Observação
Recentemente tive a oportunidade de
observar com mais atenção, aliás bem proximamente, um
casal de velhinhos. Estávamos na praça de alimentação
de um shopping, no sábado, hora do almoço. Mesas
ocupadas, tive como opção sentar-me ao lado da
velhinha estando o velhinho à sua frente. Foi uma
experiência bastante interessante. Olhar, simplesmente
olhar. Mas olhar não apenas com a visão; com
sentimento e com o coração.
Preparo
Não estamos muito acostumados a
olhar nossos idosos com cuidado e paciência; olhamos
com pressa, com o olhar de nossa vida economicamente
ativa. O casal acabara de sentar para iniciar sua
refeição. Em silêncio e com um jeito impecavelmente
satisfeito de estar "com meu companheiro/a",
arrumaram-se nas cadeiras para iniciar aquele saboroso
banquete.
Silêncio
Estranhei um pouco o silêncio.
Depois pensei que quando se fica velhinho o silêncio
seja um modo muito precioso de expressão – e com a
palavra velhinho quero expressar um sentimento de muito
respeito e admiração para alguém que percorreu um
caminho muito mais longo que o meu; vendo, vivendo e
experimentando; tendo muito mais que eu para contar;
acho que isso é sabedoria.
Quase Voracidade
Lembro-se de uma expressão de meu
pai, certa vez, observando a intensidade da fome de
minha avó com mais de noventa anos: "Mas que
apetite!" Ora os velhinhos não têm fome? Fome de
alimento? Fome física? Fome de sexo? Fome de amor?
Olhei com prazer, o prazer com que comiam, com que
saboreavam e se deliciavam com o alimento. Com cuidado,
atenção, satisfação. De um jeito quase ritual, não
só pela satisfação física e gustativa do almoçar,
mas pela situação, pela oportunidade de "estar
com meu companheiro/a, aqui neste shopping, no sábado".
Silêncio quebrado
Como por uma imperiosa necessidade
– pois o silêncio e a continuidade do banquete era
algo absolutamente sem necessidade que tivesse seu ritmo
alterado – surge uma palavra. "Esta rabada
está uma delícia!" Com um gesto de
assentimento com a cabeça e um discreto "hum,
hum", a companheira confirma a percepção,
comentando algo em seguida de um assunto diferente,
aproveitando uma brecha do ritmo empolgado com que
desfrutavam aquele momento. Mas por curto tempo. A
conversa, a palavra, naquele momento, não era
importante. Parecia muito mais importante seguir a enorme
satisfação de saciar a fome, de se alimentar, não
apenas da "deliciosa rabada", mas do
olhar, da presença e companhia "do meu
campanheiro/a".
Depois do almoço
Pois a necessidade de alimentar-se
não apenas fisicamente estava presente e claramente
manifesta na serenidade com que os velhinhos viviam
aquela oportunidade. O que fariam depois do almoço?
Visitar os netos? Ir ao cinema? Ir ao Sesc? Planejar
algum projeto especial? Olhar os velhinhos nos ajuda a
olhar para nós mesmos. É uma experiência importante
pois esquecemos que não paramos nunca para nos
desenvolver. Penso que o desenvolvimento na velhice é
tremendamente intenso, especialmente como sabedoria,
onde e quando a razão e o sentimento parecem fundir-se
pois é isso que vemos na simplicidade e leveza dos
velhinhos.