Ano III n.33 maio de 2003

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Uma experiência pedagógica (parte 3)
por Paulo de Abreu Lima
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Parangolé de agua - Hélio Oiticica
Resumo
Nesta terceira parte do relato de experiência pedagógica numa entidade em São Paulo, o psicólogo e voluntário, Paulo de Abreu Lima, destaca as dificuldades  para a implementação de um trabalho com planejamento e comunicação.

5. DIFICULDADES INSTITUCIONAIS

Acho que em qualquer atividade humana – e seria ingênuo pensar o contrário – perde-se mais tempo e recursos na etapa de início de um processo do que em seu processo mesmo. Nas empresas e organizações, todas as atividades, muitas vezes, tornam-se desgastantes, e caras!!, em função de mau planejamento e dificuldades de gestão e participação. Não é raro encontrarmos situações empresariais (inclui-se, especialmente organizações públicas) em que projetos sucumbem devido a falhas e descuidos em sua preparação inicial, gerando problemas futuros não apenas para o negócio diretamente mas refletindo seqüelas para todos os envolvidos. Chamo a atenção deste aspecto pois foram exatamente problemas semelhantes que identifiquei na Instituição e na Unidade N, em particular, dificultando o encaminhamento das ações planejadas.

Conforme planejado iniciei o processo de Capacitação da equipe da Unidade N, tendo em perspectiva que, em 3 ou 4 meses poderia implantar o procedimento das atividades psicopedagógicas. Reconheço que o tempo para a implantação das atividades não poderia ser tão largo, em função de algumas características da equipe (fatores motivacionais, interesse, baixa escolaridade, etc.) e outros problemas ligados à estrutura, como veremos. Por outro lado eu mesmo tinha restrição de tempo pessoal, em função das minhas atividades profissionais. De qualquer modo dei início à capacitação, mas alguns fatores ligados à estrutura e funcionamento da Instituição e da Unidade N, dificultam o fluxo e desenvolvimento do projeto. Acho importante ressaltar estas dificuldades pois são fatores estruturais, de qualquer negócio e organização e que atingem diretamente os resultados esperados, neste caso, as próprias crianças atendidas. Listo em seguida as principais dificuldades que foram se tornando aparentes, no decorrer no trabalho.

1.Ausência de direção estratégica da casa – quero crer que a instituição possui uma visão estratégica para o desenvolvimento do seu trabalho. Aliás tem; tenho que ser justo, pois seu objetivo, inclusive mencionado anteriormente, é abrigar crianças portadoras de HIV. Mas o sentido de plano estratégico a que me refiro é mais operacional e tático, ou seja, a definição de procedimentos e práticas que devem ser planejadas, pensadas e orientadas para uma equipe realizar: procedimentos nutricionais, saúde e pedagógicos. Tais procedimentos devem ser diagnosticados, analisados e estruturados (escritos, cronogramados e comunicados com clareza para a equipe – afinal de contas é ela que realiza) para a execução do atendimento. Por exemplo, a própria ausência de atividades psicopedagógicas orientadas para as crianças é motivo de dificuldades para equilíbrio e motivação da equipe.

2.Ausência de política de atuação de voluntários – este fator não é privilégio desta Instituição e da Unidade N, já que a questão da atuação do Voluntário nas instituições do Terceiro Setor é uma questão de certa complexidade pois exige a existência de uma política e uma forma de gerenciamento e acompanhamento da realização destas atividades por parte das pessoas voluntárias, sejam profissionais ou não. O aspecto que me parece mais importante mencionar sobre este ponto é a interferência da ação do voluntário nas atividades da instituição de maneira muitas vezes negativa, atrapalhando mesmo o trabalho que o profissional está realizando. No caso da Unidade N, especialmente, como já mencionei, os funcionários praticamente não têm formação escolar, são pessoas muito simples, e as pessoas voluntárias – que não são poucas – que freqüentemente estão presentes na Unidade N são pessoas de classe média alta que contribuem e se consideram no direito de interferir na rotina e no modo como as atividades são realizadas. Um exemplo interessante é a voluntária que reclama da verdura que é servida ás crianças pois ela não gosta da mesma, ou a outra voluntária que insiste em realizar uma atividade de pintura com as crianças, quando a educadora-funcionária aponta que as mesmas não estariam disponíveis para isto naquele momento, e o resultado é sala e ambiente todo sujo de tinta para todo lado e crianças pouco satisfeitas. Ou seja, há uma confusão de papéis – o profissional e o voluntário – que devem ser estabelecidos pela instituição, e não pelo voluntário, por mais que ele seja um doador potencial de dinheiro. Algumas instituições assistenciais consagradas estabelecem regras muitas claras em relação ao papel e ao trabalho que o voluntário poderá realizar, definindo, por exemplo, que se ele chegar atrasado uma ou duas vezes, não poderá mais realizar este trabalho.

3.ausência de comunicação de missão e visão da instituição para a equipe – outro aspecto que notei como ausente e que se configura como uma dificuldade para o fluxo das atividades é o fato de não haver uma comunicação clara dos objetivos da instituição (seu papel, visão e missão) para a equipe de funcionários, de forma clara o suficiente, proporcionando que a própria equipe partilhe destes objetivos.

4.Ausência de coordenação técnica da Unidade N – durante os primeiros 6 meses de trabalho a Unidade não possuía formalmente uma pessoa que respondesse como Coordenação Técnica, ou seja, realizando o papel de gerenciar as atividades da Unidade (alimentação, saúde, pedagógico e administrativo). Tal papel, muitas vezes era relegado à presença de pessoas voluntárias que faziam a vez desta função com uma presença não diária.

5.processo inadequado de seleção de profissionais – o processo de seleção dos profissionais (basicamente 3 funções básicas – educador/pajem; cozinheira e limpeza) não atendia um procedimento formalizado e sistemático, ou seja, não havia perfil mínimo para a seleção. Lembro-me de um exemplo que ilustra claramente tal situação. Uma educadora que não sabia ler direito quase trocou um medicamento (anticonvulsivo) de uma criança para outra que não precisava tomar o remédio.

6.condições inadequadas de manutenção dos profissionais – a situação descrita acima já é bastante grave no sentido de que profissionais sem habilidades mínimas para certas funções não poderão executar adequadamente suas tarefas; soma-se a isso as condições de vínculo também relativamente precárias que prejudicam o desempenho da equipe, como baixo salário, título inadequado do cargo, carga horária excessiva, falta de treinamento e orientação básica inicial.

7.alto Turnover – em conseqüência das condições mencionadas, a situação de alto turnover era naturalmente esperada, prejudicando diretamente o trabalho de desenvolvimento da equipe, já que a equipe nunca era a mesma. Houve um período no qual a equipe integralmente foi mudada.

Tais dificuldades não são privilégio desta instituição e desta Unidade. No entanto achei importante chamar atenção destes itens por considerá-los fatores de certa gravidade por caracterizarem-se como aspectos primários na estrutura da instituição. Tal cenário indica-me, claramente, a necessidade de que a realização de um trabalho de desenvolvimento institucional e de equipe, com certeza, deve ser muito bem planejado, muito simples e com muita paciência pedagógica.

continua

Paulo de Abreu Lima   - Partes / maio-2003 (parte 3)

::Os artigos anteriores::
Parte 1: Uma experiência pedagógica, por Paulo de Abreu Lima
   Parte 2: Uma experiência pedagógica, por Paulo de Abreu Lima
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Paulo de Abreu Lima, é psicólogo e está no mercado esperando um bom trabalho.
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