Corrigir
redações - esse sempre foi um problema crucial nas escolas para os professores e pior
ainda, para os alunos. Parece que estou vendo. A professora sentada na cadeira de sua
mesa, os alunos começam a levantar-se e a colocar seus textos sobre o móvel, dizendo
assim: "Não olhe agora, heim, professora?!" E vão colocando seus trabalhos sob
aqueles que lá já se encontram. Sem nenhum medo de errar, afirmo que até nossos alunos
de nível superior fazem isso ao entregarem seus trabalhos.
Pensando nisto escrevo este
artigo que tentará fazer uma breve reflexão sobre o problema de corrigir redações
escolares; faço isso após ter lido um livro de Eliana Ruiz, que versa superficialmente
sobre o assunto. Tentarei fazer um "entremeio" entre as idéias da autora e as
minhas próprias idéias e vamos ver no que vai dar.
Então, como é que se corrige redação na escola? Sempre pensei que o trabalho
de reescrita do aluno é decorrente de uma interferência que, fatalmente, o professor
fará em seu texto. E aí estava o problema no modo como o professor intervém no
texto do aluno. Minha "grande" sabedoria sabia que a mediação do professor é
um dos fatores determinantes do sucesso que o aluno possa ter em seu processo de
aquisição da escrita, lógico, entendida aqui como a capacidade de redigir bem, com
todos os aspectos que um bom texto requer.
Justamente porque pensava na questão interferência positiva do trabalho de
correção, procurava encontrar respostas para:
. o que é que torna uma correção de redação eficiente?
. que tipos de estratégias de intervenção escrita é mais produtivo para o aluno?
. como podemos contribuir para uma produção escrita de maior qualidade?
. como corrigir uma redação, de modo a levar nosso aluno a progressos significativos
na aquisição da escrita?
Afinal, até hoje dizemos aos nossos alunos que um dos principais motivos do seu
marasmo em sala de aula do nível superior, o fato de ele não querer mais escrever, de
não ter idéias fluindo para produzir um texto - todos esses aspectos são frutos da má
estratégia do professor ao corrigir redações, principalmente nas séries iniciais.
Será isso verdadeiro? Todas essas indagações fizeram-me realizar um trabalho de
análise de redações escolares durante o tempo em que estive em Araraquara/SP, cursando
o doutorado. Relato, a partir desse artigo, as minhas conclusões precedidas, é claro, de
algum embasamento teórico.
Vamos pensar um pouco, primeiramente nas condições de produção das redações na
escola.
Em primeiro lugar, acho que não é a correção de erros gramaticais que induzem o
aluno a ser um produtor de bons textos. Acho, numa primeira tentativa de encontrar uma
solução, que o que leva ao sucesso a correção de redação e leva o aluno a uma
escrita qualitativamente melhor é exatamente a leitura que o professor faz dela. Leituras
que tomam o texto todo como uma unidade de sentido são mais produtivas que as que
focalizam apenas partes do texto ou unidades menores do que o texto. O que menos
interessa, no momento, é a sua análise lingüística. Não nos interessa, de modo algum,
e aliás condenamos o estilo de correção que consiste em tingir de vermelho o texto e
devolvê-lo ao aluno, dando fim ao processo nessa etapa.
Eliana Ruiz diz que gostaria de "debruçar-se sobre um trabalho no qual
acreditasse, um trabalho que não encarasse a correção como um fim em si mesma e, por
isso, não se esgotasse nela". Acho que o que ela quer dizer é que esse seria um
trabalho que tomasse o professor como mediador importante, e a tarefa de correção como
alavanca propulsora de um processo que continua, necessariamente no próprio aluno com a
retomada de seu texto. E daí, penso que é absolutamente fundamental que a análise
esteja voltada para um outro tipo de correção aquela que visa também (e
sobretudo) à reescrita dos textos corrigidos. Sim, porque professor que não solicita a
reescrita do texto do aluno (sem nenhum medo de estar errada), precisa passar por uma
atualização constante. É nela que está o segredo do "conserto" do sério
problema das redações escolares sem conteúdo.
