ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.37 setembro de 2003

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Requiem para Campos & Espaços
por Silas Corrêa Leite


In Memoriam de Haroldo Eurico Browne de Campos

"Está uma tristeza. Parece que acabou algo

que não sei o que é. O interesse de

Haroldo de Campos pela derrota da

segunda lei da termodinâmica era como

uma guerrilha: um dia, guiava Dante Alighieri

para o limbo da língua portuguesa; no outro,

atacava o hebraico para roubar uma jóia da

Bíblia..."(Tom Zé)

 

 

A três dias de fazer setenta e quatro anos

Desnace em Sampa Haroldo de Campos

O poeta-crítico-pétreo-pan-Haroldo

Falta múltipla de órgãos - de soldo

 

 

(Não conheci crítico de Haroldo de Campos

Que fosse melhor do que ele em escambos

Os seus críticos brucutus eram mais hilários

Em que pese alguns vazios e ordinários)

 

 

Porque falar de Haroldo de Campos funda

Uma dicotomia sobre o que em nele abunda

Recriações que transcria e coisa-sente

Todo o fazer poético de soma em nova mente

 

Estava em Haroldo um pan-não-ser que era

Derrama de orquidários em íntima primavera

Que ele traduzia numa performance sangria

Como o que em de tudo do que toca se alumia

 

Formado em Direito pelo Largo São Francisco

Era rápido ultrapássaro e alado além de arisco

Noigandres um totalconcretismo crisantempo

Espaço curvo nasce um que foi ele sendo imenso

 

 

Desmorreu agora como se em cada tanta poesia

Calibre grosso almanaque enluado alquimia

Presença pública meio Ezra, John Cage, Octávio Paz

Todo mosaico que criou em seu ser de si Campos jaz

 

Personagem de uma novela de Borges - Umberto Eco

Cachalote com barbas de Netuno - Cortázar Júlio

Impactou imagens e palavras e fez um pandareco

Levando as línguas multidimensionais de embrulho

 

O cosmopolitismo em sua própria infinitude

Foi seu labor sintaxista metódico alaúde

Neobarroco pós-moderno seu concretismo monstro

Aboliu os versos para ser tantras nosotros

 

 

Valores gráficos e fônicos nas imagens relacionais

Pregou a eliminação dos laços lógicos-sequenciais

Num jogo de dados em que foi Joyce e gerou Xisto

Meio Mallarmé e tudo muito mais que in-previsto

 

 

 

Intelectual de ofício e operário das pás lavras

Carajá de eldorados transcriou Homero e Dante

Possesso se fez em planos-pilotos com rompante

De ser ele mesmo sendo muito além das clavas

 

 

Galáxias e epifanias pós-utópicas consumou-se

Na intertextualidade de ser poeta sem cabresto

E à deriva em alma nau reverberou o de-quê

Butim essência do que eternizou-se em arresto

 

Teórico, experimentador, mó, salubre porto, lagar

Insightas foi Maiakóvski nas domésticas ibéricas

Workaholic pensou adjetivos além de táxi lunar

Questionário e renúncia de multimídias coléricas

 

 

Apaixonado pelo confeito de palavrear as odes

Múltiplas facetas explicando a língua pra língua

Dialética pluridimensional de berros e bodes

Divergiu esmiuçou a miopia oficial à míngua

 

Atacou brumas sazonais tempestades em copos de egos

Rara envergadura dionisíaca meio oiticica entre cegos

Deixou o arquipélago Gullar ser menor sendo contrário

Mas serviu de palco-travessia para escadas do ser vário

 

O signo ficante dele ainda oxigena ensaios e vertentes

O contexto de antes dele inventar o inexistente

Nesse finismundo com seus anormais sentidos

Xadrez godê de porta-lapsos em pães dormidos

 

 

A sua metalinguagem foi a sua vida inteiriça

Amarrando caibros de palavras em caixilhos de outras liças

Meio morfologia macunaímica foi também tupi-davídico

Banto pedro malazarte em andaimes e ofícios

 

 

As palavras têm ofídios diria ele todo operando o textual

Nas rupturas da água ser vinho e açúcar ser sal

Ideograma exato de um ser que foi humanus e ente

Arco-íris branco de seu prisma prumo sempre

 

 

Em pedra e luz e chão e jades agoras cinzas é

Um novo O Que Fez numa lira de poetna-capilé

Deixou seu legado e todos os nomes dos navios

Avante crusoés que seus poemas são vaus em rios

 

Pois morto Haroldo de Campos descansa sua sina

Água, terra e ar no Cemitério da Vila Alpina

De Sampa que foi mago - em desvairada paulicéia

Pois a sua causa mortis não foi por falta de idéia

 

.....................................................

 

Não conheci nenhum crítico de Haroldo de Campos

Que foi melhor do que ele em estilo, criames e trampos!

 

Silas Corrêa Leite - de Itararé-SP, Poeta, Jornalista, Educador, autor de Trilhas & Iluminuras, Poemas, Editora Grafite-RS

Pós-graduado em Educação, Literatura e Comunicação (ECA/USP)

 

(Poema-Homenagem)

Canto da Série "Sampa Geração 450" - 2003/2004 (Inédito)

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Por um ensino não-discriminatório
por Sandra Kezen
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