migalha do meio,
isto é, o livro que Tertuliano Máximo Afonso tem andado a ler, um ponderoso estudo das
antigas civilizações mesopotâmicas, encontra-se onde foi deixado na noite de ontem,
aqui sobre a mesinha de centro, à espera, também, como as outras duas migalhas, à
espera, como as coisas sempre estão, todas elas, a isso não podem escapar, é a
fatalidade que as governa, parece que faz parte da sua invencível natureza de coisas. De
uma personalidade como se tem vindo a anunciar a deste Tertuliano Máximo Afonso, que já
deu algumas mostras de espírito vagueador, e até algo evasivo, no pouco tempo que leva
de conhecido, não causaria surpresa neste momento uma exibição de conscientes
simulações consigo mesmo, folheando os exercícios dos alunos com falsa atenção,
abrindo o livro na página em que a leitura havia ficado interrompida, mirando
desinteressado a cassete por um lado e pelo outro, como se ainda não se tivesse decidido
sobre o que finalmente quererá fazer. Mas as aparências, nem sempre tão enganadoras
quanto se diz, não é raro que se neguem a si mesmas e deixem surdir manifestações que
abrem caminho à possibilidade de sérias diferenças futuras num padrão de comportamento
que, no geral, parecia apresentar-se como definido. Esta laboriosa explicação poderia
ter-se evitado se em seu lugar, sem mais rodeios, tivéssemos dito que Tertuliano Máximo
Afonso se dirigiu directamente, isto é, em linha recta, à secretária, pegou na cassete,
percorreu com os olhos as informações do verso e do anverso da caixa, apreciou neste as
caras sorridentes, bem--dispostas dos intérpretes, notou que só o nome de um deles, o
principal, uma actriz jovem e bonita, lhe era familiar, aviso de que o filme, na hora dos
contratos, não devia ter sido contemplado com atenções especiais por parte dos
produtores, e logo, com o firme movimento de uma vontade que parecia nunca haver duvidado
de si mesma, empurrou a cassete para dentro do aparelho de vídeo, sentou-se na cadeira,
carregou no botão de arranque do comando a distância e acomodou-se para passar o melhor
possível um serão, que, se pela amostra já pouco prometia, menos ainda deveria cumprir.
E assim foi. Tertuliano Máximo Afonso riu por duas vezes, sorriu três ou quatro, a
comédia, a par de levezinha, segundo a expressão conciliadora do colega de Matemática,
era principalmente absurda, disparatada, um engendro cinematográfico em que a lógica e o
senso comum tinham ficado a protestar do lado de fora da porta porque não lhes havia sido
permitida a entrada lá onde o desatino estava a ser perpetrado. O título, o tal Quem
Porfia Mata Caça, era uma daquelas metáforas óbvias, do tipo branco é galinha o põe,
caça, caçada e caçadores era coisa que não se via na história, tudo se limitava a um
caso de frenética ambição pessoal que a actriz jovem e bonita encarnava o melhor que
lhe tinham ensinado, salpicado o dito caso de mal--entendidos, manobras, desencontros e
equívocos, no meio dos quais, por infelicidade, a depressão de Tertuliano Máximo Afonso
não conseguiu encontrar o menor lenitivo. Quando o filme terminou, Tertuliano estava mais
irritado consigo mesmo que com o colega. A este desculpava-o a boa intenção, mas a si,
que já tinha muito boa idade para não andar a correr atrás de foguetes, o que lhe
doía, como aos ingénuos sempre sucede, era isso mesmo, a sua ingenuidade. Em voz alta,
disse, Amanhã vou devolver esta merda, desta vez não houve surpresa, achou que lhe
assistia o direito de desabafar pela via grosseira, e, além disso, havia que ter em
consideração que esta só era a segunda indecência que deixara escapar nas últimas
semanas, e a primeira delas, ainda por cima, tinha sido apenas em pensamento, o que é
apenas em pensamento não conta. Olhou o relógio e viu que ainda não eram onze horas. É
cedo, murmurou, e com isto quis dizer, como se viu logo a seguir, que ainda tinha tempo
para se punir a si mesmo pela leviandade de ter trocado a obrigação pela devoção, o
autêntico pelo falso, o duradouro pelo precário. Sentou-se à secretária, puxou para
si, cuidadosamente, os exercícios de História, como querendo pedir-lhes perdão pelo
abandono, e trabalhou pela noite dentro, como mestre escrupuloso que sempre se tinha
prezado de ser, cheio de pedagógico amor pelos seus alunos, mas exigentíssimo nas datas
e implacável nos cognomes. Era tarde quando chegou ao final da empreitada que havia
imposto a si mesmo, porém, ainda repeso da falta, ainda contrito do pecado, e como quem
tinha decidido trocar um cilício doloroso por outro não menormente correctivo, levou
para a cama o livro sobre as antigas civilizações mesopotâmicas, no capítulo que
tratava dos semitas amorreus e, em particular, do seu rei Hamurabi, o do código. Ao cabo
de quatro páginas adormeceu serenamente, sinal de que tinha sido perdoado.
