Ano III n.34 junho de 2003

  Principal
 Agenda
 Comportamento
 Cotidiano
 Cultura
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Esportes
 Humor
 Links
 Nossa Língua
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Crônicas
 Política
 Reflexão
 Serviços
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Fórum
 Fale Conosco
   Especiais
 SP 450 anos
 Gilberto Freyre
 Igrejas
 Meio Ambiente
 Assédio Moral
::Educação::

Quando a aula é uma chatice
por Silas Corrêa Leite


Aula e tédio não se somam. Ou, muito pelo contrário: multiplicam uma vontade enorme de não estudar mesmo, quando não, ainda pior, literalmente também dão sono. Aulas chatas, então, nem pensar: é pior. Desmotivam o aluno já pouco interessado no verbo estudar propriamente dito. Será que ninguém saca isso?

Na escola particular, vamos e venhamos: há estrutura, tevê, vídeo, aparelho de dvd, filmadora, laboratório, oficinas diversas, informática, textos criados no próprio meio, construções de aprendizados, com o mestre sendo um show-man (em tese) facilitador por excelência. Tudo funciona a peso de ouro, mesmo com giz e lousa, mapas livros, simulados, viagens, excursões e a chamada Avaliação Contínua. Mas, com esse aparato todo, se o professor não for mesmo um expert e eternamente reciclado, além de ledor voraz, corre o risco de transformar isso todo numa chatice por atacado.

Pior: na Escola Pública, quando falta inspetor de alunos, segurança, zeladoria, cantina, merenda, material básico - a propaganda da melhoria do ensino público é só para inglês ver - a coisa piora. Afinal, nunca os professores foram tão valorizados na mídia (propaganda enganosa?) do que agora: nunca as escolas públicas receberam tanto papel colorido, tantos livros de qualidade duvidosa, e nunca os mestres ganharam tão mal como agora.

Bem, voltando à vaca fria, no frigir dos ovos, até as aulas de reforço não são técnico-aministrativamente funcionais, e, sequer as escolas têm estrutura e mesmo o chamado espaço-tempo para tanto. As tão cantadas (e suspeitas) reformas não têm mesmo um crivo crível, apenas erram um fito político-eleitoreiro, pois, na verdade, a realidade social emergente (desemprego, impunidade - Plano Real do FMI) bate de forma imediatista na escola, com falta de segurança, drogas, etc. tornando o educador, entre os sem teto e sem terra, um verdadeiro sem salário, sempre pagando um mico com o seu holerith-cebola: abre e chora...

Mas, voltando ao fio da meada da temática pertinente, mesmo numa trivial aula estilo bem comum "lousa-giz", aulas expositivas-explicativas, procuro - na escola pública, claro - fazer um pouco melhor. Dar-me um pouco mais no didático processo-pedagógico do ensino-aprendizagem.

Trabalho com textos de minha autoria, normalmente criados na frente dos alunos, em aulas abertas, com temáticas também a partir do que eles cobram, pedem, em tese, pequenos micro-ensaios concomitantemente aos explicados nos livros nem tão completos, atuais ou na linguagem fácil e coloquial dos teens, por assim dizer.

Escrevo sobre os mais variados temas, sem fugir do conteúdo de um projeto e dos assuntos pertinentes à matéria como um todo e ao ano letivo oficial. Quando preciso tiro dados atualizados de alguns livros, remonto tópicos frasais (parágrafos), reformulo questões - as perguntas nos livros são mal formuladas, sempre ("educadores" acadêmicos de gabinetes, sem a noção da teoria/praxis) - faço apontamentos básicos de datas primordiais, valores, limites, fronteiras, quesitos, conceitos, etc. No mais, desato a escrever e os alunos se surpreendem com os texto que normalmente saem leves, graciosos, como eles precisam para um lúdico captar no que me proponho a ensinar e eles tem que receptar numa boa.

