Ano III n.34 junho de 2003

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::Sócio ambiental::

Em busca de uma utopia
por Giuliana Capello

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Resumo
Aquele velho e surrado discurso ambientalista feito pelo cheffe Seattle é verídico?


Um dos textos mais citados pelos ambientalistas é, sem dúvida, o discurso feito pelo chefe Seattle, líder dos índios duwamish, ao então governador de Washington, em 1854. Ao ser questionado sobre a possível venda de suas terras para o presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, o chefe Seattle teria respondido com o que veio a ser considerado o primeiro manifesto do movimento conservacionista moderno.

As versões para a carta são inúmeras. Mas vale citar o seguinte trecho: "Cada pedaço de terra é sagrado para o nosso povo. (...) Vocês ensinarão a seus filhos o que ensinamos aos nossos? Que a terra é a mãe? Que o que acontece com a terra acontece com todos os filhos da terra? Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que nos une a todos. O homem não tece a teia da vida, é apenas um fio. O mal que fizer à teia, estará fazendo a si próprio".

Faz pouco tempo que um amigo – sabedor de minha condição de "amante-protetora da natureza - me deixou de queixo caído ao me mostrar um texto do escritor Matt Ridley, não por acaso doutor em zoologia e ex-editor de ciência do Economist, em que o autor afirma ser uma farsa a carta do chefe indígena. "O discurso inteiro é uma peça de ficção moderna. Foi escrito para um programa da rede de televisão ABC por um roteirista e professor de cinema, Ted Terry, em 1971", diz Ridley.

Pior do que ver meu texto-referência afundar na lama é passar a duvidar dos princípios do "pele vermelha", que de fato existiu. Isso porque, continua Ridley, "o chefe Seattle não era nenhum apaixonado por árvores. O pouco que sabemos dele é que foi proprietário de escravos e matou quase todos os inimigos. Como bem o demonstra o caso do chefe Seattle, a noção da vida em harmonia com a natureza se baseia apenas no desejo de que seja verdade".

Recuperada do soco no estômago, olhei para meu amigo e, durante infinitos milésimos de segundos, tentei elaborar um argumento que pudesse derrubar qualquer dúvida a respeito da veracidade do discurso do chefe Seattle. Não deu. Realmente me faltaram as palavras.

Verdade ou não, uma coisa é certa: a dúvida me fez refletir sobre a construção de ídolos, de referências que nos dão estímulo para caminhar na contramão do discurso (pre)dominante. Quando se tem ídolos, a utopia parece possível. Talvez por isso seja tão comum a mitificação de pessoas que, de alguma maneira, pregam ideologias vistas por nós com enorme empatia – especialmente se essas pessoas já estiverem mortas.

A sociedade vive hoje uma quase completa ausência de ídolos, de mestres. À exceção de alguns pop stars que pouco ou nada influenciam os acontecimentos do mundo, o jovem do século XXI não tem muitos personagens em quem se espelhar para construir e lutar por uma causa. Já dizia Zé Rodrix na canção Como Nossos Pais, muito conhecida na voz de Elis Regina: "Nosso ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não". Um detalhe: a música já tem décadas e sua mensagem continua bastante atual.

Será, então, que não temos ídolos? Que a falsificação do discurso do índio norte-americano é a comprovação disso? Prefiro crer que não e lembrar de personagens que ainda vivem ou deixaram este mundo há pouco tempo: Chico Mendes, Leonardo Boff, Paulo Freire, Orlando Villas Bôas, Marina Silva, e tantos outros (e outras) que conseguem despertar paixão naqueles que têm a oportunidade de um encontro, seja ele como for (por um livro, pela TV, por terceiros).

Ocorre que a mídia não cria mitos do bem todos os dias e, por outro lado, temos a chata mania de glorificar grandes nomes, quando os realmente grandes estão a um palmo de nossos narizes. Lembra-se daquele professor de biologia do colégio que fazia seu coração bater mais forte quando falava em mudanças comportamentais que pudessem ajudar a reconstruir nosso meio ambiente? Ou daquela vizinha que implantou coleta seletiva no prédio? Daquele adolescente que adotou um cachorro no canil municipal?

Se queremos acreditar que é possível mudar alguns aspectos do mundo para melhor, devemos apagar da mente a idéia de que seremos guiados por pioneiros que já sabem o que deve ser feito. Para vários dos principais problemas ambientais ainda não existem respostas, nem tão pouco alternativas razoáveis. Assim, quem estiver disposto a nadar contra a maré em busca do que – aos olhos de outros - pode parecer uma utopia terá um grande desafio pela frente: aprender a dar as mãos ao companheiro ao lado.

Luz e paz para todos,

Até a próxima!

*para quem quiser verificar com os próprios olhos o que diz Matt Ridley sobre o discurso do chefe Seattle, basta procurar no capítulo onze do livro As Origens da Virtude – Um estudo biológico da solidariedade, da Editora Record.

::educação::

Quando a aula é uma chatice
por Silas Corrêa Leite

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Giuliana Capello, jornalista e guarda-parque
giulianacapello@ig.com.br

 

 

 

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