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Baseando-se
em pesquisa estatística (3) realizada no ano de 1997, antes dos psicólogos
recém-contratados como professores pelo Estado, atuarem diretamente em um estabelecimento
de ensino, obteve-se dados indicativos do desconhecimento do papel do psicólogo escolar,
confundido com o papel do psicólogo clínico. Atualmente os psicólogos estão inseridos
em estabelecimentos de ensino estaduais, após terem apresentado em cada escola a
diferença entre os papéis do psicólogo clínico e escolar. No entanto, na prática
profissional ainda verifica-se as mesmas distorções. Pretende-se explicar então, a
visão adequada do papel do psicólogo escolar contrapondo-a com a visão existente entre
os profissionais da educação.
CARACTERÍSTICAS DO PAPEL DO
PSICÓLOGO ESCOLAR
Quando se fala em psicólogo, deve-se
observar as áreas de atuação deste para então obter-se um perfil das atribuições
definidas das mesmas. Ao cargo de psicólogo escolar o perfil caracteriza atuações como:
1 Agente de mudanças: o
psicólogo educacional pode buscar a mobilização da comunidade escolar com a finalidade
de pensar juntos sua realidade, suas reais funções, organização, funcionamento e
relações mantidas com outras instituições e estrutura social, bem como questionar as
relações e comunicações interpessoais estabelecidas no meio escolar, começando com a
organização de equipes multiprofissionais realmente atuantes. Este papel está de acordo
com as idéias propostas por Andaló (1991:46) ao afirmar que:
Em nosso trabalho como psicólogos escolares, nessa perspectiva agente de mudanças,
temo-nos voltado basicamente para (...) uma reflexão crítica sobre a instituição,
incluindo o processo ensino-aprendizagem, a relação professor-aluno, as mudanças
sociais que estão ocorrendo...
2 Participar da elaboração de currículos e programas educacionais: esta
característica foi baseada no Plano de Carreira, Cargos e Salários (P.C.C.S.) (4) e
constata-se que a atuação do psicólogo seria a de questionar juntamente com a equipe
técnica pedagógica os fatores culturais, sociais e econômicos de sua comunidade
escolar, visando a qualidade de ensino, tanto em relação a satisfação dos
profissionais da educação quanto do rendimento e satisfação do aluno, podendo reduzir
repetência e evasão escolares, pela motivação adequada e fundamentada em preceitos
técnicos científicos bem como sócio-psíquico-pedagógicos reais.
3 Supervisionar e acompanhar a
execução de programas de reeducação psicopedagógicas: as dificuldades de
aprendizagem observadas nos alunos do primeiro ano e as retenções nas séries iniciais
do ensino fundamental, pressupõem comprometimentos a serem diagnosticados pelos técnicos
da educação, de acordo com suas competências. Ao psicólogo escolar cabe a elucidação
das causas, dinâmica e conseqüência psicológica de tais processos, de cunho emocional
ou maturacional. Havendo compreensão dos níveis de dificuldade dos alunos em questão,
estruturam-se programas de reeducação com a equipe técnica pedagógica onde novamente o
psicólogo escolar mediante técnicas e procedimentos próprios da profissão, auxilia os
professores no trabalho direto com o aluno e acompanhamento dos mesmos conforme
atribuição fundamentada no P.C.C.S.(5)
A formação do psicólogo habilita-o a
atuar nas áreas clínica, organizacional e escolar, distintas nas atribuições de
atuação mas fundamentadas no núcleo comum de conhecimentos que dá subsídios
teórico-metodológicos, técnicas e instrumentos capazes de compreender e auxiliar na
adequação o comportamento humano de acordo com parâmetros científicos e sociais. A
ação do psicólogo educacional tem em especial a visão do desenvolvimento estrutural do
ser humano, compreendendo a influência de variáveis internas e externas que determinam a
maturação neuro-psicológica, podendo orientar o processo educativo.
VISÃO OS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO
As atribuições do psicólogo escolar
embora bem definidas trazem um componente histórico-social do repertório de ações
clínicas onde, na praxe popular, entende-se que são ações de onipotência e soluções
mágicas(6). Este posicionamento popular repete-se na formação de outros profissionais da
educação a medida que não há desmistificação destes conceitos, pois a postura
curricular daqueles é de simples fornecimento de conhecimentos da ciência Psicologia e
não como prática de integração das ações profissionais na escola. Desta forma, as
relações profissionais são estruturadas mediante expectativas pré-acadêmicas,
auferindo aos psicólogos escolares as seguintes atribuições:
1 Diagnosticar e acompanhar
clinicamente profissionais e alunos problemas: deseja-se que a cada impasse
comportamental de alunos ou profissionais da escola o psicólogo seja chamado para
analisar, diagnosticar e dar solução voltada a adaptação e ao ajustamento do
indivíduo problema à dinâmica de relações existentes naquele meio
inquestionável e imutável, visando a não reincidência do comportamento.
2 Dar soluções imediatas aos
problemas comportamentais: as expectativas dos profissionais da educação de soluções
mágicas por parte do psicólogo, onde o simples fato dele olhar para o indivíduo
capacita-lo-ia a desvendar segredos (adivinhação), são tão explícitos que as
verbalizações utilizadas são cotidianas e despojadas de qualquer crítica ou
auto-censura, denotando absoluta certeza e alto grau de conhecimento do papel do
psicólogo. As atitudes na entrega do problema, geralmente acompanhadas pela frase veja
o que você faz com ele pois eu já não o agüento mais em sala, pressupõem ser
desnecessário o fornecimento de informações e formulação da queixa, reforçando a
crença de que o psicólogo pode e deve descobrir tudo.
