|
Jamais
esqueci, nos idos de minha infância, quando havia uma certa
intimidade com as letras, já que desde que coloquei os
pés dentro de uma escola senti que havia descoberto um mundo
mágico que se descortinava para a minha realidade, onde tudo
me atraía: o ambiente, os colegas, a professora, o caminho de
ida e volta ä escola, o uniforme, a mochila e os objetos
dentro dela.
Ah! que poder tinham aqueles
instrumentos, caderno, lápis, caneta, lápis de cor,
estojo, a mexerem com minha imaginação e
transportar-me ä um estado de glória.
Tudo era excitante, desde os
primeiros ensinamentos, as primeiras letras do alfabeto que
depois se juntavam formando o meu nome, palavras e frases e o
mundo aos poucos se descortinando no ritmo da cartilha
Caminho Suave, e também os desenhos, as estórias, as
lições de casa, o recreio e a merenda, estagnou-se em minha
memória o sabor daquele pão com pasta de amendoim, que
serviam nos primeiros anos do primário.
Esse sabor ficou cativo de um
tempo que se eternizou em minhas lembranças, como tantos
cheiros e sabores que fazem parte da infância e se
negam a serem iguais depois que a gente cresce e perde o
toque mágico das coisas que nos rodeiam.
Nessa época de paixão minha
com o mundo surpreendente das letras , não posso deixar
de usar como referência ao meu verdadeiro e definitivo pacto
pessoal de entrada nesse universo através do meu primeiro
livro de estória que ganhei num de meus aniversários antes
dos 10 anos de uma irmã mais velha.
Era a estória de João e o
pé de feijão e aquele livro me deixou enamorada de maneira
tão profunda que ficou marcado no meu íntimo como um dos
momentos mais doces de minha infância e muito importante,
pois foi um marco que me tirou do simples conceito de
leitura(no sentido do trivial), e me colocou no rol dos
leitores inveterados por toda a minha vida.
As letras desse livro, as
gravuras, a capa, calaram tão fundo em mim, despertando um
interesse sem igual no meu imaginário, que a partir
daí comecei a ler tudo o que havia de disponível, todos os
gibis foram devorados e conhecia os personagens mais diversos
das historias em quadrinhos.
Depois os best-sellers, as
revistas e todos os tipos de leitura conforme ia crescendo e
fincando os meus interesses.
Graças talvez ä esse livro
e o fascínio despertado pelas letras transformei-me
numa pessoa adulta com uma porcentagem imensa da
inventividade, criatividade e curiosidade que é tão comum
quando somos crianças, marca de um tempo em que ainda não
fomos afetados pelas diretrizes rígidas da vida.
E por isso continuo na vida
com postura de pesquisadora, buscando sempre algo novo para
conhecer, aprender através dessa comunicação bárbara que
é a leitura, reunindo informações para o
deleite do meu cérebro e isso tem sido de grande valia
tanto para o meu intelecto quanto para o espírito.
Procuro manter na mulher
adulta toda a magia dos sonhos de infância e me coloco diante
do mundo como alguém que está sempre em busca de aprender um
pouco mais, pois o cerne que me molda e me conquista é a sede
de conhecimento e a superação dos meus limites no que diz
respeito a aprendizagem e a relação desta com o desabrochar
das minhas capacidades intuitivas e inovadoras.
Felizmente, esse gosto pelas
descobertas ( de um mundo admirável que se encontra guardado
num livro), alavancou tanto a minha entrada facilitada
no campo das letras, quanto das artes e fecundou minha
sensibilidade, me levando ao mesmo tempo a estar num estado
quase que anímico toda vez que , envolvida estou com alguma
leitura e ou escrita, e nesse embalo solto o meu pensamento ä
vaguear sem freio e a se transportar entre o real e o
imaginário, atravessando todas as pontes presentes e
transformando tudo o que toca, absorvendo os segredos e
mistérios, me fazendo lúcida e louca, com alma de poeta, com
sonhos de criança, com fúria de estudante e com ideais de
pedagoga, nem tanto pela profissão, mas pelos encantos que me
envolvem inteira e me enchem de facúndia me fazendo beber
tudo, até a última gota.
Vera Lúcia Teixeira
|