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Apesar da
experiência - e das experiências - de cada um de nós, o intercâmbio de informações e
processos de sensibilização e reflexão sobre o aprendizado é indispensável à
conceituação, planejamento e implementação de técnicas de aprendizagem e avaliação
que considerem todos os aspectos do ensino.
Fruto dessa ansiedade perene participo, sempre que possível, de cursos e fóruns sobre o
assunto. Os mais recentes foram promovidos pelo "Programa de Desenvolvimento dos
Profissionais de Ensino da UNISANTOS", a cargo dos Profs. Drs. Jussara Hoffmann
(UFRGS) e Marcos T. Masetto (USP), nos quais foram abordados conceitos e técnicas de
avaliação, planejamento e diversificação de atividades de ensino. Escolhi estes cursos
- como a maioria dos docentes participantes - porque essa temática é básica a todas as
disciplinas - tão importante quanto o currículo acadêmico do docente e da
disciplina que ministra - e porque se constitui em preocupação pessoal recorrente.
Atuando como docente há cerca de 13 anos, sempre na área de Exatas, já havia vivenciado
todos os problemas discutidos durante os eventos, tais como: descontinuidade na formação
acadêmica e comportamental pregressa dos alunos; falta eventual de infraestrutura física
e de apoio pedagógico; limitações inerentes aos cursos no período noturno, etc; mas,
apesar dessas limitações,
sempre busquei fórmulas alternativas para compensá-las e otimizar atividades
promissoras.
Reconheço, no entanto, que algumas de minhas experiências careciam que ajustes, digamos,
científicos ou de uma visão mais metódica. Durante o curso da Profa. Dra. Jussara,
relatei uma atividade com alunos de curso de Arquitetura e Urbanismo. Lecionando uma
disciplina tradicionalmente considerada "difícil" pela maioria dos alunos da
área: Resistência dos Materiais - por abranger conceitos de Física e Matemática - o
desafio era propor uma atividade que conciliasse teoria com observação analítica e
prática num processo que fosse lúdico e, portanto, agradável, interativo, participativo
e motivador. O objetivo principal era fixar conceitos teóricos sobre o comportamento de
estruturas e materiais pela execução efetiva de um
modelo reduzido (reprodução de uma estrutura em escala, mantendo as características e
comportamentos do sistema estrutural adotado).
A avaliação é feita individualmente e coletivamente durante todo o processo, que dura
cerca de um bimestre. O professor atua como consultor e mediador do
processo e todas as atividades são descritas em relatório - inclusive o registro
analítico de constatações, erros e reformulações - entregue junto com o modelo
reduzido.
A atividade - realizada há seis anos com alunos do terceiro semestre - tem apresentado
bons resultados, é aguardada com expectativa pelo corpo discente e representa um desafio
que os preocupa e instiga não pelas dificuldades
normalmente alegadas, mas pela disposição em realizar a atividade precípua dos
arquitetos: consubstanciar idéias.
Outra atividade, mais recente (2003) e também decorrente da participação no
"Programa de Aperfeiçoamento", representou um substancial desafio: implementar
uma dinâmica de grupo numa classe de primeiro semestre (alunos
completamente leigos sobre o curso, com raras exceções) com mais de 80 alunos.
Esse tipo de atividade é recomendado, em princípio, para grupos bem menores, mas uma
exortação não saía de meu pensamento: desenvolver o processo de auto-aprendizagem.
Para tanto sempre fomos incentivados a buscar interação com os alunos e desenvolver uma
relação de afinidade e cumplicidade acadêmicas.
Adaptando a técnica, dividi a classe em grupos de, no máximo, seis alunos. O processo de
rearranjo físico do ambiente já fazia parte no processo de interação. Foi solicitado
que cada grupo escolhesse um relator para anotar
as conclusões do grupo. Após essa organização inicial cada grupo recebeu uma folha com
uma pergunta específica.
Algumas das questões eram:
- Qual a sua expectativa em relação ao curso?
- Quais as vantagens e desvantagens do aço?
- Quais as vantagens e desvantagens do concreto?
- Qual o melhor tipo de estrutura que existe?
