O que se entende por Estado?
O termo Estado é utilizado correntemente como sinônimo de
Governo, mas a rigor, o Estado é composto por toda uma série de instrumentos e
instituições que exercem o Poder da República (do latim Res Pública ou coisa
pública), numa divisão de funções que configuram os famosos três poderes: Executivo,
Legislativo e o Judiciário.
Sobre a natureza ou essência do Estado, existem tantas definições
como teorias político-sociológicas. A seguir, mencionaremos três interpretações das
mais representativas:
Segundo Weber, o Estado é "o detentor legítimo do
constrangimento físico", assim diz o autor "Entendemos por Estado uma
empresa política de caráter institucional, quando e enquanto a sua direção
administrativa reinvindicar com sucesso, na aplicação dos regulamentos, o monopólio
legítimo do constrangimento físico". (WEBER, 2000:19)
Para o liberais clássicos (Hume, Locke, Smith...), o Estado é um
agente que arbitra e faz triunfar o interesse geral face aos interesses particulares. "Certos
liberais definem o Estado como uma vasta associação de indivíduos que harmonizam
livremente as suas vontades, que se reúnem em obediência a um consenso ou contrato
social. Para outros liberais, o Estado não é mais do que o lugar donde se exerce o poder
que domina a comunidade, conseguindo tornar legítima esta autoridade mediante
procedimentos hábeis e contestáveis" (LEFEVRE, 1978:10/18). Enfim, o Estado é
apenas o encarregado de fazer respeitar as regras da concorrência, de garantir a
estabilidade monetária, o equilíbrio orçamentário, a transparência das informações
úteis aos agentes econômicos de proteger a propriedade privada, de garantir igualmente:
harmonia social, de salvaguardar o interesse público e a soberania nacional.
Para os marxistas, o Estado é um agente de regulação social
com tendência a manter o poder de uma classe social sobre a outra; essencialmente, um
agente de reprodução das relações de produção a serviço da classe dirigente que,
com auxílio do poder do Estado, dos aparelhos de legitimação e de manipulação
ideológica, se torna realmente dominante. Nessa linha que se alicerça a pensamento do
marxista italiano Antônio Gramsci, o Estado é essencialmente uma combinação de dois
tipos de funções: 1) dominação ou constrangimento (autoridade) e 2) consenso ou
direção política intelectual e moral (hegemonia) de uma classe sobre a outra.
Assim, temos que deixar claro o fato do conceito "Estado"
não ser um conceito universal, mas servir apenas para indicar e descrever uma forma de
ordenamento político surgida da Europa a partir do século XIII até os fins do século
XVIII ou início do XIX, na base de pressupostos e motivos específicos da história
européia e, que após esse período se estendeu a todo o mundo civilizado.
O papel do Estado nas Economias Contemporâneas
O papel econômico do Estado moderno manifesta-se em forma de:
-
Consumo público:
o Estado compra das empresas desde sabonete, material de
escritório e computadores, até estradas, edifícios, automóveis, aviões, armas e etc;
-
Investimento público e produção estatal:
Petrobrás, Correios e Telégrafos, etc
(um etc cada vez menor);
-
Redistribuição de renda:
o Estado arrecada impostos e contribuições sociais e,
como contra partida, paga aposentadorias, pensões e subsídios diversos;
-
Autoridade monetária:
através do Banco Central, Conselho Monetário Nacional,
Banco do Brasil, CEF e BNDES, o Estado dirige os mecanismos monetários e creditícios;
-
Legislação e regulação econômica:
O Estado define as "regras do jogo"
econômico-social, por exemplo: as condições de concorrência; operações com exterior;
regras de emprego e salários e o chamado direito trabalhista; regulamentação do direito
de propriedade, entre outros;
-
Segurança pública ou a manutenção da ordem existente:
Forças Armadas, Polícia,
judiciário, serviços de vigilância e controle dos cidadãos;
-
Educação:
sistema de ensino público (escolas e Universidades federais, estaduais
e municipais), agências de apoio à pesquisa e capacitação superior (CNPq, CAPES,
FAPESP, Embrapa, Butantã, Manguinhos, etc.) contribuindo, em maior ou menor grau, ao
desenvolvimento do chamado "capital intelectual" e das capacidades
tecno-produtivas;
A história econômica de todos os países capitalistas (tanto dos
"Centrais" quanto dos "Periféricos") demonstra que o Estado foi e
continua sendo um agente fundamental da atividade econômica. Como prova disto, é a
despesa pública dos sete países mais ricos do mundo (G-7): aproximadamente, 41% do PIB
(1992) contra 38% em 1980, e também o tamanho da dívida pública, ou seja, o que esses
mesmos governos tomaram emprestado: em média 3,5% do PIB (1992) contra menos de 1% em
1989 (Gazeta Mercantil, SP, 19.08.1992).