3 Resistência às soluções
propostas pelo psicólogo escolar: no ambiente escolar em que a estrutura das
relações já está definida, onde os profissionais já adaptaram seus procedimentos às
condições existentes, às concessões mútuas, à antigüidade de posto, utilizando a
posse do diploma e a intransigência como argumentos de verdades absolutas e
inquestionáveis, o psicólogo como elemento novo neste ambiente sofre resistência quando
propõe questionar a situação vigente. Esta resistência denota inflexibilidade e
insegurança, características de indivíduos inseridos em ambientes aparentemente
imutáveis.
A não satisfação de tais expectativas
gera frustração e rejeição ao psicólogo, podendo este ser entendido como incompetente
e desnecessário ao meio escolar. Cabe-lhe esforço e habilidade na negociação para
conquista do espaço e criação de clima de mútua confiança a fim de que, como agente
de mudança, possa provocá-las neste meio resistente e ávido por psicoterapias, ajuda
a desajustados sociais, portadores de distúrbios emocionais e de conduta e deficientes de
ordem motora, os quais não raros são trazidos com o diagnóstico já discutido e
elaborado pelos servidores.
ANÁLISE DO PAPEL DO PSICÓLOGO
ESCOLAR MEDIANTE A VISÃO DOS OUTROS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO
De acordo com a característica 1, o
psicólogo escolar como agente de mudança avalia entraves interativos, da comunidade
escolar, político-pedagógicos, das equipes multiprofissionais e das funções e
proposições da instituição educacional, questionando procedimentos e oferecendo
propostas de mudanças que visam melhorar as relações no processo ensino-aprendizagem.
Em contraposição a estas propostas, os profissionais da educação resistem as
mudanças, conforme a visão 3 (resistências às soluções propostas pelo psicólogo
escolar), as quais são fatores como a insegurança relativa a estima e espaço ameaçados
e comodidade, já que a antigüidade lhe garante a utilização de programas e planos sem
esforço de periodicamente estar trabalhando em suas adaptações.
Observando a característica 2
(participar da elaboração de currículos e programas educacionais) a efetiva
participação do psicólogo na elaboração e implantação de currículos educacionais
nas escolas torna-o hábil pela sua formação que lhe dá conhecimento dos processos
humanos de maturação neuro-psicológica, da inteligência, habilidades psicomotoras,
relações afetivas e sociais e mecanismos adaptativos, os quais são elementos presentes
na atividade escolar. Assim sendo, a visão 2 (dar soluções imediatas aos problemas
comportamentais) contrapões-se a característica acima pois muitos profissionais da
educação não vêem qualificação suficiente no psicólogo para sugerir reformulações
nos conteúdos e programas, esquecendo-se que os questionamentos surgirão embasados não
propriamente sobre as disciplinas do currículo com seus conteúdos e carga horária, mas
sobre a viabilidade destas decisões em relação ao momento de desenvolvimento e
maturação do indivíduo que vai apropriar-se das mesmas. Desta forma, os alunos e
professores, estando adequadamente estimulados e preparados para operacionalizar os
conteúdos estipulados pelos programas tenderão sofrer menores conflitos interpessoais
que exijam ação paliativa do psicólogo, uma vez que sua atuação foi preventiva.
Conforme característica 3 (Supervisionar
e acompanhar a execução de programas de reeducação psicopedagógicas) cabe ao
psicólogo escolar reconhecer e avaliar alunos com dificuldade diante das exigências
educacionais, utilizando-se de conhecimentos clínicos aplicados diferentemente, conforme
a especialidade. Após o parecer completo do aluno, em se verificando comprometimento
orgânico ou emocional, encaminha-se a especialidades necessárias e, uma vez observadas
necessidades psicopedagógicas, em parceria com os demais profissionais da educação,
organiza-se programas que visam o desenvolvimento específico de cada dificuldade
detectada. Incompreendida a divisão por especialidade, por parte dos profissionais da
educação os procedimentos do psicólogo em acompanhar grupos não são plenamente
aceitos de acordo com a visão 1 (diagnosticar e acompanhar clinicamente profissionais e
alunos problemas), visto que a concepção do psicólogo é clínica
independentemente de sua área de atuação.
Quando se fala em papel de um
profissional deve-se questionar e observar aspectos referentes ao tipo de formação
durante a graduação. Na profissão de psicólogo por volta de 10 anos atrás, a área
mais valorizada pelas próprias faculdades e universidades era a clínica, seguida da
industrial e escolar. Esta realidade leva o psicólogo muitas vezes introduzir
procedimentos clínicos na escola. Andaló (1991:43) confirma e questiona a formação do
psicólogo quando diz que : "A Psicologia Escolar vem sendo considerada até agora
como uma área secundária da Psicologia, vista como relativamente simples, não
requerendo muito preparo, nem experiência profissional".
Dentro da escola a Psicologia Escolar
não tem seu devido valor pelo desconhecimento, pouco tempo de implantação construída
similaridade com a Orientação Educacional e valorização social das
atividades clínicas. Na situação escolar com presença de psicólogo os problemas
comportamentais geram tamanha ansiedade que a ação imediata torna-se procedimento
imperativo, exigindo-se resultados instantâneos, ficando o "psicólogo investido de
um caráter onipotente, de soluções mágicas e prontas para as soluções
enfrentadas" (Andaló, 1991:43). Em contrapartida, é um elemento a que se atribui
características e habilidades de observação, análise julgamento de colegas de outras
especialidades, o que desenvolve resistências às relações porque os indivíduos ficam
receosos de serem invadidos em suas particularidades psíquicas. © copyright revista partes 2000-2003
Editor: Gilberto da Silva (mtb 16.278)
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