Esforços
para realizar o sonho dos ciclistas estão sendo feitos,
afinal ciclovias, em si, são empreendimentos de baixo custo;
o problema é o custo e transtorno das adaptações viárias
– sobretudo nas cidades de maior densidade demográfica -
que tem que ser feitas para viabilizar sua implantação. Se
um acidente for evitado e uma vida for salva, no entanto, terá
valido a pena.
Enquanto
o sonho não se realiza, os ciclistas continuam sonhando, e
isso é um perigo, pois enquanto sua imaginação vagueia nas
abstrações alguns ciclistas não vêem o sinal vermelho; nem
a senhora, com uma criança no colo, ou a pessoa idosa
transitando regularmente na faixa de pedestres; nem que não há
espaço para uma manobra ágil e radical entre dois veículos
em movimento.
Será que existem ciclovias no mundo espiritual?
Raul
Seixas dizia, mais ou menos, que sonho que se sonha junto pode
virar realidade. Assim, esse sonho é compartilhado por todos
os ciclistas; mas alguns, enquanto pedalam nas avenidas que
ainda não têm ciclovia ou ciclo-faixa, exageram um pouco,
dividindo suas expectativas, distraída e lentamente, com o
colega ao lado, na faixa da direita ou da esquerda; ou com
outra pessoa, que não vê, mas imagina, pelo celular. Dizem
que acordar pessoas abruptamente não é muito saudável;
talvez por isso seja comum que muitos deles, quando
despertados por um toque de buzina de alerta, reajam com um
aceno de dedo médio para, logo em seguida, voltarem a sonhar.
Para
um motorista, poucas dessas atitudes distraídas poderiam, em
um único dia, provocar um enorme prejuízo financeiro,
acidentes gravíssimos e perda de habilitação. Seria
considerado um “monstro do volante”, um infrator crônico,
um irresponsável ou um indivíduo socialmente perigoso
podendo, até, ser preso; mas para alguns ciclistas isso é
apenas uma forma de protestar contra a demora das autoridades
constituídas em realizar seus sonhos ou uma irreverência.
Infração de trânsito virou irreverência?
Mas
esse negócio cometer infrações para protestar, como
funciona? Em alguns casos é chamado de desobediência civil.
Vejamos alguns exemplos: invasões dos Sem-Terra e Sem-Teto, e
comércio ambulante não regulamentado. Nesses casos, onde
muitas vezes estão em jogo sérios problemas sociais de um
contingente humano totalmente desprezado pelo poder público,
as “irreverências” são tratadas com ações de reintegração
de posse, pelotão de choque, correrias, algumas
“borrachadas” – ou coisa pior – e prisões, não
importando se o indivíduo é plebeu ou “rainha”! No caso
dos ciclistas, nada acontece. Isso talvez justifique a atitude
conivente das autoridades de trânsito, afinal se os ciclistas
reclamam de elas não vêem suas necessidades, é coerente que
os orientadores de tráfego não os vejam também.
Isso
é misturar alhos com bugalhos? Fazer o quê?