Se a intervenção estatal é um fato histórico universalmente
confirmado, os motivos e as modalidades da mesma, são muito diferentes,
dependendo das demandas objetivas e dos interesses sociais que predominam em cada momento
e País.
Nesse sentido, alguém tão insuspeito de simpatias pelo marxismo como
o Cientista Político Polonês/Americano, Adam Przeworski, escreve: "Para que um
país se liberte da pobreza humilhante, sua economia se desenvolva e seus cidadãos
desfrutem de condições básicas para viver segundo seu arbítrio, os governos devem
realizar várias coisas; e para faze-las requer dinheiro. Em uma economia de mercado, os
governos obtêm dinheiro principalmente por meio de impostos... Os governos precisam
fornecer bens e serviços de infra-estrutura básica: investir em capital humano
educação, saúde, habitação cuidam dos que não conseguem sobreviver por si
mesmos; tem de proteger as pessoas..." . Para tudo isso, diz Przeworski, "os
governos precisam existir, contar com servidores em número e qualificação suficiente, e
dispor, como acontece nos "países civilizados" (a expressão é do autor) de
um gasto público total de cerca de 45% do PIB (no Brasil só para se ter uma idéia,
o percentual não alcança 23% do PIB).
Esta diferença quantitativa só pode ser entendida (e explicada)
considerando a história e a organização da sociedade e do Estado, em níveis concretos,
assunto este que necessitaria de muitas páginas para a discussão.Daí que nos
limitaremos a sugerir apenas algumas pistas para pensar, com um mínimo de rigor, o papel
do Estado na economia brasileira.
No Brasil, especialmente a partir dos anos 40, o Estado (ou melhor, o
governo) atuou como principal agente da industrialização capitalista,
associado-dependente dos centros hegemônicos do capitalismo mundializado ou globalizado.
As causas e modalidades da intervenção do Estado na economia
brasileira podem ser classificadas em três grandes fases a saber:
A primeira fase, estatização da economia brasileira (anos 50-60) respondia ao
interesse das elites dominantes de manter sob controle setores estratégicos, como:
energia e garantir infra-estrutura básica (aço e álcalis), carentes de investimentos
privados por serem de alto risco e de demorado retorno. Segundo Barelli (FSP, SP,
11.05.1988) foi "uma opção por um modelo de desenvolvimento que garantia os
suprimentos necessários para uma industrialização baseada na indústria privada, em
especial a estrangeira";
A segunda fase, (1964-1974), implementada pela ditadura
militar-tecnocrática, objetivou a transformação de repartições ou autarquias em
empresas estatais fornecedoras de serviços públicos (água, esgoto, rodovias, portos,
aeroportos, correios, comunicações), necessários para garantir a industrialização;
E a terceira fase, corresponde à chamada
"socialização" dos prejuízos de empresas privadas, quando o Estado, protetor
dos ricos atua como um hospital ou asilo muito especial que cuida de empresas e bancos
privados falidos. O crescimento econômico dos anos 70 foi protagonizado, em grande
medida, pelas empresas públicas, responsáveis por uma grande dos investimentos em
áreas de risco e de forte intensidade de capital.
A recessão econômica iniciada nos anos 80 coincidiu, e não
casualmente, com a queda gradativa do investimento público e com a renúncia a um tipo de
desenvolvimento nacionalmente integrador e socialmente menos excluidor.
O peso do estado na economia brasileira (no início dos anos 90)
pode ser ilustrado com os seguintes dados: as despesas do governo representavam,
aproximadamente, 25% do PIB; somando-se a isso o valor adicionado pelas empresas estatais,
chegava-se a algo próximo de 50%. As empresas estatais chegaram a dominar setores
básicos da economia tais como serviços públicos (água, eletricidade, transportes e
comunicações), a petroquímica, a siderurgia de aços planos e a mineração.
A partir dos anos 90, a onda privatizadora reduziu drasticamente o peso
da empresa pública na economia, assim como, redirecionou a intervenção do Estado na
economia, orientando-a, de modo que cada vez mais exclusivo, ao fortalecimento das grandes
empresas privadas, através de uma série de medidas destinadas a garantir altas taxas de
rentabilidade e concentração de capital financeirizado.
