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Revista Partes ano III abril de 2003 n.32

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Corações e Mentes – A Solidão Nesses Tempos Tenebrosos
por Silas Corrêa Leite

-Hoje, primeira sexta-feira de um abril outonal, mal o beiço da tarde arredondou losangos laranjas num pôr-de-sol distante (que vestia o pijama do prelúdio ao longe) e uma querida amiga professora me ligou algo estranhamente tímida, até sondou-me antes de completar a ligação se identificando, sofregamente respirou fundo, mediu bem as palavras num muxoxo indisfarçável, e, depois, ao quase estourar, chorando copiosamente, disse estar mesmo em falta comigo, de alguma maneira, em seguida, soluçando ainda engoliu a seco um silêncio pesaroso, arrematou o contato completo e formal, pediu perdão ou circunstancial coisa assim, se entendi bem, e enfeitou o pavão da inteira ternura naquele mavioso reencontro em elo de contato, finalmente, então, desabafando:

-Andamos solitários.

Pensei, incontinente, com meus botões de laranjeiras íntimas, num oportuno parafrasear o Mestre Pascal:

-A solidão nos atrai

-A propósito, aliás, tenho um poemeto dos idos Anos 60 que, mal-e-mal acaba assim, no arremate de sua feitura: "Acompanhe a maioria/Ande sozinho..." Deve ser isso.

-Andamos tristes, desconfiados, solitários pela própria natureza. Com azedumes camuflados de risos curtos, decorados. Já não cantamos mais belos calipsos no banheiro, nem abraçamos mais nossas irmãs vaidosas, sequer jogamos bola de gude com nossos filhotes, mal-e-mal agradecemos o virado de feijão-com-couve de uma parente prendada, pois estamos nos acostumando a ser casca grossa, sem seca, turrões, fechados em nossa mediocridade, num mundo-sombra paredemeia com o desconforto, a insegurança, a falta de perspectiva, o sonho medrando no coração transido, pisado, nesses tempos pós-moderno de muito ouro e pouco pão, em que a globalização é mais do que um consumo idiota; tempos tenebrosos do insano lucro amoral e inumano, de broncas riquezas injustas e poses pífias, em antros de sadios escorpiões arrotando mediocridades com fachadas de araque, máscaras escondendo falsidades com grifes, e posses com vazios nos corações e mentes, de improbos sobreviventes das plumas e paetês, longe de um tempo em que éramos todos jovens, e sonhávamos justiça, liberdade, pães e pétalas aos descamisados, os excluídos sociais. Éramos felizes e não sabíamos?

-Temos nossa caixa de correio eletrônico, e mal lemos os alôs dos amigos, pedindo, quase implorando um carinho virtual, escondidos com seqüelas várias em gaiolas-apartamentos, na liturgia de uma tevê imbecil, ou no favo de uma falta de diálogo, de amor, de prazer, beirando a uma tentativa de abismo, esperando o galo cantar três vezes para, finalmente, em depressão mal identificada, negarmos a vida, provocarmos a ruptura terminal do fim sem pé nem cabeça.

-Recebemos cartas de amigos e parentes, mas nunca respondemos. Não medimos a pena. Não perdemos tempo com afetos primordiais assim. Não temos tempo. Telefonam, insistem, e nunca estamos. Nossa caixa postal no celular é de enfeite, está isolada, não queremos elos, nem bênçãos. Quantas vezes, cansados de nós, do trivial, do cotidiano, da rotina marota que nos engoda o prumo e nos açoda o vício do álcool ou das aventuras de burrezas pegajentas, não ligamos para casa – para nós mesmos – querendo ouvir a nossa própria voz do outro lado da linha, nos identificando quando, puros, benvidamos a palavra amiga, o beijo, o abraço, o aperto de mãos, quando agradecemos o contato, pois estávamos em nós e amávamos amizades, buscas, pertencimentos.

