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OBJETIVO DO RELATO
Gostaria de
partilhar uma experiência que há cerca de um ano tenho vivido. Trata-se de uma
experiência realizada através de um trabalho voluntário numa instituição que realiza
atendimento para crianças portadoras do vírus HIV, abrigando as mesmas. É um trabalho
muito sério e respeitável por parte da instituição. A experiência que venho obtendo,
nesta instituição, tem sido para mim muito importante especialmente por algumas razões:
1. tem sido uma oportunidade de retomar uma atividade profissional voltada para o trabalho
social (terceiro setor), que há cerca de 10 anos abandonei atuando então em empresas na
área de recursos humanos; 2. tem sido uma excelente oportunidade para estudar e retomar
contato com a psicologia infantil através do contato com as crianças e com os
adultos-educadores, uma área de estudo que me dá muita satisfação; 3. tem sido uma
agradável e rica experiência o contato com os profissionais da instituição.
Este relato, como disse, é uma forma de compartilhar
minha experiência e, também, de manter um registro organizado do trabalho que iniciei e
ainda venho realizando, sem nenhuma pretensão de dar um formato ou expressão científica
ao mesmo. Embora meu relacionamento com a instituição não possua nenhum vínculo
formal, apenas um contrato ético de oferta e acolhimento de prestação de serviço
voluntário, realizo o trabalho com um cuidado profissional bastante sério e ético. Em
função disto, a exposição não mencionará os dados reais da instituição,
preservando, assim, dados de natureza pessoal e/ou institucional.
A INSTITUIÇÃ0 (COMO É O SEU TRABALHO)
O abrigo acolhe cerca de 30 crianças possuindo, para
tanto, recurso jurídico para manutenção da tutela das mesmas, garantindo assim um
serviço legal e estruturado. Possui duas unidades físicas de atendimento - uma para
crianças soropositivas, que ainda mantém a manifestação da doença e outra para
crianças negativadas (que chamarei de Unidade N), ou seja, a doença não se manifesta e
as crianças podem levar uma vida "normal". Em cada uma das unidades são
atendidas cerca de 15 crianças. Há uma equipe básica de profissionais para o
atendimento geral na própria instituição, que garante o atendimento primário
(alimentação, higiene, saúde e rotina básica); entretanto a instituição vale-se
fundamentalmente do trabalho voluntário para o atendimento mais técnico (ambulatorial,
médico, psicológico) ou através de equipamentos públicos. As crianças atendidas pelo
abrigo são oriundas especialmente de situação de exclusão social (pais moradores de
rua, usuários de drogas, portadores de HIV, situações de violência, abandono, etc.).
É nítido, portanto, que a característica principal do serviço realizado, deve envolver
muito humanismo e amor, pois o principal objetivo, tenho a impressão, mais do que
resgatar cidadania, é proporcioná-la, pois muitas das crianças nunca a tiveram.
COMO SERIA MEU TRABALHO? (O MEU TRABALHO VOLUNTÁRIO)
Quando fiz o primeiro contato com a instituição
oferecendo-me como profissional voluntário, solicitei realizar um primeiro contato de
observação nas duas unidades para sentir e compreender, de forma abrangente, de que
maneira eu poderia oferecer e realizar minha ajuda. Após alguns contatos com as crianças
e profissionais tive a seguinte impressão: a instituição carecia de uma infra-estrutura
de atividades psicopedagógicas e um trabalho de orientação aos adultos-educadores,
carentes de informação, clareza e muitas vezes de motivação acerca do seu papel
técnico e profissional, especialmente na Unidade N. Considerei a carência das atividades
psicopedagógicas em função das crianças desta unidade permanecerem longas horas sem
qualquer atividade orientada - fora de sua rotina normal de alimentação e higiene
enquanto os adultos educadores permaneciam, nas mesmas longas horas, apenas no papel de
pajear as crianças, sem qualquer ação interativa, que pudesse contribuir para o
desenvolvimento das mesmas e, sequer, criar laços afetivos consideremos que em um
abrigo todo adulto são pai e mãe da criança abrigada. Decidi que o trabalho que poderia
oferecer, na condição de voluntário e, portanto, com algumas restrições,
especialmente de tempo, seria na Unidade N.
Todo trabalho clínico, especialmente para a criança
deficiente, seja num quadro físico, psicológico ou social, tradicionalmente evoca o
atendimento individualizado, numa perspectiva de que as dificuldades e problemas
encontram-se na criança (especialmente o trabalho psicológico), ou seja, a
criança é um repositório de fatores desencadeadores de patologias e sintomas que geram
condutas e comportamentos inadequados, sendo via de regra a única responsável por tal
quadro. Reconheço que exagerei um pouco na visão, mas muitos profissionais ainda possuem
esta visão de que o trabalho clínico individualizado é a principal ação a ser
realizada.
Penso de forma um pouco diferente. O trabalho clínico
psicológico individual muitas vezes é necessário, conforme o diagnóstico e o tipo de
orientação e desenvolvimento que se quer promover junto ao paciente. Por outro lado, a
situação institucional neste caso do abrigo especialmente - onde um grupo de
adultos é responsável pelo amparo e suporte ao desenvolvimento de crianças cuja
infra-estrutura física e psicológica foi subtraída por muitas razões (que serão
pensadas em mais detalhes mais à frente, embora tenhamos uma noção clara fragilidade da
mesma) exige um trabalho previamente pedagógico, ou seja, educativo no sentido de ajudar
os adultos a obterem a clareza e a capacitação de seu papel, como mencionamos acima. A
idéia deste trabalho pedagógico é baseada na noção de um preparo mínimo, que
qualquer organização deva oferecer à sua equipe, qualquer que seja seu negócio, sob
pena de que, com uma equipe despreparada e não-capacitada, o produto de seu trabalho
será ineficaz se pensarmos em algum negócio lucrativo, como exemplo, o negócio
perde para a concorrência; se pensarmos num trabalho social, perde-se tempo, os poucos
recursos que tem, e o aumento do sofrimento e a perda de perspectiva de recuperação da
saúde, física, psicológica ou social.
Assim, orientei meu trabalho em duas ações: 1 -
montaria um quadro de atividades psicopedagógicas, a serem planejadas,
organizadas, oferecidas e facilitadas pelos adultos para as crianças, no sentido de
promover uma ação interativa entre os adultos e elas, contribuindo para o
desenvolvimento geral das crianças e para mobilizar uma conduta educativa nos adultos, de
modo que os mesmos saíssem da postura de pajeação e passassem a assumir uma
postura de educadores. Tarefa difícil, exigindo um plano de ação cuidadoso, humilde,
paciente e de longo prazo, já que estes educadores são pessoas simples, mal remuneradas
e com uma visão de mundo não muito preocupada com a mudança; são tão pacientes quanto
seus próprios pacientes. 2 montaria um processo de treinamento dos
educadores, visando conscientizá-los da importância do seu papel como educadores
e torná-los capazes a executar a ação educativa a partir de um plano estruturado.
(continua)
Paulo de Abreu Lima
Partes / março-2003 |