Costumo sistematizar bem, falar a linguagem do aluno, tento ser didático ao máximo, entre variações de humor, ensaios de entonações orais, brincadeiras claras, se preciso até declamando poemas clássicos, cantando belos rocks (Como Nossos pais, de Belchior, por exemplo), além de, aqui e ali, fazendo minhas macaquices e, principalmente (olha aí o segredo!), fazendo tudo com gostosura e prazer de fazer. Saravá, Rubem Alves e Paulo Freire!

Dou os textos, comento numa boa - brincam que se me prendessem num guarda-roupa eu conversaria com os cabides - explico de bom grado em azeitadas orações, costuro a dialética, dou questões pertinentes, tiro dúvidas sob variados enfoques, mudo as narrativas, reexplico com outras palavras, baixo a bola e cobro: sacaram?

Algumas Marias-Cebolas riem, pedem comentários sob uma outra ótica, um novo esboço explicativo, remonto idéias, cuidadoso e feliz, gracioso, dou exemples práticos funcionais e então lá vem pedrada: passo questões.

Reafirmo: quando explico a matéria, se preciso canto um rock (mas de letra inteligente, claro), improviso uma balada (sou bom nisso), faço paródias ligeiras (rir ajuda aprender), capto RAPs de supetão (eles adoram, cara pálida), até desato uns blues que trouxe lá de Itararé (baba Baby), quando eles dizem que sou um mix de Raul Seixas, Renato Russo, Cazuza e Tio Professor. Aleluia, Vigosky e Piaget!

Já declamei poemas famosos referente a momentos, datas, situações ou variações de narrativas, partindo de hermenêuticas diversas ou dentro do chamado principio da contrariedade. Ouvir as partes. Sendo ético e democrático. Sempre sob um enfoque plural-comuntário. O aluno enquanto Ser e enquanto Cidadão. A melhor pedagogia é o exemplo. E ensinar é sim, a minha maior rebeldia. Ave Milton Santos.

Leio junto com eles, imitando a voz do locutor do Jornal Nacional: emprumo tons, dou dicas de acentos, pontuações, conversas, conquistas (paqueras) diálogos. Se preciso invento um "Silas Onze e Meia" (imitando o Jô Soares entrevisto alunos - ótimos e frágeis, juntos, misturados - sortidos); faço jogral moderno, teatro (com cultura de rua), jornal de cartolina, mural com desenhos (Super Silas em Ação/O Herói da Educação) histórias em quadrinhos (tenho cá minhas personagens), Gincanas (Fórmula Silas com o Pit-Stop perdendo ponto pela bagunça) e outras práticas lúcidas mais. A tchuma adora. Vai que é sua, Professor Silas!. VOU.

Sou um palhaço? Adorável professor amigo, companheiro, confidente, psicólogo, paizão, referencial. Sou um louco? ("Deus deve amar os loucos/Criou tão poucos"). Malemal tento ser uma espécie mambembe de show-man. Cumprimento quando entro em classe, agradeço quando saio. Sempre. Lições.

Adoro reger aulas - esse é o segredo de qualquer profissão, o verbo gostar (do que faz)? - Tudo isso apesar de certos, ponhamos, "salários". O futuro nos dará crédito?

Os fracos alunos dizem: esse professor tasca muita matéria. Os ótimos alunos-filhos elogiam: esse professor é "da hora", tá ligado?

Uma coisa eu nãos sei ser: chato. Nunca fui. Nem quando vendia sorvete de groselha preta ou bala de limão. Nem quando engraxava sapatos, mal um piá com amarelão que amava os Beatles e Tonico e Tinoco, lá na Estância Boêmia de Itararé...

Sempre fui meio da pá virada, um rebelde de calça de morim-cambraia.

À bença, Mãe!