Se formos analisar a situação (andei conversando com muitos professores de Língua
Portuguesa em São Paulo e aqui, em Rolim de Moura e em outros municípios), veremos que a
freqüência de produções realizadas pelos alunos varia muito. Há casos em que eles
escrevem, em média, um texto diferente por semana. Mas há também aqueles, menos comuns,
em que o total de textos não passa de dois por bimestre.
Na mesma pesquisa viu-se que o professor corrige redações numa freqüência
diversificada: uns corrigem todos os textos produzidos, outros fixam um determinada
número para ser corrigido por bimestre, independentemente da quantidade produzida pelos
alunos nesse intervalo de tempo e outros, ainda, além de corrigir, avaliam
quantitativamente, por meio de nota ou conceito, algumas produções. Em razão dessa
diversidade, a freqüência com que as revisões ocorrem é bastante variável: assim como
há textos cuja reescrita simplesmente não é realizada não se sabe por que
motivos, se pessoais ou não - há casos de textos que são reescritos e corrigidos mais
que duas vezes.
Outras vezes, os próprios colegas revisam o texto dos demais, quer dizer, a correção
do professor não é o fator mais importante. Tal atitude faz com que falhas sejam
apontadas numa leitura conjunta, normalmente em duplas ou grupos pequenos. Segundo Ruiz, a
reescrita individual ocorre em algum momento do processo e das mais variadas formas: 3
seja por meio da reelaboração de todo o texto (reescrita total) numa segunda versão
procedimento comum a todas as escolas;
seja através de apagamento de trecho(s) da versão original e inserção da(s)
forma(s) substitutiva(s) in loco, nessa mesma versão (reescrita parcial sobreposta
à original) procedimento típico de uma escola somente;
seja na forma de uma "errata" simplificada, em seqüência ao texto da
primeira versão, onde se apresenta(m) apenas a(s) forma(s) substitutiva(s), a título de
segunda versão (reescrita parcial não sobreposta à original) procedimento
típico da escola de redação.
Mas ... como se dá essa variação? Aí entra o aspecto pragmático, penso eu. Os
professores acham que o trabalho de refazimento pode tornar-se uma atividade maçante,
principalmente para os alunos que têm dificuldades acentuadas de produção. As revisões
2 e 3, parecem-me, são uma tentativa de tornar a tarefa de revisão menos trabalhosa e,
por certo, mais rápida. Mas como poderemos fazer isso? Acho que há algumas estratégias:
a) fazendo o aluno proceder à reescrita de todo o texto, quando é grande o número de
problemas (é lógico que isso deve acontecer em todas as escolas), e à
"errata", quando o número de problemas é pequeno; b) fazendo o aluno proceder
à revisão in loco sempre, por economia de tempo e trabalho e trabalho; ou quando
só um determinado tipo de infração foi selecionado para ser trabalhado na reescrita
como ortografia, por exemplo (metodologia da análise lingüística); ou ainda,
quando as infrações são poucas e/ou mais localizadas.
Enfim, dependendo dos objetivos, que devem ser bastante específicos, o modo de
reescrever o texto diversifica-se.
Parece-me claro até agora que, tratando do assunto reescrita, já estamos falando em
correção.
Alguns professores afirmam que fazem um trabalho de reescrita coletiva no quadro-negro,
ocasião em que discutem oralmente, com todos os alunos da classe, um ou mais textos
selecionados especialmente para esse fim (já vimos essa sugestão no livro de Wanderley
Geraldi, O Texto na sala de aula)4. Seria interessante que, esse texto, escolhido
para leitura e análise por toda a sala, seja retirado do conjunto de produções
realizadas pelos alunos da classe e reproduzido de alguma forma mimeografado,
fotocopiado, transparência ou cópia no quadro sabemos que isso tudo é muito
trabalhoso e parece-me estar escutando os professores dizendo: "Não temos
mimeógrafo, não há dinheiro para cópias,"... para que seja reescrito pelo
grupo, auxiliado pelo professor.
Algumas vezes, o texto é "maquiado", adulterado pelo professor, isto é,
revisado na maior parte dos problemas que apresenta, e reescrito de forma que se mantenham
os problemas de apenas um tipo específico assim, de nada valeu a metodologia. Os
problemas não-focalizados serão, provavelmente, aqueles que estão sendo revelados
temporariamente em virtude desse trabalho de reescrita coletiva e seleção metodológica
de um aspecto de linguagem específico para fins de análise.
