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Revista Partes ano II - fevereiro de 2003 - n.30

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Poesia


Poema

por Hideraldo Montenegro


POEMA

A poesia é rima,

palavra e escrima?

A poesia é artifício,

metro e vício?

A poesia é construção,

arquitetura sem paixão?

A poesia é luxo acadêmico,

que evita da pele o edêmico?

A poesia é esqueleto, carne, corpo

ou idéia, mente que sustenta o dorso?

 

AURORA

Estar na manhã

ser a manhã

como um sapo, como um saco

como um fato

Ser

plenamente humano

sem rótulos

Apenas ser

como um pássaro

para flutuar leve

na manhã

de um sol interior

e cantar deslumbrado

por despertar deste sono

que é estar acordado

 

FAROL

Aquietar a mente

para que os olhos vejam

o que está à sua frente

e dá sinais de vida

e luz

em meio a palavras inúteis,

gestos estancados

e sorrisos presos pelos dentes

Guiar a mim mesmo

dentro deste corpo

para ver além dos acontecimentos

diários

e navegar livre

iluminado

para este porto

de águas tranqüilas

que eu sou

permanentemente

 

INSPIRAÇÃO

A poesia só acontece

quando me deixo

quando me deito

quando me vejo

quando me mexo

 

PIRATARIA

Meus olhos são aquáticos

Os pensamentos navegam

leves, soltos

Flutuam à deriva

-Tento ancorá-los-

Procuro um porto

onde possa abordá-los

 

CRUZEIRO

O que está além deste mar?

Outro mar? Minha mente?

A verdade? As minhas imagens?

O que está além de mim mesmo?

Deus? A morte? A vida?

O que está além do meu corpo?

Um morto? Um porto?

O que está além deste oceano?

Um outro homem, numa praia,

fazendo as mesmas perguntas?

 

IDENTIDADE

Que povo eu sou

que senta comigo no sofá

e que assiste a tv embasbacado?

Que povo eu sou

se não sou um

mas muitos nós?

Que povo eu sou

que vai à missa

e pede perdão e pede clemência

e salvação pelos erros

que cometem conosco comigo?

Que povo eu sou

incompleto e perdido?

Que povo eu sou

que vivo olhando

para o meu próprio umbigo

e não me encontro em mim

mesmo nos outros eus?

Que povo eu sou

se não sou eu?

 

O POMBO

Um homem sentado numa praça

de Curitiba, São Paulo, Recife, Londres...

Aquele homem é o mesmo

em todas as praças do mundo?

Um homem pousa num banco

e seus pensamentos voam igualmente

como o pensamento de todos os homens

sentados numa praça qualquer

Eis um homem pousado voando

pelo mundo

Esse homem é um pombo

Esse homem é a paz

Será por isso que existem praças

para os homens pousarem

e soltarem as suas asas?

 

DESTINO

Deus vai se construindo

todos os dias nos homens

Deus vai se despertando

todas as horas nos homens

Deus vai se abrindo

todos os momentos nos homens

Deus vai se divizinando

todas as existências nos homens

E, os homens vão, todos os dias,

se amedrontando com esta morte diária

DESTINO

O lixo permanecia ali, fermentando, remoendo, esparramado.

Sua estrutura desarrumada criava seu corpo. Mas, estava sempre se renovando, se vestindo de novo. Decoração rebuscada, barroca.

Em sua diversidade, mantinha, entretanto, sua personalidade.

-Olha lá o lixo! - dizia alguém.

Assim, o lixo tinha existência na vida. Era reconhecido, respeitado, temido - O que sairá dali?

O lixo não era o fim da vida, mas o seu recomeço. Ele parecia demonstrar que a vida não tem fim. O lixo nunca era o fim. Dali a vida recomeçava, organizava-se novamente.

O lixo era uma usina a germinar vida!

Ratos, vermes, pés humanos, todos brotavam do lixo. E, o lixo, envaidecido, sorria sarcasticamente para os homens.

-Eu te aguardo! Eu te aguardo!

Nele, o que era enterrado era o orgulho, a prepotência e o conservadorismo.

Assim, o lixo mostrava sua força viva, seu poder e seu acolhimento. Isso! O lixo nunca era preconceituoso, discriminador. O lixo era democrático.

