Aula e tédio não se
somam. Ou, muito pelo contrário: multiplicam uma vontade enorme de não estudar mesmo,
quando não, ainda pior, literalmente também dão sono. Aulas chatas, então, nem pensar:
é pior. Desmotivam o aluno já pouco interessado no verbo estudar propriamente dito.
Será que ninguém saca isso?
Na escola particular, vamos e venhamos: há estrutura, tevê, vídeo,
aparelho de dvd, filmadora, laboratório, oficinas diversas, informática, textos criados
no próprio meio, construções de aprendizados, com o mestre sendo um show-man (em tese)
facilitador por excelência. Tudo funciona a peso de ouro, mesmo com giz e lousa, mapas
livros, simulados, viagens, excursões e a chamada Avaliação Contínua. Mas, com esse
aparato todo, se o professor não for mesmo um expert e eternamente reciclado, além de
ledor voraz, corre o risco de transformar isso todo numa chatice por atacado.
Pior: na Escola Pública, quando falta inspetor de alunos, segurança,
zeladoria, cantina, merenda, material básico - a propaganda da melhoria do ensino
público é só para inglês ver - a coisa piora. Afinal, nunca os professores foram tão
valorizados na mídia (propaganda enganosa?) do que agora: nunca as escolas públicas
receberam tanto papel colorido, tantos livros de qualidade duvidosa, e nunca os mestres
ganharam tão mal como agora.
Bem, voltando à vaca fria, no frigir dos ovos, até as aulas de
reforço não são técnico-aministrativamente funcionais, e, sequer as escolas têm
estrutura e mesmo o chamado espaço-tempo para tanto. As tão cantadas (e suspeitas)
reformas não têm mesmo um crivo crível, apenas erram um fito político-eleitoreiro,
pois, na verdade, a realidade social emergente (desemprego, impunidade - Plano Real do
FMI) bate de forma imediatista na escola, com falta de segurança, drogas, etc. tornando o
educador, entre os sem teto e sem terra, um verdadeiro sem salário, sempre pagando um
mico com o seu holerith-cebola: abre e chora...
Mas, voltando ao fio da meada da temática pertinente, mesmo numa
trivial aula estilo bem comum "lousa-giz", aulas expositivas-explicativas,
procuro - na escola pública, claro - fazer um pouco melhor. Dar-me um pouco mais no
didático processo-pedagógico do ensino-aprendizagem.
Trabalho com textos de minha autoria, normalmente criados na frente dos
alunos, em aulas abertas, com temáticas também a partir do que eles cobram, pedem, em
tese, pequenos micro-ensaios concomitantemente aos explicados nos livros nem tão
completos, atuais ou na linguagem fácil e coloquial dos teens, por assim dizer.
Escrevo sobre os mais variados temas, sem fugir do conteúdo de um
projeto e dos assuntos pertinentes à matéria como um todo e ao ano letivo oficial.
Quando preciso tiro dados atualizados de alguns livros, remonto tópicos frasais
(parágrafos), reformulo questões - as perguntas nos livros são mal formuladas, sempre
("educadores" acadêmicos de gabinetes, sem a noção da teoria/praxis) - faço
apontamentos básicos de datas primordiais, valores, limites, fronteiras, quesitos,
conceitos, etc. No mais, desato a escrever e os alunos se surpreendem com os texto que
normalmente saem leves, graciosos, como eles precisam para um lúdico captar no que me
proponho a ensinar e eles tem que receptar numa boa.
Costumo sistematizar bem, falar a linguagem do aluno, tento ser
didático ao máximo, entre variações de humor, ensaios de entonações orais,
brincadeiras claras, se preciso até declamando poemas clássicos, cantando belos rocks
(Como Nossos pais, de Belchior, por exemplo), além de, aqui e ali, fazendo minhas
macaquices e, principalmente (olha aí o segredo!), fazendo tudo com gostosura e prazer de
fazer. Saravá, Rubem Alves e Paulo Freire!
Dou os textos, comento numa boa - brincam que se me prendessem num
guarda-roupa eu conversaria com os cabides - explico de bom grado em azeitadas orações,
costuro a dialética, dou questões pertinentes, tiro dúvidas sob variados enfoques, mudo
as narrativas, reexplico com outras palavras, baixo a bola e cobro: sacaram?
Algumas Marias-Cebolas riem, pedem comentários sob uma outra ótica,
um novo esboço explicativo, remonto idéias, cuidadoso e feliz, gracioso, dou exemples
práticos funcionais e então lá vem pedrada: passo questões.
Reafirmo: quando explico a matéria, se preciso canto um rock (mas de
letra inteligente, claro), improviso uma balada (sou bom nisso), faço paródias ligeiras
(rir ajuda aprender), capto RAPs de supetão (eles adoram, cara pálida), até desato uns
blues que trouxe lá de Itararé (baba Baby), quando eles dizem que sou um mix de Raul
Seixas, Renato Russo, Cazuza e Tio Professor. Aleluia, Vigosky e Piaget!
Já declamei poemas famosos referente a momentos, datas, situações ou
variações de narrativas, partindo de hermenêuticas diversas ou dentro do chamado
principio da contrariedade. Ouvir as partes. Sendo ético e democrático. Sempre sob um
enfoque plural-comuntário. O aluno enquanto Ser e enquanto Cidadão. A melhor pedagogia
é o exemplo. E ensinar é sim, a minha maior rebeldia. Ave Milton Santos.