-Agora estamos todos perdidos no ralo do dia. A poupança não vale nada, é um embuste, os imbecis posudos e poliglotas estão no poder, o plano econômico do FMI é um embuste financeiro (de agiotas do capital internacional), nossa utopia virou lenda, e, a nossa única e presencial terapia táctil é mesmo, trocadilhando, "ter a pia" cheia de louça para lavar - da comida importada, tirada do freezer ou pedida por código (ai que saudades do manjar dos deuses), quando temos o carnê do aparelho bocó para pagar (a propaganda do regime para emagrecer nos logrou), temos o dízimo da violência neoliberal (acreditávamos num sociólogo marxista e honesto que se prostituiu), e ainda temos o arame da consciência pagando o pato de nosso desconforto íntimo, talvez, já reinando uma separação no casamento, um câncer no ego, um adeus escondido ao sonho impossível.

-Não, não estamos ficando velhos. Estamos ficando cegos. Há olhos de ver, e olhos de Enxergar. Estamos nos acostumando com a mediocridade que nutre e viça na sociedade de novos ricos e antigos burgueses podres com culpas nos cartórios das consciências pesadas. Ficamos órfãos do socialismo de resultados, perdemos vínculos, noções, estamos cada vez mais parecido com o óbvio ululante que ri do boçal, que chuta estatísticas, que acredita nas mentiras estatais e nas vaidades com bumbuns bem torneados, enquanto a cultura vai pro vinagre, pro brejo, e a nossa noção de ridículo beira o caos, ao infame. E estamos perdidos de nós mesmos.

-Nossa igreja atual é um neo-esoterismo tantã de fien-de-sécle, uns florais comprados em camelôs feitos traficantes com imunidade parlamentar ou contrabandistas informais, quando rejeitamos a um Deus vivo e acreditamos em pieguices pseudomodernas, babaquaras carismáticos de ocasião, cientistas de laboratórios, orações emboabas de almanaques rendidas das cavernas do obscuro, livros pseudo-laicos trazidos literalmente dos confins dos judas, pois com isso pensamos que pensamos, achamos que somos o que não somos, já que rezamos ao mesmo tempo para Deus e para o diabo, no mesmo diapazom, olhando para cima em busca do que está vivo em nosso íntimo, uma fécula vivíssima dentro de nós mesmos, e disfarçamos com rímel e palavrões-chaves, quase senhas do hades, que estamos bem, mas estamos ferrados, perdidos, entregues às moscas da mesmice e ao terrorismo dos grandes shoppings que nos acatam, nos sondam, mas nos vigiam com alta tecnologia de primeiro mundo em câmaras secretas, e só acreditam em nossos cartões de crédito, nossos podres poderes de consumo alienado, não nas navalhas de nossos olhos retrucando, nossos atos reprovando, nossas mãos limpas por causa dos que morrem à míngua na periferia de mestiços entregues à má sorte da miséria, da fome e do labirinto do crime. O holocausto do neoliberalismo.

Aquele irmão adorado, imprudente e infeliz, que cesta básica de afeto demorado precisa? Aquele benquisto serviçal vizinho de décadas, que se mudou para a rua da amargura, que cédula de nossa consciência cívica e cidadã precisa? Aquele atuante colega professor, amigo, saudável, adorado, comunicativo, dinâmico, que nos troçou por destemperos, em que hospital deixou a mão da discórdia, em que não-lugar chorou com medo de ser simples ou louco, em que jardim do éter respira por aparelho a falta de condição humana no humanus?

-A solidão do animal rastejante ou não, visa uma perspectiva de predação, de sobrevivência por instinto genético recorrente, mas a do bicho homem visa o esconderijo de não mais se revelar verdadeiro, crível, mesmo que em profissão errada gerando poderes, em ocasional terapeuta de convênio, em cirurgião estético de final de semana, em bar famoso para beber o repetido gol que nunca foi bonito (só fomos dopados para acreditar que foi), nem o filme foi bom (só assistimos pra nos dizermos atualizados ao zero, ao nada), nem a música presta mas a cantamos por decorar o mau gosto, quando o neto, já depois de ter sofrido o open-doping da mídia dança se rebolando todo, sexualidade precoce, e dizendo, pobre coitado, que vai votar naquela mulher que é filha do próprio estrume políticos de tempos de arbítrio com o crime organizado financiando essa nossa - que resultou - literalmente em democracia de embuste, feito panacéia de entidades em rede de interesses, que parecem ser melhores do que verdades inteiras, paisanas.

