Ano III n.33 maio de 2003

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::Em Questão::

O PAPEL DO PSICÓLOGO ESCOLAR: A VISÃO DESTE PELOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO DAS ESCOLAS ESTADUAIS DE PIMENTA BUENO –RO1
por Alessandra Bertasi Nascimento et alli (2)


Resumo
Este artigo tem por objetivo apresentar as características do papel do psicólogo escolar e a visão dos outros profissionais da educação em relação ao mesmo. Utilizando-se da pesquisa bibliográfica, documental e empírica, chegou-se à conclusão de que a visão distorcida do papel do psicólogo escolar dificulta sua atuação e a interação com os demais profissionais.
Palavras-chave: psicólogo escolar; outros profissionais; interação.
 


Baseando-se em pesquisa estatística (3) realizada no ano de 1997, antes dos psicólogos recém-contratados como professores pelo Estado, atuarem diretamente em um estabelecimento de ensino, obteve-se dados indicativos do desconhecimento do papel do psicólogo escolar, confundido com o papel do psicólogo clínico. Atualmente os psicólogos estão inseridos em estabelecimentos de ensino estaduais, após terem apresentado em cada escola a diferença entre os papéis do psicólogo clínico e escolar. No entanto, na prática profissional ainda verifica-se as mesmas distorções. Pretende-se explicar então, a visão adequada do papel do psicólogo escolar contrapondo-a com a visão existente entre os profissionais da educação.

CARACTERÍSTICAS DO PAPEL DO PSICÓLOGO ESCOLAR

Quando se fala em psicólogo, deve-se observar as áreas de atuação deste para então obter-se um perfil das atribuições definidas das mesmas. Ao cargo de psicólogo escolar o perfil caracteriza atuações como:

1 – Agente de mudanças: o psicólogo educacional pode buscar a mobilização da comunidade escolar com a finalidade de pensar juntos sua realidade, suas reais funções, organização, funcionamento e relações mantidas com outras instituições e estrutura social, bem como questionar as relações e comunicações interpessoais estabelecidas no meio escolar, começando com a organização de equipes multiprofissionais realmente atuantes. Este papel está de acordo com as idéias propostas por Andaló (1991:46) ao afirmar que:

Em nosso trabalho como psicólogos escolares, nessa perspectiva agente de mudanças, temo-nos voltado basicamente para (...) uma reflexão crítica sobre a instituição, incluindo o processo ensino-aprendizagem, a relação professor-aluno, as mudanças sociais que estão ocorrendo...

2 – Participar da elaboração de currículos e programas educacionais:
esta característica foi baseada no Plano de Carreira, Cargos e Salários (P.C.C.S.) (4) e constata-se que a atuação do psicólogo seria a de questionar juntamente com a equipe técnica pedagógica os fatores culturais, sociais e econômicos de sua comunidade escolar, visando a qualidade de ensino, tanto em relação a satisfação dos profissionais da educação quanto do rendimento e satisfação do aluno, podendo reduzir repetência e evasão escolares, pela motivação adequada e fundamentada em preceitos técnicos científicos bem como sócio-psíquico-pedagógicos reais.

3 – Supervisionar e acompanhar a execução de programas de reeducação psicopedagógicas: as dificuldades de aprendizagem observadas nos alunos do primeiro ano e as retenções nas séries iniciais do ensino fundamental, pressupõem comprometimentos a serem diagnosticados pelos técnicos da educação, de acordo com suas competências. Ao psicólogo escolar cabe a elucidação das causas, dinâmica e conseqüência psicológica de tais processos, de cunho emocional ou maturacional. Havendo compreensão dos níveis de dificuldade dos alunos em questão, estruturam-se programas de reeducação com a equipe técnica pedagógica onde novamente o psicólogo escolar mediante técnicas e procedimentos próprios da profissão, auxilia os professores no trabalho direto com o aluno e acompanhamento dos mesmos conforme atribuição fundamentada no P.C.C.S.(5)

A formação do psicólogo habilita-o a atuar nas áreas clínica, organizacional e escolar, distintas nas atribuições de atuação mas fundamentadas no núcleo comum de conhecimentos que dá subsídios teórico-metodológicos, técnicas e instrumentos capazes de compreender e auxiliar na adequação o comportamento humano de acordo com parâmetros científicos e sociais. A ação do psicólogo educacional tem em especial a visão do desenvolvimento estrutural do ser humano, compreendendo a influência de variáveis internas e externas que determinam a maturação neuro-psicológica, podendo orientar o processo educativo.