Assim, nessa conjuntura, o ensino gramatical é tratado das mais variadas formas. Assim
como há os que insistem em aulas específicas de análise morfológica e sintática, com
fixação na metalinguagem, há os que as abolem totalmente da sala de aula. Neste último
caso, a análise lingüística de textos lidos e produzidos pelos alunos
constitui-se lugar privilegiado de reflexões de cunho gramatical.
Vamos entrar, agora, com reflexões específicas sobre a correção, nome corriqueiro
que se dá àquela tarefa comum, típica de todo professor de Português de ler o texto
marcando nele, geralmente com a tradicional caneta vermelha, eventuais "erros"
de produção e suas possíveis soluções. Vamos pensar, então, no ato de corrigi-los.
Já disse que, para mim, correção é o texto que o professor faz por escrito no (e de
modo sobreposto ao) texto do aluno, para falar desse mesmo texto.
São muitas as estratégias utilizadas pelo professor para intervir no texto do aluno.
Eu, entretanto, exposto o que penso sobre correção, vou analisar somente as
intervenções escritas vulgarmente chamadas de "correção", que se preocupam
com alguma infração textual apenas e tão somente. Não farei nenhuma distinção
semântica entre problema e infração, apesar de concordar que a última se
aproxime mais do conceito de "erro" usado na escola, uma vez que a idéia de
erro implica a noção de norma e não se encaixa, portanto, no tipo de categoria mais
geral que estou buscando caracterizar.
Pécora (1983) fala em problema de redação, enquanto Costa Val (1994) utiliza
igualmente o termo infração. Embora ache que essas nomenclaturas mereçam um
pouco mais de reflexão, vou adotá-la, assim como esses estudiosos, cuja pesquisa tem
como objeto de estudo os textos escolares.
Acredito que o conceito de problema ou infração não pode ser definido apenas em
termos de produção textual, pois falar em problema de redação implica falar de
problema de leitura, isto é, de recepção do texto. Embora uma seqüência lingüística
tenha sido produzida num momento específico, chamado de produção, essa
ocorrência só poderá ser considerada problemática se provocar um estranhamento no
momento da leitura. Isso pode ser provado pelo fato de que não raras vezes, os produtores
de texto fazem eventuais alterações (tanto no mesmo momento da leitura quanto
posteriormente) a cada vez que lêem e monitoram sua leitura. Inserido no produtor há,
portanto, um leitor, que se confunde com ele no ato da produção e leitura os
papéis são trocados, o produtor transforma-se em leitor e vice-versa são o mesmo
indivíduo. Faço questão de, sempre que posso, lembrar meus alunos que, se lerem dez
vezes os seus textos, dez vezes modificá-los-ão. Acho que vale a pena lembrar de
Hipócrates e sua história do homem que entra num rio várias vezes: nunca o homem será
o mesmo que entrou pela primeira vez e o rio ter-se-á modificado tantas vezes quanto for
penetrado. Conforme diz Ruiz (2001:28), o autor é o primeiro leitor de si mesmo.
Essa frase parece muito complicada, mas não é. Fica fácil entendermos a afirmação
da autora, se tomarmos Bakhtin (1997) e suas concepções de outro e de acabamento,
dentro do princípio dialógico que funda a sua concepção de linguagem. Para tal autor,
o dialogismo é a condição da constituição do sujeito e do sentido do
texto. Trocando em miúdos, o autor de um texto, isto é, o acadêmico, no momento da
escrita, transforma-se em sujeito do discurso e deixa-se dominar pelo outro,
que é, na realidade quem escreve o texto. Assim, como diz Bakhtin, todo discurso é
elaborado em função do outro, pois é o outro que condiciona do discurso
do eu. Assim, o que atribui um sentido totalizante ao texto, portanto, é a
virtualidade, o acabamento que é atribuído ao eu-autor-acadêmico, pelo outro.
Desse modo, é na hora da leitura, atividade inerente a todo processo de produção de
textos, que surgem problemas de produção. Isso acontece quer intrinsecamente, pela
interferência do outro, constitutiva do eu que escreve e que lê o próprio
texto enquanto o produz, quer ocorra em momento posterior e diverso do momento da
criação, pela atuação do eu que lê o próprio texto, por ele dado como
acabado, ou pela interferência de um outro, que lê o texto do eu.