-Não, meus diletos contemporâneos, não estamos vacinados contra ódio, nem contra amarguras mal disfarçadas no psicossomático, somos testemunhos de opositores mambembes, de idílios garbosos a peso de ouro, de livros bobos que a crítica cada vez pior louva, de programecos de tevê que se parecem cada vez mais conosco, de tanto que são tolos, ignóbeis, viciados em lixo.

-Sim, somos reféns em casa, entre grades, na solidão desses micro infernos que produzimos, quando mal bondiamos o filho imberbe, mal conferimos a nota escolar da filha teen, mal sabemos o que sabemos, pois estamos indo de roldão nesse pedágio neoliberal, tempos de travessia difícil em que nos matamos para sobreviver dentro do possível, e a úlcera já se mostra, o estresse futuro nos aguarda, e o recado na secretária eletrônica esperará para sempre, o bip não deu sinal de oportuno retorno, a carta que não respondemos ainda não dói na parede da memória, o alô que não retornamos não foi auditado pelo id e a consciência, porque, bem ou mal, estamos insensíveis, e, a bem da verdade, os imbecis estão no poder mais fomos nós que os elegemos, por isso, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente SOMOS TODOS CULPADOS.

Sim, SOMOS TODOS CULPADOS pela violência generalizada, pela impunidade por atacado, pela corrupção endêmica institucionalizada em todos os níveis, pelo boçal jeitinho brasileiro de levar vantagem em tudo, pelo mote amoral (do nefasto modus operandi) que prega em alto bom tom que "rouba e ainda diz que faz" - e tem alto índice de perspectiva de voto - porque, a bem da verdade, se aceitamos um ladrão, também somos ladrões, de nossa consciência, de nós mesmos, de nossa cidadania, todos babaquaras postos na moenda dos dias que nos tornam tristes, todos confinados entre quatro paredes de mesmices e jogos de esconde-esconde, entre a catedral do ego doentio e as fugas etílicas, noctívagas, pois estamos mais sós do que nunca, e, como diz um antigo Blues meu, talvez mereçamos mesmo:

 

"Estamos todos sozinhos/Além do que percebemos/Somos sempre tão mesquinhos/Quem sabe até merecemos/Estamos todos sozinhos/Basta olhar pra nós mesmos...!" (Blues Cazuza)

-Deixe de responder ao e-mail que insiste num contato terno, e morra sozinha, clandestina, abandonada, sem amor e sem apoio. Deixe de retornar o alô (de qualquer forma que venha) e caia em si quando for tarde demais, muito tarde, se já não é tarde para sempre.

-Sabe, cara pálida, sabe Baby, como carneiros tosquiados aceitamos as coisas como elas são, não vivemos mais por um ideal, um sonho, ou sequer para mudar o mundo, mudar as coisas para melhor, para que a vida seja melhor, a cidade volte a ser limpa e ordeira, nossos filhos sejam grudes em carinho e afeição, nossos parentes confiem plenamente em nós, no amor e na dor, nosso vizinho seja íntimo, caseiro, familiar, nossa saudade seja a mais forte forma de amor, nosso abraço seja demorado por estima valorada, nossos olhos tenham mimos de luzes em cada reencontro, e, aquela busca de paz e convivência seja de novo salutar, mesmo com problemas distantes, graves guerras, carestias de encomendas (a América Rica), nós ainda voltaremos a ser melhor do que as situações de conflitos, porque, poetando, "Na mão direita temos uma roseira/Que dá flor a vida inteira... "

-Talvez, mudando a nós mesmos, mudando depois nossa casa, nosso meio, quem sabe, aos poucos, paulatinamente, com nosso exemplo progressivo e eficaz, poderemos, num crescendo, no futuro, até mudar o mundo, nem capitalismo e nem socialismo, mas sempre HUMANISMO, e de resultados para a maioria absoluta e carente da população.

