Ano III n.33 maio de 2003

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::Crônicas::

Pescaria na Periferia -alegria matinal-
por
Julio Paupitz

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Resumo
"Aos domingos, os primeiros raios de sol e a esperança de um belo dia na beira do rio contagiavam-me o coração com uma enorme alegria, adeus ansiedades metafisicas, adeus contrição silenciosa. E assim permanecia até o próximo fim de semana. Escassamente sabia então, que estava realizando uma forma de oração."


Como católico de formação e devoto da santa pescaria dominical sofri meu primeiro sentimento de culpa, ainda em tenra idade, lá pelos idos dos 50s. Realmente sofria durante toda semana só em pensar na opção que estaria obrigado a fazer no domingo. Escolha entre o serviço dominical da minha paróquia e a pescaria nos córregos e lagoas não muito longe da minha casa. Acho que na maior parte das vezes optei pelos dias ensolarados e as possibilidades de retornar a casa com a fieira prateada de lambaris, piaus e as traíras de sempre.

Aos domingos, os primeiros raios de sol e a esperança de um belo dia na beira do rio contagiavam-me o coração com uma enorme alegria, adeus ansiedades metafisicas, adeus contrição silenciosa. E assim permanecia até o próximo fim de semana. Escassamente sabia então, que estava realizando uma forma de oração.

Com o passar dos anos, entendi a importância deste encontro silencioso e metódico com a natureza. Nessa liturgia era essencial procurar as iscas, preparar a "tralha" ainda na véspera e pedalar até o pesqueiro enfrentando o quase-frio matutino depois dos inevitáveis goles de café. Recorrer as curvas do rio, escolher os poços junto às coivaras e cuidadosamente acomodar-se em segurança, longe da eventual jararaca que naquele exato momento busca fugir da intensidade dos primeiros raios de sol. 0s passos seguintes incluíam encontrar o anzol preciso, decidir pela isca mais apropriada e esperar ansiosamente pela primeira beliscada do dia.

Adotei a chamada pesca pirangueira mais como um hábito que atividade esportiva, portanto menos planificada, casual e pouco pretensiosa. 0 de pouco pretensiosa pode ser verdade, pois este tipo de pesca não demanda o sem número de "gadgets" que tentam transformar este lazer quase numa missão espacial alheia ao quotidiano humano. São poucos os meios requeridos para praticá-la, talvez por ai se justifique sua denominação. Pois a palavra vem do Tupy-Guarany piranga, que segundo o Aurélio tem vários significados, como vermelho, caloteiro, relaxado, mas também quer dizer apaixonado pela pesca com anzol.

Varas de bambu, linhas de nylon, anzóis, as chumbadas correspondentes e a isca. É tudo mais o menos o que necessitamos, contudo, faltam os detalhes do material e sobretudo do "software" cultivado de geração em geração e necessário para ter êxito no empreendimento. Como selecionar o material para as varas de pescar, como analisar a sensibilidade da suas extremidades, as condições de agarre. As dimensões das linhas, comprimento e resistências. Relações entre o peso das chumbadas e tamanho dos anzóis, etc. Para que falar dos nós, complicados e domínio de uns poucos mestres.

São centenas de especificações dos materials necessários, e também a coordenação de informação diversa acumulada e ordenada para a utilização num preciso momento. Assim, não dá para considerar a pesca "pirangueira" como um lazer subdesenvolvido, desprovido de inteligência e beleza. E quase como um machado Carajá, tão bem descrito por Levy-Strauss em Trópicos Tristes, humilde instrumento de pedra, que no entanto, resume uma evolução meticulosa e assídua ao longo de milhares de anos, encerrando segredos na sua preparação comparáveis aos processos modernos de engenharia.

Outras maestrias eram requeridas no metier além da clássica antecipação que o dia não está "pra peixe", além da direção dos ventos, do movimento das águas, das fases da lua e dos segredos da preparação das iscas. Quem teria então, a melhor receita para a isca de curimbatá? Verdade sim! Curimbatá fisgado no anzol, como se praticava há anos nos rios que cruzavam as áreas da bacia do Tietê atualmente inundadas, próximas de Araçatuba no Estado de São Paulo.

Verdadeiros artistas eram os pirangueiros que se dedicavam aos tambius, lambaris grandes de forma ovalada, abundantes nos afluentes do Tietê de então. Linha 20, anzol mosquito, chumbadinha que muitas vezes não se considerava necessária. A habilidade requerida era determinar o momento preciso da fisgada, percebido através do movimento da linha cortando a superficie d'água. Junto aos lambaris vinham os grandes lutadores das águas límpidas daquelas épocas, piaus, as piaiuvas, os ferreirinhas vestidos corn a camisa do Flamengo e os campineiros de cheiro característico. Esta era a pesca de classe, não se misturavarn iscas. Onde se pescava corn milho verde, milho cozido, massinha e mesmo com gafanhotos ou ovos de marimbondo, não se admitia pesca com minhoca por precaução contra as piranhas. Na medida que moviámos dos córregos aos cursos d'água de maior volume surgiam outras espécies de peixes

Pescava-se a piapara, o pacu e conforme a estação do ano, o dourado e a colorida piracanjuba; que vivem hoje, somente na recordação. Paralelamente, convivia-se corn a pesca sem estilo. Apelava-se as traíras ou lobós. Espécie absolutamente não participante das nossas aventuras. Agressivos e com dentes afiados, os lobós como eram vulgarmente denominados habitavam as águas paradas e respondiam vorazmente a qualquer sacudida d'água, a sua pesca denegria a fama dos pirangueiros. A técnica consistia em deixar uma vara ou mesmo estaca de espera com um lambari atravessado a um grande anzol encastoado. O retorno era seguro, sem luta e sem graça. Menos interessante se considerava também a pesca dos peixes de couro de pequeno porte como bagres e mandis-chorão que abundavam com o escurecimento das águas logo depois das chuvas.

Hoje são águas passadas. As cidades se encheram, incharam e expulsaram seus excedentes. 0s resquícios arborizados foram apagados da paisagem, com a matinha, o capão de mato, apesar da resistências e das promessas dos políticos. Foram-se com as árvores as últimas cutias e o último serelepe acompanhado de uma juriti. A várzea transformou-se numa periferia feia e triste, com seus córregos canalizados e suas lagoas drenadas, nem o campinho da pelada se salvou, agora é anualmente inundável. As poucas águas não poluídas ficaram fora do alcance das jornadas em bicicleta da meninada, tanto pelas distâncias como pela violência generalizada, não mais restrita às cidades.

A quem devemos culpar por tudo isso? Às nossas tradições latinas arboricidas, à nossa pobreza, ao FMI e Banco Mundial, o prefeito? Será suficiente ajudar os que tomam decisões com estudos aprofundados de custo-benefício, para demonstrar a importância do contato com a natureza na formação das pessoas? Quem sabe outras gerações serão beneficiadas por atitudes diferentes. Quem sabe também, estamos redondamente equivocados. Não temos maior capacidade de entendimento das transformações que presenciamos. Na realidade, talvez seja o templo de cimento e ferro nossa única alternativa de oração. Senão, qual é a alternativa?

Julio Paupitz25.09.01. Maputo

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Julio Paupitz é Engenheiro Florestal e reside em Maputo - Moçambique

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