O pensamento dominante declara obsoletas as chamadas "razões
estratégicas" que outrora legitimaram o monopólio público sobre os recursos
naturais e as infra-estruturais básicas da economia. Em nome da eficiência, mais suposta
do que real, da empresa privada, abandona-se até a própria idéia de um desenvolvimento
econômico e social, capaz de reduzir as múltiplas dependências (financeira,
tecnológica, comercial, cultural e política) dos centros dominantes do capitalismo
mundializado.
Igualmente, o novo estilo (empresarial ou gestorial) de fazer política
transferia para a esfera comercial as demandas sociais dos menos favorecidos. Através de
fórmulas, supostamente modernas, como a "Comunidade Solidária" e outros
projetos assistencialistas, esvaziou-se de significado social o conceito moderno de
Direitos Humanos e Direitos Sociais da pessoa humana (conceitos configuradores da
cidadania formal ou teórica), rebaixada à categoria de caridade ou assistencialismo
filantrópico.
Apesar de tudo, o papel do Estado na economia não está diminuindo em
País nenhum; o que está sendo reduzido de forma drástica são as medidas estatais
destinadas a atender demandas sociais dos menos favorecidos. De fato, o Estado não
interfere para nacionalizar, interfere para privatizar, capacidades produtivas e riquezas
naturais. O Estado socializa dívidas dos bancos privados (PROER); converte dívida
externa privada em dívida externa pública; utiliza fundos da previdência social (FGTS,
por exemplo) para subsidiar os grandes agricultores, usineiros do PROÁLCOOL.
Mais ainda, o Estado é o principal gerente do novo modelo de
relações de trabalho, que é caracterizado pelo domínio absoluto do capital sobre o
trabalho. Sob o eufemismo da "flexibilização do mercado de trabalho"
proliferam o trabalho "informal", a precariedade dos trabalhadores "sem
carteira assinada", da "terceirização" e etc. Resultado lógico de
políticas que privilegiam as "forças do mercado", outro eufemismo utilizado
para glamourizar o capitalismo em estado bruto.
A ideologia neoliberal e a realidade capitalista
Os anos 80 foram à década da ascensão e auge do neoliberalismo
e os anos 90, desde as perspectivas de 1997, aparecem como anos de queda ou ressaca das
ilusões neoliberais.
Os sintomas desses fatos são numerosos e significativos: a derrota dos
Republicanos campeões mundiais do neoliberalismo nos EE.UU.; substituição de
MargarethTatcher grande sacerdotisa do credo e da prática neoliberal; a derrota
eleitoral dos conservadores na Inglaterra; o acirramento da concorrência internacional
entre megablocos EUA-Europa-Japão; o fracasso dos ajustes financeiros nas economias
dependentes latino-americanas.
Assim, a onda neoliberal é, a um só tempo, causa efeito de
transformações no Estado e na economia:
Mudanças no Estado-Nação que alguns chamam de crise no
sentido dos blocos de Estados assumirem feições supranacionais, como acontece com a
Comunidade Econômica Européia, hoje "União Européia";
Os Estados tentam adequar-se à nova configuração da economia
globalizada, resultante do predomínio das empresas multinacionais ou transnacionais, que
controlam parcelas decisivas da economia mundial;
A desregulamentação modificou os mercados financeiros: ampliou a
livre circulação de capitais, acelerou a concentração e centralização de empresas e
também a expansão das atividades especulativas, monetárias e financeiras
internacionais;
A desregulamentação do mercado de trabalho, provocou uma regressão
social generalizada. Em nome da competitividade da economia nacional, que exige a
redução do custo do trabalho, foram introduzidas regras que facilitam as demissões e
precarizam o vínculo empregatício de uma parcela crescente de trabalhadores. Assim, a
"redução do Estado" significará para os trabalhadores a perda dos direitos
sociais e trabalhistas, e uma situação geral de forte desemprego e trabalho
"informal".
A ideologia neoliberal pretende preencher o vazio de idéias produzidas
pela crise das alternativas socialistas e também pelo desgaste da ilusão consumista
ligada ao "american way of life".
