Ano III n.34 junho de 2003

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Uma experiência pedagógica (parte 4-final)
por Paulo de Abreu Lima
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Resumo:

O depois é sempre hoje mesmo. A noção de família e a necessidade de sustento, guarda e educação, ou seja, alimento, teto e afeto é algo urgente que não se pensa, apenas se sente, especialmente por crianças. Minha expectativa é continuar, da forma mais humilde e simples possível – e ás vezes isto é difícil – ajudando a ajudar.
  1. PROCESSO DA CAPACITAÇÃO

Como mencionado anteriormente, após a montagem de um Plano de Atividades Psicopedagógicas, o processo de capacitação dos educadores, torna-se fundamental, na medida em que são eles que convivem com as crianças abrigadas, senão a maior parte do tempo, mas um tempo suficientemente afetivo e carinhoso no qual a criança se vincula e sua ação neste vínculo é extraordinariamente importante no sentido de promover e proporcionar oportunidade de desenvolvimento.

É bom relembrar que quando falamos de desenvolvimento infantil, falamos de cognição, motricidade e relacionamento interpessoal. Entendo estes três itens como aspectos fundamentais do desenvolvimento humano e, no caso de crianças, estes aspectos são essências na medida em que, se forem bem estruturados, facilitarão um desenvolvimento e uma vida saudável para a criança que se torna adulta.

Quando pensei em capacitar os educadores considerei alguns aspectos: são pessoas simples, com pouco escolaridade, e uma consciência não muito clara, talvez, da importância e seriedade do trabalho a ser realizado. Assim tinha como desafio dois pontos: um técnico, ou seja, habilitar os educadores a realizar atividades pedagógicas, ou seja, organizar e estruturar no tempo e espaço tais atividades de modo a tornar idéias em ações; um filosófico, isto é, sensibilizar os educadores do seu papel de educador, contribuindo para o desenvolvimento daquelas crianças, com um detalhe, pois não são quaisquer crianças; são crianças com uma história diferente. São crianças portadoras de HIV (soropositivas ou negativadas), circunstância que já indica situações diferenciadas vividas em suas histórias; histórias de violência, uso de drogas, miséria, etc. Sendo assim, o trabalho de capacitação foi estruturado a partir das seguintes questões:

  • "quem" são estas crianças?

  • de onde vieram?

  • pelo que passaram?

  • quais são suas necessidades? são as mesmas de crianças de famílias "normais", não excluídas?

  • como poderíamos ajudá-las a desenvolver-se adequadamente?

  • qual o papel da instituição neste momento da vida destas crianças abrigadas? é o mesmo papel de uma família comum para sustentar, guardar e educar?

  • como fazer isso?

Com base nestas questões três temas eram fundamentais que fossem desenvolvidos: Origem, Dependência, Responsabilidade.

 

Origem – trabalhei este tema abordando os seguintes sub-temas (HIV, violência, drogas, abandono, preconceito e miséria). Os temas foram abordados e explorados em reuniões utilizando-se textos informativos e casos para ilustrar e provocar discussões. Por exemplo sobre abandono e preconceito utilizei a estória do Patinho Feio como recursos para desenvolver a discussão. Esta estória apresenta elementos muito claros de condições sociais, humilhação, solidão, exclusão, enfim, uma série de fatores psicológicos desencadeados pelo abandono e preconceito que pode interferir significativamente no desenvolvimento psicológico das pessoas – que dirá das crianças.

 

Dependência – tenho trabalhado estema procurando refletir a idéia de as crianças têm necessidades e estas crianças, especialmente, têm necessidades diferenciadas, pois têm uma origem diferenciada (sofreram violência, abandono, têm pais incapazes de serem seus pais, etc.). Ou seja, as necessidades básicas de desenvolvimento (cognitivo, motor e sócio-afetivo) são as mesmas de todo mundo, mas para estas crianças é um pouco diferente. Muitas vezes digo que o papel do atendimento não é nem resgatar cidadania, mas fornecer pela primeira, pois estas crianças não perderam sua cidadania porque nunca tiveram. Gosto muito de histórias; recursos que utilizo bastante no trabalho pedagógico. Uma história que utilizei, sobre este tema, é a História da Folha (Leo Buscaglia). Uma história muito bonita que fala de igualdade, sabedoria, propósito, necessidade e dificuldades, diferenças individuais, fazer parte, vida e morte; ou seja, muitos temas relacionados à necessidade e dependência, que com certeza devem ser canalizados para a perspectiva da autonomia, quando pensamos em promover o desenvolvimento de alguém. Respeitar a dependência de alguém é proporcionar – de alguma forma, seja pedagógica ou terapeuticamente - e a psicoterapia é um processo pedagógico assim como a pedagogia é um processo de crescimento - condições favoráveis para a busca de seu desenvolvimento, do desenvolvimento de sua autonomia. E acho que a História da Folha mostra o sentido e a importância desta busca isso de uma forma muito poética e bonita.

 

Responsabilidade – esta questão tem sido trabalhada no sentido de promover maturidade nos educadores, seus papéis, seus exemplos e seus cuidados em suas ações. Por outro lado um aspecto importante é a co-responsabilidade que a instituição deve praticar junto com a equipe quando dá suporte e condições para estruturar as ações (vale lembrar as questões analisadas na parte 3 deste depoimento).

  1. E DEPOIS?

Bem, o depois é sempre hoje mesmo, pois a noção de família e a necessidade de sustento, guarda e educação, ou seja, alimento, teto e afeto é algo urgente que não se pensa, apenas se sente, especialmente por crianças. Dessa forma minha expectativa é continuar, da forma mais humilde e simples possível – e ás vezes isto é difícil – ajudando a ajudar. Acho que este é o papel de quem escolhe um trabalho de ajudar pessoas. Lembro de uma frase de Madre Tereza de Calcutá que expressa bem meu sentimento: Sei que meu trabalho é uma gota no oceano, mas sem ele, o oceano seria menor.

Paulo de Abreu Lima

Partes / junho-2003 (parte 4-final)

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