Acordou uma hora depois. Não sonhara, nenhum horrível pesadelo lhe havia desordenado o
cérebro, não esbracejou a defender-se do monstro gelatinoso que se lhe viera pegar à
cara, abriu apenas os olhos e pensou, Há alguém em casa. Devagar, sem precipitação,
sentou-se na cama e pôs-se à escuta. O quarto é interior, mesmo durante o dia não
chegam aqui os rumores de fora, e a esta altura da noite, Que horas serão, o silêncio
costuma ser total. E era total. Quem quer que fosse o intruso, não se movia de onde
estava. Tertuliano Máximo Afonso estendeu o braço para a mesa-de-cabeceira e acendeu a
luz. O relógio marcava quatro e um quarto. Como a maior parte da gente comum, este
Tertuliano Máximo Afonso tem tanto de corajoso como de cobarde, não é um herói desses
invencíveis de cinema, mas também não é nenhum cagarola, dos que se mijam pelas pernas
abaixo quando ouvem ranger à meia-noite a porta da masmorra do castelo. É verdade que
sentiu eriçaram-se-lhe os pêlos do corpo, mas isso até aos lobos sucede quando se
enfrentam a um perigo, e a ninguém que esteja em seu juízo perfeito lhe passará pela
cabeça sentenciar que os lupinos são uns miseráveis cobardes. Tertuliano Máximo Afonso
vai demonstrar que também não o é. Deixou-se escorregar subtilmente da cama, empunhou
um sapato à falta de arma mais contundente e, usando de mil cautelas, assomou--se à
porta do corredor. Olhou a um lado, depois a outro. A percepção de presença que o
fizera despertar tornou-se um pouco mais forte. Acendendo as luzes à medida que
avançava, ouvindo ressoar-lhe o coração na caixa do peito como um cavalo a galope,
Tertuliano Máximo Afonso entrou na casa de banho e depois na cozinha. Ninguém. E a
presença, ali, era curioso, pareceu-lhe que baixava de intensidade. Regressou ao corredor
e enquanto se ia aproximando da sala de estar percebeu que a invisível presença se
tornava mais densa a cada passo, como se a atmosfera se tivesse posto a vibrar pela
reverberação de uma oculta incandescência, como se o nervoso Tertuliano Máximo Afonso
caminhasse por um terreno radioactivamente contaminado levando na mão um contador Geiger
que irradiasse ectoplasmas em vez de emitir avisos sonoros. Não havia ninguém na sala.
Tertuliano Máximo Afonso olhou ao redor, ali estavam, firmes e impávidas, as duas altas
estantes cheias de livros, as gravuras emolduradas das paredes, às quais até agora não
se tinha feito referência, mas é certo, ali estão, e ali, e ali, e ali, a secretária
com a máquina de escrever, a cadeira, a mesa baixa ao meio com uma pequena escultura
colocada exactamente no centro geométrico, e o sofá de dois lugares, e o aparelho de
televisão. Tertuliano Máximo Afonso murmurou em voz muito baixa, com temor, Era isto, e
então, pronunciada a última palavra, a presença, silenciosamente, como uma bola de
sabão rebentando, desapareceu. Sim, era aquilo, o aparelho de televisão, o leitor de
vídeo, a comédia que se chama Quem Porfia Mata Caça, uma imagem lá dentro que havia
regressado ao seu sítio depois de ir acordar Tertuliano Máximo Afonso à cama. Não
imaginava qual ela poderia ser, mas tinha a certeza de que a reconheceria quando
aparecesse. Foi ao quarto, vestiu um roupão por cima do pijama para não apanhar frio e
voltou. Sentou-se na cadeira, carregou outra vez no botão de arranque do comando a
distância e, inclinado para a frente, com os cotovelos assentes nos joelhos, todo ele
olhos, já sem risos nem sorrisos, repassou a história da mulher jovem e bonita que
queria triunfar na vida. Ao cabo de vinte minutos, viu-a entrar num hotel e dirigir-se ao
balcão de recepção, ouviu-lhe dizer o nome, Chamo-me Inês de Castro, antes já tinha
reparado na interessante e histórica coincidência, ouviu-a depois continuar, Tenho aqui
uma reserva, o empregado olhou-a de frente, à câmara, não a ela, ou a ela que se
encontrava no lugar da câmara, o que ele disse quase não o chegou a perceber agora
Tertuliano Máximo Afonso, o polegar da mão que segurava o comando a distância carregou
veloz no botão de parar, porém a imagem já se tinha ido, é lógico que não se gaste
película inutilmente com um actor, figurante ou pouco mais, que só entra na história ao
fim de vinte minutos, a fita desandou, passou outra vez pela cara do recepcionista, a
mulher jovem e bonita tornou a entrar no hotel, tornou a dizer que se chamava Inês de
Castro e que tinha uma reserva, agora sim, aqui está, a imagem fixa do empregado da
recepção olhando de frente quem o olhava a ele. Tertuliano Máximo Afonso levantou-se da