VISÃO OS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO

As atribuições do psicólogo escolar embora bem definidas trazem um componente histórico-social do repertório de ações clínicas onde, na praxe popular, entende-se que são ações de onipotência e soluções mágicas(6). Este posicionamento popular repete-se na formação de outros profissionais da educação a medida que não há desmistificação destes conceitos, pois a postura curricular daqueles é de simples fornecimento de conhecimentos da ciência Psicologia e não como prática de integração das ações profissionais na escola. Desta forma, as relações profissionais são estruturadas mediante expectativas pré-acadêmicas, auferindo aos psicólogos escolares as seguintes atribuições:

1 – Diagnosticar e acompanhar clinicamente profissionais e alunos problemas: deseja-se que a cada impasse comportamental de alunos ou profissionais da escola o psicólogo seja chamado para analisar, diagnosticar e dar solução voltada a adaptação e ao ajustamento do indivíduo problema à dinâmica de relações existentes naquele meio inquestionável e imutável, visando a não reincidência do comportamento.

2 – Dar soluções imediatas aos problemas comportamentais: as expectativas dos profissionais da educação de soluções mágicas por parte do psicólogo, onde o simples fato dele olhar para o indivíduo capacita-lo-ia a desvendar segredos (adivinhação), são tão explícitos que as verbalizações utilizadas são cotidianas e despojadas de qualquer crítica ou auto-censura, denotando absoluta certeza e alto grau de conhecimento do papel do psicólogo. As atitudes na entrega do problema, geralmente acompanhadas pela frase veja o que você faz com ele pois eu já não o agüento mais em sala, pressupõem ser desnecessário o fornecimento de informações e formulação da queixa, reforçando a crença de que o psicólogo pode e deve descobrir tudo.

3 – Resistência às soluções propostas pelo psicólogo escolar: no ambiente escolar em que a estrutura das relações já está definida, onde os profissionais já adaptaram seus procedimentos às condições existentes, às concessões mútuas, à antigüidade de posto, utilizando a posse do diploma e a intransigência como argumentos de verdades absolutas e inquestionáveis, o psicólogo como elemento novo neste ambiente sofre resistência quando propõe questionar a situação vigente. Esta resistência denota inflexibilidade e insegurança, características de indivíduos inseridos em ambientes aparentemente imutáveis.

A não satisfação de tais expectativas gera frustração e rejeição ao psicólogo, podendo este ser entendido como incompetente e desnecessário ao meio escolar. Cabe-lhe esforço e habilidade na negociação para conquista do espaço e criação de clima de mútua confiança a fim de que, como agente de mudança, possa provocá-las neste meio resistente e ávido por psicoterapias, ajuda a desajustados sociais, portadores de distúrbios emocionais e de conduta e deficientes de ordem motora, os quais não raros são trazidos com o diagnóstico já discutido e elaborado pelos servidores.

ANÁLISE DO PAPEL DO PSICÓLOGO ESCOLAR MEDIANTE A VISÃO DOS OUTROS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO

De acordo com a característica 1, o psicólogo escolar como agente de mudança avalia entraves interativos, da comunidade escolar, político-pedagógicos, das equipes multiprofissionais e das funções e proposições da instituição educacional, questionando procedimentos e oferecendo propostas de mudanças que visam melhorar as relações no processo ensino-aprendizagem. Em contraposição a estas propostas, os profissionais da educação resistem as mudanças, conforme a visão 3 (resistências às soluções propostas pelo psicólogo escolar), as quais são fatores como a insegurança relativa a estima e espaço ameaçados e comodidade, já que a antigüidade lhe garante a utilização de programas e planos sem esforço de periodicamente estar trabalhando em suas adaptações.

