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Revista Partes ano III abril de 2003 n.32

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Editorial
A luta do mal contra o mal
por Adilson Luiz Gonçalves
A evolução da civilização é inegável, mas alguns dirigentes mundiais insistem em nos recordar os momentos mais sombrios da História da Humanidade. Assim, a união dos EUA com o Reino Unido e, curiosamente, a Espanha contra o ex-aliado de Tio Sam: o árabe Saddam Hussein; demonstra que o imperialismo britânico e espanhol nunca deixou de existir; estava, apenas, hibernando.
Antigos inimigos ferrenhos, ingleses e ibéricos protagonizaram alguns dos episódios mais cruéis da História moderna, motivados pela ganância e por uma incrível intolerância cultural. Pelo poder das armas, pela humilhação da escravidão e do estupro posteriores, pela destruição de identidades culturais, pela pilhagem e pelo extrativismo devastador, estas nações promoveram o massacre de civilizações indígenas inteiras e a subjugação de nações, sob pretextos religiosos. A tolerância cultural e religiosa, para eles, era expressa pelo fio da espada, pelo garrote vil, pela forca, pelo cutelo e pela fogueira.
O expansionismo muçulmano não foi muito diferente e seus rancores históricos e histéricos ainda se fizeram sentir, recentemente, na guerra da Bósnia.
Eram as Cruzadas contra as "Jihads".
O interessante é que todas se tornaram potências num mesmo momento histórico: a interface entre a Idade Média e a Idade Moderna. A tomada de Constantinopla - com o bloqueio de acesso terrestre ao Oriente -, a ascensão da burguesia e o mercantilismo decretaram o fim do feudalismo. Fim do feudalismo? Não! Na verdade houve a institucionalização de um feudalismo de estado, internacionalizado, cujo real objetivo era amenizar as tensões econômicas, sociais, políticas, demográficas e religiosas do Velho Continente.
A Espanha viveu seu apogeu até o fim das guerras napoleônicas e a Inglaterra e o Império Otomano até a Primeira Guerra Mundial. Os EUA vivem o seu desde a Segunda Guerra Mundial. As guerras, portanto, têm sido ao longo da História marcos da ascensão e queda de impérios.
O desgaste logístico fez com que ingleses, ibéricos e otomanos perdessem sucessivamente suas colônias, com profundo impacto econômico interno. A Espanha, que tanta riqueza havia extirpado de suas colônias, mergulhou, paupérrima, em profunda depressão que culminou em uma das mais sangrentas guerras civis de que se tem notícia, só comparável à Guerra da Secessão do EUA. O Reino Unido deixou de ser o "Império onde o Sol nunca se põe" para viver à sombra dominadora dos EUA, esquecendo suas raízes européias para ser um mero títere dos interesses da ex-colônia. Esses países mostram que o imperialismo "genético", quando represado, é antropofágico.
É certo que Saddam Hussein é um megalomaníaco que se impõe pela força bruta e pelo culto à personalidade, mas também é fato que ele já integrou o seleto grupo de tiranos e ditaduras apoiados e armados pelos interesses ianques, tais como: "Papa" e "Baby" Doc (Haiti), Somoza (Nicarágua), Rehza Pahlevi (Irã), ditaduras sul-americanas, africanas e asiáticas. O fato de ser árabe, no entanto, tem sido usado como um baluarte pelos muçulmanos, ressuscitando os tempos sombrios das Cruzadas e "Jihads".
"Cria cuervos para que te comam los ojos" é um antigo ditado espanhol que está sendo combatido com a máxima pré-histórica de que o "pai" tem o direito de tirar a "vida" do filho. Mas quantos inocentes: homens, mulheres e crianças; terão que pagar com a própria vida para que os "verdadeiros culpados" sejam "punidos"?
Embora igualmente injustificável, a principal - e extremamente eficaz - arma dos que querem poder, mas não conseguem rivalizar com os recursos econômicos dos EUA é o cultivo do fanatismo insano, sobretudo com doutrinação religiosa. Saddam pode até ser repudiado pelos árabes, mas muitos estão relevando seus atos por considerarem os EUA um risco maior para o "mundo árabe" fundamentalista. De algoz foi alçado à condição de mártir - no mesmo patamar de Bin Laden - ressuscitando os discursos dos sombrios tempos medievais.
Mas, afinal, quem tem razão?
Ninguém, ainda mais quando sabemos que a real motivação do entrevero é, como outrora, econômica!
Se pudermos tirar alguma conclusão desse momento mundial dramático será a consciência de que a ONU está "sub judice" como entidade capaz de manter a paz mundial. Livres de qualquer oposição efetiva e detentores do maior mercado consumidor: os EUA; assumiram a função de senhorios do planeta, arvorando-se o direito de despejar quem bem lhes aprouver mediante "denuncia vazia".
É essa a globalização e democracia que propugnam?
Vale o nefasto ditado que sentencia: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo"?
Essa "pá de cal" nos princípios básicos da ONU uniu antigos inimigos do velho imperialismo: Reino Unido e Espanha; ao detentor do monopólio do imperialismo moderno: os EUA. Será que a devolução de Gibraltar faz parte da barganha?
Do outro lado, os antes arquiinimigos: França e Alemanha, secundados por Rússia e China; unem-se em defesa da legalidade.
Não sejamos ingênuos: a ONU só foi tolerada pelos EUA - e, antes, pela URSS - enquanto atendeu aos seus interesses hegemônicos. Mas a Europa reconstruída, livre das pressões da Guerra Fria e unificada quer, agora, resgatar seu passado. A dissolução da OTAN - como já vaticinei quando da unificação européia - é, mais que nunca, uma questão de tempo.
A guerra contra Saddam Hussein é apenas um oneroso episódio de uma disputa, muito mais grave, pelo controle geopolítico e econômico mundial. O terrorismo que Bush combate não é semente, mas fruto. Semente é o que os EUA querem plantar com suas atitudes unilaterais belicosas, com interesses francamente econômicos. A guerra é do dólar contra o euro e pela garantia de mercados e suprimento de matéria-prima. Não tem, portanto, absolutamente nada de nobreza ou santidade! A única coerência que podemos encontrar nesse caos é a perfeita relação entre os nomes dos protagonistas e suas atitudes: as "Bushits" do presidente dos EUA; o Blá(ir) - Blá(ir) - Blá(ir) insustentável do primeiro-ministro britânico; as "Azneiras" com segundas intenções de seu colega espanhol; e os estrebuchamentos e fanfarronices do "Saddânico" ditador iraquiano. Mas ainda há alguma esperança "Jacques" o premier francês e seu colega alemão não se "Schroenderam" de suas responsabilidades.
Ironias e neologismos à parte, a Humanidade não merece os líderes que tem! Não merece estar à mercê de eminências pardas, das Bolsas de Valores ou do humor de líderes carismáticos!
Faltam estadistas humanistas, mas sobram sádicos lunáticos e seus fantoches!
 
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Adilson Luiz Gonçalves
Engenheiro e Professor Universitário
Santos - SP
algbr@hpg.com.br

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