ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.35 julho de 2003

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Virgens, ícones e a necessidade da representação - Conexões e o inexplicável
por Julio Paupitz
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Resumo

As aparições de Virgem Maria, suas conexões com estranhos acontecimentos e seu culto no mundo é o destaque deste texto que o autor, Julio Paupitz, envia-nos direto de Maputo.

Com frequência, grandes tragédias e transformações históricas são antecedidas por fenômenos inexplicáveis. Estranhas e bruscas mudanças atmosféricas, o comportamento bizarro dos animais e aparições místicas sempre fizeram parte do cotidiano popular. Neste contexto, é de notar-se a conexão das aparições da Virgem Maria como prenúncio de estranhos acontecimentos. Pouco antes da invasão do Iraque, noticiava-se pela televisão uma visão da Virgem Maria numa praia da Austrália. Fica difícil posicionar-se ante as imagens mais ou menos geométricas apresentadas e os relatos emotivos das testemunhas. Entramos num campo em que linhas tênues marcam os limites das percepções humanas, a partir dos quais o critério do real é de única e exclusiva propriedade do observador do fenômeno.

Contudo, numa perspectiva mais ampla permanecem alguns fatos que não podem ser negados. Um deles, e o mais facilmente verificável é a sincronia entre o fenômeno das aparições e a eclosão das guerras, principalmente no século passado. Quem pode negar a relação dos acontecimentos de Fátima com a primeira guerra mundial e a Revolução Russa? Ou mesmo a eclosão dos acontecimentos de Medjogore com o inicio do esfacelamento da Jugoslavia ainda nos 80?

Fazendo eco da necessidade de uma maior compreensão desse tema, vem a memória uma extensa reportagem da revista Isto é, publicado em 2002, sobre o culto dedicado à Virgem Maria. Nela, destacava-se sua importância e papel na sociedade brasileira. Infelizmente os autores da reportagem não dedicaram maior espaço às origens do culto e à sua devida dimensão na psicologia humana e o caráter sempre presente do fenômeno. Perdeu-se, assim, uma oportunidade para esclarecimento do público das raízes profundas do tema.

Podemos arriscar uma interpretação do culto mariano ao explicá-lo como um "template", cuja implantação na mente humana remonta aos períodos matriarcais, quando a humanidade dependia dos cuidados e proteção de uma mãe amorosa. Ensina-nos Robert Graves (1) que as Nossas Senhoras ou padroeiras nacionais são tão atuais quanto foram as entidades femininas que outrora protegiam nações distantes na história, seja Selene na Grécia, Isis e Ashtoreth no Egito e Ishtar na Babilonia.

Na África Ocidental e particularmente nas áreas de influência da religião Asanti, certas populações se relacionavam com manifestações de uma energia vital de origem lunar denominada Obosom. A entidade era feminina, como sua mãe, a deusa suprema Nyame (deusa lunar), com quem compartilhava poderes, constituindo-se assim numa deusa no panteão tribal. Com o passar do tempo o Obosom adquiriu as prerrogativas de Nyame, sendo adotada e venerada por grupos humanos.

Nesse então ainda não reinavam os deuses masculinos, nem os povos pastores do Oriente vagavam pela Europa primitiva. Eram então, as rainhas-mães as donas da paisagem, comandavam exércitos e decidiam na política. Pouco a pouco os Obosons transformaram-se em deusas e padroeiras das artes femininas, caras aos povos do Norte da África ao Oriente Médio. Com o advento do cristianismo e a proibição de todas as formas de magias femininas, os Obosons caem em desgraça. Entretanto, na Europa medieval, a situação de opressão generalizada vivida pelos camponeses e vilões ressuscita a busca de um novo Obosom, agora com capacidades superiores às dos santos locais. Esta condição faz nascer o culto à Virgem Maria, inicialmente e secretamente praticado pelos Gnósticos na Palestina como o culto a Sofia (Sabedoria Divina).

No sentido da interpretação da manifestação vital de forças naturais, o culto à Virgem Maria encontra expressão única na arte religiosa dos ícones de tradição oriental, os quais chamam atenção pela paz e inspiração que provocam entre crentes e ateus. Poucas expressões artísticas tem o conteúdo e profundidade da iconografia, ou seja a arte milenar de representação de santos e mártires das igrejas orientais. Infelizmente, o grande cisma da igreja de 1054 ainda nos priva de um melhor conhecimento de um dos grandes acervos culturais da humanidade.

A palavra ícone, apesar de sua omnipresença na internet deriva-se de Ikonos, que em grego significa imagem e constitui o fundamento do que seja a escola artística de mais longa data que se conheça. Conta a lenda que o primeiro ícone foi obra do apóstolo Lucas e que o modelo foi Maria, mãe de Jesus, que desde então transforma-se na Mãe de Deus. Num mundo em que a transmissão escrita ainda era privilégio de poucos, a imagem era uma forma de acesso aos mistérios e a transcendência. Na Idade Média o ícone era conhecido como a Bíblia dos pobres.