Sendo assim, penso que se pode considerar problema de produção textual, toda e
qualquer seqüência lingüística que gere um estranhamento para o leitor, não
apenas em função do tipo do texto, mas também dos objetivos visados na interlocução e
das condições de produção e de recepção desse mesmo texto. A questão, agora, é
saber de que estranhamento se trata.
Não pense o leitor que vou enveredar-me pelos caminhos daquele martelinho que vai
desmontando os problemas gramaticais falta de acento, uma falta de concordância,
falta de ponto e vírgula. Nada disso. Quando digo estranhamento, sigo literalmente o
significado da palavra. Estou falando da ocorrência, no enunciado, de algum elemento
inesperado pelo leitor (maduro ou não) em face de suas expectativas em relação à
própria enunciação do texto como um todo e não daqueles embaraços advindos das
dificuldades típicas de leitura relacionadas à falta de informação do leitor sobre o
tema, ou ainda à sua falta de intimidade com as formas de dizer (formas lexicais ou
estruturas lingüísticas). Isso tudo, no meu ponto de vista, é importante, mas
secundário.
Para poder resolver seu problema de interpretação, o leitor recorre, além dos dados
co-textuais (do texto), a dados contextuais, isto é, a seu conhecimento de mundo,
conhecimentos prévios e conhecimentos de outros textos. Isso, para o leitor, é
fundamental, pois são esses dados que lhe permitem buscar pistas ou seguí-las, pistas
essas fornecidas pelo próprio texto, que lhe permitirá a identificação de um
necessário preenchimento de lacunas, ou a percepção de indícios nele presentes para a
significação pretendida pelo autor.
Em se tratando de correção de redações produzidas por alunos de nível fundamental
e médio, o leitor-professor muito dificilmente irá deparar com desalinhamentos, até
porque isso exigiria dos nossos produtores aprendizes um conhecimento apurado das
estratégias de dizer e este não é o caso. Parece-me que o estranhamento de
leitura típico da tarefa de correção com a qual lidam os professores pode ser entendido
em termos da noção de lacuna, isto é, pela falta de transparência intrínseca de todo
o texto. Como já deixamos subentender, todo texto é, em princípio, aberto de
significados, podendo esse grau de abertura ser maior ou menor, em cada caso. É esse o
motivo de nossa afirmação acima sobre a importância do contexto.
Quando lê uma redação escolar, o professor certamente depara com lacunas de várias
ordens, tal qual um leitor comum. E isso o faz buscar no contexto e no co-texto as
informações que lhe permitem seguir as pistas deixadas pela redação acerca de sua
significação. Porém, ao assumir o papel de corretor, que institucional e socialmente
lhe é atribuído (quando ele se coloca como um leitor diferenciado), o professor tenta,
por meio da correção, exigir do aluno produtor uma postura de transparência total,
solicitando que este resolva todas as opacidades do texto, atitude impossível não só
para o aluno como também para qualquer produtor de textos.
Assim, acho que deveriam ser as estratégias textuais o tipo de chave por excelência
mais elicitado pelo professor-corretor durante a intervenção escrita. Além de serem
também aquelas que o aluno produtor-leitor deveria lançar mão ao revisar o próprio
texto em nome de uma maior legibilidade, isto é, da menor opacidade possível e
desejada desse texto, considerado as condições tanto de produção (o nível e a
maturidade lingüística desse aluno) como de recepção (o grau de exigência do
professor).
Após pensarmos um pouco sobre os "defeitos" mais comuns encontrados pelo
professor na correção de redações escolares, vamos refletir sobre algumas
possibilidades de correção que, sendo lógicas e coerentes, não causam transtornos para
o aluno no decorrer de sua existência. Na realidade, o que estou propondo ao leitor é
que a correção seja encarada como uma leitura, vista do turno do professor, isto é, a
versão original, aquela que os professores normalmente consideram como objeto de
correção.
