logo_subs.jpg (3299 bytes)

 

.

Revista Partes ano II março de 2003 n.31

  Principal
 Agenda
 Comportamento
 Cotidiano
 Cultura
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Esportes
 Humor
 Links
 Nossa Língua
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Crônicas
Política
 Reflexão
 Serviços
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Fórum
 Fale Conosco
   Especiais
 Gilberto Freyre
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Assédio Moral

Cotidiano


Uma experiência pedagógica.

por Paulo de Abreu Lima


OBJETIVO DO RELATO

Gostaria de partilhar uma experiência que há cerca de um ano tenho vivido. Trata-se de uma experiência realizada através de um trabalho voluntário numa instituição que realiza atendimento para crianças portadoras do vírus HIV, abrigando as mesmas. É um trabalho muito sério e respeitável por parte da instituição. A experiência que venho obtendo, nesta instituição, tem sido para mim muito importante especialmente por algumas razões: 1. tem sido uma oportunidade de retomar uma atividade profissional voltada para o trabalho social (terceiro setor), que há cerca de 10 anos abandonei atuando então em empresas na área de recursos humanos; 2. tem sido uma excelente oportunidade para estudar e retomar contato com a psicologia infantil através do contato com as crianças e com os adultos-educadores, uma área de estudo que me dá muita satisfação; 3. tem sido uma agradável e rica experiência o contato com os profissionais da instituição.

Este relato, como disse, é uma forma de compartilhar minha experiência e, também, de manter um registro organizado do trabalho que iniciei e ainda venho realizando, sem nenhuma pretensão de dar um formato ou expressão científica ao mesmo. Embora meu relacionamento com a instituição não possua nenhum vínculo formal, apenas um contrato ético de oferta e acolhimento de prestação de serviço voluntário, realizo o trabalho com um cuidado profissional bastante sério e ético. Em função disto, a exposição não mencionará os dados reais da instituição, preservando, assim, dados de natureza pessoal e/ou institucional.

A INSTITUIÇÃ0 (COMO É O SEU TRABALHO)

O abrigo acolhe cerca de 30 crianças possuindo, para tanto, recurso jurídico para manutenção da tutela das mesmas, garantindo assim um serviço legal e estruturado. Possui duas unidades físicas de atendimento - uma para crianças soropositivas, que ainda mantém a manifestação da doença e outra para crianças negativadas (que chamarei de Unidade N), ou seja, a doença não se manifesta e as crianças podem levar uma vida "normal". Em cada uma das unidades são atendidas cerca de 15 crianças. Há uma equipe básica de profissionais para o atendimento geral na própria instituição, que garante o atendimento primário (alimentação, higiene, saúde e rotina básica); entretanto a instituição vale-se fundamentalmente do trabalho voluntário para o atendimento mais técnico (ambulatorial, médico, psicológico) ou através de equipamentos públicos. As crianças atendidas pelo abrigo são oriundas especialmente de situação de exclusão social (pais moradores de rua, usuários de drogas, portadores de HIV, situações de violência, abandono, etc.). É nítido, portanto, que a característica principal do serviço realizado, deve envolver muito humanismo e amor, pois o principal objetivo, tenho a impressão, mais do que resgatar cidadania, é proporcioná-la, pois muitas das crianças nunca a tiveram. 

 

COMO SERIA MEU TRABALHO? (O MEU TRABALHO VOLUNTÁRIO)

