ISSN 1678-8419                                                                            Ano III n.36 agosto de 2003

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Minhas primeiras leituras
por Vera Lúcia Teixeira
 

Jamais esqueci, nos idos de minha infância, quando havia uma certa intimidade com as letras, já que desde  que coloquei os pés dentro de uma escola senti que havia descoberto um mundo mágico que se descortinava para a minha realidade, onde tudo me atraía: o ambiente, os colegas, a professora, o caminho de ida e volta ä escola, o uniforme, a mochila e os objetos dentro dela.

Ah! que poder tinham aqueles instrumentos, caderno, lápis, caneta, lápis de cor, estojo,  a mexerem com minha imaginação e transportar-me ä um estado de glória.

Tudo era excitante, desde os primeiros ensinamentos, as primeiras letras do alfabeto que depois se juntavam formando o meu nome, palavras e frases e o mundo aos poucos se descortinando no ritmo  da cartilha Caminho Suave, e também os desenhos, as estórias, as lições de casa, o recreio e a merenda, estagnou-se em minha memória o sabor daquele pão com pasta de amendoim, que serviam nos primeiros anos do primário.

Esse sabor ficou cativo de um tempo que se eternizou em minhas lembranças, como tantos cheiros e sabores que fazem parte da infância e se negam  a serem iguais depois que a gente cresce e perde o toque mágico das coisas que nos rodeiam.

Nessa época de paixão minha com o mundo  surpreendente das letras , não posso deixar de usar como referência ao meu verdadeiro e definitivo pacto pessoal de entrada nesse universo através do meu primeiro livro de estória que ganhei num de meus aniversários antes dos 10 anos de uma irmã mais velha.

Era a estória de João e o pé de feijão e aquele livro me deixou enamorada de maneira tão profunda que ficou marcado no meu íntimo como um dos momentos mais doces de minha infância e muito importante, pois foi um marco que me tirou do simples conceito de leitura(no sentido do trivial), e me colocou no rol dos leitores inveterados por toda a minha vida.

As letras desse livro, as gravuras, a capa, calaram tão fundo em mim, despertando um interesse sem igual  no meu imaginário, que a partir daí comecei a ler tudo o que havia de disponível, todos os gibis foram devorados e conhecia os personagens mais diversos das historias em quadrinhos.

Depois os best-sellers, as revistas e todos os tipos de leitura conforme ia crescendo e fincando os meus interesses.

Graças talvez ä esse livro e o  fascínio despertado pelas letras transformei-me numa pessoa adulta com uma porcentagem imensa da inventividade, criatividade e curiosidade que é tão comum quando somos crianças, marca de um tempo em que ainda não fomos afetados pelas  diretrizes rígidas da vida.

E por isso continuo na vida com postura de pesquisadora, buscando sempre algo novo para conhecer, aprender através dessa comunicação bárbara que é a leitura, reunindo informações para o  deleite  do meu cérebro e isso tem sido de grande valia tanto para o meu  intelecto quanto para o espírito.

Procuro manter na mulher adulta toda a magia dos sonhos de infância e me coloco diante do mundo como alguém que está sempre em busca de aprender um pouco mais, pois o cerne que me molda e me conquista é a sede de conhecimento e a superação dos meus limites no que diz respeito a aprendizagem e a relação desta com o desabrochar das minhas capacidades intuitivas e inovadoras.

Felizmente, esse gosto pelas descobertas ( de um mundo admirável que se encontra guardado num livro), alavancou tanto a minha entrada  facilitada no campo das letras, quanto das artes e fecundou minha sensibilidade, me levando ao mesmo tempo a estar num estado quase que anímico toda vez que , envolvida estou com alguma leitura e ou escrita, e nesse embalo solto o meu pensamento ä vaguear sem freio e a se transportar entre o real e o imaginário, atravessando todas as pontes presentes e transformando tudo o que toca, absorvendo os segredos e mistérios, me fazendo lúcida e louca, com alma de poeta, com sonhos de criança, com fúria de estudante e com ideais de pedagoga, nem tanto pela profissão, mas pelos encantos que me envolvem inteira e me enchem de facúndia me fazendo beber tudo, até a última gota.

Vera Lúcia Teixeira

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