O que se tem visto é que nessa leitura inicial das produções o trabalho de
correção tem o objetivo de chamar a atenção do aluno para os problemas do texto. A
tarefa de corrigir é, assim, uma "operação caça-erros" já que, quando
intervém por escrito, o professor dirige a sua atenção para o que o texto tem de
"ruim", não de "bom"; são os "defeitos" e não as
"qualidades" que, com raríssimas exceções, são focalizados. Assim, as
correções consistem no trabalho de marcar, no texto do aluno, as possíveis
"violações" lingüísticas nele cometidas contra uma suposta imagem do que
venha a ser um bom texto. Por essa razão pode-se dizer, sem dúvida alguma, que a leitura
feita pelo professor, via correção, não é a mesma que a leitura realizada pelo leitor
comum.
Quando lemos alguma coisa, partimos do princípio de que aquilo nos faz algum sentido,
isto é, tem coerência. Koch e Travaglia (1990:21) afirmam que a coerência está ligada
à possibilidade de se estabelecer algum sentido para o texto, ou seja, é ela que faz com
que o texto faça sentido para os usuários. Está ligada, portanto, ao princípio de
interpretabilidade, ligada à inteligibilidade do texto numa situação de comunicação e
à capacidade que o receptor tem para calcular o sentido deste texto.
Infelizmente, não é isso que geralmente acontece quando um professor corrige uma
redação. É por isso que se transforma, no momento da leitura, em um
"caçador" de erros, pois lê nessa expectativa a de encontrar falhas e,
assim, fazer jus a seu papel instituído de corretor. Observa-se, entretanto, o uso de
expressões como bom, muito bom, ok, com a finalidade de
reforçar positivamente a escrita do aluno em determinado trecho. Isso é interessante e
confirma que "caçar erros" é esta uma preocupação permanente dos
professores.
Vamos tentar descrever as diferentes formas de intervenção empregadas pelos
professores, resultado de pesquisas que há tempos venho fazendo em produções, tomando
como referência a tipologia de redações mencionada por uma autora italiana, Serafini
(1989), que muito se aproxima da que encontramos nos textos considerados.
A correção indicativa: ocorre na maioria esmagadora dos casos pesquisados. Todos
os professores fazem uso dessa estratégia, com maior ou menor freqüência. Nesse tipo,
as correções ocorrem tanto na margem do texto do aluno (conforme Serafini), como no
próprio corpo da redação (como encontrei nos textos analisados). São estratégias
indicativas no corpo do texto:
o professor circunda (ou sublinha) a palavra em que ocorre o problema;
o professor circunda (ou sublinha) a seqüência de letras onde se localiza o problema;
o professor circunda (ou sublinha) a forma problemática;
o professor traça um "X" no local de ocorrência do problema;
o professor traça sinais acompanhados de expressões breves, na seqüência
lingüística próxima à ocorrência do problema .
São estratégias indicativas na margem do texto:
o professor traça um "X" na direção da linha onde ocorre o problema;
o professor traça um asterisco, na direção da linha onde ocorre o problema;
o professor traça linha(s) vertical (is) paralela(s), chave(s) ou colchete(s), na
direção do trecho onde ocorre o problema.
Agora é possível dizer em que consiste a correção indicativa: é
simplesmente apontar, por meio de alguma sinalização (verbal ou não, na margem e/ou
corpo do texto), o problema de produção detectado. Por uma questão de rigor
metodológico, eu não diria (conforme disse Serafini) que nesse tipo de correção o
professor "altera muito pouco", simplesmente porque ele "não altera
nada", somente indica o local das alterações a serem feitas pelo aluno.
Esse é o tipo de correção mais largamente empregado pelos professores-sujeitos, seja
como único recurso de correção, seja como reforço às demais formas interventivas.
A correção resolutiva: segundo Serafini (1989:113), consiste em reescrever todos
os erros, reescrevendo palavras, frases e períodos inteiros. Nela, o professor realiza
uma delicada operação que requer tempo e empenho, isto é, procura separar tudo o que no
texto é aceitável e interpretar as intenções do aluno sobre trechos que exigem uma
correção; reescreve depois tais partes fornecendo um texto correto. Neste caso, o erro
é eliminado pela solução que reflete a opinião do professor.
Encontrei muito pouco desse método de abordagem no conjunto de redações analisadas.
E assim como pude verificar nas correções indicativas, nas de cunho resolutivo há uma
variação na forma de intervenção que vale a pena ser mencionada. De um modo geral,
elas se concentram mais no corpo do texto do que na margem ou "pós-texto".
