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ISSN 1678-8419                                                   Ano III n. 36 agosto de 2003

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 Os velhinhos
 Paulo de Abreu Lima

Observação

Recentemente tive a oportunidade de observar com mais atenção, aliás bem proximamente, um casal de velhinhos. Estávamos na praça de alimentação de um shopping, no sábado, hora do almoço. Mesas ocupadas, tive como opção sentar-me ao lado da velhinha estando o velhinho à sua frente. Foi uma experiência bastante interessante. Olhar, simplesmente olhar. Mas olhar não apenas com a visão; com sentimento e com o coração.

Preparo

Não estamos muito acostumados a olhar nossos idosos com cuidado e paciência; olhamos com pressa, com o olhar de nossa vida economicamente ativa. O casal acabara de sentar para iniciar sua refeição. Em silêncio e com um jeito impecavelmente satisfeito de estar "com meu companheiro/a", arrumaram-se nas cadeiras para iniciar aquele saboroso banquete.

Silêncio

Estranhei um pouco o silêncio. Depois pensei que quando se fica velhinho o silêncio seja um modo muito precioso de expressão – e com a palavra velhinho quero expressar um sentimento de muito respeito e admiração para alguém que percorreu um caminho muito mais longo que o meu; vendo, vivendo e experimentando; tendo muito mais que eu para contar; acho que isso é sabedoria.

Quase Voracidade

Lembro-se de uma expressão de meu pai, certa vez, observando a intensidade da fome de minha avó com mais de noventa anos: "Mas que apetite!" Ora os velhinhos não têm fome? Fome de alimento? Fome física? Fome de sexo? Fome de amor? Olhei com prazer, o prazer com que comiam, com que saboreavam e se deliciavam com o alimento. Com cuidado, atenção, satisfação. De um jeito quase ritual, não só pela satisfação física e gustativa do almoçar, mas pela situação, pela oportunidade de "estar com meu companheiro/a, aqui neste shopping, no sábado".

Silêncio quebrado

Como por uma imperiosa necessidade – pois o silêncio e a continuidade do banquete era algo absolutamente sem necessidade que tivesse seu ritmo alterado – surge uma palavra. "Esta rabada está uma delícia!" Com um gesto de assentimento com a cabeça e um discreto "hum, hum", a companheira confirma a percepção, comentando algo em seguida de um assunto diferente, aproveitando uma brecha do ritmo empolgado com que desfrutavam aquele momento. Mas por curto tempo. A conversa, a palavra, naquele momento, não era importante. Parecia muito mais importante seguir a enorme satisfação de saciar a fome, de se alimentar, não apenas da "deliciosa rabada", mas do olhar, da presença e companhia "do meu campanheiro/a".

Depois do almoço

Pois a necessidade de alimentar-se não apenas fisicamente estava presente e claramente manifesta na serenidade com que os velhinhos viviam aquela oportunidade. O que fariam depois do almoço? Visitar os netos? Ir ao cinema? Ir ao Sesc? Planejar algum projeto especial? Olhar os velhinhos nos ajuda a olhar para nós mesmos. É uma experiência importante pois esquecemos que não paramos nunca para nos desenvolver. Penso que o desenvolvimento na velhice é tremendamente intenso, especialmente como sabedoria, onde e quando a razão e o sentimento parecem fundir-se pois é isso que vemos na simplicidade e leveza dos velhinhos.

Paulo de Abreu Lima
Partes / agosto-2003



Paulo de Abreu Lima  é psicólogo
paulo@partes.com.br

 




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