ISSN 1678-8419                                                                                                                   Ano III n.37 setembro de 2003

  Principal
 Agenda
 Comportamento
 Cotidiano
 Cultura
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Esportes
 Humor
 Links
 Nossa Língua
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Crônicas
 Política
 Reflexão
 Serviços
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Expediente
 Fale Conosco
   Especiais
 SP 450 anos
 Gilberto Freyre
 Igrejas
 Meio Ambiente
 Assédio Moral

::Educação::

Por um ensino não-discriminatório
por Sandra Kezen

Norma culta?
Na medida em que privilegiamos a diversidade e a alteridade estaremos dando um passo adiante e além do preconceito lingüístico, e lutando contra as políticas de fechamento existentes em nosso país.

É preciso repensar o ensino de português no Brasil. Nas escolas obviamente se enaltece o ensino da norma culta por se achar que ela é a única representação correta de uma língua. Ora, sabemos atualmente que o conceito de « certo » e « errado » em língua não é mais que meramente uma questão social. Demonstramos nosso preconceito lingüístico ao dizermos que em tal lugar se fala « melhor » que em outro. No fundo, estamos expressando um preconceito social e discriminando aqueles que não falam a língua culta por considerá-los pessoas ignorantes, provenientes de classes subalternas, que provavelmente jamais aprenderão a falar e escrever « corretamente ».

Pensamos sempre que o « diferente » é pior. A verdade é que o modo de falar revela a origem das pessoas. Costumeiramente rejeitamos um falante da modalidade não-padrão porque o associamos à sua origem, e não porque fala de maneira diferente. E falar de maneira diferente não significa não ser capaz de aprender a modalidade culta. Todos nós usamos diferentes níveis de linguagem o tempo todo, de acordo com a situação em que usamos a língua e/ou para nos adequarmos a nossos interlocutores.

O fato é que a língua culta, o português padrão é uma abstração. O nosso português, a língua que verdadeiramente falamos não está nas gramáticas, está na boca do povo. Por que aqueles que falam a língua padrão seriam melhores? Apenas por pertencerem à elite ou por possuírem uma educação formal?

Já é hora de a escola ensinar a norma culta, sim, mas como uma opção a mais, e não como a única opção lingüística, respeitando os falares de todos nós, falantes nativos do português brasileiro.

A língua como patrimônio cultural

A língua escrita e falada de um povo é possivelmente seu mais importante atributo cultural. A política, instrumento das classes mais poderosas, tem sido utilizada sistematicamente para dominar o povo. A política lingüística, da mesma forma que outras políticas, tem sido usada como instrumento de dominação e fragmentação dentro de uma estrutura política dominante. Assim, utilizando a língua portuguesa como instrumento de dominação, não é de surpreender que os falares de diferentes regiões tivessem sido ignorados, quando não hostilizados pela políticas cultural e educacional. Ou seja , as modalidades não-padrão foram não só ignoradas e ainda rejeitadas, em nome de uma única « língua nacional », como também pouco (ou, às vezes, nenhum) esforço foi feito para preservar e desenvolver as riquíssimas potencialidades da tradição oral, que deve ser encarada como o pilar de toda a memória de um povo, que precisa ser resgatada como base importante no aprendizado da língua portuguesa.

A maioria das pessoas, incluindo professores, dificilmente consideram um problema a política lingüística seguida pelo país. Elas alegam com toda a certeza que todos os alunos devem aprender somente a língua culta como uma necessidade absolutamente urgente. É difícil convencê-las de que outra perspectiva pode ser mais eficaz, pois elas realmente acreditam que a única maneira de resgatar as crianças das classes mais populares é dar-lhes uma chance de se nivelarem com as das classes mais ricas através do aprendizado da língua culta.

O problema é que esta perspectiva pressupõe um contexto de dominação que conseguiu um certo êxito com pessoas provenientes das classes mais abastadas, pois elas não tiveram que sacrificar suas identidades lingüísticas. Já usavam a norma culta em seu dia-a-dia, em seu ambiente familiar, portanto a tarefa de sistematizá-la não foi tão difícil. Contudo, o aprendizado da norma culta não se dá da mesma forma com as classes provenientes das camadas mais populares e que usam uma língua que não corresponde à língua padrão. Crianças dessas classes encaram o português padrão como uma língua estrangeira, e, para elas, de fato, é uma língua muito diversa seus falares. Quase nunca terão sucesso, e não por culpa delas próprias : na verdade, a falha aqui é do nosso sistema educacional. É aqui que nascem, instalam-se e proliferam os preconceitos contra elas.

O destino de toda língua resulta do ambiente social e político, em particular das relações de poder, mas reflete também uma escolha consciente de seus falantes. A assimilação obrigatória de uma língua não significa que ela será de fato aprendida como se pretende. Muitas vezes se resiste a esse aprendizado.