Para ele não existia diferença entre o pobre e o rico. Todos eram futuros lixos. Ele estava ali, paciente, mas voraz.

Tinha uma estética diferente, exótica, livre. O lixo

era livre, franco, aberto. Porém, implacável.

Era também sensível, mutante e eclético. Ele não consumia os homens, não destruía a vida, não acabava com a beleza. Antes, o lixo ressuscitava os homens, aninhava vida, criava nova ética, novas formas.

Sua existência era como um aviso bondoso: a esperança existe! Basta ir fundo!

O BIBELÔ

Já estava aposentado. Mas, agora não conseguia ficar parado. Sua vida sempre fora uma atividade incessante. No princípio passou um tempo ansioso. Precisava encontrar um passatempo. Algo que desse sentido à sua vida. Dentro de casa não parava de vasculhar as coisas. Arrumava, desarrumava. Vivia trocando as coisas de lugar.

Não se lembrava mais quando começou aquela mania de colecionar todo tipo de bugiganga. Talvez, fosse a diversidade das coisas que chamassem a sua atenção.

Ficava maravilhado com as variações das coisas. Assim, saía a procurar, até no lixo, tudo que fosse diferente, exótico.

Sua casa não cabia mais de tanto treco. O espaço dela foi diminuindo, diminuindo. Assim, já não recebia visitas. Não se tinha como entrar ali.

Quanto mais havia coisas, em sua casa, para admirar, mais ficava maravilhado. Aquilo retratava a sua mente. Ela estava sempre entulhada, variando em pensamentos diversos.

Naturalmente que não conseguia mais dormir. Vivia, como no passado, sempre ocupado, em atividade. E, aquilo justificava o seu viver.

Nunca tivera filhos. Sequer tivera tempo para namorar e casar. Nunca parou para pensar se era feliz. Na verdade, para ele, estar vivendo era o que importava. E, para ele, estar vivendo era estar agindo e, isto, ele estava.

Só saía de casa para vasculhar a redondeza e vê se encontrava alguma raridade e não se importava se ela estava no lixo ou numa lojinha.

Assim, sua casa foi encolhendo, encolhendo. Quando se deu conta, não conseguia mais sair dela. Agora também não importava mais. Havia bastante coisa para arrumar, mexer e desarrumar.

Os vizinhos estranharam porque já fazia muito tempo que não o viam sair de casa. Ficaram preocupados. Bateram na porta e não houve resposta. Tentaram várias e várias vezes, chamando o seu nome e nada.

Ele jamais foi encontrado. O que a polícia conseguiu encontrar ali, naquela casa, foi apenas um monte de cacarecos.

CÁRCERE

Fazia muitos anos que estava preso. A barba tinha crescido. Os filhos tinham crescido. Há muito tempo que não se comunicava com ninguém.

Nem mesmo a sua esposa, sua amada, fazia mais parte da sua vida.

Não conseguia sonhar, pois, nem mesmo conseguia dormir.

Quando tudo começou? Nem mais se lembrava. Sequer lembrava-se do motivo.

Os pensamentos eram muitos, talvez demais. Mas, a sua vida tinha se paralisado de histórias. Só lembranças, vagas, às vezes desconexas.

Não cobrava compreensão de ninguém, pois, nem mesmo ele já se compreendia. Agora passava horas nutrindo um único pensamento. Às vezes, um pensamento passava semanas sendo carregado por ele.

Parava, de vez em quando, com os olhos distantes. Dava impressão que conseguiríamos ver a imagem de sua esposa impressa neles.

Ficava calmo, suave. Dava um sorriso e dizia o nome dela. Mas, não demorava muito e já a tinha esquecido novamente.

Pensava em dizer uma coisa e dizia outra. Queria fazer uma coisa e fazia outra. Ficava desesperado com aquilo. Às vezes, precisavam de força para controlá-lo.

Tinha sido uma pessoa generosa. Por que aquilo estava acontecendo com ele?

Um belo dia, quando o sol apareceu, um sorriso se estampou em sua face. Todo o seu rosto se iluminou.

-Meu Deus - exclamou ele - Como pude passar tanto tempo agarrado a uma única idéia?!

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Hideraldo Montenegro é poeta e edita o sítio:
www.hideraldomontenegro.hpg.com.br

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