Na economia internacional, o neoliberalismo aparece como a única
saída para a crise do sistema monetário internacional, em especial para a crise do
dólar e para a complicada construção do sistema monetário europeu. Este fato
propiciou a formação de blocos ou conglomerados de capitais "especulativos"
(empresas e bancos multinacionais, cuja atividade e poder são basicamente
financeiro-especulativos) que fogem ao controle das políticas monetárias dos governos
(inclusive do G-7).
Contudo, o setor que apresenta a maior coerência entre a doutrina e a
prática neoliberal é o setor financeiro. Neste foram desregulamentados os grandes
mercados de capitais que se integraram formando um sistema mundial único, com taxas
liberalizadas e livre trânsito e conversibilidade de moeda-capital.
O G-7 grupo dos sete países mais ricos encabeçados
pelos EE.UU., exerce uma influência decisiva na economia mundial, através da
coordenação das suas políticas econômicas e das instituições financeiras e
comerciais internacionais comandadas por eles (FMI, Banco Mundial, Organização Mundial
do Comércio). Com essa concentração do poder econômico, o neoliberalismo atinge um
resultado paradoxal. Os governos dos países mais ricos, campeões do liberalismo,
estabelecem organismos oficiais de coordenação das suas políticas econômicas e de
comando capitalista do mundo, o que equivale a atribuir novas funções econômicas
supranacionais aos Estados do G-7, contrariando assim, a cartilha liberal que diz que
o Estado deve se afastar da economia para deixar espaço à "virtuosa"
regulação espontânea dos mercados. Como a realidade é mais forte que todos os mitos
ideológicos, resulta que a oligopolização privada da economia mundial exige uma
centralização do seu comando político globalizado, é disto que se encarrega o G-7,
através dos organismos citados acima.
Nada melhor neste momento, é medir a virtualidade do neoliberalismo do
que comparar os seus principais postulados teóricos com os resultados da sua aplicação:
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A redução dos impostos, um dos postulados essenciais do neoliberalismo e principal
promessa eleitoral de todos os governos neoliberais, resultou num mito. Está
provado que nenhum governo conseguiu reduzir a carga fiscal (soma de impostos e
contribuições sociais em relação ao PIB). Nos EE.UU. a redução da carga fiscal só
favoreceu aos mais ricos. Na Inglaterra a carga fiscal aumentou 4% durante governo
Tatcher. Todos os governos aumentaram os impostos indiretos. Nos países da OCDE, a carga
fiscal aumentou de 35% para 37% (1987). Nos principais países, a carga fiscal aumentou
entre 1979 e 1986 nos seguintes percentuais: França de 41% para 45%, Inglaterra de 31%
para 40%, EE.UU. de 29% para 31%, Japão de 24% para 30% e somente na Alemanha se manteve
estável;
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Na realidade, a promessa de "menos Estado = menos impostos", serviu apenas
para ocultar um deslocamento da carga fiscal dos ricos para a grande massa de
consumidores, aumentando a parte dos impostos indiretos e diminuindo os impostos das
empresas. Desse modo, foram liberadas grandes somas de dinheiro canalizadas para
aplicações financeiras nos mercados liberalizados, abertos para a especulação e para o
financiamento do déficit público dos EE.UU. e de outros países.
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A promessa de redução dos gastos do governo também resultou num mito. Como foi
dito antes, o gasto público aumentou em todos os países. Para os do G-7, em particular,
o gasto público é um instrumento de modernização tecnológica e econômica, além de
instrumento de estratégia política internacional, especialmente para os EE.UU., única
superpotência militar no mundo atual.
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A ênfase neoliberal no individualismo, junto com a rejeição do social, longe de
potencializar uma individualidade livre e soberana, tem servido de camuflagem ideológica
para a destruição de solidariedades, fundadas na condição salarial (corroída
atualmente pelo processo de segmentação do mercado de trabalho e da precarização da
relação contratual) e nas diversas formas de convivência social (hoje sujeitas a
processos de mercantilização).
Toda essa mistificação é uma decorrência lógica da incoerência e
do conflito que a ideologia do neoliberalismo pretende camuflar: a
superconcentração do poder econômico, político e até cultural nas mãos de uma
parcela reduzida da sociedade e a realidade crua de um mundo cada vez mais dividido,
miserável e desigual.
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Jornais
Folha de São Paulo 03/04/1997 "Economia e Ideologia"
Folha de São Paulo 02/04/1995 "O que os países civilizados têm
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Folha de São Paulo 05/02/1996 "Neoliberalismo": revolta
contra o século 20
Gazeta Mercantil 19/08/1992