O
favelado é antes de tudo um pobre. Mas é tão forte quanto qualquer dos jagunços
avaliados e exaltados por Euclides da Cunha. Sua pobreza e uma força interior que resulta
na tenacidade em face do infortúnio, dão-lhe uma respeitabilidade tão sólida quanto
aquela das multidões que se uniram a Antônio Conselheiro, na longa e trágica epopéia
de Canudos.
A perseverança do favelado em sua morada, impõe respeito a quem contempla a sua
pobreza.
Do alto daqueles morros em que se incrustou, o favelado carioca pode medir, olhando a
cidade, a distância a que se encontra da justiça social.
A favela reflete, como é fácil perceber, as angústias de uma população descontente
e seu crescente desespero em face da condição desigual em que sobrevive, como um
subproduto daquela sociedade lá em baixo, aquecida por suas lutas e seu enorme egoísmo.
O clima de qualquer favela é um clima de ressentimento que ela, inconscientemente,
consegue atenuar, às vezes com a violência que ali pode ser uma catarse - mais
freqüentemente com sua música, sua surpreendente sensibilidade artística e a
inteligência daqueles que desceram o morro para estudar e absorver, por osmose, os
benefícios da influência erudita.
Entre a parcela de humanidade que habita as favelas, não se distinguem apenas, os
pequenos bandidos que crescem e cedo se criminalizam, a serviço e por inspiração do
narcotráfico.
Ali também vive gente como Paulo Lins, que escreveu um romance chamado "Cidade de
Deus", de que resultou um filme com o mesmo nome que só não venceu o Festival de
Cannes, por conter muita violência.
Lins desvendou a evolução de uma favela autêntica em que ele morava - onde
presenciou a criação das primeiras "bocas de fumo" , a chegada do calçamento
, da luz elétrica, da água encanada e também dos traficantes de cocaína, que hoje ali
vivem e agem, em simbiose com os favelados.
Como tudo o que realmente importa neste Brasil desatento, a favela mudou muito no
período entre dois séculos. Desvendou alguns enigmas, recebeu umas tinturas de
urbanização, politizou-se e viu surgirem favelados famosos, como MV Hamilton, uma
espécie de Robin Hood do rap e sua irmã, "Nega Ziza", a maior
audiência da 94 FM RáDIO Roquete Pinto do Rio de Janeiro, onde já é cognominada de
"Rainha do Rap".
Não desfazendo de outras celebridades, a favela viu surgir, também, a Benedita, que
governou o Rio de Janeiro e agora é ministra no governo do Presidente Lula.
Para os favelados, parece que o tempo de isolamento, temor e indignação, está
passando.
Pensando bem, num país em que só quem ganha dinheiro são os banqueiros, mas um
governo reformista acaba de assumir, parece que ser pobre é vantagem, porque na mesa de
sinuca do PT os pobres devem ser a bola da vez.
HE. 05/03/2003