Quando fiz o primeiro contato com a instituição oferecendo-me como profissional voluntário, solicitei realizar um primeiro contato de observação nas duas unidades para sentir e compreender, de forma abrangente, de que maneira eu poderia oferecer e realizar minha ajuda. Após alguns contatos com as crianças e profissionais tive a seguinte impressão: a instituição carecia de uma infra-estrutura de atividades psicopedagógicas e um trabalho de orientação aos adultos-educadores, carentes de informação, clareza e muitas vezes de motivação acerca do seu papel técnico e profissional, especialmente na Unidade N. Considerei a carência das atividades psicopedagógicas em função das crianças desta unidade permanecerem longas horas sem qualquer atividade orientada - fora de sua rotina normal de alimentação e higiene – enquanto os adultos educadores permaneciam, nas mesmas longas horas, apenas no papel de pajear as crianças, sem qualquer ação interativa, que pudesse contribuir para o desenvolvimento das mesmas e, sequer, criar laços afetivos – consideremos que em um abrigo todo adulto são pai e mãe da criança abrigada. Decidi que o trabalho que poderia oferecer, na condição de voluntário e, portanto, com algumas restrições, especialmente de tempo, seria na Unidade N.

Todo trabalho clínico, especialmente para a criança deficiente, seja num quadro físico, psicológico ou social, tradicionalmente evoca o atendimento individualizado, numa perspectiva de que as dificuldades e problemas encontram-se na criança (especialmente o trabalho psicológico), ou seja, a criança é um repositório de fatores desencadeadores de patologias e sintomas que geram condutas e comportamentos inadequados, sendo via de regra a única responsável por tal quadro. Reconheço que exagerei um pouco na visão, mas muitos profissionais ainda possuem esta visão de que o trabalho clínico individualizado é a principal ação a ser realizada.

Penso de forma um pouco diferente. O trabalho clínico psicológico individual muitas vezes é necessário, conforme o diagnóstico e o tipo de orientação e desenvolvimento que se quer promover junto ao paciente. Por outro lado, a situação institucional – neste caso do abrigo especialmente - onde um grupo de adultos é responsável pelo amparo e suporte ao desenvolvimento de crianças cuja infra-estrutura física e psicológica foi subtraída por muitas razões (que serão pensadas em mais detalhes mais à frente, embora tenhamos uma noção clara fragilidade da mesma) exige um trabalho previamente pedagógico, ou seja, educativo no sentido de ajudar os adultos a obterem a clareza e a capacitação de seu papel, como mencionamos acima. A idéia deste trabalho pedagógico é baseada na noção de um preparo mínimo, que qualquer organização deva oferecer à sua equipe, qualquer que seja seu negócio, sob pena de que, com uma equipe despreparada e não-capacitada, o produto de seu trabalho será ineficaz – se pensarmos em algum negócio lucrativo, como exemplo, o negócio perde para a concorrência; se pensarmos num trabalho social, perde-se tempo, os poucos recursos que tem, e o aumento do sofrimento e a perda de perspectiva de recuperação da saúde, física, psicológica ou social.

Assim, orientei meu trabalho em duas ações: 1 - montaria um quadro de atividades psicopedagógicas, a serem planejadas, organizadas, oferecidas e facilitadas pelos adultos para as crianças, no sentido de promover uma ação interativa entre os adultos e elas, contribuindo para o desenvolvimento geral das crianças e para mobilizar uma conduta educativa nos adultos, de modo que os mesmos saíssem da postura de pajeação e passassem a assumir uma postura de educadores. Tarefa difícil, exigindo um plano de ação cuidadoso, humilde, paciente e de longo prazo, já que estes educadores são pessoas simples, mal remuneradas e com uma visão de mundo não muito preocupada com a mudança; são tão pacientes quanto seus próprios pacientes. 2 – montaria um processo de treinamento dos educadores, visando conscientizá-los da importância do seu papel como educadores e torná-los capazes a executar a ação educativa a partir de um plano estruturado.

(continua)

Paulo de Abreu Lima

Partes / março-2003

 

sobreoautor.jpg (6467 bytes)


paulo_abreu_comportamento.jpg (15099 bytes)


Paulo de Abreu Lima é psicólogo
paulo@partes.com.br

Escoreio.gif (6450 bytes)tamos recebendo contribuições dos leitores para a revista. Envie-nos seu artigo, crônica, conto, poesia, ensaio, notícias ou reportagem para publicação.
Envie já a sua contribuição

separador_lateraldireita.jpeg (4768 bytes)



© copyright revista partes 2000-2003