|
POEMA
A
poesia é rima,
palavra e escrima?
A poesia é artifício,
metro e vício?
A poesia é construção,
arquitetura sem paixão?
A poesia é luxo acadêmico,
que evita da pele o edêmico?
A poesia é esqueleto, carne, corpo
ou idéia, mente que sustenta o dorso?
AURORA
Estar na manhã
ser a manhã
como um sapo, como um saco
como um fato
Ser
plenamente humano
sem rótulos
Apenas ser
como um pássaro
para flutuar leve
na manhã
de um sol interior
e cantar deslumbrado
por despertar deste sono
que é estar acordado
FAROL
Aquietar a mente
para que os olhos vejam
o que está à sua frente
e dá sinais de vida
e luz
em meio a palavras inúteis,
gestos estancados
e sorrisos presos pelos dentes
Guiar a mim mesmo
dentro deste corpo
para ver além dos acontecimentos
diários
e navegar livre
iluminado
para este porto
de águas tranqüilas
que eu sou
permanentemente
INSPIRAÇÃO
A poesia só acontece
quando me deixo
quando me deito
quando me vejo
quando me mexo
PIRATARIA
Meus olhos são aquáticos
Os pensamentos navegam
leves, soltos
Flutuam à deriva
-Tento ancorá-los-
Procuro um porto
onde possa abordá-los
CRUZEIRO
O que está além deste mar?
Outro mar? Minha mente?
A verdade? As minhas imagens?
O que está além de mim mesmo?
Deus? A morte? A vida?
O que está além do meu corpo?
Um morto? Um porto?
O que está além deste oceano?
Um outro homem, numa praia,
fazendo as mesmas perguntas?
IDENTIDADE
Que povo eu sou
que senta comigo no sofá
e que assiste a tv embasbacado?
Que povo eu sou
se não sou um
mas muitos nós?
Que povo eu sou
que vai à missa
e pede perdão e pede clemência
e salvação pelos erros
que cometem conosco comigo?
Que povo eu sou
incompleto e perdido?
Que povo eu sou
que vivo olhando
para o meu próprio umbigo
e não me encontro em mim
mesmo nos outros eus?
Que povo eu sou
se não sou eu?
O POMBO
Um homem sentado numa praça
de Curitiba, São Paulo, Recife, Londres...
Aquele homem é o mesmo
em todas as praças do mundo?
Um homem pousa num banco
e seus pensamentos voam igualmente
como o pensamento de todos os homens
sentados numa praça qualquer
Eis um homem pousado voando
pelo mundo
Esse homem é um pombo
Esse homem é a paz
Será por isso que existem praças
para os homens pousarem
e soltarem as suas asas?
DESTINO
Deus vai se construindo
todos os dias nos homens
Deus vai se despertando
todas as horas nos homens
Deus vai se abrindo
todos os momentos nos homens
Deus vai se divizinando
todas as existências nos homens
E, os homens vão, todos os dias,
se amedrontando com esta morte diária
DESTINO
O lixo permanecia ali, fermentando, remoendo, esparramado.
Sua estrutura desarrumada criava seu corpo. Mas, estava sempre se renovando, se
vestindo de novo. Decoração rebuscada, barroca.
Em sua diversidade, mantinha, entretanto, sua personalidade.
-Olha lá o lixo! - dizia alguém.
Assim, o lixo tinha existência na vida. Era reconhecido, respeitado, temido - O que
sairá dali?
O lixo não era o fim da vida, mas o seu recomeço. Ele parecia demonstrar que a vida
não tem fim. O lixo nunca era o fim. Dali a vida recomeçava, organizava-se novamente.
O lixo era uma usina a germinar vida!
Ratos, vermes, pés humanos, todos brotavam do lixo. E, o lixo, envaidecido, sorria
sarcasticamente para os homens.
-Eu te aguardo! Eu te aguardo!
Nele, o que era enterrado era o orgulho, a prepotência e o conservadorismo.
Assim, o lixo mostrava sua força viva, seu poder e seu acolhimento. Isso! O lixo nunca
era preconceituoso, discriminador. O lixo era democrático.
