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ISSN 1678-8419                                                   Ano II n. 36 agosto de 2003

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 Pedalando e sonhando
 Adilson Luiz Gonçalves

A implantação de ciclovias é um sonho acalentado por todos os ciclistas e motoristas. Para os motoristas significaria menos sobressaltos no trânsito; para os ciclistas, mais segurança e agilidade de deslocamento, embora para alguns sua falta seja apenas uma desculpa para praticar toda a sorte de aberrações impunemente.

 

Esforços para realizar o sonho dos ciclistas estão sendo feitos, afinal ciclovias, em si, são empreendimentos de baixo custo; o problema é o custo e transtorno das adaptações viárias – sobretudo nas cidades de maior densidade demográfica - que tem que ser feitas para viabilizar sua implantação. Se um acidente for evitado e uma vida for salva, no entanto, terá valido a pena.

Enquanto o sonho não se realiza, os ciclistas continuam sonhando, e isso é um perigo, pois enquanto sua imaginação vagueia nas abstrações alguns ciclistas não vêem o sinal vermelho; nem a senhora, com uma criança no colo, ou a pessoa idosa transitando regularmente na faixa de pedestres; nem que não há espaço para uma manobra ágil e radical entre dois veículos em movimento.

Será que existem ciclovias no mundo espiritual?

Raul Seixas dizia, mais ou menos, que sonho que se sonha junto pode virar realidade. Assim, esse sonho é compartilhado por todos os ciclistas; mas alguns, enquanto pedalam nas avenidas que ainda não têm ciclovia ou ciclo-faixa, exageram um pouco, dividindo suas expectativas, distraída e lentamente, com o colega ao lado, na faixa da direita ou da esquerda; ou com outra pessoa, que não vê, mas imagina, pelo celular. Dizem que acordar pessoas abruptamente não é muito saudável; talvez por isso seja comum que muitos deles, quando despertados por um toque de buzina de alerta, reajam com um aceno de dedo médio para, logo em seguida, voltarem a sonhar.

Para um motorista, poucas dessas atitudes distraídas poderiam, em um único dia, provocar um enorme prejuízo financeiro, acidentes gravíssimos e perda de habilitação. Seria considerado um “monstro do volante”, um infrator crônico, um irresponsável ou um indivíduo socialmente perigoso podendo, até, ser preso; mas para alguns ciclistas isso é apenas uma forma de protestar contra a demora das autoridades constituídas em realizar seus sonhos ou uma irreverência. Infração de trânsito virou irreverência?

Mas esse negócio cometer infrações para protestar, como funciona? Em alguns casos é chamado de desobediência civil. Vejamos alguns exemplos: invasões dos Sem-Terra e Sem-Teto, e comércio ambulante não regulamentado. Nesses casos, onde muitas vezes estão em jogo sérios problemas sociais de um contingente humano totalmente desprezado pelo poder público, as “irreverências” são tratadas com ações de reintegração de posse, pelotão de choque, correrias, algumas “borrachadas” – ou coisa pior – e prisões, não importando se o indivíduo é plebeu ou “rainha”! No caso dos ciclistas, nada acontece. Isso talvez justifique a atitude conivente das autoridades de trânsito, afinal se os ciclistas reclamam de elas não vêem suas necessidades, é coerente que os orientadores de tráfego não os vejam também.

Isso é misturar alhos com bugalhos? Fazer o quê?

As ciclovias estão aparecendo e os sonhos estão se realizando, mas onde não há ciclovia? Continuarão sonhando ou praticando “irreverências”? É possível mesmo porquê já virou comum ver alguns ciclistas, distraídos, passando o sinal vermelho da própria ciclovia ou, fascinados, vendo a beleza de seu sonho realizado, observando-a por um ângulo melhor, enquanto pedalam fora delas.

Sonhar é bom, desde que não vire um pesadelo pessoal ou coletivo. Também não se deve confundir irreverência com irresponsabilidade.

Os motoristas e ciclistas podem, e devem, continuar a sonhar com ciclovias em todas as avenidas: o sonho tende a virar realidade; mas aos adeptos ou dependentes do pedal pede-se apenas e encarecidamente que, de vez em quando, ponham os pés no chão, ao menos antes dos cruzamentos e faixas de retenção de semáforos fechados!  



Adilson Luiz Gonçalves
Engenheiro e Professor Universitário
Santos - SP
algbr@ig.com.br

http://www.algbr.hpg.com.br




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