Sem nenhum preparo prévio sobre os temas, foi dado um prazo de 5 minutos para que cada
grupo discutisse e concluísse por escrito. Findo esse prazo, e
sob protesto de alguns grupos que pediram mais tempo - cordialmente negado - as folhas
foram trocadas com outros grupos, sem repetição de tema, e novo período de cinco
minutos foi estabelecido. O processo foi repetido, por
problemas de tempo de aula, seis vezes. Percorri cada grupo, observando e esclarecendo
algumas dúvidas, mas tendo o cuidado de não influenciar na formação de opiniões, pois
o interesse da atividade era aferir o grau de
conhecimento intuitivo sobre a disciplina, suas expectativas, sua capacidade de expressão
sintética formal (por escrito) e, obviamente, sua receptividade à técnica de
aprendizado e ao próprio docente.
Terminada essa etapa, foi solicitado a cada grupo que indicasse um orador para apresentar
as considerações apostas por todos os grupos sobre o tema decorrente do último
rodízio. Depois de cada leitura, foi aberto espaço para
debate do qual participei como mediador, intervindo, aí sim, com questionamentos
instigadores, esclarecimentos e correções.
Foi tão surpreendente a participação efetiva dos presentes quanto a boa qualidade dos
textos e verbalizações, sobretudo pela faixa etária dos alunos. Algumas constatações
demonstram o bom resultado da atividade, a
saber:
- Durante o processo de alternância de temas, os cinco minutos evoluíram de
insuficientes para excessivos, mostrando a evolução da capacidade de síntese dos alunos
em situações de pressão;
- Os debates - principalmente os relativos a perguntas que sugeriam respostas absolutas -
tiveram total liberdade (houve inibição, sim, a qualquer tipo de manifestação
desdenhosa, no caso de dificuldades ou impropriedades na expressão) e resultaram em
conscientização sobre a
relatividade e a necessidade - essa sim, absoluta - de analisar e comparar situações
considerando todas as variáveis que influam no processo; - Os alunos mostraram-se
interessados e participantes o tempo todo. Mesmo os aparentemente mais tímidos procuraram
expor suas opiniões, sem os desconfortos tradicionais. Nesse escopo também estava
incluída uma aluna com deficiência auditiva; - Apesar de jovens e leigos, a maioria das
opiniões dos alunos revelaram interessante conhecimento prévio e capacidade de análise
e síntese.
Ao fim da aula foi discutida a validade da atividade, que foi considerada positiva. Em
minhas considerações finais, aproveitei para fazer algumas aferições e conclusões. As
principais delas foram que: - Sem uma aula convencional, expositiva, e sem material de
consulta eles tinham sido capazes de analisar e formular opiniões em grupo sobre assuntos
desconhecidos a priori; - Que eles eram capazes de se expressar no grupo, em público e
perante o
professor; - Que todo esse potencial latente demonstrado poderia, e deveria, ser
multiplicado pela pesquisa aos múltiplos meios disponíveis.
As atividades posteriores a essa primeira aula têm sido alternadas e discutidas com os
aluno, evitando a monotonia das aulas convencionais e centralizadoras. Uma delas,
inclusive, prevê a apresentação de temas pelos grupos, seguidos de debates, cujo
produto final será uma apostila da qual eles serão co-autores.
Essas experiências e constatações demonstram que implementação de novas técnicas de
ensino e a reformulação de conceitos de avaliação pode ser
extremamente motivadora, efetiva e gratificante.
A principal barreira a ser transposta, paradoxalmente, é resistência de alguns docentes
à reformulação de conceitos. De outra parte, existem os "vícios" do corpo
discente, normalmente habituado a uma conduta passiva,
paternalista e pasteurizada desde o ensino fundamental até o ensino médio.
É muito cômodo sistematizar um plano de ensino hermético e consolidado por anos de
repetição onde todos os espaços da aula são preenchidos por exposições do docente,
com cronologia rígida e imutável, não deixando margem
para a participação e cumplicidade do corpo discente. Nos extremos opostos, a busca por
excessiva intimidade - em muitos casos alienante -, a imposição de barreiras e
"pedestais" - inibindo o espírito crítico e a descoberta de
inteligências, além de, em seu aspecto mais deletério, doutrinar ideologicamente - ou a
utilização indevida de importantes recursos, tais como os seminários; nada contribui
para o aprimoramento do processo de
aprendizado-ensino.
Se a principal meta é romper com a mediocridade há que se dinamizar o processo, mas isso
não implica em adesão inconseqüente à "modismos" nem na ruptura absoluta com
modelos convencionais. A simbiose é o melhor caminho; a
flexibilização crítica dos planos de ensino é a estratégia; a postura mediadora do
docente é a prática; e a busca da autonomia intelectual do aluno a principal meta. |