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Revista Partes ano II - janeiro de 2003 - n.29

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Que os direitos sejam respeitados
Enquanto a Fátima trabalha diuturnamente na Prefeitura de São Paulo, no Programa São Paulo Protege (enchentes, etc), reproduzimos dois textos de sua autoria importantes para uma reflexão sobre os idosos no Brasil
Velhice e Cidadania

Fátima Teixeira

"Os anos de vida que tem, que resta para aquela pessoa, a pessoa tem que aproveitar, cada minuto, como se aquele fosse o último da vida"...( Antonia, integrante de Grupo de Terceira Idade)

De uma maneira geral, quando um determinado grupo social quer se fazer ouvir é necessário criar um fato, um evento ou uma situação para que a sociedade volte sua atenção àquela realidade e busque novas alternativas ou soluções para a problemática apresentada.

Essa estratégia funciona, ao menos por um determinado período, para o tema que se deseja abordar ganhe espaço de discussão nos diversos setores da sociedade.

Com relação ao idoso foi instituído o mês de setembro para se homenagear essa parcela da população.

Normalmente, são realizados eventos, festas, bailes e outras atividades como forma de ressaltar a questão do envelhecimento e dar visibilidade ao segmento idoso, que vem crescendo rapidamente em nosso país e necessita da efetivação de políticas sociais de proteção à pessoa idosa que lhe garantam uma velhice com melhor qualidade.

A Política Nacional do Idoso, criada pela Lei no 8842, de 04/01/94 e regulamentada pelo decreto no 1948, de 03/07/96, está voltada para assegurar os direitos sociais do idoso e as condições para a promoção de sua autonomia, integração e participação na sociedade. Esta lei coloca entre suas diretrizes a criação de conselhos nos âmbitos nacional, estaduais e municipais, considerando-os órgãos permanentes de representação.

Muito antes da lei que o legitimou, a cidade de São Paulo criou o Conselho Municipal da Condição do Idoso, reconhecido pelo poder público como categoria social.

Em 1989, foi criado o Grande Conselho Municipal do Idoso, dando continuidade ao processo de participação e lutas do segmento, que o inseriu como cidadão merecedor dos direitos básico, estabelecidos na Constituição Federal, na Constituição Estadual e na Lei Orgânica do Município de São Paulo.

No entanto, os direitos conquistados em lei pela população idosa não saíram do papel para que se implementassem políticas e ações que respondam às reais necessidades de proteção social.

A aposentadoria, principal benefício previdenciário e relacionado diretamente à velhice, representa a retirada da vida produtiva e a redução de rendimentos. Todavia, em muitos casos se constitui na única fonte de renda, passando a ser utilizada integralmente para o sustento da família. Significa quase sempre, o início de um processo de empobrecimento e de redução de satisfações e desejos outros que não aqueles indispensáveis para a sobrevivência.

Os serviços de atenção à população idosa na cidade de São Paulo ainda são insuficientes frente a grande demanda, especialmente para os mais pobres que se utilizam e dependem integralmente dos recursos da rede pública.

O crescimento do número de velhos trouxe uma maior visibilidade ao segmento, porém a sociedade precisa reformular sua concepção de velhice, para ampliar os recursos e oferecer aos idosos e idosas serviços que atendam as necessidades específicas dessa faixa etária.

A idéia que ainda persiste na sociedade sobre essa parcela da população, de que ela não é produtiva e portanto não merecedora de preocupação social, deve mudar para que o idoso ocupe um espaço e uma posição na sociedade. É necessário que o idoso demonstre sua capacidade de contribuir com a sociedade transmitindo seu saber e experiência às novas gerações.

A Carta do Idoso do Município de São Paulo – 2001, elaborada pelo Grande Conselho Municipal do Idoso e divulgada em comemoração ao mês do idoso, procurou revisar e atualizar a Carta de 1991, cujas reivindicações já haviam sido atendidas ou se mostravam inadequadas frente as mudanças sociais.

Esta carta apresenta diretrizes setoriais visando subsidiar a elaboração de políticas públicas dirigidas ao segmento idoso. Estão colocadas diretrizes no âmbito da previdência social, trabalho, assistência social, saúde, transporte e trânsito, educação, esporte e lazer, cultura, violência e segurança, moradia, meio ambiente, organização e participação social, abrangendo todos os setores responsáveis pela garantia dos direitos que permitem a melhoria das condições de vida.

As reivindicações contidas na Carta refletem o amadurecimento e a organização do segmento, contemplando situações que favorecem não apenas o idoso mas a população em geral, principalmente no que se refere ao atendimento de saúde, transporte e trânsito, esporte e lazer, propiciando a inserção dos direitos básicos de cidadania a toda a população.