-Ou que você, janota ou boçal, continue o mesmo de sempre, inconseqüente e burro de carga. Ora, deixe de rascunhar o esboço de uma prestativa carta, e quando você menos esperar verá que quem contatou você, de repente teve um derrame ou sofreu um desastre. Não pense mais no parente distante que foi pau pra toda obra, no amigo (que valia ouro) que você perdeu, no funcionário que foi um esteio, no colega que foi ombro amigo, e, vá, vá sim, vá correndo, vá depressa, tomar um avião (carimbe seu passaporte de angústia) - para fugir, para fugir! – para ir se esconder sendo mais um anônimo com sotaque latino de cucaracha nas ruas fétidas de Nova York, mais um bocó solitário e capenga num chalé em Búzios, mais um saranga tomando água de coco com dengue no Rio de Janeiro, mais um turista-vítima a pegar malária numa viagem qualquer no norte ou nordeste, quando o que você procura é tudo uma soma de:

01)-Falta de amor 02)-Falta de família 03)-Falta de amigos 04)-Falta de Deus 05)-Nenhuma das alternativas, mas, tudo, num balanço final, uma falta de opção de você para você voltar a ser o que é, e não ter nunca mais vergonha de se olhar no espelho, olhar-se nos olhos e ter noção real e estimada daquilo que fizeram com você, e do que você fez do que fizeram.

-E o pior de tudo, falta de vergonha na cara para gritar contra todo esse estado de coisas, brios para berrar – o bom cabrito é o que berra, diz o adágio popular – contra o governo hipócrita e injusto, contra a mídia tendenciosa e parcial, contra os violentos, os burros, os insanos, os drogados, os pervertidos, porque, final de contas, alguém tem que discordar de tanta calhordice por atacado, não é mesmo?. Você nem imagina, mas Shakespeere ainda vale hoje em dia, quanto à citação clássica de Hamlet: "Há mais coisas entre o céu e a terra/Do que sonha a nossa vã filosofia..." E depois, nunca diga "Não conheço, portanto é falso". Esse é o famoso Apotema de Narada: -Devemos estudar para conhecer, conhecer para termos a compreensão, e compreendermos para então podermos julgar..."

-Falando sério: o que levamos dessa vida? Quantos anos de vida você tem? De onde viemos, para onde vamos? Você é bom? Para quem? Bom para você mesmo é egoísmo e tempo perdido; você passou em brancas nuvens pela vida, perdeu a viagem, pode ser que tenha tempo para mudar cursos e trajetos, ou pode ser que, finalmente a estupidez tenha vencido e sua solidão seja apenas um jeito camuflado de você estar morto por dentro, só esperando a carranca do último suspiro, o cálice do pré-fim e a última trombeta soar, pois você é responsável pelos que amam você, e, vamos e venhamos, se não houver outra vida, nem um novo céu e uma nova terra, o que você fez desse estojo que hoje carrega coração e mente entrevados em lutas contra moinhos e ventos de erranças e vulgaridades?

-Ainda é tempo de acordar, despertarmos de um pesadelo que parece real, porque não movemos uma palha (com sensibilidade e polidez, saradinhos da alma), para então nos levantarmos de nós, paradoxalmente olhando para nós mesmos, pensando seriamente em buscas, confrontos e mudanças sem molduras, porque, afinal, é essa a razão de existirmos: para adquirirmos técnicas de Vôos. E depois, vamos e venhamos: TUDO NO MUNDO ESTÁ DANDO RESPOSTAS. O que demora é o tempo para você finalmente fazer as suas Perguntas!

 
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Poeta Professor Silas Corrêa Leite – De Itararé-SP – Membro da UBE-União Brasileira de Escritores – Pós-graduado em Educação, Literatura, Relações Raciais e Inteligência Emocional.

Leia a crônica
Globalização da insensibilidade
- In Memoriam a Henry Miller – 1891 –1980
por Julio Paupitz

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