Observando a característica 2 (participar da elaboração de currículos e programas educacionais) a efetiva participação do psicólogo na elaboração e implantação de currículos educacionais nas escolas torna-o hábil pela sua formação que lhe dá conhecimento dos processos humanos de maturação neuro-psicológica, da inteligência, habilidades psicomotoras, relações afetivas e sociais e mecanismos adaptativos, os quais são elementos presentes na atividade escolar. Assim sendo, a visão 2 (dar soluções imediatas aos problemas comportamentais) contrapões-se a característica acima pois muitos profissionais da educação não vêem qualificação suficiente no psicólogo para sugerir reformulações nos conteúdos e programas, esquecendo-se que os questionamentos surgirão embasados não propriamente sobre as disciplinas do currículo com seus conteúdos e carga horária, mas sobre a viabilidade destas decisões em relação ao momento de desenvolvimento e maturação do indivíduo que vai apropriar-se das mesmas. Desta forma, os alunos e professores, estando adequadamente estimulados e preparados para operacionalizar os conteúdos estipulados pelos programas tenderão sofrer menores conflitos interpessoais que exijam ação paliativa do psicólogo, uma vez que sua atuação foi preventiva.

Conforme característica 3 (Supervisionar e acompanhar a execução de programas de reeducação psicopedagógicas) cabe ao psicólogo escolar reconhecer e avaliar alunos com dificuldade diante das exigências educacionais, utilizando-se de conhecimentos clínicos aplicados diferentemente, conforme a especialidade. Após o parecer completo do aluno, em se verificando comprometimento orgânico ou emocional, encaminha-se a especialidades necessárias e, uma vez observadas necessidades psicopedagógicas, em parceria com os demais profissionais da educação, organiza-se programas que visam o desenvolvimento específico de cada dificuldade detectada. Incompreendida a divisão por especialidade, por parte dos profissionais da educação os procedimentos do psicólogo em acompanhar grupos não são plenamente aceitos de acordo com a visão 1 (diagnosticar e acompanhar clinicamente profissionais e alunos problemas), visto que a concepção do psicólogo é clínica independentemente de sua área de atuação.

Quando se fala em papel de um profissional deve-se questionar e observar aspectos referentes ao tipo de formação durante a graduação. Na profissão de psicólogo por volta de 10 anos atrás, a área mais valorizada pelas próprias faculdades e universidades era a clínica, seguida da industrial e escolar. Esta realidade leva o psicólogo muitas vezes introduzir procedimentos clínicos na escola. Andaló (1991:43) confirma e questiona a formação do psicólogo quando diz que : "A Psicologia Escolar vem sendo considerada até agora como uma área secundária da Psicologia, vista como relativamente simples, não requerendo muito preparo, nem experiência profissional".

Dentro da escola a Psicologia Escolar não tem seu devido valor pelo desconhecimento, pouco tempo de implantação – construída similaridade com a Orientação Educacional – e valorização social das atividades clínicas. Na situação escolar com presença de psicólogo os problemas comportamentais geram tamanha ansiedade que a ação imediata torna-se procedimento imperativo, exigindo-se resultados instantâneos, ficando o "psicólogo investido de um caráter onipotente, de soluções mágicas e prontas para as soluções enfrentadas" (Andaló, 1991:43). Em contrapartida, é um elemento a que se atribui características e habilidades de observação, análise julgamento de colegas de outras especialidades, o que desenvolve resistências às relações porque os indivíduos ficam receosos de serem invadidos em suas particularidades psíquicas.

 

 

© copyright revista partes 2000-2003
Editor: Gilberto da Silva (mtb 16.278)
São Paulo - Brasil

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Notas:
1.Artigo originalmente publicado em Revista Ad Literram, Pimenta Bueno/RO, nº 1, Ano I, p. 110 – 118. ago./dez. ISSN1677-4620.

2. Alessandra B. Nascimento, professora da Faculdade de Pimenta Bueno no curso de Administração e Pedagogia, é graduada em Psicologia e pós-graduada em Psicologia Junguiana e Psicopedagogia.

3. A pesquisa estatística foi a primeira fase de um projeto de diagnóstico, reestruturação e reimplantação do serviço das Equipes Técnicas, Administrativas e Pedagógicas das unidades escolares pertencentes a circunscrição do Núcleo Operacional de Ensino de Pimenta Bueno – RO. No entanto, o mesmo não teve continuidade devido lotação dos profissionais em unidades escolares.

4. Diário Oficial do Estado de Rondônia, 1992, p. 42.

5. Ibid, p. 42.

6.Carmem Silvia de Arruda Andaló. O papel do psicólogo escolar. (1991), 43
.
 

 

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