cadeira, ajoelhou-se diante do televisor, a cara tão perto do ecrã quanto lho permitia a
visão, Sou eu, disse, e outra vez sentiu que se lhe eriçavam os pêlos do corpo, o que
ali estava não era verdade, não podia ser verdade, qualquer pessoa equilibrada por acaso
ali presente o tranquilizaria, Que ideia, meu caro Tertuliano, tenha a bondade de observar
que ele usa bigode, enquanto você tem a cara rapada. As pessoas equilibradas são assim,
têm o costume de simplificar tudo, e depois, mas sempre tarde de mais, é que as vemos
assombrarem-se com a copiosa diversidade da vida, então lembram-se de que os bigodes e as
barbas não têm vontade própria, crescem e prosperam quando se lhes permite, às vezes
também por pura indolência do portador, mas, de um instante para outro, só porque a
moda variou ou porque a pilosa monotonia os tornou molestos ao espelho, desaparecem sem
deixar rasto. Não esquecendo ainda, porque tudo pode acontecer quando se trate de actores
e artes cénicas, a forte probabilidade de que o fino e bem tratado bigode do empregado da
recepção seja, simplesmente, um postiço. Tem-se visto. Estas considerações, que, por
óbvias, saltariam com toda a naturalidade à vista de qualquer pessoa, poderia Tertuliano
Máximo Afonso tê-las produzido por sua própria conta se não estivesse tão concentrado
a procurar no filme outras situações em que aparecesse o mesmo actor secundário, ou
figurante com linhas de texto, como com mais rigor conviria designá--lo. Até ao final da
história, o homem do bigode, sempre no seu papel de recepcionista, apareceu em mais cinco
ocasiões, de cada vez com escasso trabalho, embora na última lhe fosse dado trocar duas
frases pretendidamente maliciosas com a dominadora Inês de Castro e depois, enquanto ela
se afastava balançando os quadris, olhá-la com expressão caricatamente libidinosa, que
o realizador devia ter considerado irresistível ao apetite de riso do espectador.
Escusado dizer que se Tertuliano Máximo Afonso não achou graça na primeira vez, muito
menos achou na segunda. Tinha regressado à primeira imagem, aquela em que o empregado da
recepção, num grande plano, fita a direito Inês de Castro, e analisava, minucioso, a
imagem, traço por traço, feição por feição, Tirando umas leves diferenças, pensou,
o bigode sobretudo, o cabelo de corte diferente, a cara menos cheia, é igual a mim.
Sentia-se tranquilo agora, sem dúvida a semelhança era, por assim dizer, assombrosa, mas
daí não passava, semelhanças é o que não falta no mundo, vejam-se os gémeos, por
exemplo, o que seria para admirar é que havendo mais de seis mil milhões de pessoas no
planeta não se encontrassem ao menos duas iguais. Que nunca poderiam ser exactamente
iguais, iguais em tudo, já se sabe, disse, como se estivesse a conversar com aquele quase
seu outro eu que o olhava de dentro do aparelho de televisão. Outra vez sentado na
cadeira, ocupando portanto a posição relativa da actriz que interpretava o papel de
Inês de Castro, brincou a ser, também ele, cliente do hotel,Chamo-me Tertuliano Máximo
Afonso, anunciou, e depois, sorrindo, E você, a pergunta era das mais consequentes, se
duas pessoas iguais se encontram, o natural é quererem saber tudo uma da outra, e o nome
é sempre a primeira coisa porque imaginamos que essa é a porta por onde se entra.
Tertuliano Máximo Afonso fez correr a fita até ao fim, ali estava a lista dos actores de
menor importância, não se lembrava se também seriam mencionados os papéis que
representavam, afinal não, os nomes apareciam por ordem alfabética, simplesmente, e eram
muitos. Agarrou meio distraído a caixa da cassete, passou uma vez mais os olhos pelo que
ali se escrevia e mostrava, os rostos sorridentes dos actores principais, um breve resumo
da história, e também, em baixo, numa linha de informações técnicas, em letra
pequena, a data do filme. Já tem cinco anos, murmurou, ao mesmo tempo que recordava que o
mesmo lhe tinha dito o colega de Matemática. Cinco anos já, repetiu, e, de repente, o
mundo levou outro abanão, não era o efeito de uma impalpável e misteriosa presença que
o tinha despertado, mas sim algo concreto, e não só concreto, mas também documentável.
Com as mãos trémulas abriu e fechou gavetas, desentranhou delas envelopes com negativos
e cópias fotográficas, espalhou tudo sobre a secretária, enfim encontrou o que
procurava, um retrato seu, de há cinco anos. Tinha bigode, o corte de cabelo diferente, a
cara menos cheia. |