Um dos textos mais
citados pelos ambientalistas é, sem dúvida, o discurso feito pelo chefe Seattle, líder
dos índios duwamish, ao então governador de Washington, em 1854. Ao ser questionado
sobre a possível venda de suas terras para o presidente dos Estados Unidos, Franklin
Pierce, o chefe Seattle teria respondido com o que veio a ser considerado o primeiro
manifesto do movimento conservacionista moderno.
As versões para a carta são inúmeras. Mas vale citar o seguinte
trecho: "Cada pedaço de terra é sagrado para o nosso povo. (...) Vocês ensinarão
a seus filhos o que ensinamos aos nossos? Que a terra é a mãe? Que o que acontece com a
terra acontece com todos os filhos da terra? Todas as coisas estão interligadas, como o
sangue que nos une a todos. O homem não tece a teia da vida, é apenas um fio. O mal que
fizer à teia, estará fazendo a si próprio".
Faz pouco tempo que um amigo sabedor de minha condição de
"amante-protetora da natureza - me deixou de queixo caído ao me mostrar um texto do
escritor Matt Ridley, não por acaso doutor em zoologia e ex-editor de ciência do Economist,
em que o autor afirma ser uma farsa a carta do chefe indígena. "O discurso inteiro
é uma peça de ficção moderna. Foi escrito para um programa da rede de televisão ABC
por um roteirista e professor de cinema, Ted Terry, em 1971", diz Ridley.
Pior do que ver meu texto-referência afundar na lama é passar a
duvidar dos princípios do "pele vermelha", que de fato existiu. Isso porque,
continua Ridley, "o chefe Seattle não era nenhum apaixonado por árvores. O pouco
que sabemos dele é que foi proprietário de escravos e matou quase todos os inimigos.
Como bem o demonstra o caso do chefe Seattle, a noção da vida em harmonia com a natureza
se baseia apenas no desejo de que seja verdade".
Recuperada do soco no estômago, olhei para meu amigo e, durante
infinitos milésimos de segundos, tentei elaborar um argumento que pudesse derrubar
qualquer dúvida a respeito da veracidade do discurso do chefe Seattle. Não deu.
Realmente me faltaram as palavras.
Verdade ou não, uma coisa é certa: a dúvida me fez refletir sobre a
construção de ídolos, de referências que nos dão estímulo para caminhar na
contramão do discurso (pre)dominante. Quando se tem ídolos, a utopia parece possível.
Talvez por isso seja tão comum a mitificação de pessoas que, de alguma maneira, pregam
ideologias vistas por nós com enorme empatia especialmente se essas pessoas já
estiverem mortas.
A sociedade vive hoje uma quase completa ausência de ídolos, de
mestres. À exceção de alguns pop stars que pouco ou nada influenciam os acontecimentos
do mundo, o jovem do século XXI não tem muitos personagens em quem se espelhar para
construir e lutar por uma causa. Já dizia Zé Rodrix na canção Como Nossos Pais,
muito conhecida na voz de Elis Regina: "Nosso ídolos ainda são os mesmos e as
aparências não enganam, não". Um detalhe: a música já tem décadas e sua
mensagem continua bastante atual.
Será, então, que não temos ídolos? Que a falsificação do discurso
do índio norte-americano é a comprovação disso? Prefiro crer que não e lembrar de
personagens que ainda vivem ou deixaram este mundo há pouco tempo: Chico Mendes, Leonardo
Boff, Paulo Freire, Orlando Villas Bôas, Marina Silva, e tantos outros (e outras) que
conseguem despertar paixão naqueles que têm a oportunidade de um encontro, seja ele como
for (por um livro, pela TV, por terceiros).
Ocorre que a mídia não cria mitos do bem todos os dias e, por outro
lado, temos a chata mania de glorificar grandes nomes, quando os realmente grandes estão
a um palmo de nossos narizes. Lembra-se daquele professor de biologia do colégio que
fazia seu coração bater mais forte quando falava em mudanças comportamentais que
pudessem ajudar a reconstruir nosso meio ambiente? Ou daquela vizinha que implantou coleta
seletiva no prédio? Daquele adolescente que adotou um cachorro no canil municipal?
Se queremos acreditar que é possível mudar alguns aspectos do mundo
para melhor, devemos apagar da mente a idéia de que seremos guiados por pioneiros que já
sabem o que deve ser feito. Para vários dos principais problemas ambientais ainda não
existem respostas, nem tão pouco alternativas razoáveis. Assim, quem estiver disposto a
nadar contra a maré em busca do que aos olhos de outros - pode parecer uma utopia
terá um grande desafio pela frente: aprender a dar as mãos ao companheiro ao lado.
Luz e paz para todos,
Até a próxima!
*para quem quiser verificar com os próprios olhos o que diz Matt
Ridley sobre o discurso do chefe Seattle, basta procurar no capítulo onze do livro As
Origens da Virtude Um estudo biológico da solidariedade, da Editora Record.