Estratégias resolutivas no corpo do texto:
Estratégia de adição: o professor acrescenta forma(s) no espaço interlinear
superior à linha em que ocorre o problema.
Estratégia de substituição: o professor reescreve a forma substitutiva no
espaço linear superior à linha em que ocorre o problema.
Estratégia de deslocamento: o professor reescreve, em outro lugar do texto, a
forma problemática (além de indicar o item a ser deslocado).
Estratégia de supressão: o professor risca a forma de supressão.
Estratégias resolutivas na margem do texto:
O professor escreve a forma alternativa na direção da linha em que ocorre o problema.
Estratégias resolutivas no "pós-texto":
O professor escreve, no "pós-texto", a forma alternativa à forma
problemática.
Como se pode observar, as resolutivas concentram-se no corpo do texto, sendo pouco
freqüentes as resoluções nas margens e menos ainda no "pós-texto". Além
disso, vale a pena frisar que, na maior parte dos casos de correção resolutiva, há
igualmente indicações, a título de reforço. No último caso citado ocorre apenas um
deslocamento em vez de fazer a operação in loco, o professor opta por
fazê-la no "pós-texto" do aluno.
A análise nos permite dizer que, agindo dessa maneira, o professor nada mais faz do
que meramente apontar para o aluno os locais onde ele deve operar no texto, seja
substituindo, seja retirando, seja acrescentando ou deslocando formas.
Estou constantemente chamando a atenção dos leitores para o fato de existirem meios e
meios de correção de redações dos alunos na escola, frisando sempre que é um trabalho
árduo, desde que feito com seriedade e compromisso com o futuro daquele ser humano em
relação ao uso da língua escrita.. Pretendo encerrar minhas análises sobre os tipos de
correções propostos, para passar às reflexões sobre a relação do pesquisador
analista no diálogo correção/revisão, trabalho que realizarei em outro número desse
mesmo periódico.
A terceira estratégia de correção de redação apontada por Serafini é a chamada correção
classificatória:
Tal correção consiste na identificação não ambígua dos erros através de uma
classificação. Em alguns desses casos, o próprio professor sugere as modificações,
mas é mais comum que ele proponha ao aluno que corrija sozinho o seu erro (...) Frente ao
texto:
"Ainda que eu ia a praia todos os verões...".
o professor sublinha a palavra ia (como no caso da correção indicativa) e
escreve ao lado a palavra modo. O termo utilizado deve referir-se a uma
classificação de erros que seja do conhecimento do aluno (obviamente, neste caso, o modo
do verbo é a fonte do erro). (Serafini, 1939:114)
Poucos dos professores analisados adotaram a correção classificatória (preferem a
resolutiva). Mas os que o fazem utilizaram um conjunto de símbolos (letras ou
abreviações), escritos em geral à margem do texto, para classificar o tipo de problema
encontrado. É lógico que o comportamento docente que precede o uso dessa estratégia é
previamente combinado com os alunos, que conhecem tais símbolos, os quais variam de
professor para professor. Abaixo, farei um quadro demonstrando os símbolos encontrados
nas redações analisadas.
Vale a pena ressaltar agora que, como ocorre nos casos de resolutiva, nos de correção
classificatória, a indicativa também marca presença, exercendo uma função de reforço
expressivo altamente significativa no processo interlocutivo professor/aluno.
O trabalho de interpretação dos símbolos foi difícil e tive que recorrer ao
auxílio dos professores usuários. Vou listar apenas alguns dos símbolos encontrados nos
textos analisados, o que não quer dizer que os professores consultados não usassem
outros, naquela ocasião.
Fica evidente que, nesse trabalho do conjunto de símbolos, houve algumas dificuldades.
Algumas classificações me pareceram muito claras, outras não, o que me permite
discordar de Serafini quando diz que a classificatória "consiste numa
identificação não-ambígua dos erros".
A correção textual-interativa: é o quarto e último tipo de correção
encontrado nas redações analisadas. Trata-se de comentários mais longos do que os que
se fazem na margem, razão pela qual são geralmente escritos em seqüência ao texto do
aluno (no espaço que aqui chamei de "pós-texto"). Tais comentários são como
"bilhetes" que, muitas vezes, extensos demais para o tipo redacional,
estruturação e temática, mais parecem verdadeiras cartas.