Leio junto com eles, imitando a voz do locutor do Jornal Nacional:
emprumo tons, dou dicas de acentos, pontuações, conversas, conquistas (paqueras)
diálogos. Se preciso invento um "Silas Onze e Meia" (imitando o Jô Soares
entrevisto alunos - ótimos e frágeis, juntos, misturados - sortidos); faço jogral
moderno, teatro (com cultura de rua), jornal de cartolina, mural com desenhos (Super Silas
em Ação/O Herói da Educação) histórias em quadrinhos (tenho cá minhas personagens),
Gincanas (Fórmula Silas com o Pit-Stop perdendo ponto pela bagunça) e outras práticas
lúcidas mais. A tchuma adora. Vai que é sua, Professor Silas!. VOU.
Sou um palhaço? Adorável professor amigo, companheiro, confidente,
psicólogo, paizão, referencial. Sou um louco? ("Deus deve amar os loucos/Criou tão
poucos"). Malemal tento ser uma espécie mambembe de show-man. Cumprimento quando
entro em classe, agradeço quando saio. Sempre. Lições.
Adoro reger aulas - esse é o segredo de qualquer profissão, o verbo
gostar (do que faz)? - Tudo isso apesar de certos, ponhamos, "salários". O
futuro nos dará crédito?
Os fracos alunos dizem: esse professor tasca muita matéria. Os ótimos
alunos-filhos elogiam: esse professor é "da hora", tá ligado?
Uma coisa eu nãos sei ser: chato. Nunca fui. Nem quando vendia sorvete
de groselha preta ou bala de limão. Nem quando engraxava sapatos, mal um piá com
amarelão que amava os Beatles e Tonico e Tinoco, lá na Estância Boêmia de Itararé...
Sempre fui meio da pá virada, um rebelde de calça de morim-cambraia.
À bença, Mãe!
Muito menos quando locutor, imitando os ídolos da Jovem Guarda ou
quando aprendiz de marceneiro. Sempre fui de levar a vida numa boa, curtir. Melhor ainda -
depois de tantas voltas que a vida deu - trabalhando na docência e adorando dar aulas.
A-d-o-r-o passar minhas acontecências aos alunos, e deles tirar a energia vital que nutre
o viço da esperança do dia de amanhã.
Confiar pode?
Já fui aplaudido em alguns finais de aula de cursos supletivos, depois
de dar dez aulas durante o dia, e ainda ir fazer bicos durante à noite. Sobreviver dói,
mas, o foro de cobrança é o sindicato ou a mídia, fora disso tenho que ser profissional
com os alunos e ter a sensação boa do dever cumprido quando voltar pra casa mesmo
estressado ou com colesterol alto.
Tudo vale a pena?
Gente, passei trinta anos sentado em cadeiras chatas, de salas de aulas
de escolas públicas périféricas, sendo eterno apaixonado por todas as minhas mestras,
para, então, e só então, sonhar em poder ser alguém na vida, já que, para o pobre, a
única escada para a ascensão social é mesmo a escola.
Portanto, um lugar sagrado, camaradas, uma catedral. Acreditem nisso.
Assim, curto e grosso, tento ser amigão dos alunos, ganhar o coração
deles. Quem melhor portal para um bom "póint" de trocas? Pois tento não ser
chato nunca, mesmo dando muita matéria.
Tento honesto e verdadeiro pegar leve quando ensino, até quando sou
obrigado a dar certos conteúdos babaquaras, volta e meia entro e saio em temas
transversais com a mesma regularidade com que converso com alunos, toco-os, se preciso
jogo giz neles (delicadamente) para cobrar silêncio ou mesmo, quando chamo as minhas
filhinhas de Maria Cebola, sendo sim - essa é a diferença - feliz no que me proponho a
fazer, tornando a aula alegre.
Que coisa gostosa ver o aluno contente em saber que sabe, e, sei que,
fazendo bem ao aluno-cidadão, ele assim fará bem à sociedade.
Porque, falando sério, a bem da verdade, justiça seja feita, aula
chata é um tédio, e com chatice, tédio, imposição, rudeza, breguice, bruteza,
ninguém chega a lugar nenhum e corremos o risco de ver os puros alunos reproduzindo
neuras adquiridas.
E, com licencinha, eu estou na hora das melhores matérias que todos
gostam da escola: Recreio e Merenda.
Aliás, pior: tem gente que por chatices de aulas cheias de mesmices
tira zero até nessas "matérias".
Eu jamais quero azedar a polenta da vida.
Hoje tem cachorro quente e eu estou desde as sete da manhã só no
cafezinho com as balas que os alunos graciosamente me dão, não porque querem que eu
morra de diabetes, mas porque querem tornar mais doce o bico desse cinqüentão Tiofessor
que acredita no amor, na vida cheia de graça e nessa juventude dinâmica que faz parte da
Geração Coca Cola.
Eu era da Geração Tubaína & Marmita com mortadela frita. E
sonhávamos em mudar o mundo e denunciar o uso no Vietnã do Agente Laranja.
FUI.