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Revista Partes ano III abril de 2003 n.32

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A pobreza como estratégia
por Luiz Bello
O favelado é antes de tudo um pobre.

Mas é tão forte quanto qualquer dos jagunços avaliados e exaltados por Euclides da Cunha. Sua pobreza e uma força interior que resulta na tenacidade em face do infortúnio, dão-lhe uma respeitabilidade tão sólida quanto aquela das multidões que se uniram a Antônio Conselheiro, na longa e trágica epopéia de Canudos.

A perseverança do favelado em sua morada, impõe respeito a quem contempla a sua pobreza.

Do alto daqueles morros em que se incrustou, o favelado carioca pode medir, olhando a cidade, a distância a que se encontra da justiça social.

A favela reflete, como é fácil perceber, as angústias de uma população descontente e seu crescente desespero em face da condição desigual em que sobrevive, como um subproduto daquela sociedade lá em baixo, aquecida por suas lutas e seu enorme egoísmo.

O clima de qualquer favela é um clima de ressentimento que ela, inconscientemente, consegue atenuar, às vezes com a violência – que ali pode ser uma catarse - mais freqüentemente com sua música, sua surpreendente sensibilidade artística e a inteligência daqueles que desceram o morro para estudar e absorver, por osmose, os benefícios da influência erudita.

Entre a parcela de humanidade que habita as favelas, não se distinguem apenas, os pequenos bandidos que crescem e cedo se criminalizam, a serviço e por inspiração do narcotráfico.

Ali também vive gente como Paulo Lins, que escreveu um romance chamado "Cidade de Deus", de que resultou um filme com o mesmo nome que só não venceu o Festival de Cannes, por conter muita violência.

Lins desvendou a evolução de uma favela autêntica – em que ele morava - onde presenciou a criação das primeiras "bocas de fumo" , a chegada do calçamento , da luz elétrica, da água encanada e também dos traficantes de cocaína, que hoje ali vivem e agem, em simbiose com os favelados.

Como tudo o que realmente importa neste Brasil desatento, a favela mudou muito no período entre dois séculos. Desvendou alguns enigmas, recebeu umas tinturas de urbanização, politizou-se e viu surgirem favelados famosos, como MV Hamilton, uma espécie de Robin Hood do rap – e sua irmã, "Nega Ziza", a maior audiência da 94 FM RáDIO Roquete Pinto do Rio de Janeiro, onde já é cognominada de "Rainha do Rap".

Não desfazendo de outras celebridades, a favela viu surgir, também, a Benedita, que governou o Rio de Janeiro e agora é ministra no governo do Presidente Lula.

Para os favelados, parece que o tempo de isolamento, temor e indignação, está passando.

Pensando bem, num país em que só quem ganha dinheiro são os banqueiros, mas um governo reformista acaba de assumir, parece que ser pobre é vantagem, porque na mesa de sinuca do PT os pobres devem ser a bola da vez.

HE. 05/03/2003

 
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Luiz Bello (Lubell) - Luiz Pinto d'Albuquerque Bello, carioca, jornalista profissional, escritor, tradutor. Curso de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia. Prêmios de melhor reportagem do ano atribuídos pela Associação Brasileira de Rádio e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro. Ex-Redator de "O Jornal", "Última Hora" e "O Globo", no Rio.
Autor de dois ensaios de natureza social, uma pesquisa histórica e um romance. Prefere que o chamem de poeta bissexto a que o dimensionem como poeta menor. Sempre esquece de mencionar sua data de nascimento, para diminuir pelo menos um pouco os pontos negativos do seu curricullum vitae. [janeiro de 2001]

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