Eles têm duas funções básicas, conforme pude perceber: falar acerca da tarefa de
revisão pelo aluno (ou, mais especificamente, sobre os problemas do texto), ou falar,
metadiscursivamente, acerca da própria tarefa de correção pelo professor.
Os "bilhetes" se explicam, pois em face da impossibilidade prática de se
abordarem certos aspectos relacionados ao trabalho interventivo escrito por meio dos
demais tipos de correção apontados. Se resolver ou indicar no corpo, assim como indicar
ou classificar na margem não parecem satisfatórios, o professor recorre a essa maneira
alternativa de correção, relativamente aos tipos apontados por Serafini. Utiliza, daí,
aquele espaço em branco que sobra abaixo da redação na folha de papel, que não foi
preenchido pela escrita do aluno.
O que percebi nitidamente nessa estratégia, obviamente em relação aos textos
analisados é que, quando falam da revisão, os professores tematizam ora o comportamento
verbal do aluno, ora seu comportamento não-verbal. Percebe-se, também que, quando o
professor não está interessado em falar dos problemas do texto em si, mas, sim, de
outros aspectos relacionados à tarefa de revisão, é por depois motivos que o faz: ou
para elogiar o que foi feito pelo aluno (aprovando como foi feito o que o que foi feito),
ou para cobrar o que não foi feito. Um exemplo:
Maria Laura, faça as correções com calma, utilizando o dicionário, se for preciso.
Sua história está bem estruturada, mas é preciso cuidar da pontuação.
Roberta, você entendeu bem a proposta e criou fatos para ligar as duas histórias.
Refaça, com cuidado, as correções. Um beijo e um queijo,
Vale a pena ressaltar que o "bilhete" escrito pela professora para Maria
Laura, teve resposta, logo abaixo:
"Melhorou. Corrija o que falta. Gosto de ver a sua dedicação ao estudo de
Português". SN
Os "bilhetes" de SN não fazem referência apenas à estruturação da
narrativa de M. Laura, mas também e, sobretudo, ao seu empenho no trabalho de produção
e revisão de texto. Pela resposta que esta dá em seqüência ao texto da professora,
percebe-se que este é o aspecto da correção que mais lhe toca, já que retomado em sua
fala e reflete a troca de turnos que ocorre na interlocução
aluno/produtor/professor/aluno-revisor.
Os "bilhetes", na realidade, tentam ir além das formas corriqueiras e
tradicionais de intervenção, para falar dos problemas do texto. A correção
textual-interativa é, pois, a forma alternativa encontrada pelo professor para dar conta
de apontar, classificar ou até mesmo resolver aqueles problemas da redação do aluno
que, por alguma razão, ele percebe que não basta via corpo, margem, ou símbolo.
Após essa descrição geral das diversas formas de intervenção escrita a distância
(em ausência, portanto) do professor no texto do aluno, na próxima série de artigos,
procederei ao relato do exame das reescritas (revisões) elaboradas, as quais também
analisei, tentando seqüenciar meu trabalho. Quando assim procedi, queria saber qual a
natureza das alterações realizadas pelos alunos em suas redações a propósito de
correções resolutivas, indicativas, classificatórias ou textuais-interativas.
Continuarei minhas reflexões em outra oportunidade.
ABAURRE, M. Bernadete M. et alii. 1997. Cenas de Aquisição da Escrita. O sujeito e
o trabalho com o texto. Campinas: Mercado de Letras.
ALVES, Rubem, 1997. O que eu quero é fome. In: ALVES, Rubem. Cenas da vida.
Campinas: Papirus, pp. 53-6.
JESUS, Conceição A. de. 1995. Reescrita: para além da higienização.
Dissertação de Mestrado. Campinas: IEL, Unicamp.
KATO, Mary. 1986. No mundo da escrita. São Paulo: Ática.
MARCUSCHI, Luiz A. 2001. Da fala para a escrita: atividades de retextualização.
São Paulo: Cortez.
SERAFINI, Maria T. 1989. Como escrever Textos. Trad. de Maria Augusta Bastos de
Mattos. São Paulo: Globo.