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Revista Partes ano III abril de 2003 n.32

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Transgênicos: a hora e a vez de Lula
por Gilberto da Silva
Decisão fatal
O governo Lula precisa com urgência definir o futuro das plantações transgênicas no pais. O certo é que até o momento o governo federal ainda não sabe o que fazer com a soja modificada geneticamente, produzida na atual safra do Rio Grande do Sul e que começa a ser colhida. Uma decisão delicada. A legislação brasileira é clara e proíbe a venda de transgênicos no mercado interno. Mas os produtores — induzidos pela propaganda das empresas de biotecnologia e de grupos interessados na difusão dos transgênicos—contrabandearam sementes do Paraguai, plantaram, colheram e agora querem vender sua soja. Cometeram uma ilegalidade. O Ministério Público precisa apurar responsabilidade neste caso!

Agora e depois
A decisão do governo federal deve abranger tanto a produção atual como as futuras. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirma que o governo procura uma decisão "madura e desapaixonada" e defende a idéia de que não fique nem um grão do produto no mercado interno. Há uma divisão interna no governo sobre os transgênicos. De uma lado, Lula, Marina e Rosseto (ministro da Reforma Agrária), de outro, Roberto Rodrigues, da Agricultura e Luis Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
As organizações não-governamentais (ONGs) e movimentos de defesa do consumidor referendam a posição de Marina Silva. É preciso uma posição firme e definitiva sobre o assunto.

A demanda por orgânicos
A melhoria da tecnologia para a agricultura familiar e o sistema de produção de orgânicos e produtos agroecológicos é a prioridade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Se esta afirmativa for real o uso dos produtos transgênicos ficam para outro momento.
Ao mesmo tempo em que há uma pressão de alguns setores para a liberação dos transgênicos, o mercado mundial de produtos orgânicos corresponderão a 15% dos alimentos consumidos no mundo. O mercado mundial de orgânicos cresce 25% ao ano. Cada vez mais nossos produtos orgânicos estão sendo aceitos no mercado mundial, principalmente no mercado europeu, que é o maior mercado mundial de produtos orgânicos.

Fórum Mundial da Água
No dia 16 de março começa o Fórum Mundial da Água em Kyoto, no Japão. Vai até 23 de março. Este é o encontro oficial para discutir políticas públicas para a questão da água. O Brasil, que vai realizar encontros não-oficiais, deve se oferecer para sediar o 4.º Fórum Mundial, previsto para 2006. No documento que o governo levará ao Japão, a água de beber não é o único destaque, pois terá uma ênfase na importância da água para a produção, como nas hidrelétricas.
Cerca de 10 mil representantes de governos e ONGs discutirão soluções para combater a escassez de água doce.

Gilberto da Silva

gilberto@partes.com.br

A guerra pela água já começou

O Fórum

No dia 22 de março comemorou-se o Dia Mundial da Água. A data adquiriu um significado especial por dois motivos: primeiro, pelo fato da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) ter declarado 2003 o Ano Internacional da Água Doce e segundo, pela realização entre os dias 16 a 23 de março do III Fórum Mundial da Água, em Kyoto, Japão.

Mudanças gerenciais

A Unesco defende mudanças radicais na forma como os recursos hídricos são geridos pelos governos. Diversos países têm dificuldades em manter intactos os seus reservatórios. Em Bangladesh, na Índia, 1,2 milhão de pessoas já apresentaram sinais de intoxicação devido ao alto nível de poluição dos rios. No mundo cerca de 3 bilhões de pessoas têm que usar água contaminada.

Tentativa de acordos

Em Kyoto, chefes de Estado, cientistas, empresários e representantes de organizações multilaterais e movimentos sociais reuniram-se para discutir a crise mundial de água e estabelecer acordos que garantam o acesso universal à água de qualidade. Cerca de 1,5 bilhão de pessoas no mundo sofrem com a escassez deste produto valioso, outros 2,4 bilhões não têm acesso a nenhuma rede de saneamento.

Interesses econômicos

Encontro como este de Kyoto sempre é dominado por interesses econômicos com privilégios para grandes projetos em detrimento de pequenos investimentos em zonas locais e com resultados mais satisfatórios.

Cerca de 24 mil pessoas participaram do encontro em Kyoto e apesar de todos os esforços não avançaram em temas cruciais, como investimento na saúde dos ecossistemas, que é a base da sustentabilidade na gestão dos recursos hídricos; proteção às fontes de água; saneamento e cooperação internacional no manejo de rios internacionais. No paralelo, em Cotia, na região metropolitana de São Paulo, ambientalistas realizaram o Fórum Social das Águas e posicionaram-se contra a privatização do saneamento.

Perdas nacionais
No Brasil há muita água. Os lençóis freáticos tupiniquim guardam o equivalente a toda água doce existente no mundo. Há, também uma péssima distribuição e muito desperdício. Estas perdas são contabilizadas desde a sua extração, passando pela distribuição e uso.

As empresas brasileiras de saneamento têm perdas próximas de 30% do volume de água em suas redes de distribuição. Algumas aproxima-se de 50%. Haja ineficiência! Não é à toa que tem muita gente "babando" para que as empresas estaduais sejam privatizadas.

A Sabesp perde 15% (já chegou a perder 43%) em perdas físicas e mais 20% em ligações clandestinas. Mas o maior desperdício está no uso irracional da água, dentro das casas e das empresas.

Melhoras urgentes
Os serviços de saneamento precisam ser melhorados. Uma reforma urgente no setor precisa ser levada à cabo. Privatizar, por mais que seja sedutor, não resolve. A água deve ter uma tutela estatal, pois o recurso é de todos. Falta comprometimento político, melhor uso dos recursos financeiros e uma educação continuada pelo uso racional da água.

Estrutura iraquiana
Não é só no petróleo que os "invasores" do Iraque estão de olho. O Iraque é um dos países árabes com a melhor e mais organizada estrutura hidráulica. Há muito mais que simples óleo brotando em Bagdá.

Livre do poderio "sadânico", outros países da região só tem a ganhar com a "livre concorrência" (leia-se Israel).

Este é o primeiro passo dos muitos e futuros conflitos pela exploração dos recursos hídricos, sobretudo naqueles que ultrapassam rios e aqüíferos fronteiriços.

Gilberto da Silva
gilberto@partes.com.br

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Gilberto da Silva é editor da Revista Partes. Jornalista profissional, professor universitário (Uninove)e sociólogo
gilberto@partes.com.br

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