A iconografia arte de caráter ecumênico pela atração que exerce sobre os que prezam o belo e procuram o sagrado. Na sua expressão teológica, ícone é imagem do invisível, uma tentativa de explicar a presença do divino em termos terrenais ou seja, o fenômeno da encarnação. Os cânones que regulamentam o exercício da pintura dos ícones existem desde o Concilio de Niceae II, celebrado em Setembro de 787. A longa história da representação divina não esteve a salvo das polêmicas que tão facilmente inflamavam os espíritos das religiões patriarcais, tradicionalmente opostas às representações do divino. A iconoclastia esteve presente em alguns períodos da história. e representou uma forma de intolerância responsável por vandalismos incompreensíveis, que conduziram à destruição de obras de arte de valor incalculável e no êxodo de mestres do Oriente que vieram a contribuir com o Renascimento italiano.

 

A pintura do ícone obedece a formalismos estéticos de longa data estabelecidos e está inundada de simbolismos. O arcabouço da obra é dominado pela chamada perspectiva perceptiva utilizada na arquitetura clássica grega, como bem se pode observar no desenho do Parthenon, particularmente na disposição das colunas do templo. Paisagens deformadas e corpos supostamente desajeitados são formas estabelecidas de acordo com uma intenção pré-determinada, que em realidade constitui um artificio para compensar a limitação de técnicas geométricas na representação da imagem. Uma excelente referência sobre o tema é o livro de Egon Sendler,1995 (2)  Na composição, ademais, encontramos uma explicação para as cores e tonalidades utilizadas. Estes elementos conjuntamente com a utilização da luz originam uma estética sóbria e cercada de solenidade. A paisagem na composição do ícone é simples, desprovida de movimentos, rarissimas árvores, árida num certo sentido. As figuras humanas são majestosas, elegantes, principalmente os arcanjos. Não existem figuras de perfil, a representação do rosto humano é sempre frontal. Predominam as tonalidades escuras para a pele das pessoas e não se permite a cópia de modelos humanos. São freqüentes o verde e o vermelho (arcanjos). A côr púrpura é bastante utilizada nas composições da Virgem Maria.

Considera-se A Trindade de Abraão de Andrei Rublev como a obra máxima da iconografia. Produzida por volta de 1407 se encontra hoje na Galeria Tretyakov em Moscou. A imagem representa os arcanjos maiores Gabriel, Miguel e Rafael sentados ao redor de uma mesa em cujo centro se mostra cálice cujo conteúdo segue sendo objeto das mais diversas interpretações. Entre outras obras de importância histórica e religiosa pode-se mencionar a Virgem de Kazan, padroeira da cidade de Kazan na Rússia, totalmente destruída em 1579 e o ícone da Virgem de Vladimir, em que se destaca a ternura mediante a proximidade do contato entre mãe e filho.

No Brasil, em particular, cultua-se com fervor A Virgem do Perpétuo Socorro. Este ícone de longa e atribulada história foi restaurado nos anos 90 e se encontra atualmente em Roma, sob custódia da Ordem dos Redentoristas. Estudos com base no Carbono 14 datam a obra entre 1325 e 1480.

A história da difusão do conhecimento ícones no Ocidente está ligada com os movimentos pan-eslavos de princípios do século XX, que buscavam resgatar identidades nacionais principalmente na Rússia, Ucrânia e outros países do Leste europeu. Nesse então deram-se a conhecer ao mundo os tesouros escondidos, representados por estas obras de arte que resumiam quase 1000 anos de história do Cristianismo em altares de igrejas humildes sob séculos de acumulação de fuligem.

Contudo, o conhecimento deste inestimável acervo humano só teve maior profundidade a raíz de uma ironia da história. Curiosamente, é pela presença do poder soviético instalado em 1917 que hoje temos maior acesso ao significado e importância desta arte. Na verdade, se não fosse pelos esforços dos museus e por conexões insuspeitadas, quem sabe, não saberíamos hoje por onde estariam. Em resumo, os ateus comunistas fizeram que esta preciosa herança fosse protegida impedindo sabiamente que por mais de uma vez, grandes tesouros da humanidade seguissem o caminho de Bagdá.

Julio Paupitz
Maputo 14.07.2003

Notas:

1. Ver: Los dos nacimientos de Dionisio, ed. Seix Barral, 1984 (original: Difficult questions, easy answers. Cassel and Company Ltd. Londres)

2.The Icon – Image of the Invisible, Oakwood Publications, 1995

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Julio Paupitz é Engenheiro Florestal e reside em Maputo - Moçambique

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