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Revista Partes ano III abril de 2003 n.32

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Globalização da insensibilidade
- In Memoriam a Henry Miller – 1891 –1980
por Julio Paupitz

Recentemente, num dos intervalos dos tantos eventos latinoamericanos dedicados à conservação dos recursos naturais, desenvolvimento sustentável e participação, fui testemunha de uma situação pelo menos paradoxal, para não dizer cómica. Inapropriadamente ou seja de maneira não politicamente correta fiz alguma referência ao escritor americano Henry Miller; sim, exatamente, aquele dos "Trópicos" famosos.

Ao silêncio de chumbo criado entre os presentes, talvez mais por desconhecimento que por moralismo, salvou-me a explicação peremptória de um dos sêniors do grupo: – "Sim, Henry Miller, o escritor pornográfico dos 60s, não se lembram?" Em uníssono, a reação do grupo foi de desaprovação, sugerindo-se passar imediatamente a outro tema.

O pequeno incidente poderia bem passar desapercebido, como resultado de desinformação ou mesmo conflito de interesse entre gerações. Entretanto, hoje, retomo o assunto como pretexto para resgatar a figura do escritor, vagabundo, poeta e pintor Henry Miller e, ao mesmo tempo, tentar evitar que a ignorância e o preconceito uma vez mais o conduzam às fogueiras que, há muito imaginava apagadas.

Na realidade, o que realmente se evidencia é que o grande escritor foi esquecido e continua mal compreendido. Henry Miller é parte da galeria das personalidades literárias do século passado, ao lado de George Orwell, D.H. Lawrence, Norman Mailer e Hemingway. Neste ano, em dezembro, Henry Valentine Miller estaria completando 110 anos.

Nascido em 1891 no Brooklyn novaiorquino, filho de um humilde alfaiate de origem alemã, Henry Miller vive com intensidade as profundas mudanças do fim de século XIX, numa Nova Iorque bagunçada, ainda pontilhada de cocheiras e invadida pelo cheiro de feno fresco nas manhãs de primavera. As ruas do bairro são sua casa, os amigos desta época são seus amigos de toda vida, o que o leva a declarar o Brooklyn como sua pátria.

Miller parte para a Europa no começo dos anos 30 e permanece em Paris por mais de 10 anos. Este período de sua vida se caracteriza pela produção mais controversa: surgem Trópico de Câncer (1934), Primavera Negra(1936) e Trópico de Capricórnio (1939).

A obra de Henry Miller é vasta e a obscenidade tão presente nos seus escritos iniciais cede lugar à reflexão profunda sobre a natureza da nossa existência, como se observa em todos seus trabalhos posteriores aos Trópicos, (Colosso de Maroussi, Pesadelo Refrigerado, Big Sur e as Laranjas de Hieronimus Bosch). Nos seus livros, a sexualidade escrachada é unicamente um alerta, uma alegoria, uma forma de ataque à hipocrisia e ao puritanismo. Na verdade, o eixo da sua obra gira em torno ao retrato único e corajoso da miserável condição humana, suas tonalidades e recônditos.

De acordo com um de seus criticos, a escritora Erica Jong, o que realmente irritava o "establishment" não era a sexualidade explícita dos seu escritos mas, sim, a sua "abundância de vida". Sem optar por qualquer dos "ismos" da época, a busca de Henry Miller é tão intensa como foi atribulada sua vida. Sua luta obstinada por entender a humanidade sem máscaras lhe concede a honra de ser o escritor mais censurado em todo o mundo, como ele mesmo diz, num dos preâmbulos de seus livros.

No Brasil, seu trabalho ficou conhecido com a tradução dos livros Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio, ambos escritos nos anos 30 e de ampla circulação subterrânea na Europa e Estados Unidos. Trópico de Câncer, sua primeira obra de grande importância, foi somente publicado legalmente nos Estados Unidos quando Henry Miller tinha 69 anos, depois de uma censura de mais de 30 anos.

A partir de meados dos sessenta, seus livros são finalmente publicados no Brasil e passam a ser lidos vorazmente por uma geração de adolescentes que, até então, maioria se divertiam furtivamente com as pérolas zefirianas e, os mais ilustrados, com obras como A Carne, de Júlio Ribeiro.

Para compreender Miller é preciso despir-se da usual esquizofrenia cartesiana. Deve-se entender sobretudo que HM nunca pretendeu fazer literatura, mas, sim, denunciar o tipo de tortura em que a existência humana se converteu no século XX.

Nesse sentido, alguns aspectos autobiográficos de H. M. são reveladores. Nos anos 30, tentando contactar o autor do clássico A Fome, o norueguês Knut Hamsun, por quem nutria admiração profunda, Miller sofre tremenda decepção, logo da breve correspondência com sua secretária, a qual simplesmente solicitava a Miller alguma forma de apoio para a publicação dos livros de seu patrão, que estava passando por momentos econômicos difíceis. Miller sente-se derrotado, abandonado, somente em pensar que alguém como Hamsun pudesse em algum momento estar preocupado com pagar as contas pendentes do aluguel, da educação dos filhos, do supermercado, em resumo, da suposta trivialidade que faz parte da rotina dos mortais comuns... Hamsun não podia fazer parte daquela categoria. E talvez desta experiência lhe venha o descaso pela especialidade literária.

 

A comemoração dos 110 anos de Henry Miller é mais uma oportunidade para denunciar o estereótipo e contribuir para sua melhor compreensão. Longe de ser o pervertido que muitos consideram, seus escritos promoveram a liberação dos costumes iniciada entre os anos 60 e 70, e, por fim, a mesma liberdade que deu origem aos espaços para a ação civil ambiental. Por outro lado, a crítica de Miller é avassaladora com respeito aos impactos da sociedade pós-industrial representada pelos Estados Unidos. Com percepção aguda e sarcasmo sem paralelo, ele supera Steinbeck e Norman Mailer no retrato da desumanização e da alienação em "Pesadelo Refrigerado," publicado logo após a guerra como resultado de um giro pelos Estados Unidos.

Outro aspecto da sua originalidade foi sua atuação como defensor do meio ambiente, exatamente quando tais defensores sequer existiam. No livro "O Colosso de Maroussi" publicado em 1941, logo após sua visita à Grécia, Miller faz uma apologia apaixonada dos silvicultores e de sua necessidade para ajudar a recompor o manto verde que outrora cobriu a Grécia dos heróis.

É surpreendente a visão do escritor, principalmente se imaginarmos que, àquela altura, o mundo se preparava para despedaçar-se novamente, que a Amazônia ainda estava inteira e as sussuaranas, onças pintadas e tapires percorriam as matas de araucaria que cobriam boa parte do Estado do Paraná. Seu apelo é direto: a Grécia necessita de florestais, necessita reflorestar, conservar, expulsar as cabras, recuperar os bosques que cairam sob o dominio das oliveiras. Os bosques são, na sua mensagem, uma esperança de retorno da vida, florescimento dos legisladores e dos poetas.

Sua mensagem faz-nos reconhecer quão próximos podemos estar de uma nova idade das trevas - de uma globalização da insensibilidade. Nossa dependência material, aliada à incapacidade de observação, transformou-nos em órfãos intergaláticos, sem o conhecimento dos códigos primordiais que nos permitiriam retornar à casa.

 
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Julio Paupitz é Engenheiro Florestal e reside em Maputo - Moçambique

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Corações e Mentes – A Solidão Nesses Tempos Tenebrosos
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