O pequeno incidente poderia bem
passar desapercebido, como resultado de desinformação ou mesmo conflito de interesse
entre gerações. Entretanto, hoje, retomo o assunto como pretexto para resgatar a figura
do escritor, vagabundo, poeta e pintor Henry Miller e, ao mesmo tempo, tentar evitar que a
ignorância e o preconceito uma vez mais o conduzam às fogueiras que, há muito
imaginava apagadas.
Na realidade, o que realmente se evidencia é que o grande escritor foi
esquecido e continua mal compreendido. Henry Miller é parte da galeria das personalidades
literárias do século passado, ao lado de George Orwell, D.H. Lawrence, Norman Mailer e
Hemingway. Neste ano, em dezembro, Henry Valentine Miller estaria completando 110
anos.
Nascido em 1891 no Brooklyn novaiorquino, filho de um humilde alfaiate
de origem alemã, Henry Miller vive com intensidade as profundas mudanças do fim de
século XIX, numa Nova Iorque bagunçada, ainda pontilhada de cocheiras e invadida pelo
cheiro de feno fresco nas manhãs de primavera. As ruas do bairro são sua casa, os amigos
desta época são seus amigos de toda vida, o que o leva a declarar o Brooklyn como sua
pátria.
Miller parte para a Europa no começo dos anos 30 e permanece em Paris
por mais de 10 anos. Este período de sua vida se caracteriza pela produção mais
controversa: surgem Trópico de Câncer (1934), Primavera Negra(1936) e Trópico de
Capricórnio (1939).
A obra de Henry Miller é vasta e a obscenidade tão presente nos seus
escritos iniciais cede lugar à reflexão profunda sobre a natureza da nossa existência,
como se observa em todos seus trabalhos posteriores aos Trópicos, (Colosso de Maroussi,
Pesadelo Refrigerado, Big Sur e as Laranjas de Hieronimus Bosch). Nos seus livros, a
sexualidade escrachada é unicamente um alerta, uma alegoria, uma forma de ataque
à hipocrisia e ao puritanismo. Na verdade, o eixo da sua obra gira em torno ao retrato
único e corajoso da miserável condição humana, suas tonalidades e recônditos.
De acordo com um de seus criticos, a escritora Erica Jong, o que
realmente irritava o "establishment" não era a sexualidade explícita dos seu
escritos mas, sim, a sua "abundância de vida". Sem optar por qualquer dos
"ismos" da época, a busca de Henry Miller é tão intensa como foi atribulada
sua vida. Sua luta obstinada por entender a humanidade sem máscaras lhe concede a honra
de ser o escritor mais censurado em todo o mundo, como ele mesmo diz, num dos preâmbulos
de seus livros.
No Brasil, seu trabalho ficou conhecido com a tradução dos livros
Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio, ambos escritos nos anos 30 e de ampla
circulação subterrânea na Europa e Estados Unidos. Trópico de Câncer, sua primeira
obra de grande importância, foi somente publicado legalmente nos Estados Unidos quando
Henry Miller tinha 69 anos, depois de uma censura de mais de 30 anos.
A partir de meados dos sessenta, seus livros são finalmente publicados
no Brasil e passam a ser lidos vorazmente por uma geração de adolescentes que, até
então, maioria se divertiam furtivamente com as pérolas zefirianas e, os mais
ilustrados, com obras como A Carne, de Júlio Ribeiro.
Para compreender Miller é preciso despir-se da usual esquizofrenia
cartesiana. Deve-se entender sobretudo que HM nunca pretendeu fazer literatura, mas, sim,
denunciar o tipo de tortura em que a existência humana se converteu no século XX.
Nesse sentido, alguns aspectos autobiográficos de H. M. são
reveladores. Nos anos 30, tentando contactar o autor do clássico A Fome, o norueguês
Knut Hamsun, por quem nutria admiração profunda, Miller sofre tremenda decepção, logo
da breve correspondência com sua secretária, a qual simplesmente solicitava a Miller
alguma forma de apoio para a publicação dos livros de seu patrão, que estava passando
por momentos econômicos difíceis. Miller sente-se derrotado, abandonado, somente em
pensar que alguém como Hamsun pudesse em algum momento estar preocupado com pagar as
contas pendentes do aluguel, da educação dos filhos, do supermercado, em resumo, da
suposta trivialidade que faz parte da rotina dos mortais comuns... Hamsun não podia fazer
parte daquela categoria. E talvez desta experiência lhe venha o descaso pela
especialidade literária.
A comemoração dos 110 anos de Henry Miller é mais uma oportunidade
para denunciar o estereótipo e contribuir para sua melhor compreensão. Longe de ser o
pervertido que muitos consideram, seus escritos promoveram a liberação dos costumes
iniciada entre os anos 60 e 70, e, por fim, a mesma liberdade que deu origem aos espaços
para a ação civil ambiental. Por outro lado, a crítica de Miller é avassaladora com
respeito aos impactos da sociedade pós-industrial representada pelos Estados Unidos. Com
percepção aguda e sarcasmo sem paralelo, ele supera Steinbeck e Norman Mailer no retrato
da desumanização e da alienação em "Pesadelo Refrigerado," publicado logo
após a guerra como resultado de um giro pelos Estados Unidos.
Outro aspecto da sua originalidade foi sua atuação como defensor do
meio ambiente, exatamente quando tais defensores sequer existiam. No livro "O Colosso
de Maroussi" publicado em 1941, logo após sua visita à Grécia, Miller faz uma
apologia apaixonada dos silvicultores e de sua necessidade para ajudar a recompor o manto
verde que outrora cobriu a Grécia dos heróis.
É surpreendente a visão do escritor, principalmente se imaginarmos
que, àquela altura, o mundo se preparava para despedaçar-se novamente, que a
Amazônia ainda estava inteira e as sussuaranas, onças pintadas e tapires percorriam as
matas de araucaria que cobriam boa parte do Estado do Paraná. Seu apelo é direto: a
Grécia necessita de florestais, necessita reflorestar, conservar, expulsar as cabras,
recuperar os bosques que cairam sob o dominio das oliveiras. Os bosques são, na sua
mensagem, uma esperança de retorno da vida, florescimento dos legisladores e dos poetas.
Sua mensagem faz-nos reconhecer quão próximos podemos estar de uma
nova idade das trevas - de uma globalização da insensibilidade. Nossa dependência
material, aliada à incapacidade de observação, transformou-nos em órfãos
intergaláticos, sem o conhecimento dos códigos primordiais que nos permitiriam retornar
à casa.