Língua e resistência

Uma das formas de garantirmos e protegermos a identidade cultural é não falando a língua que nos é imposta. Vimos que a língua é nosso maior patrimônio : sem ela não há possibilidade de transmitirmos o saber nas diversas áreas de conhecimento.

Cada idioma reflete uma visão singular do mundo, um padrão de pensamento e de cultura. Cada língua falada no mundo constitui uma forma singular de considerar a experiência humana e o próprio mundo. Muitos idiomas desapareceram no curso da história humana. Eles não podem ser mantidos vivos artificialmente por decreto governamental. Todas as línguas são iguais no sentido de que representam uma cultura única. A diversidade lingüística é, portanto, um patrimônio precioso da humanidade; o desaparecimento de qualquer idioma implica o empobrecimento da reserva de saber e a perda de instrumentos para a comunicação intra e intercultural. O que deveríamos fazer é enaltecer a diversidade, pois na verdade as diferenças lingüísticas são enriquecedoras e são elas as responsáveis pela evolução das línguas. O mesmo acontece com os diferentes falares de nosso Brasil grande : cada maneira de falar expressa o pensar de cada região a respeito da vida e do mundo. Ao serem obrigados a falar de forma diferente as pessoas vão perdendo sua identidade, vão se igualando. E em língua, o belo é a alteridade, não a mesmice. Sábias, muitas dessas pessoas consideradas « ignorantes » recusam-se a falar de acordo com uma norma que não representa o seu universo, a sua maneira de viver. Elas resistem, pacificamente, com dignidade. Simplesmente não aderem à norma a elas imposta. São capazes de aprender, porém não querem mudar. Querem continuar a ser como são.

Letramento, poder e contexto sociocultural

A implantação de um sistema escolar que enfoca unicamente a língua culta como língua padrão em ambientes de classes mais populares cria uma situação na qual estas classes, só pelo fato de serem menos expressivas economicamente, acabam sendo designadas como inferiores. Além disso, se o sistema escolar utiliza uma língua estranha ao ambiente social, esta situação se agrava. A possibilidade de êxito ao se tentar ensinar a norma culta nestas comunidades de maneira tradicional é ilusória. Nestes casos, a norma culta traz diferentes conteúdos e conceitos, elaborados pela cultura letrada com a própria força da escrita. Deste modo, a língua de oralidade fica colocada numa situação de debilidade face às tarefas ligadas às novas condições de duas maneiras: falta o desenvolvimento produzido pela escrita, e falta a continuidade como cultura própria neste processo.

Todas as pesquisas mostram que deste modo estas pessoas não se unem política e culturalmente, não se desenvolvem economicamente, nem são escolarizadas com êxito. Continuam marginalizadas e continuam perpetuando o fracasso escolar. Há muito se sabe que o desenvolvimento econômico não significa o mesmo que modernização. Por isso não se solucionaram os problemas resultantes da criação de minorias sociais, culturais e lingüísticas e marginalizadas hoje como antes.

As diferenças, particularmente as lingüísticas, não podem ser vistas como um estigma, mas podem ao contrário, contribuir como enriquecimento desde que se trabalhe com elas em vez de se tentar erradicá-las. Que todas as sociedades sejam plurilíngüísticas. Todos os falares deverão ser iguais em valor lingüístico, pois todas as pessoas são iguais em dignidade, e, em decorrência desse fato, pedagogicamente, a opção potencialmente mais rica é aquela do entendimento desta questão que passa pela não-hierarquização da norma culta sobre a popular: todas as normas são igualmente ricas.

Na medida em que privilegiamos a diversidade e a alteridade estaremos dando um passo adiante e além do preconceito lingüístico, e lutando contra as políticas de fechamento existentes em nosso país.

Mas, como se sabe, o trabalho educativo exige uma longa paciência e a evolução é lenta: ela é, entretanto, perceptível, e, no conjunto, o intercultural traça seu caminho para uma intercompreensão entre os homens.

::educação::

sobreoautor.jpg (6467 bytes)

Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.


Pequeno curriculum
Comecei minha carreira como professora em colégios particulares, depois ingressei na rede pública. Fiz concurso para Língua Inglesa, mas como era grande a carência de professores de português, era sempre chamada para assumir esta disciplina, e trabalhei com Língua Portuguesa em todas as séries do Segundo Segmento do Ensino Fundamental assim como com Literatura Brasileira em todas as séries do Ensino Médio.

A sala de aula é meu habitat, e a partir do momento que retornei aos estudos (estou atualmente cursando Mestrado em Cognição e Linguagem como aluna ouvinte na UENF- Universidade Estadual do Norte Fluminense), decidi escrever sobre minha visão do ensino, fazendo sugestões e propondo novos rumos.
 

institucional

ajude.jpg (10331 bytes)

 

 

© copyright revista partes 2000-2003
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil