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Os
tempos mudaram: não há mais guerra
fria e os inimigos da Rússia
encontram-se hoje mais no front interno
do que no externo. A economia não flui
e até mesmo a emissão de poluentes,
uma característica típica de
sociedades industriais, caiu a níveis
bem inferiores aos constatados em 1990,
ano escolhido pela ONU como referência
para monitorar as mudanças climáticas.
Hoje os russos querem ser aliados dos
Estados Unidos e fazem de tudo para não
desagradá-los. O resultado é o boicote
ao Protocolo de Kyoto, para decepção
dos ecologistas e de todos quantos temem
pela sorte da própria humanidade face
ao aquecimento global provocado por
níveis insustentáveis de emissão de
dióxido de carbono(CO2) e de outros
gases de efeito estufa.
No momento 111 países ratificaram o
Protocolo de Kyoto, atingindo o limite
de 44,2% das emissões de CO2 dos
países industrializados. Não é o
suficiente: para entrar em vigência, é
preciso que o patamar de 55%seja
alcançado. Os EUA, responsáveis por
36,1% do efeito poluidor, declararam que
não ratificarão o acordo. O plano
alternativo apresentado pela
administração Bush não estabelece
cotas de redução e coloca a decisão
como uma opção livre para quem polui.
Analistas afirmam que ao invés de
reduzir os níveis de lançamento de
dióxido de carbono, este plano
resultará no seu aumento, como vem
ocorrendo nos últimos anos, fruto da
expansão econômica norte-americana. Do
pequeno grupo de países que continua
negando a ratificação - Ucrânia,
Quirguistão, Croácia, Israel,
Indonésia, Egito, Austrália e Rússia
-, apenas esta última tem relevância.
Na prática a vida ou a morte do
Protocolo está nas mãos dos russos,
que respondem por 17,4% do total de
emissões de CO2 para a atmosfera (a
Austrália emite 2,1%).
O presidente Vladimir Putin e o 1º
Ministro Mikhail Kasnayov declararam, em
setembro do ano passado em Johanesburgo,
durante a Rio +10, que o país estava
para assinar o protocolo, fazendo com
que um sorriso se abrisse no rosto de
europeus e de todos os que apóiam o
controle dos gases. Mas, depois, nada
aconteceu e a possibilidade de que a
Rússia o faça parece cada vez mais
longínqua. Com um cinismo assustador o
Ministro do Desenvolvimento Econômico e
Comércio Mukhamed Tsikanov comentou:
"não temos mais o estímulo
econômico. Moscou esperava obter
bilhões de dólares vendendo
"direitos de poluir" pelo
mecanismo de comercialização de quotas
estabelecido pelo Protocolo, mas desde
que os EUA, o maior comprador potencial,
se foi, perdemos nosso mercado".
Por seu turno Alexander Bedritsky, chefe
do Centro de Hidrometereologia russo,
embora confirmando que o governo não
encontrou no protocolo qualquer
restrição às atividades industriais
internas, declarou não estar seguro se
algum dia a Rússia ratificará Kyoto,
completando com desastradas
declarações que poderiam ter sido
dadas por um executivo
norte-americano:"para o clima não
importa que plano usaremos para reduzir
emissões, pois ele é afetado pelo
lançamento de CO2 na atmosfera e não
pela assinatura de documentos, não
importa o quão importante sejam".
A União Européia tem procurado
pressionar. Em março enviou a Moscou
nada menos que a Comissária de Meio
Ambiente, a sueca Margot Wallström,
junto com os ministros do meio ambiente
da Grécia e da Itália. Uma vez lá
chegando, colocaram as cartas na mesa:
"o Protocolo de Kyoto é bom para a
Rússia e, mais do que isto, é bom para
o mundo. Ratificando-o, atravessará a
fina linha que a separa dos aplausos da
humanidade, além de criar um importante
canal de cooperação tecnológica,
obtendo vantagens econômicas pela venda
de certificados de emissão." Na
prática, contudo, os interesses são,
digamos, mais realistas. Na última
semana de junho pela primeira vez nos
últimos 125 anos um chefe de estado
russo visitou a Inglaterra. Putin ouviu,
pela manhã, a referência explícita de
Tony Blair à necessidade de firmar o
compromisso de Kyoto mas, à tarde,
negociou a venda de metade dos direitos
da 4a. maior empresa petrolífera russa,
a Tyumen ou TNK, para a British
Petroleum, o que coloca o Rein!
o Unido na condição de maior
investidor estrangeiro no seu país e
permite à BP ultrapassar competidores
tradicionais como a Texaco, a Elf e a
Shell/Royal Dutch. Agora, perde apenas,
em termos de capacidade de produção,
para a poderosa Exxon que é
norte-americana e para quatro gigantes
do ramo: a Saudi Aramco da Arábia
Saudita, a iraniana NIOC, a PEMEX
mexicana e a PDV da Venezuela. O acordo
é considerado um desastre a mais para o
meio ambiente e o porta-voz da ONG
Amigos da Terra, Bryony Worthington,
enfrentou Tony Blair ao afirmar que
"sem Kyoto em ação não deveria
haver negócio entre o Reino Unido e a
Rússia". No dia seguinte Putin e
sua esposa saíram em um tour pela
Escócia e jantaram com a rainha
Elizabeth II. A aliança BP&TNK
segue em frente, de vento em popa.
A Agência Internacional de Energia em
suas Perspectivas 2002 para a Energia
Mundial estima que, na base do ritmo
atual de expansão das emissões de CO2
que é de 1,8% ao ano, até 2012 teremos
70% a mais e não 5,2% a menos como
prevê o texto de Kyoto. O globo cada
vez mais ficará na dependência de
poucos produtores de combustíveis
fósseis, vários deles situados em
áreas de instabilidade política
(Oriente Médio).
Elogia o esforço da China que só no
período 1997-2001 reduziu em 17%suas
emissões de dióxido de carbono (corte
de subsídios e fechamento de 25 mil
minas de carvão) ao tempo em que sua
economia cresceu em 36%, fatos que
desmentem a costumeira relação de
causa e efeito entre expansão
econômica e efeito poluidor e também
as acusações dos EUA que lançador de
gases CO2 na atmosfera.
Existem alternativas para o boicote? Uma
das vozes mais ouvidas neste campo é a
de David Victor, autor do livro
"Colapso do Protocolo de Kyoto"
(Princeton University Press), que
apresenta três caminhos: remover das
metas países não interessados em
controlar o carbono, como Rússia e
Ucrânia, estabelecendo compromissos só
para os demais; estabelecer multas para
emissão adicional de CO2 ao invés de
prêmios como no atual modelo; focar na
emissão de CO2 de combustíveis
fósseis, o que é mais fácil de
monitorar e ataca a causa principal do
problema, deixando de lado o metano e
outros gases. Ainda que tais reformas
sejam nada mais que tentativas de manter
a base de Kyoto respirando, podem
significar a diferença para o sucesso
futuro dos esforços de contenção dos
efeitos danosos dos gases de efeito
estufa. Afinal, administrações como as
de Putin e de Bush não devem durar a
vida toda. |