Para ele não existia diferença entre o pobre e o rico. Todos eram futuros lixos. Ele
estava ali, paciente, mas voraz.
Tinha uma estética diferente, exótica, livre. O lixo
era livre, franco, aberto. Porém, implacável.
Era também sensível, mutante e eclético. Ele não consumia os
homens, não destruía a vida, não acabava com a beleza. Antes, o lixo ressuscitava os
homens, aninhava vida, criava nova ética, novas formas.
Sua existência era como um aviso bondoso: a esperança existe! Basta
ir fundo!
O BIBELÔ
Já estava aposentado. Mas, agora não conseguia ficar parado. Sua vida sempre fora uma
atividade incessante. No princípio passou um tempo ansioso. Precisava encontrar um
passatempo. Algo que desse sentido à sua vida. Dentro de casa não parava de vasculhar as
coisas. Arrumava, desarrumava. Vivia trocando as coisas de lugar.
Não se lembrava mais quando começou aquela mania de colecionar todo tipo de
bugiganga. Talvez, fosse a diversidade das coisas que chamassem a sua atenção.
Ficava maravilhado com as variações das coisas. Assim, saía a procurar, até no
lixo, tudo que fosse diferente, exótico.
Sua casa não cabia mais de tanto treco. O espaço dela foi diminuindo, diminuindo.
Assim, já não recebia visitas. Não se tinha como entrar ali.
Quanto mais havia coisas, em sua casa, para admirar, mais ficava maravilhado. Aquilo
retratava a sua mente. Ela estava sempre entulhada, variando em pensamentos diversos.
Naturalmente que não conseguia mais dormir. Vivia, como no passado, sempre ocupado, em
atividade. E, aquilo justificava o seu viver.
Nunca tivera filhos. Sequer tivera tempo para namorar e casar. Nunca parou para pensar
se era feliz. Na verdade, para ele, estar vivendo era o que importava. E, para ele, estar
vivendo era estar agindo e, isto, ele estava.
Só saía de casa para vasculhar a redondeza e vê se encontrava alguma raridade e não
se importava se ela estava no lixo ou numa lojinha.
Assim, sua casa foi encolhendo, encolhendo. Quando se deu conta, não conseguia mais
sair dela. Agora também não importava mais. Havia bastante coisa para arrumar, mexer e
desarrumar.
Os vizinhos estranharam porque já fazia muito tempo que não o viam sair de casa.
Ficaram preocupados. Bateram na porta e não houve resposta. Tentaram várias e várias
vezes, chamando o seu nome e nada.
Ele jamais foi encontrado. O que a polícia conseguiu encontrar ali, naquela casa, foi
apenas um monte de cacarecos.
CÁRCERE
Fazia muitos anos que estava preso. A barba tinha crescido. Os filhos tinham crescido.
Há muito tempo que não se comunicava com ninguém.
Nem mesmo a sua esposa, sua amada, fazia mais parte da sua vida.
Não conseguia sonhar, pois, nem mesmo conseguia dormir.
Quando tudo começou? Nem mais se lembrava. Sequer lembrava-se do motivo.
Os pensamentos eram muitos, talvez demais. Mas, a sua vida tinha se paralisado de
histórias. Só lembranças, vagas, às vezes desconexas.
Não cobrava compreensão de ninguém, pois, nem mesmo ele já se compreendia. Agora
passava horas nutrindo um único pensamento. Às vezes, um pensamento passava semanas
sendo carregado por ele.
Parava, de vez em quando, com os olhos distantes. Dava impressão que conseguiríamos
ver a imagem de sua esposa impressa neles.
Ficava calmo, suave. Dava um sorriso e dizia o nome dela. Mas, não demorava muito e
já a tinha esquecido novamente.
Pensava em dizer uma coisa e dizia outra. Queria fazer uma coisa e fazia outra. Ficava
desesperado com aquilo. Às vezes, precisavam de força para controlá-lo.
Tinha sido uma pessoa generosa. Por que aquilo estava acontecendo com ele?
Um belo dia, quando o sol apareceu, um sorriso se estampou em sua face. Todo o seu
rosto se iluminou.
-Meu Deus - exclamou ele - Como pude passar tanto tempo agarrado a uma única idéia?!
Visite |