Para que essas reivindicações saiam do papel e sejam efetivadas vai depender do nível de organização e de pressão exercido não apenas pelos homens e mulheres acima de 60 anos, mas por todos nós, que desejamos viver com dignidade por muitos e muitos anos...

UM NOVO OLHAR PARA A VELHICE

Fátima Teixeira

Você já reparou como o número de pessoas mais velhas está aumentando?

O Brasil, que até pouco tempo era identificado como um "país jovem",
atualmente encontra-se no rol dos países com um importante crescimento
de sua população idosa.

O envelhecimento acelerado que estamos constatando é decorrência da
queda brusca da fertilidade e do aumento da longevidade humana. A
redução da taxa de mortalidade infantil, as novas tecnologias, o avanço da medicina e a melhoria da qualidade de vida contribuíram, entre outros fatores, para aumentar a expectativa de vida do brasileiro.

Segundo dados do IBGE, em 1991 a população brasileira com 65 anos ou
mais atingiu 7 milhões de pessoas. Conforme projeções, atualmente uma em cada 13 pessoas faz parte da população idosa e prevê-se que até o ano 2025 o número de idosos com 60 anos ou mais chegará a 32 milhões. (Berquó, 1996)

Essa mudança na estrutura demográfica da sociedade precisa ser acompanhada por mudanças de atitudes, mentalidades e da organização de toda a sociedade para enfrentar os novos desafios gerados pela também nova demanda.

Infelizmente, para envelhecer numa sociedade que tem como modelo a
juventude, é necessário enfrentar o preconceito e valores estigmatizados que evidenciam mais os aspectos negativos dessa etapa da vida.

Envelhecer é um processo natural que envolve perdas, mas também
importantes aquisições. O conhecimento e a experiência acumulada
ao longo do tempo traz para a pessoa idosa a capacidade para enfrentar
situações do cotidiano com equilíbrio e ponderação.

Valorizar a sabedoria como um aspecto positivo do envelhecimento é uma
atitude a ser adotada pelo próprio idoso e por toda a sociedade para
alterar a imagem social da velhice.

O convívio em grupos de idosos ou terceira idade é um espaço importante para desencadear, tanto na pessoa idosa quanto na comunidade, a mudança de mentalidade que leve à inserção e ao fortalecimento do papel social do idoso.

A criação de programas e projetos que estimulem a participação do idoso em diferentes atividades, é tarefa do poder público que deve destinar recursos que atendam as necessidades e garantam a melhoria na sua qualidade de vida.

A Política Nacional do Idoso, criada pela lei no 8842 de 04/01/96 e regulamentada pelo decreto no 1948 de 03/07/96, está voltada para assegurar os direitos sociais do idoso e as condições para a promoção de sua autonomia, integração e participação na sociedade. O papel da assistência social nesta Política é a de efetivar ações de proteção e inclusão social.

No entanto, os direitos conquistados em lei pela população brasileira em geral, e pelos idosos em particular, não garantiram a implementação de políticas e ações que respondam às reais necessidades de proteção social. Os serviços de atenção à população idosa na cidade de São Paulo são insuficientes frente
à grande demanda, especialmente para os mais pobres que utilizam e
dependem totalmente dos recursos da rede pública.
É grande a queixa dos idosos sobre a falta de educação e de como são tratados, por exemplo, nos transportes coletivos por inúmeros motoristas e cobradores, demonstrando o desrespeito e a falta de preparo da população em geral para o convívio com os mais velhos.

O crescimento do número de velhos trouxe mais visibilidade ao segmento, mas a sociedade precisa reformular sua concepção de velhice. É necessário que se lance um novo olhar para o idoso e tratá-los com mais respeito e dignidade.

Simone de Beauvoir no livro "A Velhice", diz:

..."para reencontrar uma visão de nós mesmos, somos obrigados a
passar pelo outro: como esse outro me vê? Pergunto-o ao meu espelho. A
resposta é incerta: as pessoas nos vêem ,cada uma à sua maneira e
nossa própria percepção, certamente não coincide com nenhuma das
outras". (Beauvoir, 1990:363)

Fátima Teixeira, é Mestre em Serviço Social pela PUC/SP
Março/2000

Referências Bibliográficas:

BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990.

BERQUÓ, Elza. Algumas Considerações Demográficas sobre o
Envelhecimento da População no Brasil. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL
SOBRE ENVELHECIMENTO POPULACIONAL: UMA AGENDA PARA O FUTURO, Brasília, 1 a 3 de julho de 1996.

POLÍTICA Nacional do Idoso. MPAS. SAS, 1996.

TEIXEIRA, Fátima de Jesus. As Verdades Que se Revelam Nos Meandros do
Tempo. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1999.

 


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Fátima Teixeira
é assistente social
fatima@partes.com.br

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