Muito menos quando locutor, imitando os ídolos da Jovem Guarda ou quando aprendiz de marceneiro. Sempre fui de levar a vida numa boa, curtir. Melhor ainda - depois de tantas voltas que a vida deu - trabalhando na docência e adorando dar aulas. A-d-o-r-o passar minhas acontecências aos alunos, e deles tirar a energia vital que nutre o viço da esperança do dia de amanhã.

Confiar pode?

Já fui aplaudido em alguns finais de aula de cursos supletivos, depois de dar dez aulas durante o dia, e ainda ir fazer bicos durante à noite. Sobreviver dói, mas, o foro de cobrança é o sindicato ou a mídia, fora disso tenho que ser profissional com os alunos e ter a sensação boa do dever cumprido quando voltar pra casa mesmo estressado ou com colesterol alto.

Tudo vale a pena?

Gente, passei trinta anos sentado em cadeiras chatas, de salas de aulas de escolas públicas périféricas, sendo eterno apaixonado por todas as minhas mestras, para, então, e só então, sonhar em poder ser alguém na vida, já que, para o pobre, a única escada para a ascensão social é mesmo a escola.

Portanto, um lugar sagrado, camaradas, uma catedral. Acreditem nisso.

Assim, curto e grosso, tento ser amigão dos alunos, ganhar o coração deles. Quem melhor portal para um bom "póint" de trocas? Pois tento não ser chato nunca, mesmo dando muita matéria.

Tento honesto e verdadeiro pegar leve quando ensino, até quando sou obrigado a dar certos conteúdos babaquaras, volta e meia entro e saio em temas transversais com a mesma regularidade com que converso com alunos, toco-os, se preciso jogo giz neles (delicadamente) para cobrar silêncio ou mesmo, quando chamo as minhas filhinhas de Maria Cebola, sendo sim - essa é a diferença - feliz no que me proponho a fazer, tornando a aula alegre.

Que coisa gostosa ver o aluno contente em saber que sabe, e, sei que, fazendo bem ao aluno-cidadão, ele assim fará bem à sociedade.

Porque, falando sério, a bem da verdade, justiça seja feita, aula chata é um tédio, e com chatice, tédio, imposição, rudeza, breguice, bruteza, ninguém chega a lugar nenhum e corremos o risco de ver os puros alunos reproduzindo neuras adquiridas.

E, com licencinha, eu estou na hora das melhores matérias que todos gostam da escola: Recreio e Merenda.

Aliás, pior: tem gente que por chatices de aulas cheias de mesmices tira zero até nessas "matérias".

Eu jamais quero azedar a polenta da vida.

Hoje tem cachorro quente e eu estou desde as sete da manhã só no cafezinho com as balas que os alunos graciosamente me dão, não porque querem que eu morra de diabetes, mas porque querem tornar mais doce o bico desse cinqüentão Tiofessor que acredita no amor, na vida cheia de graça e nessa juventude dinâmica que faz parte da Geração Coca Cola.

Eu era da Geração Tubaína & Marmita com mortadela frita. E sonhávamos em mudar o mundo e denunciar o uso no Vietnã do Agente Laranja.

FUI.

::educação::
O filho imperfeito
por Bruno Andrade
::outros artigos::
sobreoautor.jpg (6467 bytes)

Foto Silas_Correa_Leite.jpg (7723 bytes)

Poeta Professor Silas Corrêa Leite é de Itararé-SP, membro da UBE-União Brasileira de Escritores, educador pós-graduado em Literatura, Jornalismo, Filosofia Para Crianças , Relações Raciais e Inteligência Emocional. Rege Geografia e História em Escola Pública, e Filosofia e Ética em Escola Particular.E-mail: poesilas@terra.com.br

cidadesantos.jpg (54271 bytes)

Santos: Uma revelação perto de São Paulo. Veja artigo de Kelly Bessa

ajude.jpg (10331 bytes)

© copyright revista partes 2000-2003
Editor: Gilberto da Silva (mtb 16.278)
São Paulo - Brasil