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Com
frequência, grandes tragédias e transformações históricas são antecedidas por
fenômenos inexplicáveis. Estranhas e bruscas mudanças atmosféricas, o comportamento
bizarro dos animais e aparições místicas sempre fizeram parte do cotidiano popular.
Neste contexto, é de notar-se a conexão das aparições da Virgem Maria como prenúncio
de estranhos acontecimentos. Pouco antes da invasão do Iraque, noticiava-se pela
televisão uma visão da Virgem Maria numa praia da Austrália. Fica difícil
posicionar-se ante as imagens mais ou menos geométricas apresentadas e os relatos
emotivos das testemunhas. Entramos num campo em que linhas tênues marcam os limites das
percepções humanas, a partir dos quais o critério do real é de única e exclusiva
propriedade do observador do fenômeno.
Contudo, numa perspectiva mais ampla permanecem
alguns fatos que não podem ser negados. Um deles, e o mais facilmente verificável é a
sincronia entre o fenômeno das aparições e a eclosão das guerras, principalmente no
século passado. Quem pode negar a relação dos acontecimentos de Fátima com a primeira
guerra mundial e a Revolução Russa? Ou mesmo a eclosão dos acontecimentos de Medjogore
com o inicio do esfacelamento da Jugoslavia ainda nos 80?
Fazendo eco da necessidade de uma maior compreensão desse tema, vem a memória uma
extensa reportagem da revista Isto é, publicado em 2002, sobre o culto dedicado à Virgem
Maria. Nela, destacava-se sua importância e papel na sociedade brasileira. Infelizmente
os autores da reportagem não dedicaram maior espaço às origens do culto e à sua devida
dimensão na psicologia humana e o caráter sempre presente do fenômeno. Perdeu-se,
assim, uma oportunidade para esclarecimento do público das raízes profundas do tema.
Podemos arriscar uma interpretação do culto mariano ao explicá-lo como um
"template", cuja implantação na mente humana remonta aos períodos
matriarcais, quando a humanidade dependia dos cuidados e proteção de uma mãe amorosa.
Ensina-nos Robert Graves (1) que as Nossas Senhoras ou padroeiras nacionais são tão
atuais quanto foram as entidades femininas que outrora protegiam nações distantes na
história, seja Selene na Grécia, Isis e Ashtoreth no Egito e Ishtar na Babilonia.
Na África Ocidental e particularmente nas áreas de influência da religião Asanti,
certas populações se relacionavam com manifestações de uma energia vital de origem
lunar denominada Obosom. A entidade era feminina, como sua mãe, a deusa
suprema Nyame (deusa lunar), com quem compartilhava poderes, constituindo-se assim numa
deusa no panteão tribal. Com o passar do tempo o Obosom adquiriu as prerrogativas
de Nyame, sendo adotada e venerada por grupos humanos.
Nesse então ainda não reinavam os deuses masculinos, nem os povos pastores do Oriente
vagavam pela Europa primitiva. Eram então, as rainhas-mães as donas da paisagem,
comandavam exércitos e decidiam na política. Pouco a pouco os Obosons
transformaram-se em deusas e padroeiras das artes femininas, caras aos povos do Norte da
África ao Oriente Médio. Com o advento do cristianismo e a proibição de todas as
formas de magias femininas, os Obosons caem em desgraça. Entretanto, na Europa
medieval, a situação de opressão generalizada vivida pelos camponeses e vilões
ressuscita a busca de um novo Obosom, agora com capacidades superiores às dos
santos locais. Esta condição faz nascer o culto à Virgem Maria, inicialmente e
secretamente praticado pelos Gnósticos na Palestina como o culto a Sofia (Sabedoria
Divina).
No sentido da interpretação da manifestação vital de forças naturais, o culto à
Virgem Maria encontra expressão única na arte religiosa dos ícones de tradição
oriental, os quais chamam atenção pela paz e inspiração que provocam entre crentes e
ateus. Poucas expressões artísticas tem o conteúdo e profundidade da iconografia, ou
seja a arte milenar de representação de santos e mártires das igrejas orientais.
Infelizmente, o grande cisma da igreja de 1054 ainda nos priva de um melhor conhecimento
de um dos grandes acervos culturais da humanidade.
A palavra ícone, apesar de sua omnipresença na internet deriva-se de Ikonos,
que em grego significa imagem e constitui o fundamento do que seja a escola artística de
mais longa data que se conheça. Conta a lenda que o primeiro ícone foi obra do apóstolo
Lucas e que o modelo foi Maria, mãe de Jesus, que desde então transforma-se na Mãe de
Deus. Num mundo em que a transmissão escrita ainda era privilégio de poucos, a imagem
era uma forma de acesso aos mistérios e a transcendência. Na Idade Média o ícone era
conhecido como a Bíblia dos pobres.
A iconografia arte de caráter ecumênico pela atração que exerce sobre os que prezam
o belo e procuram o sagrado. Na sua expressão teológica, ícone é imagem do invisível,
uma tentativa de explicar a presença do divino em termos terrenais ou seja, o fenômeno
da encarnação. Os cânones que regulamentam o exercício da pintura dos ícones existem
desde o Concilio de Niceae II, celebrado em Setembro de 787. A longa história da
representação divina não esteve a salvo das polêmicas que tão facilmente inflamavam
os espíritos das religiões patriarcais, tradicionalmente opostas às representações do
divino. A iconoclastia esteve presente em alguns períodos da história. e representou uma
forma de intolerância responsável por vandalismos incompreensíveis, que conduziram à
destruição de obras de arte de valor incalculável e no êxodo de mestres do Oriente que
vieram a contribuir com o Renascimento italiano.
A pintura do ícone obedece a formalismos estéticos de longa data estabelecidos e
está inundada de simbolismos. O arcabouço da obra é dominado pela chamada perspectiva
perceptiva utilizada na arquitetura clássica grega, como bem se pode observar no desenho
do Parthenon, particularmente na disposição das colunas do templo. Paisagens deformadas
e corpos supostamente desajeitados são formas estabelecidas de acordo com uma intenção
pré-determinada, que em realidade constitui um artificio para compensar a limitação de
técnicas geométricas na representação da imagem. Uma excelente referência sobre o
tema é o livro de Egon Sendler,1995 (2) Na composição, ademais, encontramos uma
explicação para as cores e tonalidades utilizadas. Estes elementos conjuntamente com a
utilização da luz originam uma estética sóbria e cercada de solenidade. A paisagem na
composição do ícone é simples, desprovida de movimentos, rarissimas árvores, árida
num certo sentido. As figuras humanas são majestosas, elegantes, principalmente os
arcanjos. Não existem figuras de perfil, a representação do rosto humano é sempre
frontal. Predominam as tonalidades escuras para a pele das pessoas e não se permite a
cópia de modelos humanos. São freqüentes o verde e o vermelho (arcanjos). A côr
púrpura é bastante utilizada nas composições da Virgem Maria.
Considera-se A Trindade de Abraão de Andrei Rublev como a obra máxima da iconografia.
Produzida por volta de 1407 se encontra hoje na Galeria Tretyakov em Moscou. A imagem
representa os arcanjos maiores Gabriel, Miguel e Rafael sentados ao redor de uma mesa em
cujo centro se mostra cálice cujo conteúdo segue sendo objeto das mais diversas
interpretações. Entre outras obras de importância histórica e religiosa pode-se
mencionar a Virgem de Kazan, padroeira da cidade de Kazan na Rússia, totalmente
destruída em 1579 e o ícone da Virgem de Vladimir, em que se destaca a ternura mediante
a proximidade do contato entre mãe e filho.
No Brasil, em particular, cultua-se com fervor A Virgem do Perpétuo Socorro. Este
ícone de longa e atribulada história foi restaurado nos anos 90 e se encontra atualmente
em Roma, sob custódia da Ordem dos Redentoristas. Estudos com base no Carbono 14 datam a
obra entre 1325 e 1480.
A história da difusão do conhecimento ícones no Ocidente está ligada com os
movimentos pan-eslavos de princípios do século XX, que buscavam resgatar identidades
nacionais principalmente na Rússia, Ucrânia e outros países do Leste europeu. Nesse
então deram-se a conhecer ao mundo os tesouros escondidos, representados por estas obras
de arte que resumiam quase 1000 anos de história do Cristianismo em altares de igrejas
humildes sob séculos de acumulação de fuligem.
Contudo, o conhecimento deste inestimável acervo humano só teve maior profundidade a
raíz de uma ironia da história. Curiosamente, é pela presença do poder soviético
instalado em 1917 que hoje temos maior acesso ao significado e importância desta arte. Na
verdade, se não fosse pelos esforços dos museus e por conexões insuspeitadas, quem
sabe, não saberíamos hoje por onde estariam. Em resumo, os ateus comunistas fizeram que
esta preciosa herança fosse protegida impedindo sabiamente que por mais de uma vez,
grandes tesouros da humanidade seguissem o caminho de Bagdá.
Julio Paupitz
Maputo 14.07.2003
Notas:
1. Ver: Los dos nacimientos de Dionisio, ed. Seix Barral,
1984 (original: Difficult questions, easy answers. Cassel and Company Ltd. Londres)
2.The Icon Image of the Invisible, Oakwood
Publications, 1995 |